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Levon Yacubian e Agop Boyadjian foram presos juntos acusados de subversão, sofreram o mesmo processo judicial, sendo absolvidos na mesma sentença. Contudo, as semelhanças entre as duas trajetórias param por aí. Yacubian e Boyadjian tinham funções muito distintas nas entidades que participaram e receberam tratamentos bem diferentes também da Polícia Política.

Segundo levantamento feito à Polícia Marítima do Porto de Santos, Levon Yacubian chegou ao Brasil em 27 de junho de 1928 com somente dois anos de idade, a bordo do navio Valdívia, que partiu de Marselha, na França. Em seus documentos consta a naturalidade de Alepo, Síria, ainda que a nacionalidade do jornalista seja sempre anotada como “indefinida”, apesar do próprio se considerar armênio502.

Os primeiros registros que encontramos de Levon Yacubian na vida comunitária armênia de São Paulo são nas atividades da União Armênia de São Paulo. Na edição referente aos meses de abril e maio de 1946 do boletim Verelk, Yacubian, então com vinte anos, escreveu uma pequena biografia do Marechal Ivan Bagramyan, oficial do Exército Vermelho que comandou o I Exército na frente do Báltico e foi responsável pela captura de diversas cidades e territórios sob domínio nazista durante a II Guerra Mundial. Em reconhecimento aos seus feitos militares, Yacubian destaca que o oficial foi nomeado “Marechal da União

500 Pront. 46.273 – Agop Boyadjian. 501 Pront. 73.631 – Levon Yacubian. 502 Idem.

Soviética” e recebeu uma alta condecoração do “generalíssimo Stalin”, sendo eleito deputado do povo armênio para o Soviete Supremo em fevereiro de 1946503. No mesmo número, há uma nota em uma coluna denominada “Bibliografia – os grandes escritores da UASP” na qual se anuncia para breve a 30ª edição do “Jornalismo Noturno”, de autoria do “conhecido poeta Leon [sic] Yacubian”504. Ainda que não haja mais informações sobre o que seria este “Jornalismo Noturno”, tampouco algum poema que tenha tornado Yacubian “conhecido”, a informação do lançamento da 30ª edição de um empreendimento nos dá uma ideia de que o jornalista já vinha atuando nos círculos culturais da coletividade armênia de São Paulo505.

Yacubian começou a sua carreira de jornalista em São José do Rio Preto, no interior do estado de São Paulo, como revisor da “Folha de Rio Preto” por volta de seus dezoito anos de idade. Yacubian se mudou para a cidade com sua família três ou quatro anos após chegar ao Brasil e residiu por lá entre os anos de 1937-1944506. Em 1945, o jovem jornalista regressou para São Paulo, onde trabalhou na “Revista dos Tribunais”, além da “Folha da Manhã”, jornal onde foi empregado até junho de 1949, quando foi preso pela Polícia Política507. Ou seja, se as informações cedidas pelo depoente à polícia estiverem corretas, com apenas um ano de residência em São Paulo – fixada na Avenida Cruzeiro do Sul, zona norte da capital – Yacubian se integrou à coletividade armênia da cidade, associou- se à recém-fundada União Armênia de São Paulo e passou a colaborar com o boletim da entidade.

Escrevendo textos frequentemente para o Verelk, como uma resenha do livro “Os Quarenta Dias de Musa Dagh”508, em ocasião da sua publicação no Brasil509, ou o artigo “Para a Armênia”510, sobre a repatriação de conterrâneos para a Armênia Soviética – tema recorrente na UASP – Levon Yacubian tornou-se uma das figuras mais ativas da entidade, sendo inclusive eleito secretário da União durante a gestão que teve Jacob Bazarian como

503 VERELK: boletim informativo da Sociedade Cultural “União Armênia de São Paulo”. São Paulo: nº. 9-10,

abril-maio de 1946, p. 8 (AHK). Este artigo está assinado apenas com as iniciais “L. Y.”.

504 Ibid., p. 19 (AHK).

505 A única referência encontrada à poesia de Yacubian foi o parecer desfavorável do Jornal das Moças para a

publicação do soneto “Silêncio da Tarde” de autoria do armênio, considerado “bastante fraco” pelo editor do periódico em 1942. JORNAL DAS MOÇAS. Rio de Janeiro: 26 de março de 1942, p. 90 (BN).

506 Apesar de ter regressado a São Paulo em 1941 para concluir os estudos, Yacubian desistiu deste plano em

1943, voltando para o interior. Pront. 121.455 – Levon Jacobian.

507 Idem.

508 Romance escrito pelo tcheco Franz Werfel que conta a história da resistência de uma vila armênia às

investidas genocidas do governo otomano durante o Genocídio Armênio. WERFEL, Franz (1995). Os Quarenta Dias de Musa Dagh. Rio de Janeiro: Paz & Terra.

509 VERELK: boletim informativo da Sociedade Cultural “União Armênia de São Paulo”. São Paulo: nº 11,

junho de 1946, p. 11 (AHK).

vice-presidente511. Provavelmente foi nos círculos da UASP que Yacubian e o então recém- formado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, Jacob Bazarian, se conheceram e começaram a trocar ideias sobre os rumos da Armênia Soviética e da fração diaspórica no Brasil.

A amizade e a familiaridade de ideias entre os dois foram consolidadas em 1946, com a criação do jornal “Ararat – a voz do povo armênio”512, do qual Bazarian foi o principal responsável e tinha o jornalista Levon Yacubian como braço direito. Talvez influenciado por Bazarian, o jornalista também ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, onde estudou até ser preso em 1949513.

À frente das máquinas de escrever da redação do Ararat e acumulando a função com a secretaria do jornal514, Yacubian foi um jornalista audaz. Seus textos tinham por característica serem diretos nas críticas e nos diagnósticos dos problemas da Armênia e da diáspora. As análises sobre os fatos históricos da Armênia eram rigorosas nos acontecimentos, indicando um alto grau de estudo e conhecimento, ainda que a avaliação política dos acontecimentos fosse enviesada, de acordo com as suas ideias políticas.

Certamente, tais características contribuíram para Levon Yacubian chamar a atenção da Polícia Política, que o monitorava desde quando ele prestou depoimento no desenrolar da investigação de Jacob Bazarian515. Quando foi detido com Agop Boyadjian em junho de 1949, a dupla já era investigada pela polícia que provavelmente iria efetuar a prisão mais cedo ou mais tarde, se não houvesse o pretexto da retirada do material suspeito dos correios516. Os textos que Yacubian escrevia no Verelk, mas principalmente no Ararat, eram as provas necessárias para as autoridades policiais pedirem a expulsão do jornalista. Em relatório de setembro de 1949, o delegado do caso afirma em relatório que diante das evidências anexadas ao documento, não havia a necessidade de tecer maiores comentários sobre a subversão de Yacubian, pois estas já eram convincentes das atividades comunistas do acusado517.

A batida policial na casa de Yacubian reforçou o estereótipo de subversivo que a Polícia Política ajudou a criar e manter durante os anos. Embora a relação de livros enumerados pelas autoridades não haja muito de incriminador – sendo os títulos, na sua

511 Pront. 121.455 – Levon Jacobian. 512 Idem.

513 ARARAT – a voz do povo armênio. Ano IV, nº. 39-40; dezembro de 1949 a janeiro de 1950, p. 1. 514 Ibid., p. 3.

515 O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: ano XXI, nº 47, 10 de setembro de 1949, p. 6. 516 Pront. 73.631 – Levon Yacubian.

maioria, livros comuns na biblioteca de um estudante universitário, além de obras sobre a história da Armênia e da Turquia518 –, no texto da certidão da prisão de Yacubian e Boyadjian há vários livros e publicações que não constam na relação de livros anterior, mas que provariam a subversão do jornalista519. Dentre o material encontrado na residência de Yacubian, destacam-se boletins de embaixadas da URSS, títulos sobre a história soviética, a causa palestina, material crítico ao sionismo, obras de Stalin, Lênin – como “Estado e Revolução” – e Marx – “O Capital”, além do “Manifesto do Partido Comunista”, textos sobre Luis Carlos Prestes e o PCB520. As publicações eram em português, inglês, francês e espanhol, além de outros livros em “língua estrangeira”, revelando a gama de idiomas dominados pelo jornalista. Na ocasião, a revista “O Cruzeiro”, que trazia uma série de reportagens sobre “A 5ª Coluna Vermelha no Brasil”521, destacou a origem do material apreendido com o jornalista:

Levon Yacubian recebia folhetos, revistas e livros escritos em russo diretamente da União Soviética, através das embaixadas russas no México e no Uruguai. Os envelopes traziam inscrições no próprio idioma russo e carimbos da foice e martelo em relevo, além de selos com a palavra “Moscou”. Yacubian se encarregava de distribuir esse material de propaganda entre os seus amigos intelectuais. Tão ousado era Levon Yacubian na sua atividade de conspiração, que mandava endereçar a correspondência de Moscou diretamente para a “Folha da Manhã”, embora o jornal nada tivesse a ver com a atividade extremista do seu funcionário522.

Se tomarmos como base os documentos anexados ao registro policial de Levon Yacubian, a imagem que construímos do acusado é a de um indivíduo de “cultura elevada”, nas palavras da Polícia Política, cuja vasta biblioteca comunista o habilita a escrever textos de caráter subversivo e publicá-los num jornal de uma comunidade étnica radicada em São Paulo, cujo país de origem a essa altura era uma das repúblicas integrantes da URSS. Tal rótulo colaborou na construção da imagem de um criminoso de alta periculosidade para os interesses nacionais, que deveria ser preso e expulso a qualquer preço.

A estada de Yacubian na prisão desencadeou uma crise no aparelho burocrático composto pela polícia, judiciário e até mesmo o Ministério da Justiça. Presos em junho de 1949, Yacubian e Boyadjian foram mandados para a Casa de Detenção, a fim de esperarem o fim do processo de expulsão de ambos do país, que ficaria a cargo da Seção de Expulsandos523. Em setembro do mesmo ano, a expulsão do jornalista foi publicada no jornal

518 Pront. 73.631 – Levon Yacubian.

519 A exemplo do que ocorreu com Agop Boyadjian, há duas listas de objetos apreendidos, com itens diferentes

arrolados em cada uma delas.

520 Pront. 73.631 – Levon Yacubian.

521 O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: ano XXI, nº 47, 10 de setembro de 1949, p. 79. 522 Ibid., p. 6.

Diário Carioca, embora não tenha sido

executada524. No mesmo mês, o Ministério da Justiça prorrogou a prisão administrativa dos dois acusados por noventa dias. Contudo, no dia 03 de outubro, o juiz Manoel Itagiba Porto acatou o argumento da defesa dos dois armênios e os absolveu, alegando que todas as acusações não passavam de “mera presunção” da Polícia Política, baseadas no anticomunismo latente desta organização, expressado pelo advogado dos acusados. Na mesma sentença, o juiz ordenou a emissão de alvarás de soltura para os acusados525.

Entretanto, conforme vimos, a libertação da dupla não foi tão rápida quanto deveria. Boyadjian só foi solto no dia 27 de outubro, quase quatro semanas após ser absolvido526. A manutenção de Yacubian encarcerado foi ainda mais abusiva. No dia

04 de outubro, ou seja, um dia após o julgamento, a Casa de Detenção recebeu o habeas

corpus dos acusados. No mesmo dia, o diretor da instituição enviou ao delegado responsável

pelo caso um ofício perguntando se deveria liberar os dois armênios, uma vez que havia também em sua mesa a ordem de prorrogação da prisão preventiva por noventa dias, expedida pelo Ministério da Justiça527. Enquanto isso, corria em paralelo desde o início de setembro o processo de expulsão de Yacubian e Boyadjian, que não era uma medida judicial, mas administrativa, competente ao poder executivo, portanto, não anulável com a absolvição dos acusados pelo juiz528.

Começava então uma disputa entre o juiz que absolveu Yacubian e Boyadjian e o delegado do SEV, responsável pelo caso. Em 14 de outubro de 1949, 98 estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo assinam um documento exigindo do

524 DIÁRIO CARIOCA. Rio de Janeiro: Ano XXII, nº 6493, quinta-feira, 01 de setembro de 1949, p. 4 (BN). 525 Pront. 73.631 – Levon Yacubian.

526 Pront. 46.273 – Agop Boyadjian. 527 Idem.

528 ZEN, E. (2010). op. cit., p. 52.

Figura 14: Fotografia do prontuário de Levon Yacubian na DEOPS/SP utilizada pela reportagem de “O Cruzeiro”. Fonte: O CRUZEIRO. Rio de Janeiro: ano XXI, nº 47, 10 de setembro de 1949, p. 80.

secretário de segurança pública a libertação imediata do colega, em cumprimento a decisão judicial529. A DEOPS/SP classificou o abaixo-assinado como “tática comunista”, sendo a maioria dos signatários ignorantes quanto ao “cérebro que o concebeu e que sempre se oculta sob o anonimato”530, se referindo a um suposto complô conspiratório comunista que agiria em ocasiões como esta. Aproveitando o ensejo, o delegado-chefe do SEV, Antônio Ribeiro de Andrade, opinou no sentido de que a direção da Faculdade fosse avisada de tal atividade subversiva531.

O jornal Ararat – a voz do povo armênio deu ampla visibilidade ao caso em suas páginas. Na primeira página da edição de dezembro de 1949 a janeiro de 1950, há uma matéria sobre as manifestações contra a prisão de seu colaborador. Segundo o texto, no dia 13 de dezembro de 1949, os estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo fizeram uma manifestação na Rua Maria Antônia, em frente ao prédio onde Yacubian estudava, pedindo a libertação do jornalista532. Na ocasião, dezenas de estudantes paralisaram o tráfego na via colocando paralelepípedos como barreiras para os automóveis, retendo assim um grande número de pessoas que passavam pela região e informando-os sobre os motivos do protesto. Outra manifestação foi feita na Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo, com cartazes erguidos pelos estudantes que traziam dizeres contra o autoritarismo da polícia.

Outro apoio importante que Levon Yacubian recebeu foi do deputado estadual do Partido Trabalhista Brasileiro, Castro Neves. Além de declarações dadas a grande imprensa paulista sobre a ilegalidade de algumas ações da polícia, citando o caso, o político leu no plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo o manifesto intitulado “A Colônia Armênia do Brasil quer a liberdade de Levon Yacubian”, que ressaltava a longa reclusão ilegal a qual o compatriota estava submetido533.

No dia 26 de outubro, diante da pressão exercida por um setor da coletividade armênia, pelos colegas de Yacubian, que reverberou inclusive na Assembleia Legislativa, o juiz que absolveu o jornalista e Agop Boyadjian cobrou do delegado responsável explicações para a manutenção da prisão de ambos. O delegado argumentou na comunicação entre os aparelhos administrativos de segurança pública e poder judiciário que Yacubian era mantido encarcerado, pois ele estava sob regime de expulsão do Brasil, esperando apenas o traslado a ser providenciado pela Seção de Expulsandos. Todavia, o delegado frisou que Agop

529 Pront. 73.631 – Levon Yacubian. 530 Idem.

531 Idem.

532 ARARAT – a voz do povo armênio. São Paulo: ano IV, nº. 39-40; dezembro de 1949 a janeiro de 1950, p. 1

(AHK).

Boyadjian já estava em liberdade. O juiz Manoel Itagiba Porto considerou que a explicação da autoridade policial não “satisfaz por completo” o seu questionamento e pediu maiores esclarecimentos em um prazo máximo de vinte e quatro horas534.

A manutenção da prisão do jornalista e a tensão entre as autoridades policiais e o juiz que absolveu os armênios são reveladoras do autoritarismo reinante na polícia – em especial no Departamento de Ordem Polícia e Social – no estado de São Paulo mesmo em períodos democráticos, como na virada da década de 1940. Tal autoritarismo não se traduz no desacato da ordem judicial por inteiro, mas em uma seletividade do que acatar quando a determinação do juiz vai contra o que a Polícia Política acredita ser o melhor para a segurança pública. Portanto, quando as autoridades policiais decidem por liberar o sapateiro de 43 anos, de ensino básico incompleto e manter na prisão o jovem jornalista universitário, isso indica o tipo de cidadão que eles escolheram como inimigo político neste momento: aquele que ardilosamente, se infiltra nas universidades e na imprensa, para com o seu discurso subversivo moscovita, cativar as massas incultas e inocentes que estão à mercê deste tipo de criminosos.

Para não ceder à pressão do juiz e manter Yacubian preso, as autoridades policiais, na figura do delegado auxiliar Elpídio Reali, mandaram um ofício ao Delegado Especializado de Estrangeiros no dia 30 de dezembro de 1949, requisitando que fosse efetuado “com urgência” o embarque do jornalista expulso. No dia anterior, o mesmo delegado enviou ao cônsul da República do Uruguai em São Paulo um documento solicitando a este um visto de trânsito “ao cidadão armênio Levon Yacubian”, o qual “deseja ir a Montevidéu, onde há a mais próxima embaixada da URSS, a fim de receber destino conveniente”535.

O destino de Yacubian ao ser expulso do país era incerto. O prontuário do jornalista na Polícia Política informa que funcionários do Ministério de Relações Exteriores consultaram autoridades polonesas sobre a possibilidade de receberem o indivíduo expulso. Estas teriam respondido que, de acordo com a legislação da Polônia, Yacubian seria aceito em território polonês, caso este fosse cidadão soviético536. Ainda que as autoridades brasileiras tenham pedido para a polícia providenciar os documentos que provassem a nacionalidade de Yacubian a fim de enviá-lo para a Polônia, isto não foi possível uma vez que ele não tinha tal origem. A Polícia Política chegou a tal conclusão após pedir junto a Polícia Marítima de Santos a confirmação da nacionalidade do acusado, que embora tivesse nascido na Síria, se

534 Pront. 73.631 – Levon Yacubian. 535 Idem.

declarava armênio, enquanto constava nacionalidade “indeterminada” ou “apátrida” em seus documentos537.

Este cenário ilustra bem a ignorância que pairava na Polícia Política sobre a situação dos armênios. Como naquele momento a Armênia era uma República Socialista Soviética, as autoridades inferiam que todos os armênios e descendentes que estavam no Brasil eram, por consequência, cidadãos soviéticos “adeptos e admiradores de Stalin”538, ignorando assim que os imigrantes que chegaram ao Brasil saíram de cidades que pertenciam ao Império Otomano, antes da Revolução Russa ou da anexação da Armênia pela URSS. Assim sendo, no modo de pensar da Polícia Política, se Levon Yacubian era armênio e a Armênia era parte da URSS, logo, ele era comunista e cidadão soviético, de forma que a Polônia poderia recebê-lo após a expulsão do Brasil.

Conforme vimos, a União Armênia de São Paulo, da qual Yacubian participou, tinha como uma de suas razões de ser o auxílio de armênios que desejavam emigrar para a República Socialista Soviética da Armênia. O jornal Ararat, do qual o jornalista era um dos responsáveis, noticiava frequentemente este movimento de repatriação de armênios do mundo para a “Pátria-Mãe”, que, apesar de ser uma nação diferente daquela de onde eles haviam saído anos antes, ainda guardava elementos culturais em comum que permitiam que muitos – porém não todos – armênios da diáspora olhassem para a experiência da Armênia Soviética e a vissem como uma expressão pátria de seu povo.

Contudo, Yacubian e outros nutriam um sentimento diferente pela Armênia Soviética. Além de ter a República como uma referência de sua ancestralidade, o jovem jornalista era um entusiasta de seu regime político. Por conta disso, e talvez imbuído de toda a atmosfera que cercava a emigração de armênios diaspóricos, Levon Yacubian cogitou a possibilidade de ir para a RSS da Armênia e a expulsão do Brasil seria um catalisador dessa ida. Os documentos contidos em seus prontuários no Fundo DEOPS/SP do APESP nos dão indícios sobre isso. Primeiro, a solicitação de ir para a embaixada da URSS no Uruguai teria partido dele, segundo a comunicação oficial entre as autoridades paulistanas e uruguaias539, ainda que o vizinho sul-americano fosse um destino comum de expulsos políticos, segundo Erick Zen540. O Uruguai foi um dos primeiros países a reconhecer o governo da URSS como

537 Pront. 73.631 – Levon Yacubian. 538 Pront. 98.526 – Ararat.

539 Pront. 73.631 – Levon Yacubian. 540 ZEN, E. (2010). op. cit., p. 100.

legítimo – em 1926 – e a estabelecer com esse país relações comerciais e diplomáticas541, se tornando rapidamente uma referência para os comunistas de toda a América Latina.

Segundo, o próprio Yacubian declarou à Polícia Política – ainda em 1948, quando o Ararat e seus coordenadores começaram a ser investigados – que teve interesse de ir à Armênia, ainda que tal ideia não mais o seduzisse542. Evidentemente, diante do delegado que tinha conhecimento do teor dos textos do jornalista bem como do apoio à campanha de repatriação de armênios, negar veementemente que ele próprio tivesse o desejo de ir para a RSS da Armênia soaria como um cinismo pouco prudente em um depoimento à Polícia Política. Por isso, Yacubian explicitou tal vontade passada em sua fala. O terceiro e mais

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