Para Gohn (2006), o período clássico norte-americano corresponde a cinco grandes correntes: a) a primeira delas corresponde à Escola de Chicago e a alguns interacionistas simbólicos do início do século XX, principalmente Herbert Blumer (1949), que deu origem à primeira teoria sobre os movimentos sociais; b) a segunda delas desenvolveu-se ao longo dos anos 1940 e 1950, com as teorias sobre a sociedade de massas de Eric Fromm (1941), Hoffer (1951) e K. Kornhauser (1959); c) a terceira corrente predominou durante os anos 1950, tendo como representantes os trabalhos de S. Lipset (1950) e Heberle (1951), focados principalmente nas variáveis políticas como o comportamento diante do voto e do poder político dos diferentes grupos e classes sociais; d) a quarta corrente foi o resultado da combinação das teorias da Escola de Chicago com a teoria da ação social de Parsons, caracterizada pelos trabalhos de Goffman (1959), Turner e Killian (1957), N. Smelser (1962) e David Aberle (1966), que retomaram os estudos das formas elementares do comportamento coletivo e da construção de ações coletivas em grande escala; e) e, por fim, a quinta corrente, denominada organizacional- institucional, representada pelos trabalhos de Gusfield (1955) e Selzinick (1952).
Dentre estas cinco grandes correntes, apenas três delas deram origem, de acordo com Gohn (2006), a teorias específicas sobre movimentos sociais. São elas: a primeira corrente, que teve em Herbert Blumer (1949) a primeira grande teoria sobre movimentos sociais; a terceira corrente, que gerou a segunda teoria sobre movimentos sociais a partir do trabalho de Heberle (1951) e a quarta corrente, cujos trabalhos de Smelser (1962) originaram a terceira grande teoria sobre movimentos sociais.
Munck (1997) adota uma posição diferente à adotada por Gohn (2006), propondo que a perspectiva americana de movimentos sociais inicia-se com os estudos behavioristas de Mancur Olson (1965) e seu conceito de cálculo estratégico, que propunha que a ação coletiva só seria viável se houvessem incentivos adequados e se fossem tomadas medidas adequadas para evitar o free riding (atores que consomem mais recursos do que aqueles que seriam devidos). A partir desta concepção, “pode-se dizer que os movimentos sociais eram estudados
sob o ângulo da avaliação estratégica individual dos custos e benefícios envolvidos na participação.” (ZALD; McCARTHY20, 1979; OBERSCHALLl21, 1973 apud MUNCK, 1997).
Gohn (2006) entende que os estudos de Olson, Zald e McCarthy correspondem a uma segunda fase da visão americana, chamada Teoria da Mobilização de Recursos, que rejeitou a ênfase da abordagem clássica na psicologia para explicar as ações coletivas, mas manteve o entendimento de que os movimentos sociais são grupos de interesse, focando-se exclusivamente numa abordagem economicista, baseada na lógica racional e nos cálculos de custos e benefícios.
Tanto Munck (1997) quanto Gohn (2006) entendem que o rompimento com o pensamento de Mancur Olson e o início de uma nova fase no pensamento norte-americano dá-se a partir dos estudos de Tarrow22, principalmente a partir da publicação do seu livro Power in Movement, em 1994, que faz uma longa crítica aos princípios de mobilização de recursos. Outros autores, como Gamson, Tilly, McAdams, Snow e Beford, Jenkins, Gusfield, Oberschall, Della Porta e McCarthy, que haviam produzido seus trabalhos sob a Teoria da Mobilização dos Recursos, revisaram o que haviam escrito, reformulando ou ampliando seus estudos (GOHN, 2006).
Nesta nova etapa, a ênfase na mobilização dos recursos continua, mas não apenas os recursos econômicos são considerados e a lógica instrumental-racionalista não é mais o centro das análises (GOHN, 2006).
Para Tarrow23 (1994apud MUNCK 1997), a ação coletiva deveria ser analisada como uma questão de natureza “social” e não “individual” – isso porque, em seu entendimento, o problema não estava “em fazer as pessoas participarem, mas o de fazer (sic) com que pessoas já envolvidas em diversos grupos e organizações sustentem uma ação continuada visando um objetivo comum” (MUNCK, 1997, p. 3). Como exposto por Gohn (2006), Tarrow (1994) buscou entender o porquê de algumas mensagens atraírem e outras não. Neste sentido, a autora explica que as lutas existem tanto internamente, entre seus membros, quanto
20 ZALD, M.; MCCARTHY, J. (Orgs) The Dynamics of Social Movements. Cambridge: Winthorp, 1979. 21 OBERSCHALL, A. Social Conflict and Social Movements. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1973.
22 Enquanto Tarrow se auto-define como representante da convergência do pensamento das duas escolas, pensamento que é compartilhado por Gohn (2006), que aponta que ele faz “uma ponte entre a abordagem americana e européia”, Munck (1997) classifica-o como representante da visão americana, considerando que o autor não se afasta totalmente da abordagem centrada no ator, típica desta corrente.
23 TARROW, S. Power in Movement: Social Movements, Collective Action and Politics. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1994.
externamente, com outros movimentos, e não apenas por recursos, mas também por significados, portanto o apelo de certas mensagens dentro de um movimento social é dependente do resultado das diversas “lutas pelo significado” (interpretação nossa).
Tarrow (1994), como explicado por Gohn (2006), coloca ainda que os movimentos sociais são criados, principalmente, a partir de oportunidades políticas, geralmente por atores sociais carentes de recursos. São quatro os elementos básicos para a criação de um movimento social: oportunidades políticas, repertórios, redes e marcos referenciais, sendo que as oportunidades políticas são o aspecto mais importante (GOHN, 2006). Neste sentido, o poder dos movimentos sociais depende de recursos internos e externos: dependem da organização, mas também das redes sociais que dão suporte a ela e às estruturas de mobilização; dependem também da mídia para comunicar-se com os aliados e com os inimigos e para atingir um público mais amplo; para que tudo isso ocorra, porém, é preciso que uma oportunidade política abra as portas.
Os movimentos são menos produto do nível de mobilização e mais da vulnerabilidade política dos opositores, ou da receptividade das demandas no sistema político e econômico como um todo. Neste sentido, concluímos que os movimentos são como reféns do ambiente externo. Eles próprios têm pouca capacidade para a mudança e a inovação (TARROW, 1994, apud GOHN, 2006, p. 99).
Ou seja, são as mudanças que ocorrem dentro da máquina do Estado, capazes de gerar novas oportunidades políticas, as responsáveis pelo sucesso ou não dos movimentos sociais, fazendo com que os movimentos sociais possam ser “coadjuvantes” no processo de mudança, mas nunca o seu “ator principal” (GOHN, 2006).
Munck (1997) também frisa a importância das oportunidades políticas, colocando que a visão americana está centrada no papel do ator e nas relações entre os movimentos sociais e as instituições políticas (TILLY24, 1978; TARROW, 1994 apud MUNCK, 1997).
Por fim, Tarrow resume a definição de movimentos sociais no seguinte: “são desafios coletivos construídos por pessoas solidárias e com propósitos comuns, em processos de
interação que incluem as elites, os oponentes e as autoridades” (TARROW, 1994, p. 4 apud GOHN, 2006, p. 101). Para ele, “os movimentos sociais se formam quando cidadãos comuns, algumas vezes encorajados por líderes, respondem às mudanças trazidas por novas oportunidades políticas, quando contam com aliados e revelam a vulnerabilidade de seus oponentes” (TARROW, 1994, p. 18 e 23, apud GOHN, 2006, p. 101).