• No results found

Performance tests and evaluation of Ascom/trixbox

PART 1: SUMMARY OF THE PHD DISSERTATION

4.3 Prototyping and evaluation

4.3.1 Performance tests and evaluation of Ascom/trixbox

O naturalista e sócio da Academia Real de Ciências de Lisboa, José Accioli, aproveita sua memória sobre os terrenos mineiros da Comarca de Sabará para um desabafo. De volta ao Brasil, depois de se graduar na universidade de Coimbra, foi preso sob acusação de participação na Inconfidência Mineira. Ao destinar sua Memória a José Bonifácio de Andrada e Silva, expressa seu rancor com o Visconde de Barbacena, Governador e Capitão-general da Capitania de Minas Gerais (1788-1797) à época da devassa que classifica como déspota, e sua satisfação e expectativa com a função que então desempenha Andrada.

“Com que mágoa Exmo. Sr. me não recordo do infernal governo do Déspota Barbacena e com que satisfação não vejo agora a V. Ex. o primeiro filósofo do Novo Mundo a testa da direção dos negócios públicos para dar a este ramo da ciência toda atividade neste continente, onde a natureza obrou com mão liberal, prodigalizando tudo quanto há de grande, tanto no reino mineral como vegetal.” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:599)

Reclama da perseguição aos homens das ciências...

Homens inocentes nada temiam, mas porque uns diziam que sabiam fundir o ferro, outros que era da sua arte a manipulação do salitre e o fabrico da pólvora, operações das suas faculdades, foram logo suspeitos de inconfidência... (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:600)

E, depois de relatar os acontecimentos relativos a sua prisão por crime de “Lesa Majestade”, termina sua missiva a José Bonifácio pedindo desculpas por possíveis erros na memória já que havia se afastado por muitos anos das práticas de naturalista receoso de represálias.

“... temendo novas perseguições do Déspota meu denunciante, voltei para a Bahia onde residi muitos anos, não dando exercício algum a minha faculdade, e não querendo mesmo por ela ser conhecido uma vez que era crime o apelido de naturalista: por esta razão revelará a V. Ex. algumas faltas que houver na memória que espero que as desculpe, ficando V. Ex. persuadido dos bons desejos que tenho de ser útil nos restos de minha vida à minha Pátria”. (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:600)

Antes de entrar na descrição “mineralógica” propriamente dita que dá título à memória, José Accioli discorre sobre a decadência da mineração de ouro em consonância com o ideário iluminista de valorização do conhecimento científico aplicado, ou seja, a falta de racionalidade técnica na extração tinha motivado a crise do setor. Os mineradores...

“começaram a trabalhar os leitos dos rios, sem atenção ao mal que faziam, entulhando com o desmonte os mesmo rios e que fez com que se tornassem mais

dificultosos aos que lhes sucederam nos trabalhos desta natureza” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:601).

O emprego de técnicas inadequadas também tornava muitas vezes a exploração economicamente inviável

“como se vê em algumas montanhas secundárias, achando entre as camadas de xisto argiloso algumas camadas de formações quartzosas com ouro, que muitas vezes não indenizavam as despesas que se faziam por gastarem mais tempo trabalhando nas camadas inúteis e deste modo se foram arruinando, consumindo o tempo inutilmente...” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:601)

A exemplo de Vieira Couto, impossível a José Accioli, como naturalista formado em Lisboa, desconhecer as “instruções de viagem” portuguesas. Além disso, “As Breves Instruções” (1781), por terem sido impressas, foram adotadas pelo Estado que as distribuiu fazendo-as circular, inclusive no Brasil. As descrições e observações na Memória de José Accioli atendem a recomendações presentes nestes textos, como verificar o estado das minas, informar, por exemplo, se estavam sendo exploradas adequadamente, se ainda eram “úteis” ou não; descrever detalhadamente os aspectos físicos da região, com atenção especial às montanhas, local dos depósitos minerais, verificando por quais tipos de “pedra” eram formadas, aos rios, cujas areias poderiam denunciar a existência destes depósitos.

O texto de José Accioli corrobora a tese de Figueirôa (1994), que no entender da época as descobertas de ricas jazidas se davam ao acaso.

“... acontecendo porém haverem fábricas de numerosa escravatura, daqueles mineiros, a quem sucedeu por sorte trabalharem nas cabeceiras mais pingues, como Ribeirão do Carmo e outros à força do trabalho, ou por casualidade descobrirão o ouro nos montes de Vila Rica, e outros, vindo-lhes daqui o conhecimento de que nos montes havia ouro...” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:601, grifo nosso)

Fica explicitado também o caráter das descobertas quando José Accioli inicia o tema Comarca de Sabará

“onde o acaso tem mostrado as mais ricas camadas, ou porque alguma ruína40 as descobriu como nas lavras do Capitão Felix Pereira e na do Capitão Guerra, ou porque simples faiscadores virando lavrados para tirarem o ouro, que os primeiros trabalhadores deixaram por mal lavradas as pedras, havendo agora mais conhecimento a este respeito do que tinham os antigos, que só conheciam o ouro dos aluviões, sucedendo encontrar na continuação deste trabalho as formações que atravessam os álveos dos rios com ouro os seguiram na direção da sua primeira criação...” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:601/602)

Em seguida, faz uma descrição geral da Comarca de Sabará (Figura 2.4) “situada no terreno mais aurífero conhecido nas Minas” registrando a grande rede hidrográfica, com destaque para os

40

auríferos Rio das Velhas e seus afluentes da margem leste (direita), e “o grande ossamento da Serra da Piedade, que é formada em sua base por diferentes minas de ferro” que “é uma ramificação da serra principal que corre de norte a sul” como divisor geral de águas entre o Rio Doce e o São Francisco.

A partir de então as formações são descritas no sentido oeste-leste entre Sabará, passando por Caeté, e a mina de Brucutu, para norte até Itabira e para o sul, passando por Cocais, até Ouro

Figura 2.4

-

Mapa da Comarca de Sabará, levantado

por

Bernardo José da Gama (Henderson J.

A History of Brazil .. Londres, 18 2 1 , in : BN Lis boa) A Comar ca d e Sabará ocu p ava a região central da C apitani a das Minas, basica mente a s terr as da B acia d o rio São Francisco des d e a barr

a do rio das Velha

s. Fazia

divisa co

m a

Comarca do Ser

ro Frio a nordeste, com a

Comarc

a

d

o

Ouro Preto a sudeste e, a noroest

e, com

a Comar

ca de

Preto. Os rios auríferos, Velhas e Santa Bárbara, são diretrizes para busca e descrição das camadas das serras e montes que, por sua “ruína”, os “vertilizaram”.

José Accioli identificou e descreveu, nas vertentes da Serra da Piedade e dos “montes imediatos”, a alternância das camadas de xistos e de formações quartzosas, freqüentemente ferruginosas e auríferas, “ora mais, ora menos, e [às] vezes muito ricas, as quais os naturais dessa terra chamam de linha de ouro”. Reconheceu essas formações quartzosas ferruginosas como sendo a origem dos aluviões auríferos.

É a camada mais constante de que temos conhecimento na serra, vertentes ao Rio das Velhas, e que fertilizou com suas ruínas todos os córregos que dela vertem e, apesar de fazer interrupções, contudo sempre mostra o seu trilho da sua continuação de um para outro corpo...” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:604)

Identificou as diferentes formações ferríferas da região...

“A mina de ferro acidulada de cinzento de aço, a grão muito duro, compacta muito dura, de raspadura vermelha, que se acha rolada no leito do rio que banha a mesma serra; da especular micácia, de minas de ferro magnéticas, de podingston41, de minas de ferro vermelhas, ocraceas, de ematitas, etc.etc.etc.” (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:602)

Registrou a ocorrência de “riquíssimos filões de ouro nas formações a que os naturais chamam de jacotinga que não é outra coisa mais que a mesma mina de ferro especular micácia”, evidenciando a existência de outra mineralização de ouro, distinta da identificada nos veios de quartzo, e, diferente do que se esperava à época, nos montes secundários.

“Em toda a grande distância desta serra nas vertentes do rio Doce se tem encontrado nos montes secundários próximos ao rio Santa Bárbara ouro em alguns com muita conta, ouro todo diferente do que se tira na jacotinga, o qual se tem achado em formações de pedras quartzosas e areões entranhados nas camadas de xisto argiloso e muitas vezes sem continuação nas camadas”. (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:606)

Observou que as formações ferríferas se estendem para o sul desde o Morro de Gaspar Soares passando pela Serra da Piedade até “o Arraial de Antônio Pereira, nas contracostas da cidade de Mariana e Vila Rica se vê sempre, ora sobressaindo, ora mergulhando esta dita camada de ferro”. Registra a mesma camada que “dá e tem dado muito ouro no arraial de Itabira do Mato Dentro42”, na contracosta de Cocais, registra a lavra do Brucutu, e ainda sua presença em Gongo Soco (no Sinclinal de Gandarela).

41

Do inglês puddingstone, conglomerado. Nereu Boubeé (1846) define a corruptela “pudinga”: nome dado aos conglomerados de seixos arredondados e todos reunidos por um cimento ou pasta qualquer.

42

Registrou também que “esta serra, nos lugares mais assentados, é abobodeada de Podingston, a que os naturais chamam de Tapanhoacanga43”. Sua contribuição ainda se estendeu a identificação do outro conjunto de rochas principais que forma o Quadrilátero Ferrífero e aflora na região, a formação gnássica de Caeté.

... e deste arraial44 até a Vila de Caeté, na distancia de uma légua, vêem as camadas de xisto alternando ora com areões de gnaisse dissolvido [intemperizado] ora com argilas, que bem depuradas farão a louça da Índia [caolim]. Em alguns destes areões tem se achado ouro, e já dentro dos marcos da Vila alterna o xisto com repetidas camadas de gnaisse branco e gnaisse mosquiado. (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:603)

Em linhas gerais, José Accioli identificou a seqüência estratigráfica do Supergrupo Minas, originalmente “Série de Minas” por Derby (1906), presente na região. As litofácies da Formação Cauê do Grupo Itabira, da Formação Cercadinho do Grupo Piracicaba e do Grupo Sabará45 estão praticamente descritas. Também estão descritos os filitos, xistos e formações ferríferas que hoje compõe o Grupo Nova Lima do Supergrupo Rio das Velhas. Naturalmente, esta divisão das formações ferríferas em supergrupos distintos só aconteceria aproximadamente 150 anos depois, entretanto, em seu texto, José Accioli além de diferenciar as formações ferríferas por suas constituições, já reconhece não apenas que os itabiritos se assentam no xisto, como também sua formação posterior.

“A camada de gre46 que forma esta serra, que sempre é superficial, quando dura serve de leito as camadas de xisto, sobre que assentam as camadas das minas de ferro, e é um gre branco sem mancha alguma de óxido de ferro, o que prova que a criação da mina de ferro foi em época muito posterior”. (Câmara ca. 1822/3, ed.1897:606)

Como conseguiu identificar também o gnaisse de Caeté, a contribuição de José Accioli abarca as ocorrências na região das três unidades, que formam o Quadrilátero Ferrífero: os complexos gnáissicos, a base da seqüência vulcano-sedimentar do tipo cinturão de rochas verdes e a seqüência de rochas metassedimentares.

Os trabalhos de Vieira Couto, assim como o de José Accioli sobre os terrenos mineiros da Comarca de Sabará, se inserem num conjunto de Memórias cujo objetivo principal era apresentar

43

Crosta laterítica de hidróxido de ferro (limonita), com ou sem fragmentos de minério, denominada de canga. 44

“Arraial da Penha que fica a uma légua da serra” 45

Formação Sabará por Dorr, 1969, elevada a categoria de Grupo por Renger et al. (1994). 46

Do francês grès, arenito. Segundo Boubée (1846), “gres: Pedra de areia - Pedra broeira; rocha formada de areia agglutinadas ou empastadas (sic) por gluten, cimento, ou pasta qualquer, argiloso, silicoso ou calcareo. Os gres sao as vezes tao brandamente agglutinados, que estao ainda no estado de areia; mas a areia he huma rocha que representa hum gres”. Neste caso se trata do quartzito Moeda.

um diagnóstico das causas do declínio da mineração do ouro e do diamante no Brasil e propor soluções técnico-científicas que pudessem reanimá-la. Refletem exatamente a grande preocupação existente à época: a crise financeira portuguesa. São então, fruto de uma política estatal que buscava aumentar os rendimentos da Coroa através da superação dos problemas do setor mineiro existente e da expansão das possibilidades de extração das riquezas e ampliação da exploração mineral, estando entre os de interesse o ferro, a prata, o chumbo, o salitre, o cobre e a platina.

Estes textos revelam o grande conhecimento teórico destes naturalistas e uma prática científica condizente com as diretrizes internacionais à época. Por outro lado, explicitam uma característica bem particular do contexto luso-brasileiro no campo da aplicação da ciência à mineração. Como bem observou Figueirôa (1992) estudando trabalhos deste período

“... o que se enfatizava aqui era a aplicação das ciências à extração mineral, e não à pesquisa mineral. Isto é, a utilização da ciência a fim de, através de diversos processos técnico-científicos, retirar o material da crosta terrestre (extração), e não para localizar e quantificar possíveis depósitos minerais (pesquisas)”. (Figuerôa, 1992:24)

Esta concepção, ou seja, a valorização da pesquisa mineral só passaria a vigorar a partir do século XIX (Figueirôa, 1992).

_____________________________________________________________________________

CAPÍTULO 3