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In document May Britt Drugli (sider 103-135)

gáveis contributos nos domínios da ciência e da inter-

venção social, assumindo a pertença ao grupo alargado

que teve o privilégio de aprender diretamente com ela.

Ficar-me-ia bem se juntasse a minha voz a tantas que

reconhecem que os estudos de género atuais derivam,

direta ou indiretamente, da sua determinação, solidez

e resistência. Por incapacidade de a pensar sem revelar

como e por onde me conduziu e, pelo menos, uma

parte do que dela me ficou, decidi adotar um estilo

autobiográfico.

Em 1994, procurava uma orientação nacional para uma tese de Doutoramento a desenvolver na Universidade de Salamanca e a mediação da Professora Graça Carapinheiro levou-me a um primeiro encontro com a Professora Lígia Amâncio. Em troca do meu projeto em rascunho recebi a sugestão da leitura de dois artigos seus que haveria de conhecer quase de cor e que transformaram radicalmente a forma como, até aí, pensava as relações sociais entre homens e mulheres e, sem consciência plena, o género.

Foram temas que sempre me interessaram e que me levaram a muitas leituras: durante alguns anos, fui o cliente da livraria Buchholz que, olhado com estranheza, se ajoelhava junto à prateleira baixa assinalada por “Estudos Sobre as Mulheres”. Foram essas leituras que me mostraram que a injustiça e a vio- lência sobre os seres de sexo feminino, observadas no quoti- diano, poderiam e deveriam ser estudadas. Ainda hoje têm de ser, porque ser rapariga ou mulher acarreta dificuldades várias e, sobretudo, o risco da discriminação negativa, da iniquidade e, em muitos casos, de vida. Contudo, como haveria de apren- der com ela, a compreensão desses fenómenos e a ação con- creta sobre as suas raízes carecem de análises mais profundas e, sobretudo, complexas.

Feminismo,

palavra

maldita1

1. Amâncio, L. & Carmo, I. (2004). Vozes Insubmissas.

Lisboa: Edições Dom Quixote, p.11.

Estranhei o conteúdo dos artigos que me comprometi a ler2,

pelo que se distanciavam do meu conhecimento e pelo sen- tido para que apontavam: afinal, ainda que imprescindíveis, a história, a antropologia e a sociologia (as bases do meu olhar) não cobrem a multiplicidade do que tem de ser considerado e, por outro, a psicologia individual tem fracas potencialidades para a compreensão da complexidade da organização social das relações entre os sexos. Reencontraria a perspetiva psicos- social por esta via.

No segundo encontro, resumi a minha estranheza com as palavras possíveis: “gostei dos artigos porque não são muito feministas”. Ela ouviu-as, certamente, mas derivou a conversa para o futuro da nossa parceria. Haveria de perceber que as observações como a minha lhe eram familiares e não lhe faziam perder tempo, por acreditar que a adjetivação “femi- nista” mais corrente reflete sempre a vontade de estigmatizar, menorizar e marginalizar. Aprendi com ela que, para combater essa ideologia, é necessário demonstrar os inegáveis contribu- tos do feminismo e das feministas para a mudança social, que os seus ideais se difundiram e são hoje amplamente partilha- dos, mas que, sem ser por acaso, não se lhes atribui a autoria. Pelo que julgo ter entendido do que me/nos foi transmitindo, a investigação crítica e reflexiva é uma via imprescindível para recusar a sobreposição entre feminismo e “os assuntos das e de mulheres” e a assunção de que estes são anacrónicos e resolvi- dos e, como tal, sem pertinência científica e social.

2. Amâncio, L. (1993a). Níveis de análise no estudo da identidade social. Análise Psicológica, XI, 213-221; Amâncio, L. (1993b). Stereotypes as ideologies, the case of gender categories. Aprendizage - Revista de Psicología Social, 8(2), 163-170.

Viria a ter o seu apoio e algumas orientações fundamentadas para interpretar e gerir a dificuldade em ser aceite em alguns fóruns de discussão sobre género. Ser investigador numa temática tradicional e merecidamente atribuída a investigado- ras e interventoras sociais ainda não era comum, mas, como sempre insistiu, o caminho teria de ser feito. Reconheço que, sem as suas teorizações e convicções epistemológicas e éticas, os meus interesses teóricos e envolvimento na investigação teriam sido coartados e, sobretudo, os estudos de género por- tugueses teriam tido um desenvolvimento ainda mais lento. Pela minha parte, louvo a sua capacidade de não valorizar tudo o que ouve, de tolerar quem ainda não pensou o suficiente e de esperar que o contacto com outras reflexões resulte em enri- quecimento individual e coletivo. Se não tivesse esses atribu- tos, a nossa segunda conversa teria sido a última e, certamente, eu demoraria a perceber a razão.

Beneficiei em muito da possibilidade de estar e de aprender em grupo; um grupo que, para além de ter em comum a mesma orientadora, partilhou interesses, recursos, energias e, de alguma forma, afetos. Por impulso seu e com aceitação coletiva, esse grupo agregou, em muitas sessões de trabalho, elementos de diferentes origens, formações, idades e níveis académicos.

Esses momentos de trabalho conjunto pautaram-se sempre pela encenação quase solene que a Professora Lígia Amâncio imprime quando estão em causa os processos e os produtos da investigação. Na apresentação de uma leitura, de opções epistémico-metodológicas ou da discussão de um estudo, mesmo em fase rudimentar, a sua postura física, habitual- mente descontraída e divertida, modifica(va)-se: o momento é o da ciência! Guardarei, para sempre, o olhar fixo e o silên- cio da escuta e da ponderação, ainda que, durante as minhas exposições, ansiasse por sinais imediatos de aprovação ou discordância. Esses viriam nos momentos certos, com exalta- ção, encorajamento e críticas construtivas. E o espanto e a ani- mação, sob a forma exclamativa, mostrando que vê na ciência, também, uma promessa de fundamento para mudança social.

O género

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