A concepção do corpo, o lugar que ele ocupa na sociedade e sua presença no imaginário de cada sujeito sofreu modificações com o decorrer da história humana. Na Idade Média, quando o corpo recebeu uma forte influência da religião católica, revelando-se com distintas significações, visualizava-se uma “idolatria divina” sobre o corpo e, em conseqüência, uma separação entre corpo (res) profano, e espírito (cogito) sagrado. Nesse cenário, o corpo foi definido como instrumento das relações sociais, e suas características físicas como altura, cor da pele, peso, entre outras características contribuíam para a indicação da função que o sujeito exercia na sociedade feudal (GÉLIS, 2008).
Por meio do corpo e pelo corpo, movido pela atividade emocional e a intelectiva, nas mais diferentes circunstâncias, experienciamos o processo contínuo de construção e reconstrução de nós mesmos, ou seja, de consciência do corpo-Ser. Mas, para o Ser humano pensar o corpo nesse contexto, isto é, na totalidade vivida, muitos foram e são os estudos sobre corpo e corporeidade construídos e reconstruídos ao longo da história do homem (FEATHERSTONE; TURNER, 1995).
A moral cristã impedia ou tolhia as práticas corporais que tinham como foco o culto ao corpo, uma vez que a alma devia permanecer pura, como reforça Falk (1985) quando afirma que havia um esforço da Igreja no sentido da castidade e da pureza da alma, contra os males da carne e outros vícios mundanos, cada vez mais voltados para uma idéia de corpo como sede do pecado humano. Segundo Matos et al (2004), nesse contexto histórico o corpo foi considerado perigoso, em especial o corpo feminino, visto como um "lugar de tentações",
corroborado por Gélis (2008, p. 20) quando afirma “se ouve incessantemente dizer que é pelo corpo que ele corre o risco de se perder [...] o pecado e o medo, o medo do corpo, principalmente o medo do corpo da mulher”.
Na Renascença, fase marcada pela releitura de pensadores clássicos da ciência moderna, e já sem o viés religioso, o corpo começa a adquirir um novo significado, passando a ser foco de estudos de base científica, nos quais a disciplina e o controle das práticas corporais formaram os preceitos principais com ênfase na saúde corpórea. Assim, o corpo passa de corpo a ser salvo pela igreja a corpo a ser tratado pela medicina.
Assim, o dualismo que opõe corpo e espírito, descrito primeiramente por Platão, afirmava ser o corpo o cárcere da alma. Descartes (1999), por sua vez, imerso no contexto das ciências naturais, na forma que constituía o homem em duas partes, postulou a separação total entre mente e corpo, cabendo o estudo da mente à religião e à filosofia, e o estudo do corpo às pesquisas científicas. Para esse filósofo, o corpo fazia parte do mundo material, e era uma máquina, não havendo propósito, vida ou espiritualidade na matéria. Descartes deu ao pensamento científico sua estrutura geral a concepção da natureza como uma máquina perfeita, governada por leis matemáticas (CAPRA, 1986).
Todo esse movimento materializou uma perspectiva de conhecimento em que a dimensão religiosa e tudo o que não emanava da razão humana foram para outra dimensão, a da intuição, da superstição e das credulidades sem limite, ou seja, uma dimensão oposta à do conhecimento científico, a qual deixou, até os dias atuais, fortes marcas na concepção de corpo, criando assim, como revela Pierrakos (1990, p. 40) “um abismo entre humanidade e natureza, entre intuição e razão e entre a pessoa humana e o eu interior”.
Na atualidade volta-se a falar muito em corpo e corporeidade, relacionando-os às questões da ecologia, do autorreconhecimento, da visão holística e globalizada de mundo. Nesse sentido, busca-se valorizar o Ser no próprio corpo, ou seja, estimular o homem a valorizar-se em sua essência, na perspectiva da autoformação humanescente.
Vive-se num mundo de um novo paradigma: a visão ecológica, concebida como um todo integrado, “e não como uma coleção de partes dissociadas”, como afirma Capra (2006, p. 25, destaque do autor) e o autor continua esclarecendo sobre este novo paradigma:
Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo “ecológica” for
empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).
Esse paradigma vem se consolidando nos estudos da física quântica e da teoria da relatividade, tendo em comum a visão de totalidade entre quem observa e o que é observado. Ambas as teorias “trouxeram uma nova compreensão da estrutura da matéria ao dissolver o mundo físico num conjunto de feixes dinâmicos de energia” (MORAES, 2003, p.148), a qual vibra e se move participando da transformação de objetos por meio de interconexões, assemelhando-se a uma grande teia ou uma rede. Como afirma Capra (2002, p. 267) sobre a concepção sistêmica e unificada da vida no padrão de uma rede “desde as redes metabólicas dentro da célula até as teias alimentares dos ecossistemas e as redes de comunicação da sociedade humana – os componentes dos sistemas vivos se interligam sob a forma de rede”. E, nós, seres humanos, como devemos nos situar frente a esse novo paradigma? De que maneira nossa corporeidade pode se revelar frente aos novos desafios? Buscando respostas para esses questionamentos, encontramos os estudos acerca da corporeidade e da
humanescência.
Tais estudos estão sendo desenvolvidos na Linha de Pesquisa Corporeidade e Educação do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN buscando inspiração na metáfora da Teia de Aranha que apresenta nos seus três primeiros raios a ludicidade, a criatividade e a sensibilidade.
A partir do primeiro raio lançado formando a borda superior que representa a reflexividade autobiográfica e depois dos três raios centrais constituindo uma triangulação vivencial – lúdica, criativa e sensível, as bordas laterais e inferior propiciam a sustentabilidade epistemológica da teia representando a reflexividade vivencial. Os demais raios que se expandem do centro para as bordas representam diferentes áreas de conhecimento que dialogam com a corporeidade. O processo de construção do conhecimento utilizado nesse sistema metafórico é realizado de modo espiralado, do interior para o exterior, indicando a nossa perspectiva recursiva que é a humanescência (CAVALCANTI, 2008a).
Ao mesmo tempo, buscamos aporte teórico na pedagogia da autonomia e na
pedagogia da esperança apresentadas por Paulo Freire (1996; 2005), por concordar que a
história e a existência humana como feixe de possibilidades e virtualidades, podem pela prática histórica ser levadas à concretização.
Na obra O que é a Vida? publicada em 1943, o físico Schrödinger, tenta compreender os fundamentos físico-químicos da organização biológica dos seres vivos. Mas, apesar dos avanços obtidos nos estudos e pesquisas, muitos cientistas continuam se dedicando a responder a tal questão nos dias atuais, pois muitos mistérios e transformações acontecem nas interações cotidianas. Percebe-se, cada vez mais, a necessidade de nos compreendermos como seres autopoiéticos, capazes de nos autoproduzir e transcender.
No sentido de a pessoa interagir na vida, no mundo e expressar sua corporeidade em sua força vital, reportamo-nos a Pierrakos (1990, p. 27) quando fala de sua compreensão do desenvolvimento da capacidade humana de amar e transcender. Diz o autor:
A Essência é a capacidade humana total, uma massa vital e luminosa, a fonte e a consciência da força vital. A Essência tem completa unidade. Não existe dualidade nesse primeiro nível de realidade, nenhum isso ou aquilo, nenhum bom ou mau. É uma operação vibratória indivisível, um processo no qual cada pessoa conhece instintivamente a verdade, sentido o pulso da vida. As características qualitativas dos movimentos da Essência são as emoções positivas primais, ou movimentos para fazer contato e unificar a pessoa com o mundo exterior. Elas podem ser resumidas numa expressão sublime: amor.
Para nós, o corpo é mesmo uma dimensão energética com a qual o homem experiencia a vida, constrói relações e faz-se presente no mundo. Um corpo que sente, que toca, vê, ouve, que se move pela emoção, que se expressa a partir do que pensa e sente. Um corpo que dança a existência pela vivência da corporeidade. Concordamos com o autor ao considerar o corpo e sua corporeidade os fundamentos da existência humana. Sobre essa mesma dimensão energética, o autor argumenta:
O ser humano possui uma capacidade ilimitada para expandir a consciência, que é sua principal característica. A condição real e natural da vida é alegria e realização. à medida que não conseguimos chegar à realização, precisamos compreender que bloqueamos o fluxo de consciência e energia positiva, que é âmago da Essência. Na verdade, a Essência exprime e é a espiritualidade do ser humano (PIERRAKOS, 1990, p.273/274).
Acreditamos que o sujeito necessita se reconhecer como tal, visando atingir um nível energético capaz de trazer para sua vida e a da humanidade mais alegria e liberdade para extravasar suas emoções e sentimentos, ao longo de sua existência.
Apesar de existir, nas teorias e pesquisas, um esforço para entender o corpo e a corporeidade do Ser, pode-se observar que a visão de corpo do indivíduo está associado a camada social a que ele pertence, ao modo como ela vê as diversas manifestações corporais, como a sexualidade, a dança, as atividades esportivas, as terapias, dentre outras. Assim, multiplica-se a literatura a respeito da saúde fisiológica, da sexualidade e da beleza estética do corpo. Parece que, tanto tempo submetido ao controle de um racionalismo dominante, ele agora se rebela e se transforma no foco das atenções.
Este corpo é o centro das atenções na cultura de consumo, tão crescente na atualidade como afirma Featherstone (2010) sobre a imagem corporal que está relacionada a forma como a pessoa se vê frente ao olhar dos outros. Para o autor, esta visão é baseada em suposições populares fisionômicas do corpo, especialmente o rosto, que representa um reflexo de si mesmo, ou seja, o caráter interno de uma pessoa ou personalidade se revela em seu corpo ou aparência exterior. Assim, a sociedade de consumo se entrega às técnicas de transformação que poderá resultar automaticamente em uma imagem corporal mais positiva e aceitável. E esta sociedade de consumo tem uma grande contribuição dos adolescentes que, na maioria das vezes não estão satisfeitos com sua imagem corporal.
Featherstone e Turner (1995) trouxeram uma relevante contribuição para essa discussão na revista Body & Society por meio de uma série de debates, decorrentes de estudos do corpo e da corporeidade nas diferentes áreas de conhecimento e apontam que a fragmentação do corpo na cultura de consumo e sua reconstrução através da moda, cosméticos e manutenção do corpo refletem temas típicos do pós-modernismo. Para esses debates, os autores contaram com estudiosos como Nietzsche, Heidegger Husserl, Freud, Mauss, Schilder e Bataille enfatizando seus legados, para o estudo e compreensão do corpo na sociedade.
As pesquisas de Featherstone e Turner (1995) afirmam que apesar de o corpo ter se configurado nas áreas das ciências humanas e das sociais, esse interesse surgiu de maneira desequilibrada, considerando que as pesquisas sobre o corpo concentram-se em algumas áreas. A primeira área apresenta um interesse geral no significado simbólico do corpo e o uso do corpo como representação simbólica, bem como a importância do corpo no discurso metafórico. Todas as nuances do corpo ocorrem no contexto cultural ao qual o sujeito está inserido. As formas de andar, sentar, cumprimentar o outro, são significativos da cultura.
A segunda área tem sido pouco desenvolvida, diz respeito à análise do papel ativo do corpo na vida social. Nessa área Merleau Ponty (1999) procurou ir além dos dualismos, como natureza-cultura e mente-corpo, mostrando que o corpo é mais que um mero objeto.
A terceira área analisa as diferenças entre gênero e sexo, é a que mais tem se desenvolvido. Nela, apesar de uma série de tradições distintas, existe um consenso ao afirmar que embora as diferenças sexuais fundamentadas nos aspectos físicos (anatômicos, biológicos e fisiológicos) e gêneros são considerados uma diferenciação sociocultural de funções e papeis masculinos e femininos. Em suma, observou-se que o sexo é socialmente construído. Ao tratar das diferenças de sexo e gênero cabe ressaltar o risco da gravidez na adolescência, que envolve o corpo e a corporeidade promovendo modificações significativas nos aspectos físicos do corpo, representando uma problemática social.
Wahn e Nissen (2008) realizaram uma pesquisa envolvendo mães adolescentes e afirmam no grupo investigado, as adolescentes tinham baixa auto-estima e sintomas depressivos, que influenciam negativamente na capacidade de lidar com a maternidade. Para as autoras, estas mães adolescentes necessitam de apoio para que possam assumir sua nova condição, possibilitando que seus filhos nasçam saudáveis. E neste sentido, Pike (2007) discute como a participação em atividades desportivas pode retardar a atividade sexual e assim, reduzir a gravidez na adolescência, fortalecendo a importância de se pensar o corpo em sua inteireza do sentipensar.
A quarta área trata da relação entre o corpo e a tecnologia, esclarecendo que o desenvolvimento da tecnologia, em uma possível substituição do corpo, leva em consideração o avanço da engenharia genética e outras técnicas de dispositivos artificiais, e, mais recentes de implantes de órgãos do corpo humano. Neumann (2010) discute a questão das próteses em suas mais variadas formas, enfatizando a questão das próteses das partes humanas como pés, pernas e mãos. A autora discute, sob o olhar da fenomenologia, a forma de interação dos sujeitos com seu novo corpo.
A quinta área, mais voltada para a sociologia do corpo, é altamente desenvolvida nos estudos relacionados à saúde e à doença. Recebeu uma grande influência dos estudos de Michel Foucault (1987) sobre o desenvolvimento do corpo e a organização do estado da saúde.
Por fim, a sexta área dá uma atenção especial ao corpo e à sociologia do esporte. Além da atuação de quem joga, trata da participação de quem assiste como espectador e do envolvimento das emoções. Essa relação permite a imersão do indivíduo no corpo coletivo, mostrando-se o sentimento de euforia nos eventos desportivos.
No estudo de Featherstone e Turner (1995) percebe-se uma preocupação com as manifestações do corpo, em diferentes concepções e culturas, na sociedade ocidental,
contribuindo para o avanço de uma maior e melhor compreensão do corpo humano como uno (carne, espírito, alma), isto é, como uma unidade, em suas diferentes dimensões.
Falk (1985) manifesta seu pensamento acerca do corpo e corporeidade reconhecendo a sua historicidade ao longo do tempo. A historicidade do corpo e da corporeidade é estruturada o um plano no qual o corpo é relacionado ao “outro”: espírito, alma, razão e o “si” (ego). A mudança histórica destas oposições binárias é relacionada a crescente instrumentalização do corpo, considerada a partir de dois aspectos: o próprio corpo e o corpo de outro.
Em Merleau-Ponty (1999) encontramos concepções com as quais comungamos e que ajudam a responder a alguns questionamentos. Esse autor reconhece a necessidade de se construírem novos conceitos que possam ampliar a compreensão da existência a partir da vivência corporal, que no nosso estudo consideramos como vivência corporal lúdica. Nesse sentido, ele apresenta a noção de corpo próprio, contrapondo-se à noção cartesiana de corpo- objeto, buscando superar o discurso que situa o corpo como inferior à consciência. Afirma que a sensação e a percepção não são elementos inferiores à evidência racional, sendo ambas imprescindíveis ao processo do conhecimento.
Nos estudos sociológicos do corpo, na busca da compreensão das lógicas sociais e culturais, envolvendo a extensão e os movimentos do ser humano, o corpo passa a ser incluído no contexto existencial, sendo a dimensão com a qual atribuímos significado ao mundo. Nesse sentido, Le Breton (2006, p.7) afirma que a existência é corporal. E justifica:
Moldado pelo contexto social e cultural em que o ator se insere, o corpo é o vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é construída: atividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimoniais dos ritos de interação, conjunto de gestos e mímicas, produção da aparência, jogos sutis da sedução, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc.
Neste estudo, o corpo assume seu papel de existência e expressão, sendo revelado em sua corporeidade pela singularidade própria de cada um, revelando assim em sua história, emoções e sentimentos, isto é, seu sentipensar (MORAES e LA TORRE, 2004).
Essa existência materializada em seus inúmeros movimentos nos transporta para uma análise mais abrangente de “ser” com o corpo. Nesse sentido, o corpo é compreendido como repertório de experiências vividas, que vão estruturar sua conduta, sua personalidade, enfim seus apelos emocionais. O corpo é visto como unidade. Nos estudos da Educação Física e da
Corporeidade, Gonçalves (1994, p 99) também destaca a compreensão do homem nessa dimensão de unidade. Para ela,
[...] na unidade dialética da experiência de ser-no-mundo, podemos focalizar o momento da experiência da interioridade. Nessa experiência, o homem percebe a si mesmo como uma unidade e como possuindo uma identidade que permanece por meio do tempo e das mudanças. Em todas as nossas experiências, pensamos, sentimos e agimos, ao mesmo tempo que intuímos que essas três formas de ser emergem de uma única origem: o nosso Eu .
Através do comportamento e dos gestos do corpo, vislumbramos toda uma influência social e emocional que afeta a atuação de seus movimentos, de suas atitudes, padronizando seus interesses, suas vontades, e devido a qual o corpo, muitas vezes, torna-se um objeto, apresentando uma imagem preestabelecida pela sociedade.
Entretanto, buscamos no corpo adolescente, em sua totalidade, um ser vivo, vibrante, suas percepções, sensações e a maneira singular que apresenta para encarar tantas transformações e desafios, frente às diversidades da vida cotidiana.
Nesse sentido, na educação, compreendemos que a corporeidade deve ser foco irradiante primeiro e principal, fenômeno capaz de envolver e mover os indivíduos, por meio de suas emoções e de seus sentimentos, em sua totalidade (ASSMANN, 1998). Além disso, observamos que os estudos sobre a teoria de fluxo de Csikszentmihalyi (1999) reforçam e complementam a proposição de Assmann (1998), pois mostram a necessidade que o sujeito tem de vivenciar corporalmente o conhecimento e atingir o fluxo energético, emocionando-se e possibilitando uma aprendizagem verdadeiramente significativa e duradoura em sua vida. Nesse jogo vibracional, o homem pode encantar-se com a vida, descobrir suas potencialidades, porque se reconhece como sujeito belo e criativo.
A corporeidade tece a existência do Ser com os fios da vida, fios que dão sentido ao Ser na vida, de modo a permitir a emergência da humanescência, essa capacidade do Ser irradiar a sua luminosidade para o outro e para a vida. Adotando uma linguagem metafórica da teia da aranha, esses fios são: a reflexividade autobiográfica, a ludicidade, a criatividade, a sensibilidade, a reflexividade vivencia e a humanescência (CAVALCANTI, 2008).
Cada fio mostra um significado na teia da corporeidade e na vida da pessoa, iniciando com a reflexividade autobiográfica. Esta diz respeito ao conhecimento que o sujeito tem da sua própria história de vida, ou seja, à construção do conhecimento ao longo da vida, a
sua própria consciência. As memórias refletidas dessas histórias vividas passam a fazer parte de seu acervo corpóreo de vida. São memórias importantes, que deixam marcas tatuadas no corpo e na corporeidade. Para Josso (2004, p. 59):
O processo do caminhar para si apresenta-se, assim, como um projeto a ser construído no decorrer de uma vida, cuja atualização consciente passa, em primeiro lugar, pelo projeto de conhecimento daquilo que somos, pensamos, fazemos, valorizamos e desejamos na nossa relação conosco, com os outros e com o ambiente humano e natural.
Portanto, observamos que o processo autobiográfico traz à tona uma reflexão consciente do indivíduo por meio da construção e reconstrução das histórias vividas e externalizadas no seu dia-a-dia, possibilitando a tomada de consciência, um autorreconhecimento de si e novas orientações para sua caminhada de vida.
A autoformação com ênfase na criatividade e imbricado no fio da sensibilidade da teia da corporeidade, e como componente da essência humana, mobilizados por meio da experienciação dos sentidos, são capazes de impulsionar o Ser a se reconhecer na sua multidimensionalidade e a se expressar de infinitas formas de ser, sentir e estar no mundo (PIRES, 2000; SCHILLER, 2002; DAMÁSIO, 2004;).
O papel da criatividade na vida humana tem sido investigado por muitos autores, com destaque para os estudos de Csikszentmihalyi (1996) que investigou a criatividade na vida de pessoas reconhecidas como criativas. O autor afirma que a criatividade não está no sujeito, não é um fenômeno individual. Ela é construída por meio da interação entre o criador e o seu contexto vivencial. A sensibilidade entendida como o conjunto dos nossos sentimentos e sensações e do modo como o sujeito os experimenta, envolve as informações que os