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In document Promotion rat race and public policy (sider 23-27)

A seguir, estão citados alguns recortes da transcrição de uma conversa entre os profissionais do Projeto Lugar de Palavra desenvolvido pelo Núcleo de Atenção à Violência, o NAV, contando sobre suas experiências e falando sobre o papel da psicanálise na escuta naquele contexto institucional específico. O projeto conta com uma equipe disposta a elaborar reflexões sobre a interface entre o trabalho da clínica e o em um contexto de atendimento público inserido em uma instituição. A análise proposta toca no trabalho intersetorial, cuja problematização é bastante importante no universo das políticas públicas, na medida em que essa modalidade de trabalho representa uma mescla de saberes que partem de diferentes pressupostos sobre a clínica. Estão citados alguns trechos podem contribuir para a construção de uma referência de atendimento em que a psicanálise esteja inserida entre os saberes que circulam em uma instituição. A questão inicial que se coloca é sobre qual a diferença que esses profissionais veem a psicanálise introduzir em um trabalho como este que é desenvolvido no NAV, considerando a inserção em um contexto social que atende crianças e adolescentes que, de outra maneira, jamais teriam acesso a um tratamento psicanalítico.

31 Neste ponto, as autoras Simone Gryner e Paula Ribeiro ressaltam a importância de um duplo questionamento: primeiro, se um tratamento psicanalítico é diferente de um trabalho assistencial, ou pedagógico; segundo, que diferenças um tratamento psicanalítico pode trazer para o trabalho empreendido (GRYNER e RIBEIRO, 2011).

São de muita importância as palavras de Pedro Duarte, em diálogo transcrito pelas autoras para contarem sobre reflexões feitas com base trabalho do NAV de inserção da psicanálise em um contexto institucional de atendimento às crianças vítimas de violência, para além da situação de violência que se coloca ao sujeito a priori:

“A questão do uso da psicanálise em situações que não são aquelas restritas a consultório, enfim, em trabalhos que a gente possa fazer no social, me parece uma questão fundamental porque esse trabalho advém da posição que cada um vai ter. O psicanalista, nessas situações, pode ter uma outra posição. Essa diferença de posição diz respeito a uma diferença que a gente pode fazer entre aquilo que é, para Freud, o juízo de atribuição e o juízo de existência, o qual se caracteriza por tomar as situações do social por aquilo que elas são, independentemente de fazer um julgamento prévio em relação àquilo que se está trabalhando.

Então, no caso da questão da violência, o que vocês me transmitem é que não há a priori um julgamento em relação a quem é que tem razão, ou quem deixa de ter razão, ou se há uma coisa ruim ou boa. Trata-se a situação da maneira como ela se apresenta, que é exatamente – acho que isso é uma questão fundamental – tratar aquela situação enquanto uma questão humana, e não enquanto uma coisa que tenha que ser extirpada do humano, tirada do humano. Tratar aquilo enquanto uma dificuldade que advém da própria existência humana. O psicanalista pode ter essa posição, que é uma posição que eu diria ética, em vez de ser uma posição meramente moral, a qual advém exatamente de um julgamento prévio. A posição moral seria: ‘Eu estou lá para consertar um comportamento desviante que se reprova’, e que, então, nós somos chamados pela sociedade para consertar, botar nos eixos, para trazer uma coisa boa, ‘Eu porto o bem’. A psicanálise, de maneira diferente, pode trazer isso, de olhar as coisas como elas são na sua humanidade, na sua miserabilidade que é a de todos nós. E o que fazer com isso? E lidar com isso, como é? Isso é o que eu penso que é com o que vocês podem contribuir de uma maneira significativa.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.32).

Flávia Franco, em sua fala relativa ao trabalho desenvolvido pelo NAV, coloca a escuta como elemento que sustenta o trabalho desenvolvido pela instituição:

“... acho que não é diferente, outra coisa, do que a gente sustenta no consultório. Porque a estrutura da psicanálise, a psicanálise como um discurso, eu acho que isso não muda. Eu me pergunto, mas o quê? Que estrutura é essa? O que faz com que eu possa dizer que o trabalho que a gente sustenta no nav não é diferente, na estrutura, do que a gente sustenta no consultório? E o que me vem é essa questão do lugar da palavra. Porque eu acho que o que possibilita a clínica psicanalítica é a história de o sujeito ser o que ele vai dizer dela ali naquele momento presente. Ele vai construir a sua história no momento em que ele abre a boca e se situa em relação à palavra e ao discurso que sai da sua boca. Eu acho que esse descolamento do fato, do

32 acontecimento, traz isso. E no NAV eu acho que isso é muito importante. A violência não está no fato, não está no acontecimento, não está nisso, mas está na forma como o sujeito vai se situar discursivamente diante disso. O lugar a partir do qual ele vai tomar a palavra, o lugar em que ele se situa, o lugar em que o outro se situa, que lugar o outro dá a ele. E isso se constrói no aqui e agora. Não é alguma coisa que está lá, porque senão o sujeito é sempre refém de alguma coisa que aconteceu, sempre refém de alguma coisa que houve lá; não tem como o sujeito se redescobrir, se refazer no discurso. Então, eu acho que isso no NAV aparece muito forte.”(GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.32,33).

Observa-se uma semelhança entre a posição que os entrevistados atribuem ao sujeito falante, considerando-o naquilo que pode advir de seu discurso. Na entrevista, aparecem posições defendendo a implicação do sofrimento do sujeito como ponto de partida para o trabalho, apesar das circunstâncias inseridas pelas contingências que o levaram até ali. Para a profissional Idália Góes:

“... essa dimensão de não ter, não sustentar ali um julgamento prévio que o cristalize, que o identifique cada vez mais na posição que ele veio trazendo até ali, é uma possibilidade de o sujeito se retomar, se recolocar no mundo, se recolocar na vida, abrir uma outra perspectiva.

Eu acho que nessas situações de violência, nessas situações de risco, a dimensão da palavra é dar ao sujeito essa possibilidade de se recolocar diante das coisas que estão acontecendo com ele.E essa dimensão do juízo de existência acolhe essa possibilidade, dá ao sujeito essa possibilidade que é a dimensão da palavra, nesse sentido radical que a gente está falando aqui, que é o sujeito se ressituar em relação à vida e às coisas que estão colocadas para ele na vida.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.33,34).

A palavra seria a via de acesso ao destino construído pelo sujeito para historicizar sua própria situação.

Francisco Leonel fala da importância da escuta clínica para a desnaturalização imposta muitas vezes pela dimensão social, via pela qual o sujeito acessa o serviço e que o coloca em uma posição prévia que será trabalhada em seguida. No espaço de escuta, a cena prévia se desmonta. Para descrever esse processo, o psicanalista sintetiza:

“Tem uma coisa que eu acho que é importante nisso que está sendo dito, que é o seguinte, e que eu acho que faz certa diferença com relação à questão do consultório, certa diferença... É que vocês atuam em um campo que é conflagrado, que é o campo que já está definido assim: esse aqui é do mal, esse aqui é do bem. Então, toda intervenção que vocês fazem, que conseguem fazer – o que sempre me impressiona –, é que isso no jogo social tem uma consistência muito grande (mocinho e bandido, vítima e agressor...). E vocês conseguem frequentemente fazer uma intervenção que, além de fazer todo esse acolhimento do sujeito, meio que quebra essa lógica de classe, de partição das coisas, de atribuição das coisas e permite passar uma outra coisa. Ao ponto, por exemplo, de os próprios juízes, que querem saber se houve ou não houve violência, continuarem encaminhando para vocês pessoas para se

33 tratarem no nav, apesar de, na maior parte das vezes, vocês não priorizarem esse tipo de informação.”(GRYNER e RIBEIRO, 2011,p.34).

O ponto fundamental da fala de Francisco Leonel reside na posição do analista frente à demanda declarada. Destaca a sustentação do trabalho por parte dos psicanalistas da equipe do NAV, que acontece apesar do “rótulo social” assumido institucionalmente, aquele de pessoas que sofreram ou exerceram violência. A diferença contingencial em relação ao espaço do consultório refere-se apenas à forma como o atendido ali chega. A situação da escuta oferecida, entretanto e independentemente disso, é analítica e supõe um sujeito; e esse sujeito não é tomado por uma marca externa que o insere no NAV em um primeiro momento, mas é, antes, tomado por um sujeito do inconsciente.

Isso supõe que algo da marca social designada ao sujeito pode ser deslocado e o trabalho pode acontecer sem que seja pela manutenção apriorística dessa marca. Ainda assim, como nos conta Leonel, os juízes, os Conselhos Tutelares e as famílias continuam indicando casos para serem atendidos no NAV, mesmo estes solicitando relatórios com conteúdo de atendimento e os profissionais do NAV não respondendo a esta demanda.

Outro argumento muito importante problematizado nesta discussão entre os profissionais é sobre a questão da responsabilização do sujeito. Segundo a fala de Fernanda Costa Moura, “... é importante sublinhar que não fazer um julgamento prévio não tem nada a ver com desresponsabilizar.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.34). Sobre isto, diz “... todo o trabalho do nav é não amenizar em nada a responsabilidade para que o sujeito possa se haver com a gravidade, com a seriedade, com as consequências seja do que lhe aconteceu, seja daquilo que ele fez ao outro.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.35).

Ainda em debate sobre a implicação do sujeito em relação à violência sofrida ou exercida, Simone Gryner problematiza sobre as implicações de um fato concreto e sobre as marcas psíquicas, desvinculando-as da obrigatoriedade de sua ligação. Nas palavras da autora: “Isso é uma diferença de tratar o fato em si e de achar que o fato tem relação com a construção que se faz, com o destino que se dá ao que nos acontece. Então, a maior gravidade, a menor gravidade, também tem a ver com o destino que a gente dá.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.35).

34 Especificamente no caso da violência doméstica, a possibilidade de não julgamento e de uma escuta, o trabalho com os afetos:

“Nos casos, especialmente de violência doméstica, você sempre sublinha o fato de que a situação de violência doméstica é uma situação onde o sujeito tem vários elos de ligação com aquela situação, que não é só a violência. Implica que o sujeito tenha um laço, por exemplo, com o autor da agressão. E que a violência – como eu já ouvi várias vezes o pessoal do nav dizer – a violência é apenas uma das situações que unem aquelas pessoas ali. E é muito importante para uma criança, por exemplo, poder falar da dificuldade que é para ela amar, por exemplo, alguém da família ou o agressor que pode ser seu vizinho, seu primo, seu irmão, seu pai e, ao mesmo tempo, poder falar do ressentimento pelo que aconteceu. E toda essa nuança, toda essa complexidade, só pela palavra mesmo é que isso pode advir e ganhar diferentes lugares para poder ter consequências, para o sujeito poder se encaminhar.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.35,36).

As condições de trabalho proporcionadas pelo NAV, conforme colocado por Fernanda Costa Moura, incluem condições dignas de trabalho com salários condizentes, horários viáveis de trabalho, supervisões formadoras e discussões de equipe aprofundadas. A forma como é feita a divisão da responsabilidade também faz parte das preocupações com as condições do trabalho.

Por meio da implicação de cada profissional no trabalho e da implicação de cada sujeito atendido, mantém-se uma escuta, o que permite uma intervenção com base na singularidade de cada caso. Por exemplo, uma carta escrita a um juiz é pensada, elaborada e debatida. Conforme colocado pela fala de Idália Góes: “É uma implicação que, ao mesmo tempo, abre uma possibilidade não previamente estabelecida para o sujeito.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p. 38). Ainda acrescenta que esse tipo de trabalho não se faz lidando com a massa. É um trabalho que se faz “um a um” para que exista resultado.

A direção de trabalho proposta pela equipe do NAV, em vez de trabalhar com um saber pronto e fechado sobre as situações de violência, proporciona um espaço para o sujeito apropriar-se de sua história, colocando-se dentro dela e podendo dar um destino outro, que não sabe previamente qual será.

Simone Gryner fala da relação do profissional em atendimento a uma demanda grave, sobre como se posiciona diante de um sujeito de modo a considerá-lo em seu tempo:

“Nessas situações graves qualquer profissional que esteja envolvido quer resolver a situação o mais rápido possível. É natural que se queira resolver. Mas tem a pressa de “resolver” a partir de determinações que não

35 incluem o sujeito, ou algo completamente diferente, que é poder suportar um certo tempo de construção de soluções para aquela situação, soluções que podem ser surpreendentes tanto para o profissional quanto para o sujeito em tratamento.”(GRYNER e RIBEIRO2011,p. 39).

Conforme coloca Pedro Duarte com precisão em sua fala, ainda sobre o sujeito e o tempo necessários a um trabalho que envolva escuta:

“Há um tempo. Como na clínica, há um tempo do sujeito. A mim, parece que não é evidente que as pessoas que cometem esses comportamentos que são delinquentes ou violentos... não é evidente “com o que é que eles estão envolvidos”, de cara. Isso é uma questão que pode ser, por exemplo, para o conjunto de profissionais na sociedade, uma questão que já qualifique de cara como aquilo é, como aquilo requer uma sanção qualquer. Mas, para quem está envolvido, muitas vezes é necessário um trabalho para ele poder aceder a alguma responsabilidade, para ele poder ter uma justa dimensão de como ele está envolvido ali. Isso não é claro. Isso, em uma análise de uma pessoa, individualmente, a nossa própria experiência de análise é isto: há um tempo do sujeito para poder ter uma mudança em relação àquilo que o constitui, aquilo a que ele está preso, aquilo que ele está... de alguma maneira, que ele ignora, que o obriga, que o coloca em uma ação que ele não sabe de onde vem. Então, tem que ter um tempo, não é alguma coisa que possa ser de cara.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011,p.39,40).

Preservar a dimensão do tempo na política pública é tarefa difícil, considerando os atravessamentos dos diversos campos interferentes na vida de um sujeito – tais como os campos jurídico, familiar, social e escolar – que se colocam para o sujeito e caminham em paralelo à sua singularidade. “Como é possível dar esse tempo, mesmo na urgência que esse trabalho exige?” (Gryner e Ribeiro, 2011, p.40). Nesta pergunta feita por Fernanda Costa-Moura, está situada uma problemática constante ao trabalho do psicanalista inserido em um contexto de política pública. Atenta-se para a importância do tempo cronológico e do tempo lógico. Como incluí-los no trabalho, em vista de suas diferentes dimensões? Ainda nas palavras da profissional: “Porque uma coisa é dar ou não o tempo, e outra coisa é a urgência. Você pode dar um tempo, sem perder a noção de urgência, o tempo não é infinito. Mas ao mesmo tempo, de alguma maneira, se preserva o que é necessário para aquele sujeito ali. Em vez de imputar a ele, por exemplo, uma solução para caber no tempo.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.40).

Flávia Franco, em seu depoimento, sustenta que a responsabilização acontece pela via da palavra do sujeito em interlocução com outro sujeito, quando ele encontra a possibilidade de implicação na própria cena. A psicanalista ilustra seu posicionamento pela seguinte vinheta clínica:

36 “Eu acho que essa ideia de que a responsabilidade é construída, eu acho isso tão forte. Isso me faz lembrar de um caso que eu atendi, que foi muito difícil. Foi uma menina adolescente, encaminhada por uma situação de risco. Ela estava em um morro, envolvida com traficantes, e tinha cometido, por determinação do tráfico, o assassinato de uma pessoa. E ela retomou isso no discurso e no atendimento. Ela só viveu que ela tinha tirado a vida de uma pessoa, assassinado uma pessoa, ali naquele momento. O que ela teve de reação à sua própria palavra, naquele momento, de se dar conta do que ela tinha feito... Você vê, por mais absurdo que seja um acontecimento desses, ela não tinha se dado conta do que tinha acontecido, quer dizer, foi quando ela se encontrou com a palavra dela, remetida ao outro, endereçada ao outro..., ela se deu conta do que tinha acontecido. E só a partir daí, obviamente, algum nível de responsabilidade se colocou. No momento mesmo em que ela disse, aconteceu para ela, é como se aquele assassinato tivesse se realizado ali naquele momento. O que veio, inclusive, de manifestação de corpo, do desespero do que ela tinha feito... Então, a gente acredita pouco que é a palavra que faz, que é a palavra que produz o que aconteceu, que é a palavra que produz a responsabilidade. A gente deixa isso muito do lado dos acontecimentos, dos fatos, né?” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.40).

Idália Goes enfatiza a importância da intervenção na implicação pela via da palavra como uma aposta de transformação, mais eficaz em termos da qualidade de laço entre a criança e o adulto envolvidos no contexto, uma vez que eles, muitas vezes, pertencem à mesma família, ao mesmo convívio, e seguirão em contato:

“Eu acho que tem um aspecto importante, a gente ter a dimensão do que é que nesse trabalho vai fazendo com que uma instância como o Conselho Tutelar, com todos os profissionais que estão ali com a maior boa intenção de tratar casos de violência doméstica, por exemplo, possa se instituir ali uma noção de que, para aquela criança que sofreu um tipo de violência, o mais importante não é conseguir algum tipo de sanção para aquele autor de violência, mas se introduzir no trabalho com essas instâncias a dimensão de que o mais importante é a preservação da subjetividade da criança, por exemplo.” (GRYNER e RIBEIRO, 2011, p.42).

Acrescenta que, por meio do trabalho que não é doutrinal, nem educativo, seja possível mostrar as consequências de algumas coisas que, depois de ditas, aparecem como básicas e são elementares para esse tipo de tratamento. É a dimensão de que, mesmo culpado, às vezes, o mais importante ao trabalho não é a sanção, mas a possibilidade de que esse sujeito possa retomar seu ato, pois isso vai permiti-lo na implicação. Esta aposta é muito importante, pois é muito provável que ele continue tendo uma relação com essa criança em razão do parentesco.

A fala da Simone Gryner traz um ponto fundamental sobre o cuidado a ser tomado pela instituição e pelo profissional em escuta do caso. Por mais violenta que seja uma situação, há a importância de se sustentar os lugares. Assim, quando um pai

37 comete algum tipo de violência contra seu filho e, por alguma razão, tem de ser impedido de ver o filho pontualmente, isso não justifica a intervenção trabalhar no sentido de destituir esse lugar de pai.

Flavia Franco apresenta uma vinheta clínica relacionada à importância da preservação dos lugares e da problemática que se instala na transmissão dessa preservação a outras instâncias profissionais. Apresenta-se aqui, uma questão ética. Não se trata de não reconhecer o que houve, mas de dar lugar ao sujeito apesar do que houve, incluindo, mas não foracluindo, mandando para longe, em uma vã tentativa de apagamento. Flávia nos conta:

“Eu me lembro em uma audiência que a gente achou que era o caso de eu ir, em função de um caso que eu atendia pelo nav, em torno de uma criança que tinha sido abusada sexualmente pelo pai. Lembro que se tratava de como transmitir para um juiz que o pai tinha feito, que isso estava posto, que isso tinha consequências para a criança e, no entanto, era importante para essa criança, mesmo assim, ter esse contato com o pai, ter algum laço preservado com esse lugar. O pai não se reduzia a isso que ele tinha feito. Então, era importante o pai ser punido pelo que ele fez, e a Justiça fez isso. Mas tinha também um lugar e algum laço ali que devia ser preservado por

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