N- glyconylneuraminic acid (Neu5Gc)
1.5 In vitro digestion models
1.5.1 In vitro digestion models in CRC research
Especificamente no quadro teórico da TBS, Ducrot e Carel (2008) propõem dois tipos de relações do locutor com os enunciadores que ele põe em cena em seu enunciado. O primeiro tipo de relação é a de assimilação. Por meio dela, o locutor assimila um ponto de vista a seres determinados ou indeterminados. No exemplo utilizado pelos autores em um enunciado como ―Eu me sinto cansado‖ (op.cit., p.7), o locutor remete a si mesmo como origem do ponto de vista segundo o qual ele está cansado. Desse modo, descreve-se a enunciação como ―visando dar a conhecer ao interlocutor o cansaço que se sente‖ (op.cit., p. 8), ou seja, o cansaço visto por quem o sente. Já no caso do enunciado ―Segundo meu médico, estou cansado‖, atribui-se a origem do ponto de vista relativo ao cansaço a alguém que é apresentado como capacitado para fazer tal afirmação. O que interessa não é a identidade do médico, mas sua função.
Por meio do segundo tipo de relação, o locutor toma atitudes frente aos enunciadores. Ele pode assumir o ponto de vista, concordar com ele, ou opor- se a ele. Assumir um ponto de vista significa ―dar como fim à enunciação impor o ponto de vista desse enunciador‖ (op.cit. p.8). Dar sua concordância a um enunciador (como é o caso da pressuposição) é impedir-se de, na sequência do discurso, contestar seu ponto de vista. Por último, opor-se ao enunciador de um ponto de vista (pela negação) é descrever a enunciação como proibindo, no restante do discurso, de assumir o ponto de vista ou concordar com ele.
A relação entre essas duas funções (assimilação a alguém e tomada de posição) deve-se à natureza do ponto de vista considerado nas atitudes e não tem caráter de implicação. A assimilação ao locutor, por exemplo, não é condição necessária para o assumir, porque um locutor pode não estar assimilado a um enunciador que ele assume. Nos exemplos citados acima, a ideia de cansaço em um e em outro caso se modifica tendo em vista o personagem a quem o ponto de vista é assimilado – o médico ou o próprio locutor.
A atitude é, assim, vista como algo bem distinto de uma simples tomada de posição acerca de um conteúdo ou de uma proposição caracterizáveis em si mesmos. Os pontos de vista sobre os quais se tem alguma atitude são construídos em relação ao enunciador que é objeto da atitude. Dessa forma, o enunciador passa a ter papel mais claro do que em momentos anteriores da teoria e passa a ser visto como indispensável. Para explicitar essa noção, Ducrot (2008, p.9) cita o exemplo de uma narrativa em que o autor escreve que ―o céu, acima do alpinista, era de um azul inacreditavelmente profundo‖. Nesse caso, o locutor (narrador) assume um enunciador assimilado a um ser, o montanhista ou seu colega de escalada que percebe o céu. O tom de azul indicado ao leitor é aquele percebido pelos enunciadores-alpinistas.
Na perspectiva da TBS, a descrição polifônica sofre modificações e são revistos os conceitos de pressuposição e de negação. Nesse quadro teórico temos que, ao produzir linguagem, o locutor (L) coloca em cena enunciadores que expressam pontos de vista em termos de aspectos, ou seja, de conjuntos de encadeamentos. O locutor se relaciona com um aspecto e o(s) enunciador(es) (E) pode(m) assumir outro aspecto do mesmo bloco, ou um aspecto de outro bloco que ele(s) apresenta(m). Ducrot relembra também que, sob a abordagem da TBS, atribuir um significado para uma expressão equivale a associar-lhe diferentes argumentações, o que é feito por meio de encadeamentos argumentativos. Estas argumentações, como já o observamos no capítulo 2, podem ser normativas, com conectores do tipo de donc (DC) ou transgressivas, com conectores relacionados a pourtant (PT). Além disso, os
encadeamentos podem estar ligados às expressões que os significam de dois modos – pela argumentação interna (AI) e/ou pela argumentação externa (AE). O mais interessante é que uma expressão,
por exemplo uma palavra ou uma frase, consideradas como entidades da língua, não possam evocar, como seu segmento anterior ou posterior, um encadeamento normativo sem evocar ao mesmo tempo o encadeamento transgressivo correspondente – e inversamente (DUCROT; CAREL, 2008, p. 10).
Os encadeamentos argumentativos estão na base da reformulação das noções de pressuposição e também de negação. Inicialmente (1987, 1990) a forma de compreender a pressuposição fazia com que se percebesse como fragmentado o sentido em enunciadores correspondentes ao posto e outros ao pressuposto, dissociando a unidade semântica do enunciado em dois conteúdos independentes. No âmbito da TBS, recusa-se essa separação em enunciados compostos por verbos como saber, continuar e começar, por exemplo. É o caso de enunciados como João continua a fumar, que teriam um enunciador responsável por João fumava e outro responsável por João fuma. Sob essa nova ótica, temos que o continuar a fumar seria um prolongamento de uma situação anterior e as duas noções devem, assim, ser vistas como uma unidade. A argumentação interna ao enunciado seria expressa pelo aspecto ter fumado DC fumar. O enunciado em questão seria aproximado e, portanto, analisado da mesma forma que outro do tipo João é prudente, ou seja, não mais em termos de pressuposição, mas de uma relação argumentativa entre um suporte e um aporte.
Essa necessidade de perceber os elementos vistos como posto e pressuposto como uma unidade de sentido é explicada pelo efeito da negação sobre o a AI de uma expressão. O conteúdo tido como pressuposto é mantido através de transformações tais como a negação enquanto o posto é invertido. Ambos são construídos sob o mesmo encadeamento, mas a negação remete também a um enunciador diferente do que o que aconteceria com a negação comum. Enquanto esta levaria a um aspecto converso, a negação que envolve enunciados ditos pressuposicionais (chamada metalinguística) remeteria ao seu aspecto transposto.
Explicando um pouco mais, poderíamos dizer que na argumentação interna de um enunciado como João não foi prudente, teríamos dois enunciadores que expressariam dois aspectos que mantêm entre si uma relação de conversão:
perigo DC precauções
perigo PT neg-precauções
No caso da negação metalinguística em João não continua a fumar, em que o dizer de alguém é negado, temos também dois enunciadores, mas que se relacionam argumentativamente pela transposição:
neg-ter fumado PT fumar
ter fumado DC fumar perigo PT Neg- precaução Neg-perigo PT precaução perigo DC precaução Neg-perigo DC Neg- precaução Recíproco Recíproco Converso Transposto Transposto ter fumado PT neg-fumar neg-ter fumado PT fumar ter fumado DC fumar Neg-ter fumado DC Neg- fumar Recíproco Recíproco Converso Transposto Transposto
Em relação à negação, no quadro da TBS, os autores utilizam a frase positiva P João foi prudente para explicar os enunciadores por ela convocados e, assim, pautar a explicação de enunciados negativos. De acordo com essa abordagem, o enunciado assertivo põe em cena pelo menos três enunciadores. E1, que expressa um dos aspectos conversos da AE à direita de P e evoca o encadeamento que melhor se encaixa. De acordo com o contexto linguístico, opta-se por João foi prudente DC não teve acidente ou João foi prudente PT teve acidente, por exemplo. O E2 exprime, não mais um aspecto converso, mas um dos aspectos transpostos da AE à esquerda de P. Escolhe-se entre João é prevenido DC não teve acidente e João não é prevenido PT é prudente. O E3, por sua vez, apresenta a AI do enunciado P que expressa o aspecto e evoca o encadeamento que individualiza P.
Na descrição do enunciado negativo P‘ João não foi prudente encontram-se todos os enunciadores convocados pelo enunciado P e também todos os enunciadores negativos cujos pontos de vista sejam decorrentes de transformações daqueles dos enunciadores positivos. Dessa forma, o E‘1 tem por ponto de vista o aspecto e os encadeamentos recíprocos daqueles que são o ponto de vista do enunciador positivo E1. Como exemplo os autores citam João não foi prudente DC correu risco de acidente (2008, p.17). O mesmo vale para E‘2 cujo ponto de vista é recíproco do de E2: ―se E2 tem por ponto de vista ‗João não foi prevenido, no entanto foi prudente‖, será atribuído a E‘2 ―João foi prevenido PT não foi prudente‖. Por fim, o ponto de vista de E‘3 é transformado por conversão do ponto de vista de E3.
A essa lista mínima de enunciadores é necessário acrescentar a indicação das atitudes do locutor do enunciado em relação a eles. Habitualmente, pode-se dizer que ele recusa os enunciadores positivos e assume os negativos, ou ao menos lhes dá sua concordância. O trabalho sobre a negação, segundo os autores, não está concluído e precisaria ser afinado, com novos estudos e, especialmente, com a confrontação de sua descrição com textos.
De fato, esse apelo ao trabalho com textos nos parece estar no próprio espírito da semântica polifônica. Esta, insistiremos
nisso para concluir, impõe, ainda mais que qualquer outra forma de semântica, que se olhem as utilizações reais das frases, que se confronte a língua ao discurso. De fato, os próprios conceitos de que se serve a polifonia, enunciador, locutor, atitude, encenação, não podem ter nenhuma realidade na língua, mas apenas na transformação da língua em discurso – até mesmo se essa transformação é guiada pela língua (DUCROT; CAREL, 2008, p. 18).
A polifonia no âmbito de uma semântica argumentativa só poderia ser vista como relacionando língua e fala, frase e enunciado, texto e discurso. A argumentação decorrente da confrontação entre diferentes pontos de vista relacionados a diferentes enunciadores deve ser vista no e pelo discurso, já que é nele que estão situados os encadeamentos argumentativos, os quais estão previstos na significação da língua.
Uma compreensão polifônica e argumentativa da linguagem possibilita a construção e, por outro lado, a compreensão do sentido dos enunciados (e do discurso), revelando os implícitos e a relação do locutor com outros discursos que ele evoca ao enunciar-se. A argumentação, construída pela linguagem, é permeada pela relação do locutor com seu interlocutor e também pela relação do seu discurso com outros discursos.
Integrada à TBS, a noção de polifonia sofreu modificações importantes no sentido de ter seu constructo revitalizado e de assumir um papel mais claro em relação às argumentações, consideradas como encadeamentos discursivos. Em sua forma anterior, ainda no quadro em que foi introduzida, o da forma chamada então de recente, havia uma dificuldade bastante grande, em termos metodológicos, de limitarmos o número de enunciadores possíveis a partir de um enunciado (ou de um discurso). Além disso, o papel da polifonia em termos argumentativos ficava um tanto vago. O tema voltou a ter um enfoque especial a partir do texto publicado no Brasil em 2008 e hoje ocupa posição central nas investigações de Marion Carel e Oswald Ducrot. Vale ressaltar que ele não está fechado e a cada nova publicação dos autores, há avanços importantes.
No espaço deste trabalho e dentro do que ele se propõe, iremos abordar ainda uma dessas publicações apenas, a já mencionada Atualização da polifonia ([2009] 2010). Acreditamos que ela acrescenta aspectos importantes ao estudo a partir do texto de 2008 [2006], revendo questões propostas especialmente no Esboço de uma teoria polifônica da enunciação ([1984] 1987).
3.2.3 Algumas questões sobre a atualização da polifonia ainda no