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Sohn (2011) procede em apresentar uma construção histórica do corpo sexuado e as questões envolvidas por essa problemática, e já inicia seu percurso posicionando no século XX uma atenção voltada a este objeto que, em sua intensidade, era então inédita. Devido a essa centralidade, as práticas e discursos que tratam da sexualidade vão se desvinculando de seu lugar de clandestinidade e irrompendo na vida pública e nas questões políticas. Dessa retomada de Sohn, cabe destacar alguns pontos que serão importantes na compreensão do cenário contemporâneo e nas situações marcantes no romance analisado.

A autora retrata um movimento de medicalização da sexualidade, em consonância com o projeto maior de medicalização da sociedade, que abrange práticas e representações sexuais, quer reais ou fantasiosas, e que segue destinos marcadamente distintos para homens e mulheres. O corpo feminino é desde o começo alvo de cuidados relativos à reprodução, e mais tarde à contracepção; as funções sexuais masculinas recebem o olhar da medicina algum tempo depois, com a concepção de uma nova forma de abordar a impotência que é a base para a comercialização do Viagra, em 1997. Dessa forma, a impotência sofre uma abolição da interpretação psicopatológica para aderir a uma explicação puramente orgânica, que é prontamente midiatizada. Entendida como uma afecção orgânica assim como qualquer outra, só restava então à indústria farmacêutica investir no lançamento de um produto que suprisse a demanda que surgia pela criação da condição denominada disfunção erétil. A partir disso, foi cada vez menos tolerado o declínio sexual decorrente da idade.

Brigeiro e Maksud (2009) investigam a implantação do medicamento Viagra no cenário brasileiro e reconhecem que há uma construção midiática em torno do produto que atinge uma importância maior do que a lógica do discurso médico e da prescrição da droga por especialistas. A divulgação em torno do Viagra na época analisada é muito mais expressiva que qualquer tipo de medicamento até então, mencionados em maior profusão mesmo em relação a Prozac (indicado para depressão), reposição hormonal para mulheres na menopausa ou disponibilização gratuita de fármacos para pessoas infectadas com o vírus HIV. Posto isso, é evidente que a aparição do Viagra é sintomática no que tange às concepções de corpo, sexualidade e bem estar na contemporaneidade.

Ainda de acordo com os autores citados, as primeiras reportagens, anteriores à liberação do uso da droga no país, apontam a descoberta de um medicamento que seria responsável por revolucionar a vida sexual dos indivíduos, assim como ocorre com a descoberta da pílula anticoncepcional na década de 60. Após a aprovação para comercialização, há registros jornalísticos que tratam da procura menor do que o esperado em decorrência da vergonha associada à necessidade de uso da droga, sendo instituídos em alguns estabelecimentos até mesmo uma linha telefônica especializada para realizar pedidos como maneira de contornar o obstáculo posto. Nesse sentido, a necessidade de preservação do anonimato revela o caráter simbólico do constrangimento, causado pela incapacidade de corresponder às expectativas de virilidade, em uma relação dialética onde seu consumo marca a ausência de um atributo masculino esperado e ao mesmo tempo sua busca, reforçando a dita virilidade como um marcador social exigido deste gênero.

Cabe ainda destacar quanto às investigações do estudo que os discursos construídos acerca do Viagra se fundam no enaltecimento da prática sexual como fonte de felicidade, e que para tanto se centra primordialmente na penetração e na ereção. Os mecanismos para edificação desses discursos ora se voltam à medicalização da

sexualidade e ora se voltam à capacidade plástica do corpo, que se mostra pronto para ser modelado da forma que for necessária motivado pela busca de correspondência ao modelo adequado para satisfação do desejo. Essas questões, que antes eram localizadas mais comumente na esfera privada, têm então ampliada e insistente incidência na esfera pública.

Sohn (2011) remonta também ao século XX dois marcos significativos: a definitiva dissociação entre reprodução e sexualidade e a abertura dessa última a outros campos que não o sistema dos casamentos. Merece destaque ainda, para os propósitos da pesquisa, que se a juventude em pouco tempo já tem sua sexualidade legitimada, para as pessoas idosas o tema se mantém por muito tempo como um tabu, ocultado ou silenciado. Pelos progressos da saúde, que permitem o aumento na expectativa de vida, é que o recuo das práticas sexuais passa a ocorrer mais tardiamente na vida, possibilitando novas abordagens e um desvelamento dessa sexualidade.

As questões da potência sexual presentes na obra fazem emergir a discussão da organização da sexualidade, especialmente, no contexto do romance, pela já avançada idade do personagem. No entanto, o olhar atento sobre os discursos permite entrever que o que está em jogo vai muito além da ruptura do exercício da sexualidade fálica: é sua própria condição de homem que é questionada quando ele toma consciência de sua propensão à falha. Para aprofundar tal dinâmica, seguem-se considerações sobre o conceito de virilidade que permitem apreender o movimento de formação da identidade masculina e sua dependência da potência fálica.

A virilidade, oriunda da virilitas romana, elabora um modelo de homem, consagrado por sua grandeza física, moral, sexual e psicológica; “o viril não é simplesmente o homem: ele é antes ideal de força e de virtude” (Vigarello, 2013).

Pressupõe uma medida de valor, em que o status é conferido àquele que representa o masculino da melhor forma possível. Busca de perfeição que carrega uma severa tradição, em que a falha é uma ameaça de desmoronamento. É o caráter de ideal inalcançável dessa expressão de subjetividade que instaura a vulnerabilidade que a acompanha; qualquer deslize pode comprometer a identidade que vinha sendo forjada. Sublinha-se aqui que o homem viril romano é aquele em posse de sua maturidade, não o adolescente e nem o velho, homem bem desenvolvido e sadio, em pleno funcionamento de seu corpo. Além disso, o homem viril só pode corresponder ao cidadão romano, elite do corpo cívico, membro ativo das atividades políticas (o escravo não é considerado um homem viril).

Como pontuado por Vigarello (2013), o modelo de virilidade proposto pelos romanos foi sendo modificado através dos tempos, visto que é uma construção histórico- social e por isso é reelaborado diante das transformações ocorridas na comunidade. No entanto, subsiste o ideal do viril como medida do homem: o valor conferido a ele socialmente dependerá de sua capacidade em satisfazer as expectativas ditadas por esse modelo. Simbolicamente, a afirmação da virilidade é testemunha de uma potência, símbolo da capacidade do homem de se portar como tal na sociedade de que faz parte.

É nesse contexto que a virilidade, como atesta Bourdieu (2002), se configura como parte de um sistema de economia simbólica. De acordo com o autor,

O mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e de divisão sexualizantes. Esse programa social de percepção incorporada aplica-se a todas as coisas do mundo e, antes de tudo, ao próprio corpo (Bourdieu, 2002, p. 14).

Assim, está inscrito no corpo esse sistema de valores socialmente forjado. E nesse corpo masculino, destaque para o valor conferido ao falo:

A virilidade, em seu aspecto ético mesmo, isto é, enquanto quididade do vir, virtus, questão de honra (nif), princípio da conservação e do aumento da honra, mantém-se indissociável, pelo menos tacitamente, da virilidade física, através, sobretudo, das provas de potência sexual (...). Compreende-se que o falo, sempre presente metaforicamente, mas muito raramente nomeado e nomeável, concentre todas as fantasias coletivas de potência fecundante (Bourdieu, 2002, p.

16).

Uma vez que se trata de um sistema econômico, valorativo, e por isso hierárquico, esse falo não pode ser representativo do vigor e da potência em seu estado flácido; é a ereção sua condição de apresentação, voltada para cima, demarcando seu lugar elevado numa escala socialmente determinada. Há também nesse sentido o vínculo, reafirmado na psicanálise, entre o falo e o logos. Rancière (1996) destaca que o logos, vocábulo grego que refere-se primeiramente à palavra escrita ou falada, vai tendo seu sentido aproximado da ideia de razão. Assim, é possível compreender o termo, nas condições de seu uso na sociedade grega, como a palavra dotada de sentido. Remete à capacidade do homem de fazer-se ouvido, pontuar seus argumentos publicamente nas praças. Imprescindível demarcar que esse espaço público não é tão público assim: só pode fazer uso dele do modo descrito quem tem acesso ao logos, a saber: os indivíduos do sexo masculino, de condição social alta e que não fossem escravos ou imigrantes.

Logo, a condição do falo que dá acesso ao logos reflete um acesso ao discurso e tem assim seus efeitos: o uso dos espaços públicos e ativos é monopólio masculino, bem como a postura do corpo altiva, que se põe frente a frente, olhos nos olhos, e se posiciona para cima, tronco ereto. Essa inscrição corporal de uma hierarquia simbólica também pode ser percebida na apresentação que Foucault (2014c) faz da disciplina direcionada

aos corpos dos soldados, em que ela, de modo semelhante, demarca um lugar altivo, de autoridade e importância.

Retomando a obra, é visto que o protagonista é um homem às vésperas de completar noventa anos, jamais casado e que não declara em nenhum momento interesses reprodutivos, quer na época atual ou na juventude, e que admite que todas as relações sexuais em que se envolveu foram por meio da prostituição - mesmo que as próprias mulheres não quisessem receber dinheiro, ele fazia questão de fornecer o pagamento, posicionando a relação como uma troca de serviços. A chegada dos noventa o faz questionar sua capacidade de ereção, situação que lhe provoca muito sofrimento. Já nessa avançada idade é que começa a se encontrar com Delgadina no bordel de Rosa Cabarcas, também mediante pagamento, mas ao invés das práticas sexuais, ele observa a menina dormir, noite após noite. Aos poucos, a experiência do amor toma conta do personagem de maneira inesperada, posto que ele já não esperava grandes surpresas nessa fase da vida.

Essa dinâmica traçada no romance em relação à sexualidade será perscrutada ao longo dessa seção, com enfoque especial exatamente na ameaça da impotência sexual, que como um fantasma assombra o sujeito e causa o questionamento de sua autenticidade como homem. Introduz-se a análise com os acontecimentos iniciais da narrativa, em que o personagem no dia anterior de seus noventa liga para a conhecida de longa data Rosa Cabarcas e transmite o desejo: uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.

Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. (...) Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano (García Márquez, 2008, p 8).

É essencial para essa discussão o conceito de performatividade de gênero apresentado por Butler (2000). O conceito se refere à capacidade de um indivíduo de agir conforme a expectativa social de acordo com seu gênero: se é mulher, deve se apresentar e se portar como é esperado que uma mulher o faça; se é homem, deve obedecer ao mesmo critério. Retoma-se a constatação de Courtine (2013) de que o discurso não trata apenas de uma realidade linguística, e ultrapassa o conjunto das coisas que se diz por agregar gestos, imagens, práticas, modos de ser e se relacionar. Em concordância a isso, Butler (2000) descarta a caracterização da performatividade como ato singular e deliberado, e ao invés disso a insere numa prática reiterativa e discursiva. O sujeito como um todo é uma superfície a ser lida, e a partir de sua relação com a performatividade de gênero é que esse sujeito se insere na norma ou se afasta dela.

Voltando o olhar ao sujeito, é possível verificar um processo dialético de identificação e desidentificação também a partir das atribuições do gênero, de forma geral. Butler (2000) alerta que não há uma conformidade completa possível, há sempre um desvio quanto ao que é estipulado e que organiza as intervenções realizadas por parte do próprio sujeito ou de seu entorno para aproximá-lo do ideal. A corporalidade normativa deve ser constantemente construída, e a performatividade, constantemente vigiada, justificadas pela incapacidade de corresponder completamente ao modelo vigente. É nessa perspectiva que a subjetivação pelo gênero se dá pela identificação com o que é exigido, em que o sujeito se insere nas séries de práticas ofertadas, e também pela desidentificação, em que o sujeito se recusa e nesse movimento se coloca à margem.

Interessante notar no trecho inscrito a construção “machucado onde mais doía”. Que dor é essa a que se refere na fala? A possível perda da potência sexual aqui não denota um lamento pela limitação das experiências sexuais, mas denuncia algo mais profundo: a ameaça de perda de identidade masculina. Incapaz de proceder de acordo

com as condutas estabelecidas como normas para um homem macho, viril, o sujeito pode ainda se considerar um “homem de verdade”? Se o macho da espécie é aquele de quem é cobrado oferecer uma disponibilidade sexual constante, como continuar se adequando ao papel estabelecido quando não é mais possível arcar com essa oferta? Percebe-se, nesse contexto, uma identidade masculina subordinada a um ideal de virilidade, ideal que aqui só pode ser alcançado mediante a autenticação da potência fálica. O que desmorona com o fantasma da impotência não é somente a organização da sexualidade, mas como dito, da identidade; ser reconhecido como um homem adequado às prescrições de gênero requer a certeza da força fálica.

Também no trecho “Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo ?” é possível perceber o corpo e o sexo como resultado de construção e local de inscrição discursiva. O corpo que se exige aqui não é o natural - natural como um corpo que estaria pronto apriori, anterior à sua inscrição na cultura, sem necessidade de ser regulamentado e domesticado. Constata-se que o corpo e o sexo, mesmo em face de sua materialidade, tampouco se constituem como uma realidade pré-discursiva. É o discurso concernente à performatividade de gênero que apresenta o ideal a que os corpos devem regular-se; não há construção e apropriação do corpo anterior ao discurso. O corpo deve ser moldado, e feito isso, deve ser constantemente avaliado; nas leituras feitas dele é que é posta à prova sua capacidade de adequação à norma. Caso falhe, seu lugar é destinado junto daqueles que também não foram capazes de se inserir socialmente como previsto.

Badinter (1993) discute essa formação da identidade masculina vinculada à adequação a uma concepção de virilidade, concepção essa que, como todos os elementos da cultura, é efeito de uma construção. A autora em alguns momentos enfatiza a necessidade de se passar por uma prova de virilidade para que se possa merecer o título de homem. Afinal, como declarado por Bourdieu e retomado por ela: “Para louvar um

homem, basta dizer que ele ‘é um homem” (Badinter, 1993, p. 4-5). Em seus estudos antropológicos, a pesquisadora encontrou tribos que se organizam de forma concreta em torno da necessidade de provas de virilidade. São esses rituais trabalhosos, dolorosos e algumas vezes de longa duração - há tribos em que o jovem do sexo masculino deve passar quinze anos afastado de sua família, participando de cerimônias, para conseguir provar-se como homem. Ser um homem viril, legitimamente reconhecido, demarca uma posição de poder, prestígio e respeito; dessa forma, os sujeitos desejosos de ocupar esse lugar devem mostrar que possuem o vigor físico e moral que os torna merecedores de ocupá-lo.

Nas sociedades modernas, a ideia de prova da virilidade não é tão literal: não se exigem rituais do menino, ou ele não será fisicamente excluído do contato com seus próximos caso não seja capaz de cumprir os requisitos estabelecidos. No entanto, é claramente exigido uma certa performatividade do sujeito, e que longe de se restringir a um intervalo de tempo ou etapa da vida, acompanha-o por todo o tempo, reforçando que a alcunha de homem deve ser continuamente honrada, sob o risco de perda da altivez simbólica que tal posto prevê. Assim, como esclarece Badinter :

Nosso linguajar cotidiano trai nossas dúvidas, quem sabe até nossa preocupação, ao se referir à masculinidade como a um objetivo e um dever. Ser homem se diz mais no imperativo do que no indicativo. A ordem “seja homem”, tão frequentemente ouvida, implica que isso não é tão evidente e que a virilidade não é, talvez, tão natural quanto se pretende (...). Dever, provas, provações, estas palavras dizem que há uma tarefa real a cumprir para tornar-se homem. A virilidade não é dada de saída. Deve ser construída, digamos “fabricada”. O homem é, portanto, uma espécie de artefato e, como tal, corre sempre o risco de apresentar defeito (Badinter, 1993, p. 3-4).

Bourdieu (2002) confirma o exposto, demonstrando que o privilégio masculino se configura como uma grande cilada, pois traz a contrapartida de uma permanente tensão que beira o absurdo e que é motivada pela necessidade de afirmação da virilidade a todos os momentos. A virilidade que é então, sobretudo, uma carga. Na ocasião em que falhe ao se provar como homem, ele se aproxima do feminino, que, como pontuado, não tem espaço na esfera pública e não pode atestar por sua honra. Portanto, é acompanhada de grande dose de medo e angústia que se dá a exaltação dos valores masculinos.

Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. Lá pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo. Até os cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel (García Márquez, 2008, p. 16).

No excerto, salienta-se a declaração do registro das mulheres com quem se relacionou. É notável como ele se interessa por realizar tal empreendimento, e mais ainda como ele persiste na tarefa, a ponto de aos cinquenta anos ter documentado informações relativas a quinhentos e catorze mulheres com quem esteve. O número hiperbólico a que chega demonstra que proceder com tal registro reivindicou certo tempo e dedicação, o que significa que há uma importância para ele nesse arquivo. Não há sugestões de que esse texto tenha sido compartilhado com outras pessoas, o que leva a supor que é para ele próprio que importa ser lembrado de sua potência fálica e do frequente e diversificado exercício de sua sexualidade.

Corbin (2013) analisa alguns textos, publicados ou trocados por meio de correspondências com outros homens, que se dedicam a manifestar as atividades sexuais performadas. Na maioria das vezes, traziam com riqueza de detalhes informações sobre as mulheres e as práticas efetuadas. O autor reconhece nesses relatos a necessidade de comunicar aos pares a posse de mulheres - manter relações com uma mulher era visto como um equivalente a possuí-la - , seu empenho e vigor, suas aventuras. O sentimentalismo é desprezado, visto que o foco recai nas conjunções carnais. Afirma o autor: “A necessidade de foder é considerada, na intimidade masculina, um elemento constitutivo essencial da virilidade. Ela justifica comportamentos audazes e lascivos” (Corbin, 2013, p. 154). No caso do personagem, o registro de atividades, contendo algumas especificações de conteúdo, se insere nessa dinâmica que incentiva aos homens uma manifestação de energia sexual como comprovante quase indiscutível de seu estatuto de macho viril.

Tendo isso em vista, pode-se concluir que a diminuição de suas práticas sexuais, motivada pelo envelhecimento do corpo, é algo que o atinge como um golpe e leva a questionamentos sobre seu valor, sua identidade, sua serventia no mundo. A decisão de abandonar o registro escrito, já que não haveria o risco de perder as contas, revela simbolicamente a morte da construção de um dado sujeito: o que estava presente naquelas narrativas se encerra, não são feitos acréscimos ao texto, o que há é a necessidade de conformação de que não se pode mais ser o homem que um dia foi.

Algumas vezes pensei que aquelas contas de camas seriam uma boa base para uma lista das misérias da minha vida extraviada, e o título me caiu do céu:

Memória de minhas putas tristes. Minha vida pública, em compensação, carecia