Após a aplicação da Oficina do Banco Imobiliário, iniciamos o planejamento da próxima oficina. Desta vez, a professora sugeriu algo relacionado à Matemática presente em situações de compras em supermercados. Sendo assim, planejamos a oficina que, mais tarde, foi denominada Oficina do Mercadinho da escola A. Para a elaboração e aplicação dessa atividade, a professora sugeriu que trabalhássemos com os professores que compunham o quadro de pessoal da EI.
Professora: eu queria conversar com você primeiro, eu queria fazer com que essa oficina fosse só com os professores da Educação Integral, porque a oficina anterior só tinha eu como professor da Educação Integral (trecho em áudio – entrevista).34
Isso posto, começamos o planejamento da Oficina do Mercadinho. A organização dessa atividade, com o passar das reuniões, ganhou uma dimensão muito maior, visto que havíamos pensado, inicialmente, em uma oficina que duraria em torno de duas a três aulas. No entanto, fomos percebendo que, a partir da oficina, poderíamos trabalhar outros temas importantes. Dessa forma, durante as reuniões de planejamento, dividimos a oficina, que tinha como tema inicial o supermercado, em cinco outras oficinas, que são:
Oficina 1 – Introdução ao mercadinho; Oficina 2 – O sistema monetário;
Oficina 3 – Organização dos setores do nosso supermercado; Oficina 4 – Orçamento;
Oficina 5 – Indo às compras.
33 Entrevista pós aplicação da Oficina do Banco Imobiliário realizada no dia 15/05/2017 – Ver apêndice I. 34 Trecho do áudio durante o planejamento da Oficina do Mercadinho.
94 A primeira oficina, chamada oficina 1, foi uma atividade que tinha como propósito inserir os alunos dentro de um supermercado e explicar a eles alguns aspectos não tão óbvios relacionados, por exemplo, à distribuição dos produtos nas prateleiras (por que alguns produtos ficam na parte de baixo das prateleiras e outros ficam na parte de cima? – é um exemplo de pergunta que suscitou alguns discussões em sala de aula).
Durante o planejamento, procuramos destacar os supermercados existentes na cidade de Ponte Nova – MG, a lógica de organização dos produtos de um supermercado, e também contextualizar as mercearias ou mercadinhos que existem nos bairros dos alunos. Em relação à Matemática, destacamos a forma espacial e a planificação de algumas embalagens que parecem sólidos conhecidos. Enfatizamos, também, as medidas de capacidade e de massa de algumas embalagens, uma vez que a professora tinha começado a trabalhar esses conteúdos no ensino regular.
Outras finalidades para essa oficina 1 também foram delineadas, como ensinar os alunos a interpretar as outras informações nos rótulos das embalagens: data de fabricação, data de validade, as informações da tabela nutricional. Outra intenção da oficina era conscientizar os alunos em relação ao consumo consciente, mostrando a eles a importância da utilização das sacolas retornáveis e a importância da compra de alimentos ou produtos com menos embalagens, enfatizando assim os impactos que esses produtos geram no meio ambiente. Estas últimas partes seriam planejadas e ensinadas pelos outros professores da EI, no caso, o professor de Economia Solidária e outra professora do Macrocampo Acompanhamento Pedagógico. Mas, infelizmente, o que era para ser um planejamento em conjunto, entre mim, Júlia e esses professores, acabou sendo um planejamento entre duas pessoas, a professora participante e o pesquisador.
Dessa forma geral, a aplicação da oficina, de certa forma, foi prejudicada, uma vez que a segunda parte da oficina 1, que seria apresentada por esses dois professores, passou a ser apresentada por Júlia. No primeiro momento da aplicação da oficina, a outra professora do Acompanhamento Pedagógico juntou-se a nós, e nos ajudou durante essa primeira parte. Sua ajuda se restringiu a algumas explicações e imposição de disciplina aos alunos. No entanto, a explicação pormenorizada da primeira parte da oficina 1 para os alunos e o encorajamento dos mesmos para o diálogo em relação à contextualização feita durante a atividade foram feitos nós (professora-pesquisador).
Infelizmente, o desejo que os outros professores, incluindo ela, dessem continuidade ao tema trabalhado em seus planejamentos, posteriormente à aplicação dessa oficina 1, não foi
95 realizado. Júlia foi a única que planejou, em parceria conosco, outras suboficinas. Após a realização dessa suboficina, a professora concedeu uma entrevista35 na qual revelou suas impressões do processo até aquele momento.
Uma delas foi a suboficina do Sistema Monetário – Oficina 2 – que começou a ser elaborada a partir de uma ideia incipiente mencionada durante uma reunião, segundo a professora:
Professora: Na oficina do Banco Imobiliário nós trabalhamos o tempo todo com o dinheiro e não falamos da origem da moeda.
Pesquisador: depois dessa parte do consumo consciente podemos colocar uma oficina do sistema monetário.
Professora: não sei, ué, eu não sei ué, tinha que ser antes de etiquetar e organizar o nosso mercadinho, porque dar preço é a utilização do sistema monetário (trecho em áudio – entrevista).36
Esta oficina foi planejada por nós, e aplicada somente pela professora participante. Ela tinha como intuito mostrar a origem do dinheiro e os motivos que levaram à existência da moeda, bem como mostrar e contextualizar, de forma rápida, as moedas existentes no Brasil. Além disso, a oficina tinha outro objetivo – explicar os números decimais através da analogia com o sistema monetário atual do Brasil, o real.
Já a terceira suboficina – Oficina de Organização dos setores do nosso mercadinho – tinha como objetivo relembrar conceitos apreendidos na Oficina 1, para ajudar na elaboração e arrumação dos setores do mercadinho que seria feito na sala de aula, em lugar específico da sala. A suboficina número 4 – Oficina do Orçamento – foi elaborada com a finalidade de ensinar os alunos a fazerem um orçamento dos itens que possivelmente suas famílias compram. Para organizá-la, a professora propôs levar os alunos ao laboratório de informática e criar uma tabela que conteria os itens a serem adquiridos, a quantidade, o valor de cada item e o valor total do orçamento. Aqui a professora trabalharia com os alunos as operações de adição e multiplicação dos números decimais. Para a última suboficina – Indo às compras – a proposta era criar uma dinâmica, em sala, como se fosse um mercadinho, com caixa registradora e embalagens de produtos vazios. A ideia, aqui, era utilizar o produto da oficina 3, além disso, trabalhar outras operações de números racionais que não foram praticadas durantes as oficinas, como a operação de subtração.
35 Entrevista pós aplicação da primeira suboficina do Mercadinho realizada no dia 28/06/2017– Ver apêndice J. 36 Trecho da discussão para a elaboração da oficina do mercadinho.
96 Após a aplicação da terceira suboficina, realizamos uma entrevista final (Entrevista final realizada no dia 12/07/2017– Ver apêndice k), com o intuito de saber as impressões da professora sobre todo processo de pesquisa. No próximo capítulo, passamos à análise dos dados coletados.
97
CAPÍTULO 5 ANÁLISE DOS DADOS
Apresentamos uma descrição do processo de construção e aplicação das oficinas, bem como a caracterização dos momentos em que as entrevistas foram utilizadas como técnicas de coleta de dados. Partimos, agora, para a análise das informações reunidas.
Este capítulo está dividido em três subseções, sendo que a primeira contém a análise da primeira entrevista (entrevista que iniciou o processo de pesquisa), e a segunda apresenta uma análise dos dados coletados nos outros momentos da pesquisa descritos no capítulo quatro. A última parte é uma síntese da análise apresentada.
As análises apresentadas aqui, a partir dos dados, se voltaram para os indícios de Desenvolvimento Profissional da professora que, por sua vez, foram desvelados a partir das mudanças na sua forma de agir. Isso foi evidenciado a partir dos relatos relacionados, por exemplo, ao planejamento da Oficina de Beleza Rara, que a professora elaborou em parceria com uma profissional de beleza, e aos planejamentos das práticas anteriores, que também envolviam pessoas que não eram ligadas à escola. Outros indícios de desenvolvimento vieram da forma de pensar da professora, que nos revelou, em entrevista, que estava mudando suas ações no ensino regular. O engajamento/comprometimento profissional também foi outro sinal de Desenvolvimento Profissional, evidenciado por algumas atitudes, como o esforço pessoal para participar do projeto (deslocamento até à escola para se reunir com o pesquisador para planejarem ações da Oficina do Banco Imobiliário, durante a greve de professores, por exemplo). Isso só foi possível devido a um elemento disparador do Desenvolvimento Profissional que é o incômodo com a prática.
Compreendendo o professor como alguém que está inserido em um meio que o influencia e é por ele influenciado, é bastante razoável concluir que os fatores que interferem no seu Desenvolvimento Profissional são de ordem social, cultural, histórico, pessoal, institucional, afetivo e cognitivo. De acordo com Passos et al (2006, p. 196), esses fatores podem ser organizados em quatro polos:
Pessoal, que compreende tanto a relação do professor com ele mesmo, como sua história pessoal; o contextual, externo ao professor: institucional, organizacional e social; o do conhecimento profissional; e o existencial, que inclui motivações, desejos e propósitos morais.
98 Mesmo que em um primeiro momento nem todos esses fatores fiquem em relevo, no restante da análise eles surgem. A seguir, apresentamos dados da entrevista inicial e algumas análises.