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As comunidades de prática estão por todos os lados, seja em casa, no trabalho, na universidade etc. Muitas vezes, não percebemos, mas acabamos assumindo diferentes posicionamentos quando inseridos em diferentes contextos. Pode parecer estranho, mas não nos damos conta de que, ao mudar uma forma de pensar, uma postura, uma atitude e a maneira de conhecer as coisas para melhor nos adaptarmos a um contexto específico, estamos tentando nos inserir ao ambiente, ou seja, a uma comunidade de prática.

Wenger (2001) entende a aprendizagem como prática social e ressalta a importância da participação prática dos indivíduos nos meios sociais nos quais estão inseridos e, principalmente, nas infinitas identidades que o ser humano cria ao se relacionar em diferentes lugares. Para ele, “[...] uma teoria social de aprendizagem deve integrar os componentes necessários para caracterizar a participação social como um processo de aprender e de conhecer” (WENGER, 2001, p. 22, tradução nossa)70.

Para tanto, o autor caracteriza alguns componentes que, a seu ver, são importantes para esse processo. Vejamos a Figura 2:

Figura 2 - Componentes de uma teoria social de aprendizagem, extraída do livro Comunidades de práctica – aprendizaje, significado e identidade

70[…] una teoría social del aprendizaje debe integrar los componentes necesarios para caracterizar la participación social como un proceso de aprender y de conocer.

Aprendizagem como afiliação Aprendizagem como experiência Aprendizagem como fazer Aprendizagem como transformação

Fonte: Adaptada de Wenger (2001).

A figura acima foi utilizada pelo autor para explanar seu conceito de teoria social de aprendizagem. Esta figura apresenta elementos que estão interconectados e que se definem mutuamente, são eles:

1. Significado: uma maneira de falar de nossa capacidade – no plano

individual e coletivo – de experimentar nossa vida e o mundo como algo significativo;

2. Prática: uma maneira de falar dos recursos históricos e sociais, dos

marcos de referência e das perspectivas compartilhadas que podem sustentar o compromisso mútuo na ação;

3. Comunidade: uma maneira de falar das configurações sociais em que a

perseguição de nossos empreendimentos se definen como valiosa e nossa participação é reconhecida como competência;

4. Identidade: uma maneira de falar da mudança que produz a

aprendizagem em quem somos e de como criamos histórias pessoais de transformação no contexto de nossas comunidades. (WENGER, 2001, p. 22, tradução nossa)71

71Significado: una manera de hablar de nuestra capacidad – en el plano individual y colectivo – de experimentar nuestra vida y el mundo como algo significativo; Práctica: una manera de hablar de los recursos históricos y sociales, los marcos de referencia y las perspectivas compartidas que pueden sustentar el compromiso mutuo en la acción; Comunidad: una manera de hablar de las configuraciones sociales donde la persecución de nuestras empresas se define como valiosa y nuestra participación es reconocible como competencia; Identidad: una manera de hablar del cambio que produce el aprendizaje en quiénes somos y de cómo crea historias personales de devenir en el contexto de nuestras comunidades.

APRENDIZAGEM Comunidade

Significado

Identidade Prática

Todos esses quatro componentes propostos pela teoria social de aprendizagem podem ser vistos nas aprendizagens que o intercâmbio proporciona aos estudantes: a aprendizagem a partir da afiliação, quando eles se integram a uma comunidade (os argentinos querem ser brasileiros, e os brasileiros querem ser argentinos); a aprendizagem a partir das experiências que vivencia no país estrangeiro, por meio das quais pode (re)construir significados a partir de sua capacidade ao experimentar o novo como algo significativo; a aprendizagem como transformação, ou seja, a forma como os participantes vão se transformando e transformando suas identidades acerca do outro e; a aprendizagem como fazer, a partir dos marcos de referências que possuiam e as reais perspectivas compartilhadas ao longo da imersão.

Quando fala em comunidades de prática, Wenger é muito enfático em suas afirmações. Além de considerá-las “[...] uma parte integral da nossa vida diária” (WENGER, 2001, p.24, tradução nossa)72, o autor reitera que as

[...] comunidades de prática não têm nome e não expedem carnês a seus membros. No entanto, se durante um momento considerarmos nossa própria vida a partir dessa perspectiva, todos poderemos construir uma imagem bastante boa das comunidades de prática a que pertencemos agora, daquelas a que pertencemos no passado e daquelas a que gostaríamos de pertencer no futuro. (WENGER, 2001, p. 24, tradução nossa)73

Assim, o teórico defende que as comunidades estão presentes em todos os lugares e são tão informais a ponto de não possuírem uma única fonte de interesse. É a partir dessas perspectivas que consideramos o aluno intercambista: como um indivíduo imerso em um novo contexto de aprendizagem, ou, melhor dizendo, em um momento em que a aprendizagem da língua adicional se intensifica, e ele se vê desafiado a ter que desenvolver na linguagem e pela linguagem novas práticas dentro de um ambiente desconhecido (ou que ele imagina que desconhece).

O conceito de prática não se limita à noção de praticar algo em si mesmo e para si mesmo. É muito mais do que isso. É levar em consideração não somente os aspectos explícitos dos significados, como também os implícitos. Para o autor, o

72“[…] una parte integral de nuestra vida diaria.”

73“[…] comunidades de práctica no tiene nombre y no expide carnés a sus miembros. Sin embargo, si durante un momento consideramos nuestra propia vida desde esta perspectiva, todos podremos construir una imagen bastante buena de las comunidades de práctica a las que pertenecemos ahora, de aquellas a las que pertenecimos en el pasado y de aquellas a las que nos gustaría pertenecer en el futuro.”

conceito de prática conota o sentido de “[...] fazer algo apenas para si mesmo e por si mesmo; é fazer algo em um contexto histórico e social que outorga uma estrutura e um significado ao que fazemos” (WENGER, 2001, p. 71)74. Desse ponto de vista, o sentido da prática é sempre a do sentido social.

O pesquisador ainda defende seu ponto de vista ao mostrar que seu conceito não está atrelado a nenhuma das dicotomias tradicionais que separam os significados das ações em partes pré-fixadas, ou seja, separam o concreto do abstrato, o manual do mental, o fazer do dizer. Para ele, não existem dicotomias: as comunidades de prática incluem tudo e estão em toda parte. (WENGER, 2001)

Para esta investigação, enxergar o participante do intercâmbio como um articulador de práticas sociais é vê-lo como um experienciador de novos significados, entre aos quais estão atrelados diversos fatores significativos para a construção de uma grande identidade regional. Ao estar inserido em outro lugar, é pela linguagem que o indivíduo frequentemente realiza negociações de significação entre as experiências que possui com aquelas que está a experenciar. Wenger contribui com essa ideia ao refletir que

[...] tudo o que fazemos ou dizemos poderá fazer referência ao que tenhamos feito ou dito no passado e ainda assim voltamos a produzir uma nova situação, uma nova impressão, uma nova experiência: produzimos significados que ampliam, desviam, ignoram, reinterpretam, modificam ou confirmam – em uma palavra, que voltam a negociar – a história de significados da que formam parte. (WENGER, 2001, p. 77)75

Nesse sentido, a participação de intercambistas em novas comunidades de prática por eles vivenciadas colabora na formação das infinitas negociações de significados por eles praticadas durante o tempo de imersão ao país estrangeiro e, diretamente, os estimula a enxergar o outro não como alguém diferente, e sim, como alguém próximo, semelhante. Os programas de intercâmbio, ao estimularem a inserção do participante em novos contextos socioculturais, possibilitam aos participantes novas aprendizagens e também a se (re)conhecerem como parte de uma grande comunidade de prática, que aqui denominamos como uma comunidade

74“[…] hacer algo apenas para sí mismo y por sí mismo; es hacer algo en un contexto histórico y social que otorga una estructura y un significado a lo que hacemos”

75“[…] todo lo que hagamos y digamos podrá hacer referencia a lo que hayamos hecho o dicho en el pasado y aun así volvemos a producir una nueva situación, una nueva impresión, una nueva experiencia: producimos significados que amplían, desvían, ignoran, reinterpretan, modifican o confirman – en una palabra, que vuelven a negociar – la historia de significados de la que forman parte.”

de prática mercosulina. Como o próprio Wenger afirma, “[...] o significado não existe em nós e nem no mundo, senão na relação dinâmica de viver no mundo” (WENGER, 2001, p. 79, tradução nossa)76. E os participantes de nossa investigação puderam vivenciar tudo isso.

No próximo capítulo, a fim de melhor esclarecer os processos utilizados ao longo de nossa investigação, trataremos de apresentar os delineamentos metodológicos utilizados para a elaboração desta pesquisa.

76“[…] el significado no existe en nosotros ni en el mundo, sino en la relación dinámica de vivir en el mundo.”

3 METODOLOGIA

Neste capítulo, apresentamos, primeiramente, a metodologia desta investigação, que é de natureza qualitativa e apresenta como instrumento de geração de dados diferentes técnicas qualitativas, compostas de entrevistas semiestruturadas, registros equivalentes a um diário de viagem, grupos focais e uma reunião de encerramento do projeto, que deu origem a informações e impressões que utilizaremos como diário de campo. O campo de investigação engloba o total de 28 alunos que participaram (17 brasileiros e 11 argentinos) do Programa de Formação de Professores de Português e Espanhol desenvolvido através do projeto de cooperação entre a Universidad Nacional de Cuyo/Argentina e UNISINOS/Brasil. O grupo de participantes para fins de análise desta investigação equivale a uma amostragem de quatro desses alunos participantes (dois brasileiros e dois argentinos, ambos do último semestre do projeto) e mais duas coordenadoras (uma brasileira e outra argentina), responsáveis pela elaboração e execução do projeto. A escolha desses participantes circunscreveu-se a apenas seis pessoas devido ao fato de este estudo começar no último ano de andamento do projeto e, também, por acreditarmos que, nessa fase, as coordenadoras do projeto teriam uma visão do todo, podendo contribuir com reflexões mais significativas para nossa investigação. Além disso, o acompanhamento dos participantes se deu por este pesquisador. Os dados foram gerados da seguinte forma:

a) ao longo do último semestre do projeto, 2015/2: entrevistas com quatro alunos – dois argentinos e dois brasileiros -, relatório de viagem e uma reunião de encerramento do projeto com a coordenadora da argentina, em visita à universidade brasileira, juntamente com cinco ex-intercambistas brasileiros que se dispuseram a participar e três intercambistas argentinos que realizavam o intercâmbio naquele semestre e;

b) durante o primeiro semestre de 2017: grupos focais com os ex- intercambistas e entrevistas com as coordenadoras do projeto na Argentina e no Brasil. Em relação aos alunos e coordenação da universidade argentina, para que os dados pudessem ser gerados foi realizada uma viagem investigativa até a Universidad Nacional de Cuyo, localizada na cidade de Mendoza/Argentina. Com exceção do diário de viagem,

preenchido semanalmente pelos intercambistas ao longo da imersão no país estrangeiro em forma de questionário, todas as entrevistas semiestruturadas e a reunião de encerramento do projeto foram gravadas em áudio e transcritas. Os grupos focais também foram gravados em áudio e depois, transcritos.

Para fins de esclarecimento, o presente trabalho não necessitou ser submetido à Comissão de Ética da UNISINOS, uma vez que pertence a um projeto maior, intitulado como “Ensino de língua(s) e formação de professores em cenários multilíngues no âmbito do MERCOSUL: representações, identidade(s) e letramento(s)”, coordenado pela professora Dra. Dorotea Frank Kersch, orientadora desta pesquisa, que já havia sido aprovado pelo CEP.