A evolução das Arquiteturas de Terra viveu épocas que foram chave para o seu progresso tecnológico e disseminador que marcaram gravemente a história do abrigo, da arquitetura e do Homem. Essas eras calcaram diversos momentos temporais de referência, quer pela propagação das suas metodologias ou inovação técnica, representando o arquétipo da construção de uma determinada geração ou império. De acordo com os estudos ocidentais sobre a origem e processos da terra enquanto material construtivo, a sua aplicação é reconhecida desde há cerca de onze mil anos, reconhecido como o momento em que a humanidade se começou a assentar em conjunto, sendo a terra crua um dos principais materiais utilizados na construção, paralelamente, por todo o planeta. Os registos
arqueológicos que sobreviveram até hoje, materializados com este recurso, comprovam-no em inúmeros casos.
Atendendo a que os períodos da Revolução Industrial significaram uma progressão tecnológica e científica que vieram alterar seriamente os paradigmas da construção daí em diante, evoluindo gradualmente as metodologias artesanais e substituindo-as por mecanismos automatizados por combustão, descrevem-se duas fases utilizando este momento como charneira de ambas, representando por um lado, os tempos tecnologicamente mais rudimentares pré-industriais, e, por outro, o processo evolutivo da arquitetura com terra, já associado a uma visão mais tecnológica, pós-Industrial.
Segundo uma introdução histórica pela arquiteta Maria Fernandes, nos Encontros sobre Construção Sustentável: Construção com terra, organizado pela Fundação Serralves em parceria com a Associação Centro da Terra, em abril de 2016, na evolução das Arquiteturas de Terra registaram-se seis grandes momentos de referência. Representando os tempos que antecederam a descoberta da combustão por carvão, representam-se três épocas de referência na difusão da construção em terra: os Hieróglifos Egípcios, a Romanização Vitruviana e a Colonização Europeia. Quanto à fase articulada com as perspetivas industriais a partir do século XVIII, a inovação e divulgação deste tipo de arquitectura revelou-se essencialmente por intermédio de três personalidades: François Cointeraux através dos seus manuais de construção; Hassan Fathy com o relato das suas experiências no Egito rural; Jean Dethier pela sua obra e exposição das Arquiteturas de Terra, no Centro Pompidou, Paris. Finalmente, optou-se por desvincular o tempo desde o pós-modernismo, relatando um novo momento de reapreciação e revalorização da terra como recurso construtivo, herança cultural e solução sustentável, sentido especialmente no século XXI.
1.3.1.1 Pré-Industrialização
Foi em simultâneo com o prosperar de algumas civilizações que a propagação e evolução da construção com terra mais se desenvolveu. A arquitetura é uma disciplina que sempre se mostrou capaz de revelar as características de uma cultura e o seu carácter tecnológico, sendo que, no âmbito da Arquitetura de Terra, foram os povos egípcios, romanos e ibéricos (navegadores) os principais responsáveis pelo desenvolvimento e disseminação deste material e respetivas metodologias de aplicação. Estas nações tiveram à sua responsabilidade os momentos de maior referência na globalização da construção com terra, levando consigo as suas técnicas construtivas pelas expedições, conquistas e trocas comerciais que realizavam.
Embora se mostre também relevante salientar o período do Calcolítico, o culminar tecnológico do Neolítico, como o primeiro dos maiores momentos de referência da evolução da construção com terra é, mais tarde, a partir do segundo milénio a.C., no Egito que este é mais evidente, através dos registos que, efetivamente, se fizeram chegar até hoje. A técnica construtiva de adobe, um sistema de alvenaria portante constituído por blocos paralelepipédicos de terra misturada com palha preparada num molde, é uma das mais antigas na história da Arquitetura de Terra e mais utilizada mundialmente, até aos nossos dias, tendo servido como o alicerce da construção nas civilizações egípcia e da Mesopotâmia (DETHIER, 1993, pp. 45-47). No entanto, apesar de se acreditar que esta metodologia, tecnologicamente revolucionária na sua época, tenha originado algures nestas regiões do Crescente Fértil, o povo egípcio ganha enfoque pelos registos que se fizeram chegar até à data, do desenvolvimento tecnológico da arte de construir com terra, e respetiva difusão, seja através do património edificado, como pelas suas representações hieroglíficas, onde descrevem os processos envolvidos (TORRES, 2005, p. 12). O adobe traz consigo uma infinidade de soluções formais, que, em conjunto com o seu fácil manuseamento e geometria específica, se fizeram espalhar e progredir ao longo das rotas comerciais, continentais e marítimas.
Mais tarde, o Império Romano, dominando todo o território mediterrânico, adotava também um pouco de cada cultura que conquistava, propagando-as pela sua área de poderio. Embora numa era tecnológica completamente diferente, os romanos dominavam também a construção com terra. Vitrúvio surge nesta época e nação, comprovando o valor deste material na construção romana, explicando detalhadamente os processos de emprego destes blocos de alvenaria de terra, que se imortalizaram no Capítulo III do Livro Segundo do seu tratado De Arquitectura (RUA, 1998, pp. 34-35). Por todo o território latino e com o qual este se relacionava, os fenómenos de aculturação fizeram-se sentir, transmitindo os seus conhecimentos por todo o seu império, como foi o caso da Península Ibérica, mais propriamente no território Al-Andaluz, onde a influência islâmica antecedente e a predisposição material, viabilizaram significativamente o incremento e o aperfeiçoamento das Arquiteturas de Terra (TORRES, et al., 1995, p. 168). A região ibérica, onde posteriormente se estabeleceram Espanha e Portugal, de ilustres navegadores, exploradores e mestres na construção com terra, teve um papel assaz importante. Estas civilizações – principalmente a espanhola – foram as principais responsáveis pela disseminação da arte de construir com este recurso, numa fase final, anterior à industrialização, implementando-a nas suas colónias.