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5. Drøfting og konklusjoner

5.5 Konklusjoner

5.5.1 Implikasjoner for videre arbeid

A próxima obra de ficção, após Marcovaldo, será Le cosmicomiche, de 1965, obra que abre o período mais experimental da literatura de Calvino, em que as ciências se tornam ponto de partida, principal núcleo e princípio organizador da produção narrativa. Por mais de 20 anos Calvino dedicou-se a escrever suas cosmicômicas, espécie de ficção cômico-científica ao contrário (ao invés do futuro, cria possibilidades imaginárias de passado), eivada de tons oníricos; ciência e ficção, cada qual labirinto em que se perde a outra, são conteúdos de reflexão e formas literárias do mundo contemporâneo; entrelaçando-as, Calvino busca traçar um mapa (entre os tantos possíveis) do “labirinto gnoseológico cultural”167, espaço incognoscível in toto em que se move o homem contemporâneo. Fiel a sua idéia de que existe uma relação lógica entre a realidade e os signos com os quais a representamos168, a literatura é para ele “uma série de tentativas de conhecimento e

167

CALVINO, I. “La sfida al labirinto” (1962), in Una Pietra Sopra, op. cit., p. 96. Trad. bras., p. 115.

168 Essa conceituação que Calvino faz de literatura aparece algumas vezes tematizada

metaliterariamente no âmbito das reflexões do próprio Qfwfq (um Qfwfq-Calvino neste caso), como no trecho a seguir: “em um instante compreendi que com aquilo que parecia um casual amontoado de palavras eu havia tocado uma reserva infinita de novas combinações entre os signos de que a realidade compacta e uniforme se serviria para travestir sua monotonia, e talvez a corrida em direção ao futuro, aquela corrida que eu por primeiro havia previsto e desejado, não tendia, através do tempo e do espaço, a nada além de um esboroar-se em alternativas como essas (...)”. “Quanto scommettiamo”, in CALVINO, I. Le Cosmicomiche. In MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino - romanzi e

classificação das informações sobre o mundo, tudo muito instável e relativo, mas, de qualquer modo, não inútil”169.

A publicação de Le Cosmicomiche, em 1965, confirma que a organização em uma arquitetura narrativa pouco convencional (módulos autônomos sob uma moldura), inaugurada com Marcovaldo, não fora um experimento casual. As doze “cosmicômicas” apresentam-se semelhantes a “contos” ou a “capítulos” (não sequenciais) de um romance; mas não são exatamente nem uma coisa nem outra. São doze variações em torno de um tema: a evolução de um personagem não- humano de nome impronunciavelmente palíndromo, “Qfwfq”. Como já em

Marcovaldo, as narrativas podem ser lidas em qualquer ordem, não há uma

sequência obrigatória, apenas os fragmentos autônomos que podem ser combinados em qualquer ordem e que na leitura final somam-se, embora não cheguem a produzir uma “impressão de romance”. Qfwfq conta sua própria experiência “evolutiva” desde “antes” da criação do universo até épocas não muito bem definidas no tempo (tal “indefinição” inclui, secundariamente, até o século XX). Eis como exemplo o início da quarta narrativa:

Tudo em um ponto

Através dos cálculos iniciados por Edwin P. Hubble sobre a velocidade de afastamento das galáxias, pode-se estabelecer o momento em que toda a matéria do universo estava concentrada em um único ponto, antes de começar a expandir-se no espaço. A ‘grande explosão’ (big bang) da qual teve origem o universo teria acontecido há cerca de 15 ou 20 bilhões de anos atrás.

É claro que estávamos todos ali, - disse o velho Qfwfq, - e onde, se não ali? Que pudesse existir o espaço ninguém sabia ainda. E o tempo, idem: o que queriam que fizéssemos com o tempo, estando ali apertados como sardinhas?170

Todas as cosmicômicas têm uma primeira “moldura”, que é uma citação ou paráfrase de um axioma, de uma asserção, de um teorema; como diz Calvino, “de uma frase lida em um livro científico”171. A frase (seria melhor dizer “parágrafo”)

169

Entrevista a Madeleine Santschi, do jornal “Gazette de Lausanne”, 3-4 de junho de 1967, citado por Claudio Milanini in MILANINI, C. (Org.) Italo Calvino - romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. XXIII da “Introduzione”.

170 CALVINO, I. Le cosmicomiche. In MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino - romanzi e racconti. Vol. II,

op. cit., p. 118. Trad. bras., p. 47.

171

CALVINO, I. “Premessa a La memoria del mondo e altre storie cosmicomiche”, citado in MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino - romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. 1300. Na sequência à afirmação citada, Calvino especifica: “Geralmente se trata de livros de cosmologia, de física, de genética, mas poderiam nascer também de leituras mais abstratas, de matemática ou filosofia”. Idem, p. 1302.

aparece em itálico, abaixo do título. Logo após essa frase-moldura, entra em cena o personagem Qfwfq, comentando o tema anunciado pela moldura. Qfwfq é, portanto, o narrador em primeira pessoa; mas esse é somente mais um dos pequenos truques narrativos de Calvino: na verdade Qfwfq, embora narre em primeira pessoa, é um narrador secundário172, apresentado por um “narrador primário”, que aparece somente para apresentá-lo com uma frase do tipo: “exclamou o velho Qfwfq!”, ou “confirmou o velho Qfwfq!” (em itálico no original), e depois esse narrador primário - que pode ser considerado como uma segunda moldura - desaparece e toda a narração fica a cargo do “velho Qfwfq”.

Os temas de cada cosmicômica são independentes, de modo que a leitura não precisa ser feita na sequência em que aparece no livro (“Cada uma das suas aventuras é fechada em si”173, diz Calvino). De fato, uma possível sequência cronológica que acompanhasse a “evolução do universo” e dos seres exigiria uma reconfiguração total da sequência. A ordem de apresentação segue praticamente a ordem de composição174. A linguagem é um coloquial de (basicamente) dois níveis: um bastante informal, que aparece nos diálogos (em discurso direto ou indireto), e um médio, que aparece nas descrições/narrações. Mas essa distinção é apenas indicativa de um processo bem mais complexo; primeiro porque os textos foram escritos em épocas diversas, e por isso há variações consideráveis; depois, porque mesmo o “coloquial” é constantemente recheado de termos provenientes dos jargões técnicos das mais variadas ciências. Com relação ao título Calvino declara:

“O termo ‘cosmicômicas’ é de algum modo indicativo das minhas intenções. Combinando em uma só palavra os dois adjetivos, cósmico e cômico, procurei juntar várias coisas para mim importantes. No elemento cósmico para mim não entra tanto o apelo da atualidade ‘espacial’, quanto a tentativa de colocar-me em relação com algo de muito mais antigo. No homem primitivo e nos clássicos o sentido cósmico era a atitude mais natural; nós, ao contrário, para encarar as coisas grandes demais ou excelsas precisamos de uma tela, de um filtro, e essa é a função do cômico.”175

172 Guido Bonsaver, remetendo à terminologia de Gérard GENETTE (Figures III. Paris: Ed. du Seuil,

1972; primeira tradução italiana de Lina Zecchi: Figure III. Torino: Einaudi, 1976) chama esse narrador secundário de “hiponarrador autodiegético”, e de “narrador heterodiegético” a voz que apresenta Qfwfq; cf. BONSAVER, G. Il mondo scritto. Forme e ideologia nella narrativa di Calvino. Torino: Tirrenia Stampatori, 1995, p. 153.

173 Nota na contracapa da 1ª edição (Torino: Einaudi, 1965). 174

Exceção feita a “I Dinosauri”, escrita por último e “La spirale”, apenas retocada para a publicação, mas já escrita antes de “La forma dello spazio”. Calvino afirmou ainda que colocava “La distanza della Luna” na abertura, em posição de destaque, para fazer uma espécie de homenagem “aos poetas lunares da literatura italiana, de Dante a Ariosto a Leopardi”; citado por MILANINI, C. (Org.). Italo

Calvino - romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. 1323.

175 CALVINO, I. Premessa a La memoria del mondo e altre storie cosmicomiche, citado in MILANINI,

E explica também a gênese de suas cosmicômicas:

“A ciência contemporânea não nos dá imagens para representar; o mundo que nos abre está além de toda possível imagem. E, no entanto, para o profano que lê livros científicos (ou escritos de divulgação não vulgar, ou vozes de enciclopédia, como para mim, que sou apaixonado por cosmogonia e cosmologia), de vez em quando uma frase desperta uma imagem. Procurei assinalar algumas, e desenvolvê-las em contos: em um tipo especial de conto ‘comicósmico’ (ou ‘cosmicômico’). // “O procedimento das Comicósmicas [sic] não é o da Science Fiction (isto é, não o clássico - e que aprecio muito - de Jules Verne e H. G. Wells). // As Cosmicômicas têm atrás de si principalmente Leopardi, os comics de Popeye, Samuel Beckett, Giordano Bruno, Lewis Carroll, a pintura de Matta e em certos casos Landolfi, Immanuel Kant, Borges, as incisões de Grandville.”176

Em Le Cosmicomiche estão presentes, mesmo que muitas vezes desfigurados ou deformados pelas tintas do fantástico, os discursos da história, da filosofia e da ciência. A partir de Le Cosmicomiche, a literatura de Calvino amplia seus horizontes para além das fronteiras italianas; na verdade, abre-se para o universo, questiona a história do tempo e do espaço e a evolução da matéria, do homem e da consciência, avança hipóteses sobre os mitos (inclusive os “mitos científicos”) das origens. Na figura de Qfwfq, impronunciável, está o reflexo da própria impronunciabilidade da consciência; Qfwfq nada mais é, no princípio, do que uma consciência de ser - sem saber ainda o que é, mas apenas que é. Na medida em que vai evoluindo (não na mesma sequência do texto), vai se tornando algo, distinguindo-se do pulvísculo indistinto inicial, ganhando mais consciência. Talvez o primeiro ato de Qfwfq em direção à consciência seja (como para o escritor) traçar um sinal (“Un segno nello spazio” é o título da terceira narrativa, a preferida de Calvino177), para posteriormente reconhecer e ser reconhecido. Em um ensaio de 1964 - ou seja, durante a gestação do livro - Calvino afirma:

"Querendo representar em uma contraposição sintética a situação de hoje, poderíamos indicar de um lado a cultura que tem o seu eixo nas metodologias científicas e técnicas e que mira a uma construção de modelos de estrutura do real (sem um imediato interesse em uma ‘transformação do mundo’ e mesmo sem uma particular preocupação em salvar valores obliterados), de outro lado a cultura que tem o seu pólo naquela zona que quase às cegas psicologia, história das religiões, antropologia analisam, ou seja, o impulso da humanidade a encontrar sua plenitude através de violentas lacerações da relação com as coisas, através de configurações da vida individual e coletiva diversas daquelas que uma ideia racional de ‘progresso’ pareceria implicar (aqui é à recuperação de valores não somente pré-burgueses mas

176 CALVINO, I. “Note e notizie sui testi: Le Cosmicomiche”, in MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino -

romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. 1321.

177

Cf. “Note e notizie sui testi”, in MILANINI, C. (Org.). Italo Calvino - romanzi e racconti. Vol. II, op. cit., p. 1319.

até pré-históricos que se dirige a carga subversiva explícita ou implícita no programa de pesquisa)."178

Calvino parece confiar desconfiando das razões tanto de uma quanto da outra dessas visões antinômicas. Mais do que um estilo estético-literário, esse parece ser o estilo mental de Calvino. Sem dúvida, a ciência é um seu profundo interesse, mas ciência como possibilidade de conhecimento - exatamente como a literatura é possibilidade de conhecimento. E assim, a ciência torna-se possibilidade de literatura. Imagens suscitadas por leituras de textos científicos são o ponto de partida para devaneios da fantasia - tendo porém como eixo e medida sempre a dimensão humana, de uma consciência dialética que, embora disfarçada na tagarelice fanfarrona de Qfwfq, nunca perde de vista o drama do homem contemporâneo no labirinto social. Confirma essa tese a síntese elaborada pelo autor, à distância de 15 anos, no artigo “Sotto quella pietra” (1980):

“Os anos Sessenta são uma época de renovação do horizonte cultural, vista a inadequação do modo de conhecimento humanístico em compreender o mundo. Linguística, antropologia estrutural, semiologia: a sondagem desses territórios se faz sentir nos meus escritos dessa época, embora não me abandone a relutância de fundo de confiar-me inteiramente a um método que tenda a tornar-se sistema onicompreensivo. Prefiro dispor em torno de mim um conjunto de elementos díspares e não consolidados entre si: as ciências da natureza além das ‘ciências humanas’, a astronomia e a cosmologia, o dedutivismo e a teoria da informação. (...) E não por acaso, contemporaneamente à exploração das possibilidades expressivas das linguagens científicas, sustento a dimensão ‘cômica’, grotesca, da imaginação como a linguagem de mais alta confiabilidade enquanto a menos mentirosa.”179

Ciência, técnica, história, astrofísica, antropologia, biologia, genética, progresso, velocidade, são alguns dos temas considerados e elaborados literariamente por Calvino nessa obra. Em âmbito mais largo, considerando a série toda das Cosmicomiche, parece que à pretensão de conhecimento racional e definitivo da ordem do universo pelos olhos objetivos da ciência, Calvino expõe a característica que lhe parece mais inerente ao pensamento humano: o caos, numa forma que de maneira imediata lhe corresponde: o cômico (que não nasce jamais da ordem, mas sempre do acidente, do inesperado, do elemento de caos introduzido no

continuum da ordem180).

178 CALVINO, I. “L'antitesi operaia” (1964), in Una Pietra Sopra, op. cit., p. 102. Trad. bras., p. 124. 179

CALVINO, I. “Sotto quella pietra”, in La Repubblica, edição de 15 de abril de 1980.

180

Algo muito próximo ao “sentimento do contrário”, que é como Pirandello define o humorístico, em seu famoso ensaio “L’umorismo”.

Embora localizemos já em Marcovaldo o modelo modular hipertextual, são as

Cosmicômicas a verdadeira novidade na obra de Calvino nos anos 60: primeiro

porque confirmam o já ensaiado abandono do terreno político-ideológico, substituindo-o pelo sócio-antropológico; depois, pela temática, pela convergência de inúmeros interesses e formas e gêneros, das histórias em quadrinhos às artes plásticas, da biologia à cosmologia, da pintura à mitologia. Mas sem dúvida é o interesse pelas ciências – e sobretudo a adoção de temas, modelos, processos e linguagens da ciência, em função estética - que desempenha um papel fundamental no desvio poético de Calvino em direção a uma literatura nova, original, profundamente cerebral, calculada nos mínimos detalhes, geometrizada, matematicamente poética – que se verá já plenamente realizada ao final dos anos 60, e que continuará na década seguinte. A partir desse momento, interessam-lhe (das ciências como das artes) os modelos dinâmicos, o sistema de regras, as possibilidades combinatórias, os mecanismos lógicos181 que possam explicar e, se possível, tornar reprodutível uma configuração em um dado conjunto de elementos. Justamente o que lhe interessa também nas fábulas, como afirma em “Cibernetica e fantasmi”, cujo subtítulo é já extremamente indicativo: “Appunti sulla narrativa come processo combinatorio”. Nesse ensaio Calvino discorre sobre as possibilidades combinatórias não somente das limitadas funções narrativas nas fábulas (baseado nas conclusões de Vladimir Propp) e dos mitos dos índios brasileiros (baseado nos estudos de Lévi-Strauss), como também das narrativas em geral: narrativas populares, romances policiais, nouveau roman. Nesse ensaio, Calvino comenta e celebra a associação literatura-matemática e chega a sugerir uma máquina capaz de idear e compor poesias e romances, apenas permutando e combinando elementos pré-selecionados – processo que é a base de muitos de seus textos futuros, como veremos. Calvino escritor maduro é um ordenador compulsivo:

“Apreendendo que o escrever é somente um processo combinatório entre elementos dados (...) o que eu sinto instintivamente é um sentimento de alívio, de segurança. O mesmo alívio e sentimento de segurança que sinto toda vez que uma extensão de contornos indeterminados e indefinidos revela-se, ao contrário, como uma forma geométrica precisa, toda vez que, em uma avalanche disforme de acontecimentos, consigo distinguir séries de fatos, escolhas entre um número finito de possibilidades.”182

181 Cf. BERTONE, G. “Presentazione del convegno”, in Italo Calvino – la letteratura, la scienza, la

città. Atti del convegno nazionale di studi di San Remo. Genova: Casa Editrice Marietti, 1988.

182

CALVINO, I. “Cibernetica e fantasmi” (1967), in Una pietra sopra, op. cit., p. 173-174. Trad. bras., p. 207.

Eis aí, desnudado, um sentimento de Calvino, cujo reflexo é inteiramente projetado na narrativa: a fobia do infinito, do indeterminado, do disforme, do acaso183. O modelo, a regra, a ordem, a série, a sistematização, eis o que lhe interessa. Na literatura como na vida, o mesmo ideal: através de uma ordem mental sólida e complexa, transformar a desordem em multiplicidade ordenada, delimitada, restringida. Devido a essa atitude mental, mesmo no âmbito daquela espécie de bipolarismo dimensional de Calvino (eternamente oscilante entre o real e o fantástico), não há contradição entre seu interesse pela ciência e seu interesse pela fábula, pelo fantástico, pelo maravilhoso. Ambos os interesses são redutíveis a um denominador comum, a uma atitude mental: o encanto pelo mistério, pelo fantástico, pelo maravilhoso da ficção, mas também pelo maravilhoso da realidade – e pela possibilidade de explicá-los, de sistematizá-los em uma estrutura lógica. Certamente isso não significa transformar a literatura em ciência, mas, ao contrário, significa uma tentativa de fechar o ciclo hermenêutico da linguagem: a ciência, enquanto interpretação fenomenológica, através da linguagem, é possibilidade de conhecimento - exatamente como a literatura é possibilidade de conhecimento, através da “adoção de todas as linguagens possíveis, de todos os possíveis métodos de interpretação, que exprimam a multiplicidade cognoscitiva do mundo”184 – e a classificação dessa multiplicidade, como faz a ciência185. Desse modo, emprestando à ficção seus modelos matemáticos ou de linguagem, sua lógica e seu método, a ciência, para Calvino, torna-se efetivamente possibilidade de literatura, como afirma Gian Carlo Roscioni:

“a ciência era para ele, sobretudo em certas fases de sua vida e de seu trabalho de escritor, um problema literário (...). O seu problema era como utilizar os métodos e as linguagens da ciência, como traduzi-los em literatura.”186

A fórmula, originalíssima, encontrada para resolver tal problema, foi a “narrativa cosmicômica”, subgênero inventado por Calvino, tangente à ficção científica, de mesmo sentido mas com direção contrária: enquanto a ficção científica

183 Não por acaso, as mesmas fobias de seu alter-ego Palomar. 184 CALVINO, I. Una pietra sopra, op. cit., p. 90. Trad. bras., p. 109.

185 Como faz a biologia, como faz a botânica, como faz a ciência, em geral: estuda, conhece,

classifica, cataloga, sistematiza.

186

ROSCIONI, G. C. “Calvino editore”, in FALASCHI, G. (Org.). Italo Calvino – Atti del convegno

inventa o futuro, as cosmicômicas calvinianas reinventam o passado remoto, mantendo porém uma relação dialógica com o mundo contemporâneo.

As próximas obras ficcionais de Calvino serão Ti con zero (1967), La memoria

del mondo e altre storie cosmicomiche (1968), comprovando o quão importante foi

para Calvino o “fenômeno cosmicomiche”, ao qual se dedicou intensa – e quase exclusivamente – de 1964 a 1968. Apenas a última narrativa da década, Il Castello

dei destini incrociati (1969) assinala a abertura de um novo percurso; já dos anos 70, Gli amori difficili (1970), Le città invisibili (1972) e Se una notte d’inverno un viaggiatore (1979), narrativas que analisaremos no capítulo V e VII (com exceção de Gli amori difficili, por ser composto, em maior parte, de reedição de narrativas

constantes de obras anteriores; idem para La memoria del mondo187).