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5. Drøfting og konklusjoner

5.1 Forståelse av digital dømmekraft i norskfaget

Somente a retórica moldada pela ideologia dos vencedores é que dá uma aparência de unidade à história. Benjamin, nas Teses de Filosofia da História87, definia já o processo como a “história dos vencedores”: a história escrita (sempre escrita pelos vencedores) não é a história, é uma história escrita. A unidade possível, portanto, seria unidade de discurso, não de curso. E mesmo assim, a unidade de discurso é absolutamente restrita a um âmbito circunstancial: marcadamente ideológico, discriminatório, localizado no tempo, no espaço e politicamente motivado. Em sua aula inaugural no Collége de France, realizada em 02 de dezembro de 1970, com o título de L’ordre du discours88, Foucault, refletindo

sobre a construção discursiva da história, distingue dois momentos - o crítico e o genealógico89 - na análise dos discursos enquanto “acontecimentos discursivos” inseridos em “séries que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento, as margens de sua contingência, as condições de sua aparição”90. O primeiro momento (o crítico) está relacionado aos princípios de verdade, que determinam a aceitação de um discurso como verdadeiro ou falso; o segundo (o genealógico) estuda as condições de surgimento de tais discursos em um determinado momento da história; mas Foucault adverte: “os acontecimentos discursivos devem ser tratados como séries homogêneas, mas descontínuas umas em relação às outras”91. Isso significa que também a unidade de discurso e seu caráter de “verdade histórica” são utópicos. Como diz Calvino, "vivemos em uma sociedade literária baseada na multiplicidade das linguagens, e sobretudo na consciência dessa multiplicidade"92.

Múltiplas linguagens, múltiplos discursos: se não há uma História, mas as diversas histórias, materializadas nos diversos discursos, são esses discursos que reconstroem o passado na consciência e no imaginário coletivo; como esses discursos têm uma unidade apenas aparente mas em essência relativa, assim também a História, que perde consistência como processo unitário e coerente de

87

BENJAMIN, W. “Tesi di filosofia della storia”, in Angelus novus. Torino: Einaudi, 1995.

88 Depois publicado, em 1971, pela editora Gallimard: FOUCAULT, M.

L’ordre du discours. Paris:

Gallimard, 1971. Trad. bras.: FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 10ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.

89

“a crítica analisa os processos de rarefação, mas também de reagrupamento e de unificação dos discursos; a genealogia estuda sua formação ao mesmo tempo dispersa, descontínua e regular”, in FOUCAULT, M. A ordem do discurso, op. cit., p. 65-66.

90 Idem, ibidem. 91 Idem, p. 58. 92

“Note e notizie sui testi: Il barone rampante”. In MILANINI, C. (Org.) Italo Calvino - romanzi e

eventos “causa-efeito”93. Esse desmascaramento da utopia da “unidade como verdade”, que decreta o fim da mono-historiografia (ou seja, da historiografia do discurso único) como história, decreta subsidiariamente a crise do romance tradicional. Não se pede, aliás, não se tolera ao intelectual representar sua época nos moldes de um discurso literário ou historiográfico unitário. Calvino, aliás, impregnado dessa consciência, no final dos anos 50 começa a defender categoricamente “a adoção de todas as linguagens possíveis, de todos os possíveis métodos de interpretação, que exprimam a multiplicidade cognoscitiva do mundo em que vivemos”94.

A multiplicidade e simultaneidade labiríntica das histórias reais e virtuais - não menos verdadeiras por isso - exigem do indivíduo que pretende inserir-se “em um determinado ponto” no curso da grande História a participação simultânea da consciência em muitos ambientes. Essa dissolução (ou desrealização da unidade) da História - a característica que distingue a história contemporânea da história moderna -, na multiplicidade de seus discursos, com a consequente dissolução da consciência e da subjetividade, intelectualmente assimilada por nossos autores, parece ser o substrato formal e temático que subjaz ao processo de reorientação estrutural de suas narrativas a partir da década de sessenta95: reelaborada por Calvino torna-se seu conceito fundamental de multiplicidade “de métodos e de linguagens”, de infinitude de combinações possíveis - inclusive de dissolução do indivíduo-narrador-personagem; para Osman Lins fundamenta sua perspectiva múltipla e atemporal (o “eterno presente”96), com a multiplicidade e ubiquidade do eu

93 Cf. FOUCAULT, M. A arqueologia do saber, op. cit. Sobre a revolução nos estudos da História e da

Historiografia (a refutação da Unidade da História e o estabelecimento de novos parâmetros de estudo da História como conjunto de “histórias”), cf. BURKE, P. A escola dos Annales (1929-1989): a

Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Editora da UNESP, 1997.

94

CALVINO, I. “La sfida al labirinto” (1962), in Una pietra sopra, op. cit., p. 89-90. Trad. bras., p. 109.

95 O Brasil dos anos sessenta era ainda muito acanhado em termos de produção cultural-intelectual

acadêmica, e encolhido entre ditaduras políticas cujas amarras cerceavam não só o desenvolvimento mas o contato com a intelligentsia europeia. Produzia-se arte, e de boa qualidade, mas certamente faltava aquele ar de renovação que provém do contato com outras culturas e que Lins (assim como tantos outros) procurou trazer à literatura brasileira. A Itália se encontrava ainda em um momento de reestruturação material e cultural, quase fechada em si, em busca de uma identidade nacional. Para os escritores brasileiro e italiano o contato com a efervescência cultural e intelectual da França dos anos sessenta, onde se respiravam ares bastante diferentes, os contatos com os pensamentos de intelectuais como Lévi-Strauss, Foucault, Roland Barthes, Sartre, Greimas, Todorov, Raimond Queneau, George Perec, Robbe-Grillet, Michel Buttor, Claude Simon e tantos outros, indivíduos e grupos (recorde-se, por exemplo, a já citada école des Annales), seguramente influenciaram inúmeras e importantes reflexões, algumas delas decisivas para a renovação das formas narrativas posteriores.

narrador. Para ambos realiza-se concretamente na multiplicidade potencial do discurso ficcional, especialmente no romance e símiles. Calvino, aliás, declara explicitamente esse conceito fundamental de dissolução da grande História em infinitas histórias não como perda mas como multiplicidade, um valor a ser preservado e cultivado na literatura; nas Lezioni americane, exalta “o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e sobretudo como rede de conexão entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo”97. Nesse sentido a composição estrutural do romance, fator de importância absoluta para Calvino e Lins, torna-se simultaneamente fator artístico e cognitivo, pois

“enquanto a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especializadas, o grande desafio para a literatura é o saber tecer juntos os diversos saberes e os diversos códigos em uma visão plúrima, multifacetada do mundo.”98

Exatamente esse o problema da literatura de Lins e Calvino: construir modelos estéticos dinâmicos que deem conta de representar no texto literário a multiplicidade potencial do mundo; modelos construídos a partir de um conhecimento não somente histórico, não somente científico, não somente linguístico, não somente artístico; que representem o homem em sua relação gnoseológica com o mundo e a sociedade, em sentido histórico mas pós- historiográfico, isto é, com a compreensão de que a História não é um discurso mas

está em todos os discursos. É nessa direção que vemos a evolução, a partir da

década de sessenta, do pensamento poético dos dois autores, na prática de valorização estética dos inúmeros discursos (inclusive os das ciências, paradigmáticas e não-paradigmáticas) como alternativa à exaustão da utopia da ciência moderna de poder explicar homem e mundo. O discurso da ciência, assim como o da História, tende a ser altamente discriminatório, principalmente por arvorar-se a portador e guardião da Verdade, excluindo outros discursos - e, portanto, outras verdades99. O discurso literário já é, em essência, fingimento

97 CALVINO, I. Lezioni americane, op. cit., p. 116. Trad. bras., p. 121. 98 Idem, p. 123. Trad. bras., p. 127.

99

“A ciência encontra-se diante de um problema não muito diferente do da literatura; constrói modelos do mundo continuamente postos em dúvida, alterna método indutivo e dedutivo, e deve sempre estar atenta e não tomar por leis objetivas as próprias convenções linguísticas.” CALVINO, I. "Filosofia e letteratura” (1967), in Una pietra sopra, op. cit., p. 154. Trad. bras., p. 185.

(ficção); mas, por outro lado, tende, em sua essência polifônica100, a ser mais onicompreensivo e democrático, aceitando todas as vozes e propondo os mais diversos pontos de vista, mesmo aqueles que, embora sob o signo da loucura ou da sordidez, opõem-se frontalmente ao senso comum e à Razão em sua forma diacrônica.

Reconhecer o caráter verdadeiro da experiência estética (na “adoção de todas as linguagens”101, por exemplo) significa aceitar que o advento da verdade não pode ser reduzido ao puro e simples reconhecimento do “senso comum” e à pedagogia discursiva da História; e reconhecer na experiência estética o modelo de uma experiência de verdade histórica (que pode estar no valor da multiplicidade dos discursos, por exemplo) significa aceitar que o discurso estético não somente duplica mas também critica os mais diversos discursos sociais, expondo sua dimensão ficcional, a artificialidade de sua construção. A experiência estética é, portanto, uma experiência de conhecimento; para muitos, na verdade, vai além:

“Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho, de abrir uma clareira nas trevas que me cercam. (...) Sem experiência, decerto, não há conhecimento. Contudo, pelo menos no meu caso, mesmo o conhecimento obtido pela experiência é desordenado e informe. Só o ato de escrever me permite sua ordenação; portanto, escrever se me apresenta como a experiência máxima, a experiência das experiências. Minha salvação, meu esquadro, meu equilíbrio.”102

Pela escrita se dá a ordenação do conhecimento, porque somente o ato de escrever confere unidade de sentido às experiências. Assim como Lins também Calvino, obsessivo cultor da ordem, da estrutura, da sistematização, repudia o caos, o disforme, o indefinido. Mas ao mesmo tempo em que o mundo escrito lhes é terreno amigável, ambos rejeitam as formas já gastas pelo uso excessivo, pela univocidade de um mesmo discurso, pelo já testado, e optam por caminhos próprios, individuais, inéditos. Intelectuais inseridos em seu tempo, partem da realidade que os cerca: variada, caótica, em crise, mas potencialmente representável - mesmo que somente através de modelos literários dinâmicos da multiplicidade do mundo escrito e do mundo não-escrito: mosaico. Essa é grosso modo a dimensão epistemológica que postulamos como subjacente à visão de mundo de Calvino e de Osman Lins: o paradigma do mosaico. Uma atitude poética de abordagem ao conhecimento

100 Sobre a questão da polifonia, cf. BAKHTIN, M. M. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad.

Paulo Bezerra. 1ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.

101

CALVINO, I. “La sfida al labirinto” (1962), in Una pietra sopra, op. cit., p. 89-90. Trad. bras., p. 109.

(histórico e ficcional) que, em nossa opinião, manifesta-se predominantemente na dinâmica da estrutura romanesca: o modelo modular e combinatório como significativa realização e racionalização literária de um conteúdo de conhecimento mais que científico, mais que racional, pluridiscursivo e devedor a todas as artes na tentativa de exprimir uma perspectiva sobre a relação do sujeito histórico consigo, com seu tempo, com o ethos, com o conhecimento e a cultura, através da linguagem.

Nessa proposta epistemológica aberta, em que têm lugar a ciência e o espírito, parece inserir-se grande parte das produções artísticas da segunda metade do século XX; sem dúvida inserem-se aí as obras de Calvino e Lins. A multiplicidade de saberes e de códigos, de formas e gêneros, de modelos e linguagens - em sintonia com o conhecimento e respeito pela tradição dos clássicos – moldada pela vontade de interferir originalmente, concretiza-se para ambos em termos ficcionais em narrativas formalmente inovadoras, em que sobressaem-se atitudes poéticas como a rejeição das formas canônicas, retorno e reinvenção do passado, apropriação e reescritura dos discursos histórico e ficcional, desestabilização, divisão e multiplicação do sujeito personagem e narrador, rejeição das convenções espaço- temporais e da perspectiva matemático-geométrica renascentista, ênfase do conceito de multiplicidade e simultaneidade das histórias possíveis, jogo combinatório como processo básico de formação de personagens, enredos e estrutura, uso instrumental dos saberes específicos de outras artes e das ciências, recorrência à estética das artes visuais, entre outras características.

Todos esses elementos e processos são – por assim dizer – “testados” nas narrativas breves dos anos 60 (Le cosmicomiche, Ti con zero, Il castello dei destini

incrociati103, de Calvino; as narrativas de Nove, novena, de Osman Lins); mas será

com os hiper-romances da década de 70 que ambos atingirão um outro nível de complexidade. Osman Lins vê no romance a forma narrativa elevada a seu máximo desenvolvimento; Calvino de certo modo “rejeita” a forma romance, tendo uma evidente e jamais disfarçada preferência pelas formas breves. Mas mesmo desconfiando do gênero, Calvino aceitará o desafio que o romance representa e escreverá romances - desde sua estreia, aliás, como escritor; mas como uma enésima prova de sua genialidade, encontrará modos de renovar o gênero, pondo-o

103 Edição definitiva: CALVINO, I. Il Castello dei destini incrociati. Torino: Einaudi, 1973. 1ª edição:

em xeque a cada nova realização. Partindo dessas diferentes perspectivas e passando pela experiência da literatura combinatória, ambos chegarão ao hiper- romance.

Esperando ter, mesmo que em esboço, delineado nossa perspectiva de abordagem às obras de Lins e Calvino, passamos agora a analisar, de ambos os autores, panoramicamente, as obras anteriores ao grande turning point da metade dos anos 60.