4.3 Approach
4.3.1 Implementing PT as an internal DSL
Existem mídias ancestrais, como já comentado, responsáveis pela transmissão oral e cênica dos mitos. Suficientemente comentada, a vinculação profunda entre mito e mídia apresentadas e analisadas ao longo do texto as características da construção dos mitos do JN e as alegorias nele empregadas, é possível estabelecer algumas conclusões sobre o tipo de relação entre mídia e mito no caso do JN.
Esse estudo se insere no que Benjamin denominou apropriação de elementos da cultura popular pela mídia, um estudo da mensagem apoiado nas técnicas de Jornalismo Comparado (BENJAMIN, 2000)
É possível abordar essa questão da presente encarnação do JN como exemplo da superposição de mito e mídia segundo três aspectos: 1) a utilização dos mitos pelo JN 2) a transformação dele próprio em um mito e 3) a síntese paradigmática de ritual, simbologia, cerimonial por ele adotada.
Primeiramente, a utilização dos mitos pelo JN. A construção desse mito observou a fundamentação que lhe é própria, perceptível na escolha da forma de apresentação dos temas de reportagens. Exemplos de veiculação de mitos pela mídia nacional, no JN ou não foram apresentados de forma a ilustrar como eles foram elaborados, com testemunhos pessoais e apreciações de casos observados. Algumas aberturas a casos de outros noticiários internacionais foram utilizadas comparadas de forma a caracterizar a intencionalidade e direcionalidade do JN como construtor de mitos. Foi analisada também a eficácia desse processo desenvolvido pelo JN, concluindo-se, em alguns casos, que ela foi evidente na consecução dos objetivos propostos (FISCHER, 1993).
A existência de outras mídias nas quais possa ter se inspirado o JN foi também levada em conta, naturalmente, entendidas como laboratórios disponíveis para o desenvolvimento de
técnicas e tecnologias aplicadas. A extensa discussão dos tipos de heróis trouxe à lembrança do desfile dos personagens na tela do JN ao longo de um bom espaço de tempo do telejornalismo brasileiro, fazendo relação a momentos marcantes da vida do país e da própria mídia em si.
O mito midiático, como vemos em Barthes (1993, p. 131) “é um modo de significação, uma forma”, que é recuperado da história e transformado em verdade presente, sendo “a fala mítica” formada por “uma matéria já trabalhada”.
A construção de uma explicação parcial para a construção do mito, a personificação e o estabelecimento de um paradigma midiático e mitológico, procurou concluir que mídia e mito se confundem, autorizando inferir que o JN se tornou um mito em si mesmo. Para Barthes (1993)o mito não poderia, de modo algum, ter um surgimento na natureza das coisas. Isso quer dizer que o mito é construído pelos homens e enraíza-se no passado que é fruto também de uma construção intencional, estratégica, a partir do concreto da existência, um real não estacionário no tempo, mas um real que deve ser encarado como movimento histórico. (...) É a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda a vida e a morte da linguagem mítica” (p.132).
O editor-executivo soube desdobrá-los, para depois cuidar de sua aplicação metódica à realidade nacional que se constitui do telespectador. Soube explorar ao máximo as possibilidades tecnológicas hoje disponíveis, bem como aplicar um cuidadoso controle da imagem das partes e do todo do JN, incluindo os apresentadores, as alegorias e os aspectos totalizantes, como ritmo, tempo e espaço, apenas mencionados aqui.
O caso do JN é objeto de um estudo de caso flexível, em razão de inegável sucesso alcançado pelo espetáculo, em termos de audiência e influência, bem como percebida a intencionalidade profissional que permeia toda a produção. Existe uma profundidade na sua construção ao longo de mais de 35 anos, contínua e presente, bem como um pragmatismo
estratégico e operacional digno de admiração. Sem essa combinação, seria impossível ele ter o êxito alcançado e não estaria ocupando o espaço que ocupa hoje no telejornalismo brasileiro.
O mito não se acaba, mas sim seus agentes transitórios, com os quais se confunde. Assim, é sensato especular quanto ao futuro da mídia mitológica na nossa sociedade, sobre quais serão suas tendências no futuro, tema de estudo de alguns futurólogos, filósofos e comunicólogos. Por suas poderosas funções educativa e explicativa, mito e mídia têm uma profunda relação que não deve desaparecer. É importante saber que mídia despontará no atendimento dessas funções aglutinadoras. Já se viu como a oralidade predominou na antiguidade, reforçada pela escrita depois, para tomar uma nova forma na arte cênica que, em linhas gerais, nos acompanha até hoje. O acompanhamento do fenômeno JN pode nos oferecer dicas e pistas que serão levadas em conta nessa nova simbiose.
Mídia e mito se confundem no JN e ele continua a desempenhar o papel de principal veículo de jornalismo televisivo no país. Por si só, essa consideração justifica a escolha do JN para o objeto deste estudo. No entanto, foi à aplicação pela sua direção das ferramentas conceituais e instrumentais da mitologia e da tecnologia que tornaram tão interessantes, e até mesmo fascinante, como procurei explicar no início do estudo. Por essas razões, o JN é o melhor exemplo no Brasil da conjunção histórica entre mídia e mito e merece continuar ser estudado e analisado. Por outro lado, a história do JN serve de referência à própria história social e política do país, particularmente se forem levados em conta os aspectos de origem, estruturação e atuação do grupo sócio-proprietário de sua empresa difusora. É possível estimar que não existam muitos casos como o do JN no mundo atual, em que se superponham competências, possibilidades e demandas de forma integrada e bem sucedida.