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Na mitologia grega, as uniões entre os deuses e os homens resultavam em heróis. Esses filhos, misto de Deus e Seres Humanos, traziam consigo a herança genética da fragilidade humana, aliada aos fenômenos naturais e o equilíbrio cósmico. Eram corajosos e astutos, podendo até deter uma existência em paz. Eram modelos para a vida humana. Assim se formaram os heróis, assim devem fazer os homens. É que, o casamento sagrado, "atualiza a comunhão entre os deuses e os homens; comunhão, por certo passageira, mas com significativas conseqüências. Pois a energia divina convergia diretamente sobre a cidade - em outras palavras, sobre a "Terra" – santificava-a e lhe garantia a prosperidade e a felicidade para o ano que começava". Essas hierogamias se encontram em quase todas as tradições religiosas. Simbolizam não apenas a possibilidade de união com os deuses, mas também uniões de princípios divinos que provocam certas hipóstases. Uma das mais célebres dessas uniões é a de Zeus (o poder, a autoridade) e Têmis (a justiça, a ordem eterna) que originou Eunomia (a disciplina), Irene (a paz) e Dique (a justiça).

Este ideário mitológico, segundo Vernant (1992) foi ultrapassado com o nascimento da razão, filha da cidade grega, resultando em uma necessidade racional para uma convivência harmônica, visto que na estrutura da sociedade grega antiga, a imagem de um rei alicerçada em narrativas míticas haveria de ser substituída por outra, mais humana, que dissesse respeito à vida de todos os cidadãos comuns. O espaço público agora seria utilizado para tratar de assuntos que interessasse a todos os cidadãos.

Não se tratava mais de retratar os feitos e os exemplos dos deuses e heróis, mas sim de retratar a imagem em tempo presente, o que é comum a todos. No imaginário coletivo, os heróis deixam de entrar na mídia, pois pelas condições materiais de existência que são impostas aos cidadãos, sem a perspectiva de organização social, tendem a sublimar a figura

do herói. Assim, essa sublimação leva, paradoxalmente, para o que mais se aproxima da figura do herói, qual seja o anti-herói, é este que surge como aquele que poderá realizar atos incomuns, originais. Ao se falar do anti-herói; na maioria das vezes, fala-se afastar as próprias angústias de vida.

De acordo com a explicação de Hobbes (1979), os homens têm necessidade de glória, de reputação, de honra e de fama, ainda que não comunguemos com a justificativa hobbesiana que atribui esta necessidade a um estado de natureza, característica primária de todos os homens. Essa necessidade esta ligada às condições sócio-históricas de uma sociedade dispare alicerçada sobre valores ideológicos que penetram na conduta de vida. Por esta razão, a necessidade da qual Hobbes referiu-se é que encontra guardada no desejo dos homens de nossa sociedade, mas é um desejo que se cogita naquele que possa realizá-lo, ou seja, um herói, sem que se tenha consciência dessa dinâmica.

Muitas pessoas hoje em dia, querem a todo custo viver ao lado da fama. Ser a fama, deitar com a fama, entender a fama. Tê-la, mesmo que por quinze minutos, estes cidadãos acompanham, participam dessas honras de outrem. Por esta ótica, um bandido se torna uma imagem pública para quem, juntamente com representantes do legislativo municipal de qualquer local, se transfere o reconhecimento e a reputação. Salientamos que estes cidadãos não identificam os representantes políticos e os bandidos por uma mesma ótica, ambos se tornam, em suas vidas, guardiões de suas esperanças: os representantes políticos são, geralmente, identificados como os que podem oferecer algum tipo de ajuda, e os bandidos como aqueles que, se respeitados, “é paz garantida”, como se diz em linguagem popular “ele aqui não apronta”. A crescente problematização da realidade humana indica que os heróis são cada vez mais suscetíveis às falhas e derrotas. Nesse ponto, entra o questionamento dos personagens anti-heróis: revelar a virilidade e a imoralidade dos heróis e dizer que ser humano não justifica a dor, a violência e a opressão (PINTO, 2005).

Também existem os anti-heróis esportivos, figuras que desempenham o papel de "vilões" do esporte durante os jogos transmitidos pela televisão e que no final da partida se tornam heróis. Mais criticados por serem polêmicos do que propriamente pelo seu desempenho dentro de campo, é possível encontrar atletas que têm sua imagem pública associada à atitudes e gestos que não são bem vistos pela sociedade ou que, em última instância, ajudam a preencher as notícias na mídia.

O anti-herói é aquele sujeito patife, com banca de durão, mas que acaba se mostrando um tremendo sentimental. Ele abusa da violência, utiliza meios sórdidos e cruéis para alcançar êxito em suas pretensões, mas mesmo assim faz com que você torça por ele no final. O anti- herói é de fácil identificação com o público, afinal, não somos totalmente bonzinhos. É um alguém que protagoniza atitudes referentes as de um herói, mas que não possuí qualquer vocação heróica ou que realiza qualquer façanha heróica por um motivo de egoísmo, vaidade ou de quaisquer gêneros que não sejam altruístas.

O jogador Edmundo é um exemplo típico.Ganhou o apelido de “animal”, pelo temperamento explosivo em campo, mesmo assim, passou em vários clubes no Brasil e no exterior e teve uma trajetória marcante no futebol.

Figura 28: Jogador Edmundo

FONTE: www.lancenet.com.br Acesso em 18 de dezembro de 2007.

Existe uma vertente conceitual clássica para o anti-herói que está baseado na dialética, caracterizando-o como oposto a imagem do herói. Anti-herói é:

Termo que, em narratologia e dramaturgia, se opõe ao de herói, numa dupla acepção.

1. Enquanto protagonista da história narrada ou encenada, o anti-herói reveste- se de qualidades opostas ao cânone axiológico positivo: a beleza, a força física e espiritual, a destreza, dinamismo e capacidade de intervenção, a liderança social, as virtudes morais. Uma vez que a avaliação do herói, feita pelo leitor/espectador, assume sempre aspectos subjectivos, uma vez que, no quadro da apreciação humana das situações de vida e dos acontecimentos, a ambiguidade dos pontos de vista é uma constante, que se inscreve no carácter dialéctico da condição humana, qualquer reacção do protagonista é sempre susceptível de interpretações antagónicas.

Segundo Da Matta (1990, p. 151), nossa sociedade é construída sobre um sistema social onde hierarquia e autoridade são dons naturais, seguindo-se uma disputa cerrada entre fortes e fracos. Ao que parece, os sujeitos que não cumprem a lei, parecem empenhar-se numa empreitada que, ao mesmo tempo, rompe e mantém este pacto.

Os bandidos, na sua grande maioria, pertencem às famílias que recebem um salário mínimo, o que os situa como fracos. Ser bandido, nestas circunstâncias, é uma passagem para o outro lado, pois, entre os fracos é possível firmar-se como forte. Dessa maneira, a necessidade de reconhecimento, de fama e de glória vêm de qualquer modo.

Na relação entre fortes e fracos, ainda segundo Da Matta, reforçam-se as éticas verticais. Estas aparecem “muito mais com a perspectiva complementar de relações hierárquicas do que antagônicas” (Da Matta, 1990, p. 192). A figura do bandido reafirma a divisão entre fortes e fracos – estes são os que temem e obedecem, aqueles são os que causam temor e transgridem – e é naturalizada no local aos moldes da obediência à ética vertical da qual nos fala Da Matta. Por esta via, os cidadãos tendem a naturalizar suas relações com os bandidos pela via da complementaridade hierárquica: “– Quando passo na frente de um bandido eu passo na moral, devagar, sem medo”. “– Quando passo perto de um bandido eu sempre cumprimento”.

Os cidadãos respeitam o bandido e procuram estabelecer com ele uma relação passiva, mas, sobretudo, sentem-se seguros quando conseguem ter uma relação de proximidade.

Assim se apresenta a figura do anti-herói; por outro lado, o triunfo da desonestidade, da impunidade, da criminalidade está exposto em letras garrafais nas manchetes de todos os telejornais de hoje, para desespero e vergonha dos brasileiros honestos e conscientes.

Podemos citar outro anti-herói do nordeste, uma lenda, ou ídolo misto de bandido sanguinário e anti-herói nacional, Virgolino Ferreira da Silva, o famoso Lampião (1898- 1938), um personagem dos mais estimulantes que a história nordestina criou no Brasil.

em 1926, um convite tira o bando de Lampião da ilegalidade por um tempo. Com o governo querendo exterminar a Coluna Prestes (movimento político- militar de esquerda liderado por Luís Carlos Prestes), Virgolino é chamado a integrar os Batalhões patrióticos. De bandido, vira herói nacional. Nessa época, Lampião vai a Juazeiro. É recebido com honrarias por padre Cícero e conhece Abrahãomascate (libanês Benjamin Abrahão, mítico personagem que chegou ao Brasil em 1915 e logo se tornou secretário de padre Cícero, em Juazeiro (CE)).A amizade leva Lampião, dez anos depois, a autorizar o mascate a fazer uma reportagem escrita, fotografada e filmada sobre o bando.

A fascinação por um homem corajoso, líder de um bando e acompanhado por uma bela mulher, ultrapassou fronteiras. O bando de Lampião foi o primeiro e o único a aceitar mulheres. Maria Bonita abandonou o marido e filhos para viver com Lampião. Antes de tornar-se mulher do rei do cangaço, ela se chamava Maria de Déa. Sua beleza era considerada excepcional. Mas Maria Bonita também ficou famosa pela dureza de seu coração e por sua coragem. Os filhos eram dados para serem criados por amigos ou familiares.

Figura 29 – Lampião, Maria Bonita e jagunços

FONTE: http://www.nordesteweb .com.br Acesso em 20 de dezembro de 2007.

Cumpre salientarmos a figura maior e o espírito nacional de Macunaíma (anti-herói) está longe de ceder às opiniões, palavras e modos do povo brasileiro; um povo que, na sua simplicidade, provou que ética e caráter são conceitos relativamente delicados para sua capacidade de entendimento.

Talvez seja um caso único na história da humanidade em que ausência de punição a um grupo de pessoas comprovadamente envolvidas com crimes como fraude, corrupção ativa e passiva, assassinatos evidencia a capacidade brasileira de abstrair a ética e relevar o inaceitável, de uma forma nunca antes tão bem evidenciada. Nesse aspecto, o Jornal Nacional tem mostrado pelas imagens muito bem produzidas, aprimorando a linguagem audiovisual do telespectador.

Figuras 30: Cartaz do filme Macunaíma FONTE: www.adorocinemabrasileiro.com.br Acesso em 20 de dezembro de 2007. Figuras 31 – Macunaíma FONTE: www.adorocinemabrasileiro.com.br Acesso em 20 de dezembro de 2007.

Nosso anti-herói, Macunaíma, além de ser um camarada moralmente flexível também é indolente, voluntarioso, não se esforça muito para pensar e recita logo frases como "ele rouba, mas faz". Não gosta de mudanças, tem medo delas, inclusive as mudanças para melhor, se deixa seduzir por pequenas vantagens pessoais que lhe são oferecidas, emprego para um primo, conserto de buraco em sua rua, uniforme de time de futebol para os meninos.

Almeida (1999) escreve que é nos cortes que os sentidos se agrupam, pois são neles que aproximam-se as imagens que estamos vendo e as nossas memórias acerca daquilo que estamos acompanhando. Dito isto, era de se esperar que os sentidos dados às reportagens fossem bastante distintos entre os espectadores, uma vez que as memórias pessoais variam muito.

Para fechar este capítulo gostaria de dizer que a narrativa infinita da tevê Coutinho, (2000) recupera constantemente informações (imagens e sons) já mostradas e, por isso, e por ser ininterrupta e infinita, mantêm todas as informações dadas sob questão, uma vez que elas poderão ser alteradas com outra informação veiculada em momento posterior desta mesma narrativa televisiva que nunca se acaba e que, portanto, não morre jamais, permitindo retificações constantes. Como poderia confiar nelas?