Na tradição linguística, o sujeito se opõe ao predicado, o que é dito sobre o sujeito, ou ele é o que realiza um dado feito. Com base em Tesniére, o qual abandona o sujeito como princípio e foca a relação, ou seja, o verbo, a semiótica francesa apresenta o sujeito como uma relação (FIORIN, 2007). Isso explica a concepção da linguagem como um ato, um fazer ser e a percepção do sujeito como sujeito de estado ou sujeito do fazer.
Já mencionamos que a existência do sujeito está condicionada à sua relação de conjunção (S∩O) ou de disjunção (S∪O) com um objeto, o que percebemos no nível narrativo da semiótica greimasiana. Os objetos podem ser modais ou descritivos, sendo estes últimos, para o sujeito de estado, os valores (ex.: saber, riqueza, etc.) e, para o do fazer, as ações (ex.: o herói age segundo um conjunto de valores). A partir das modalidades, predicados que regem outros predicados, o sujeito pode ser virtualizado, atualizado ou realizado, conforme detalham Lara e Matte (2009, p. 25), inspiradas em Fontanille:
1) Sujeito Potenciao: /não quer/, /não deve/, /não pode/ e /não sabe/, mas tem motivos para querer ou dever fazer.
2) Sujeito Virtuao ou virtuaoizado: /quer/ ou /deve/ fazer, mas não /sabe/ nem /pode/ fazer.
3) Sujeito Atuaoizado: /quer/ ou /deve/ fazer, /sabe/ e /pode/ fazer. 4) Sujeito Reaoizado: já fez.
Esse sujeito é um actante, ou seja, “unidade sintáxica17, de caráter propriamente formal, anteriormente a qualquer investimento semântico e/ou ideológico.” (GREIMAS; COURTÉS, s/d, p. 12). Ele se constitui, no esquema narrativo, pela relação com outros actantes além do objeto: destinador-manipulador e destinador-julgador. O primeiro é responsável por determinar os valores a serem aspirados pelo sujeito, manipulando para que ele adquira as competências semânticas ou cognitivas e modais necessárias à performance, a ação propriamente dita. O destinador-julgador sanciona positivamente ou negativamente o sujeito de acordo com o contrato estabelecido na manipulação. Manipulação e competência, segundo Barros (2001a), são correlativos no programa de aquisição por doação. Se, na primeira, o ponto de vista em destaque é o do destinador, na segunda é o destinatário-sujeito que recebe os valores.
Nem sempre a doação de objetos acontece com a disjunção do destinador. Esse fenômeno acontece, por exemplo, na comunicação verbal em que “o saber do destinador, uma vez transferido ao destinatário, é 'compartilhado' com ele sem que o destinador se encontre dele privado”. (GREIMAS, 1983, p. 45, tradução nossa).
Uma vez estabelecida a manipulação18, o sujeito deve interpretar os objetos apresentados como verdadeiros ou falsos. Além da crença, o sujeito precisa dever ou querer, saber e poder fazer, como foi dito acima, para, assim, caso haja confiança, a etapa seguinte, a perfórmance, ou ação propriamente, seja iniciada. Esse “fazer” é, então, avaliado pelo destinador julgador no programa da sanção.
Organizamos assim os percursos mencionados:
17 “A semiótica adota a forma 'sintáxico' para definir relações entre categorias referentes ao texto global, reservando o termo 'sintático' para relações entre elementos no nível da frase”. (TATIT, 2007, p. 188)
18 Pode a manipulação ser de quatro tipos principais: sedução (criação de uma imagem positiva do sujeito para que o sujeito queira fazer), provocação (imagem negativa do sujeito para que ele deva mudá-la), tentação (imagem positiva de um objeto, por exemplo dinheiro, para que o sujeito queira adquiri-lo) e intimidação (imagem negativa do objeto, por exemplo revólver, para que o sujeito deva fazer).
49 Percurso do destinador-manipulador
Contrato fiduciário: proposição
Manipulação propriamente dita: proposição do contrato, persuasão.
Sucesso ou falha na manipulação.
Percurso do destinatário/sujeito Contrato fiduciário: Fazer
interpretativo (crença ou descrença).
Competência → perfórmance Realização ou não da tarefa
Percurso do manipulador-julgador Sanção cognitiva: reconhecimento ou desmascaramento. Sanção pragmática: retribuição (recompensa ou punição). Interpretação: reconhecimento e integração do sujeito e de seu percurso no sistema de valores do destinador.
Quadro 2: adaptação do quadro de Barros (2001, p. 38).
Da perspectiva da ação, o que explica essa busca por valores desejáveis são sujeitos desejosos que se tornam mais capazes do que outros quando são mais competentes (GREIMAS, 1983, p. 10).
Não prevaleceu desde o princípio a visão do sujeito como constituído de emoções, pois Greimas acreditava mais seguro manter o distanciamento de disciplinas como a psicanálise, psicologia e filosofia, cujas certezas epistemológicas e metodológicas não permitiam qualquer partilha, segundo ele. (BEIVIDAS,1995).
O espaço para a subjetividade, pelo tratamento das paixões, foi construído na relutância e receio de comprometer os postulados metodológicos da semiótica. Entre os domínios da psicologia e da filosofia, ela fica “a um passo de qualquer ontologia: seu sujeito não tem existência ontológica, prévia ao discurso. É um efeito de discurso.” (1995, p. 173).
A “Semiótica das paixões” reconhece, assim, que a “mediação do corpo, de que o próprio e o eficaz são o sentir, está longe de ser inocente” (GREIMAS & FONTANILLE, 1993, p. 13). Para a teoria das paixões, elas são concebidas como arranjo de modalidades determinados pelo tipo de objeto, pela presença ou ausência de objetos, pela temporalização, pela aspectualização e pela modulação tensiva.
Ao sujeito-origem pressuposto pelos domínios da retórica, psicologia social e da pragmática, que o tomam como fonte do enunciado, Fiorin (2007, p. 25) opõe o sujeito-efeito, “marcado pela incompletude”. Para a semiótica francesa, o sujeito é um efeito do enunciado e não domina o dizer, que sofre coerções da história e do inconsciente (GREIMAS, 1976 e BEIVIDAS, 2000 apud FIORIN, 2007).
Falamos ainda, em sujeito da enunciação, instância de mediação entre o nível profundo e a instância discursiva, ou enunciador. Ele não é o autor de carne e osso, mas uma imagem construída no/pelo texto. Tão importante quanto ele é o enunciatário, imagem do leitor, que determina escolhas enunciativas, conscientes ou não. Esse enunciador é o lugar, ainda, das crenças e conhecimentos, dos valores da sociedade e da camada social a que pertence. Ele é o lugar da intertextualidade (BARROS, 2001b, p. 9)
Diferencia-se, na instância da enunciação, os sujeitos da enunciação pressuposta, da enunciação enunciada e do enunciado. Na primeira, instalam-se enunciador e enunciatário; na segunda, narrador e narratário; e o enunciado propriamente dito caracteriza-se pelos discursos em terceira pessoa, produzindo efeito de objetividade.
Em resumo, o sujeito para a semiótica é construído no e pelo texto, nas relações que ele estabelece com actantes (do nível narrativo), atores (do nível discursivo) e objetos. Nessa interação, não se despreza que ele passa por uma constituição, disposição, sensibilização e moralização, etapas do processo passional nessa relação entre sujeitos e objetos (GREIMAS; FONTANILLE, 1993).
Este item apresentou, mesmo que sucintamente, a perspectiva de sujeito usada neste estudo, o que nos permite distinguir seus limites dentro das análises que seguem.