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Dither, Control and Constraint Handling

5.3 Results and Discussion

6.2.2 Dither, Control and Constraint Handling

A semiótica francesa ou Escola Semiótica de Paris, fundada por Algidas Julien Greimas (1917-1992), é ainda recente, tendo seus primórdios a partir da segunda metade do século XX. Sua preocupação, segundo o próprio criador, é “explicitar, sob forma de construção conceptual, as condições da apreensão e da produção do sentido” (GREIMAS; COURTÉS, s/d, p. 415). Greimas teve dois antecessores do estruturalismo que foram essenciais para os fundamentos da semiótica como sistema lógico-discursivo que pretende analisar o texto pela semiose dos planos do conteúdo e da expressão: Ferdinand Saussure e Louis Hjelmslev.

O apontamento da linguística sob a noção de estrutura constituída de relações formais entre elementos, justamente pela “diferença” entre eles, foi um dos principais postulados de Saussure, principalmente, em Curso de oinguística gerao. A partir de dicotomias, como língua e fala, sincronia e diacronia, significante e significado, Hjelmslev reformulou e aprimorou alguns conceitos que seriam mais tarde essenciais para a concepção da semiótica francesa, com destaque para os funtivos: expressão e conteúdo e a subdivisão de cada um deles em substância e forma. Cañizal e Lopes afirmam, no prefácio de Prooegômenos a uma teoria da oinguagem, que seu autor, Hjelmslev, é “mediador entre o pioneirismo genial de Saussure e o estruturalismo vanguardista de Greimas” e completam: “os três formam como que uma tradição pautada em referências mútuas.” (HJELMSLEV, 2006, p. X)15. A semiótica, herdeira dessa tradição, procura ser um olhar para a linguagem como um sistema de significação e não mais do signo, tomando a significação como decorrente da relação. (BARROS, 2001a).

Um outro pilar da semiótica, intimamente associado aos outros, está no progresso dado à descrição feita por V. Propp do conto maravilhoso russo. O ponto de partida foi o esforço de dar uma formulação rigorosa a uma “sucessão canônica de acontecimentos” (GREIMAS, 1983, p. 8) de tal forma que ela alcançasse o estatuto de um esquema narrativo. Essa busca

43 por regularidades levou à construção de uma gramática com a finalidade de organizar hierarquicamente os enunciados, estabelecendo, assim, um modelo de previsibilidade.

Essa busca por invariáveis, num modelo lógico e econômico, justifica as escolhas epistemológicas da semiótica greimasiana, como a de ver a realidade como uma construção da/pela linguagem, desconsiderando, assim, a ontologia. O princípio da imanência, vinculado a essa ideia, visa à autonomia da Linguística como ciência (FIORIN, 1996) e delega ao texto os princípios de sua própria completude. Dessa maneira, os recortes tornam-se necessários diante da perspectiva teórica como um ponto de vista.

(…) a semiótica não nega a importância das determinações vindas dos universos psicológicos individuais ou socioculturais de referência, que atuam nas práticas de produção e leitura, mas ela apenas restringe seu objeto à articulação das formas da significação: ela aspira à constituição de uma linguística discursiva apta a analisar tanto essas amplas porções de significação que comandam uma certa ordem do sentido e que são denominadas por vezes “macroestruturas”, quanto às finas marcas em que se tramam as formas específicas do conteúdo, tais como são postas ao leitor por cada texto particular (BERTRAND, 2003b, p. 14).

A semiótica deixa, por isso de se preocupar com elementos extra-discursivos (de ordem psico-cognitiva ou sociológica, por exemplo) para se concentrar nas articulações internas do texto, buscando, dessa forma, ser coerente com seu campo de pertinência.

As “formas da significação” mencionadas na citação remetem à escolha da forma e não a substância do conteúdo para se estudar, conforme Silva (1995) justifica:

De algum modo, é preciso que o sentido deixe esse estado fosco, fluido, bem próximo do caos e se transforme num todo organizado, numa espécie de microcosmos semântico (metáfora semiótica para texto). Cabe à semiótica mostrar como e quando esse primeiro sentido começa a tomar forma, a ser enformado para se tornar, enfim, apto a ser transmitido e recebido. (p. 26).

A Escola de Paris se ocupou, portanto, em criar modelos metalinguísticos que, assumindo a significação como articulação de formas, objetivasse sua produção e apreensão pelos sujeitos, mesmo que o sentido se manifeste por diferentes veículos (imagem, vídeo etc.). “São, portanto, os processos de efetuação e organização discursiva do sentido que constituem o objeto da semiótica.” (BERTRAND, 2003b, p. 11).

Se a Propp se deve a percepção das unidades sintagmáticas constantes no texto, as pesquisas taxionômicas para explicar as regularidades estruturais subjacentes de Lévi Strauss

– expoente da antropologia – embasaram o modelo lógico-conceptual constituído por Greimas para a representação das estruturas profundas (BARROS, 2001a, p. 11). Não podemos deixar de mencionar a fonte filosófica (sobretudo fenomenológica) que influenciou também os estudos da semiótica. O principal nome nessa fonte é Merleau-Ponty.

Esquematizamos a seguir as “fontes” epistemológicas e metodológicas da semiótica francesa já apresentadas nesta parte:

Figura 10: referências teóricas da semiótica greimasiana

A semiótica francesa é uma das teorias que refletem a ruptura da linguística com o estudo da língua como a soma de frases, demonstrando um interesse pelo estudo do texto ou do discurso e da enunciação, instância responsável pela passagem do discurso ao texto. Essa teoria sêmio-linguística apresenta ferramentas teórico-metodológicas para a análise interna do discurso em três níveis de geração de sentido: fundamental, narrativo e discursivo, que pressupõem um caminho, nessa ordem, de concretização, complexificação e enriquecimento semântico crescente, mas passíveis de descrições e uso isolados e autônomos. Tal percurso não se preocupa com a manifestação (linguística ou não-linguística), mas se volta para a imanência do texto, conforme já dissemos. Sobre o enfoque na distinção entre estruturas profundas e de superfície, Barros (2001a, p. 14) argumenta:

O texto, objeto da enunciação, é uma ilusão – referencial e enunciativa – e, para ser explicado, precisa ser desbastado dos efeitos de sentido aparentes. Sob a aparência, busca-se a imanência do discurso; sob a máscara, as leis que o produzem. Depois de cumpridos os procedimentos de abstração, é necessário efetuar o percurso inverso e reconstruir, a partir de estruturas imanentes, as estruturas aparentes da manifestação.

Neste capítulo, não nos deteremos em cada ferramenta dos níveis do percurso gerativo,

Saussure Propp Lévi Strauss Merleau-Ponty

Hjelmslev

Semiótica Francesa

45 pois consideramos ser a explicação dessas ferramentas mais relevante quando se der sua aplicação nas análises. Ocupamo-nos a seguir de cada nível em sua perspectiva mais ampla, explicitando sua função na teoria.

Para a compreensão do percurso gerativo de sentido, destaca-se a da noção de profundidade, que explica o discurso como uma “massa folheada” (GREIMAS; COURTES, s/d, p. 127), em que níveis superpostos se ligam pela proposta de enriquecimento gradual. Essas camadas, numa tentativa de manutenção e não de ruptura, exigem uma conversão coerente, “introduzindo a continuidade na descontinuidade das etapas” (BARROS, 2001a, p. 27). O estudo da imanência explica também o desdobramento de cada nível em dois componentes da gramática semiótica: sintaxe e semântica. Enquanto um se destina à organização do conteúdo, o outro cuida exatamente desse último. Lara e Matte (2009) relacionam os dois, lembrando que a semântica tem uma autonomia maior que a sintaxe, o que implica a possibilidade de investir diferentes conteúdos semânticos na mesma estrutura sintática.

Na primeira etapa, nível das estruturas fundamentais, as oposições entre categorias semânticas retoma a percepção de diferença, valorizada por Saussure como fundamentação do sentido que surge justamente dessa relação. Destaca-se nesse nível o quadrado semiótico. Ele articula de forma lógica as categorias semânticas em relação de contrariedade, contradição e complementaridade:

relação de contrariedade relação de contradição

relação de complementariedade

Por meio desse modelo lógico, é possível identificar o sentido mínimo para a constituição do discurso, o seu denominador comum. É possível também tomar cada categoria em relação de conformidade ou não entre o sujeito e o conteúdo representado. É o que ocorre

quando há uma valorização positiva de uma categoria, euforia, e negativa de outro, disforia, o que chamamos de timia.

O nível fundamental não será destacado nas próximas análises, pois consideramos que, embora haja em cada texto uma estrutura profunda, ela não se mostrou essencialmente relevante para a microanálise dos discursos.

Em geral, costuma-se inserir a análise pelo nível fundamental no final, apesar de ser ele a primeira etapa de geração de sentido. Esse método se explica por exigir ele termos mais abstratos e mais gerais, competência adquirida após um contato maior com o texto e suas estratégias.

Com a contribuição de Propp, o nível narrativo, mais influenciado por sua teoria, é baseado no princípio de oposição entre sujeitos. Greimas (1983, p. 9) denomina essa oposição como estrutura binária, fundada na relação tanto contratual como polêmica – polêmico- contratual – entre dois sujeitos que se confrontam na narrativa. Um terceiro elemento completa a estrutura básica do espetáculo: o objeto. Para a semiótica, a existência do sujeito só se explica em relação a um objeto e, principalmente, aos valores investidos nele: “O objeto almejado só é, então, um pretexto, um lugar de investimento dos valores, um outro lugar que mediatiza a relação entre o sujeito e ele mesmo”16. (GREIMAS, 1983, p. 21, tradução nossa). Por isso, esse autor conclui que, num universo semântico qualquer, apenas os objetos que fazem parte do eixo sintáxico: sujeito → objeto serão levados em consideração, uma vez que os valores estão inscritos nesse eixo (p. 24). Esses valores são, na verdade, uma complexificação dos valores axiológicos derivados da aplicação tímica (euforia vs disforia) no nível fundamental.

Fiorin (2006a, p. 27) lembra que é preciso distinguir narratividade de narrativa. “Aquela é componente de todos os textos, enquanto esta concerne a uma determinada classe de textos”. A narratividade, pensada em relação à permanência discursiva, é o surgimento do descontínuo, em que estados discretos se relacionam pela transformação, operada pelos sujeitos. Explica-se, assim, a consideração dos enunciados de fazer afetando enunciados de estado que, juntos, são integrantes de programas narrativos. Esses constituem percursos narrativos, que, por sua vez, organizam-se em esquemas narrativos. Por essa noção inserida na sintaxe narrativa, deve-se entender uma projeção “das relações fundamentais do homem no mundo ou, talvez, inversamente, pouco importa.” (GREIMAS, 1983, p. 47).

16 “L'objet visé n'est alors qu'un prétexte, qu'un lieu d'investissement des valeurs, un ailleurs qui médiatise le rapport du sujet à lui-même”.

47 Na semântica narrativa, abordam-se as modalidades do ser (querer, dever, saber, poder e crer) e sua articulação em paixões, tratamento mais tardio da teoria.

Num patamar mais superficial, as estruturas narrativas são assumidas pela instância da enunciação, que adiciona aspectos não abrangidos pelos níveis anteriores: projeções actoriais, espaciais e temporais, procedimentos persuasivos na relação enunciador-enunciatário e a cobertura temática e figurativa das estruturas narrativas.

O que precisamos frisar é que a semiótica francesa concebe linguagem e realidade independentes uma da outra. Por isso, foram eliminadas as questões genéticas do texto, a verdade do dizer, ou seja, as questões ontológicas, deixadas à filosofia, psicologia e ética. Sobre a epistemologia da semiótica, Courtés justifica a restrição assim: “Porque nós sabemos que as palavras não dizem o mundo, mas um recorte dele, parcial e relativo, dentre muitas possibilidades.” (1991, 43-44). Portanto, não pensamos aqui em buscar uma “verdade” nos discursos dos professores, mas apenas marcas referenciais da enunciação. Uma vez que “A verdade ou falsidade de um discurso ligam-se à comprovação referencial ou à proximidade e autoridade da enunciação.” (BARROS, 2001a, p. 76), é no texto, enquanto enunciado, que procuramos essas marcas ou efeitos de sentidos.