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Part III Reconstruction of Refractive Phenomena

9.3 Implementation Issues

O relógio marcava nove horas quando cheguei ao porto do “Posto da CEMA” para deslocar-me até Lariandeua numa manhã do verão43 Amazônico, compreendido entre os

meses de julho a dezembro. Essa época é conhecida como “período de atividade” na região, como nos diz Charles Wagley (1977: 30) em seu livro sobre Gurupá, uma comunidade amazônica situada no baixo Amazonas, no Pará. O “Posto da CEMA” (Centro médico de Abateetuba) é posto flutuante44 que dá acesso às embarcações para as ilhas. Vejo várias delas,

motorizadas, com ou sem cobertura, conhecidas pela população local como “rabetas” 45. Além

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De acordo com Wagley (1977:30) “As expressões locais “verão” e inverno” têm conotações análogas aos termos correspondentes usados nos climas temperados. “Referem-se às diferenças acentuadas do ciclo anual que quebram a monotonia da vida e às quais os homens associam suas atividades” O autor lembra que o clima aqui não é uma barreira impossível de se transpor.

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Este posto esta ancorado na “cabeça da ponte” (como se diz por aqui) que é um típico trapiche (espécie de ancoradouro) de embarcações com um ponto comercial chamado de Posto PDV (Petróleo de Venezuela). Localizado na orla da cidade (chamado de Posto da CEMA - por localizar próximo ao Centro médico). Neste local também situa a feira do açai.

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Segundo Rocha (2011) quando as canoas recebem os motores movidos à óleo diesel ou gasolina são chamadas de rabetas. Estas embarcações possuem tamanhos variados. Geralmente, as maiores possuem cobertura para proteger do sol e chuvas e as menores não são dotadas de cobertura. Vale destacar que as menores são chamadas de “rabudas” ou “rabudinhas” devido uma haste que sai do motor instalado na popa da embarcação e chega a

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desse tipo de embarcação, são utilizadas pelos moradores vários outros tipos de embarcações, podendo ser particulares ou comerciais, de diversos tamanhos: pequenas canoas46, “rabudos”,

“cascos” à remo (menores ainda), “montarias”47, “voadeiras” e barcos maiores servindo para o

transporte diário (de pessoas e produtos) e com pagamento de cinco reais por passageiro.

A imagem que se apresenta aos meus olhos é de um movimento intenso de pessoas e veículos. São motos, carros, vans e bicicletas e motocicletas circulando e desafiando as regras de trânsito. Avisto homens carregando sobre os ombros rasas de açaí desembarcado de embarcações trazidas das ilhas, rasas empilhadas na calçada para serem embarcadas, matapis exposto à venda, várias pessoas, principalmente mulheres (com crianças ou sem elas), me parecem fazer as últimas compras para seguir viagem, outras pessoas apenas conversando em barracas com frutas, farinha e carne. Os sons altos de propaganda de lojas e do anúncio da festa de aparelhagem para o final de semana tudo ao mesmo tempo se juntam com as vozes que vêm da feira e aos burburinhos das pessoas apressadas (algumas carregam sacolas de tamanhos variados com mantimentos) para saber os horários e garantir seu lugar na embarcação.

Em geral, os horários são pré-estabelecidos pelos “freteiros” ou “rabeiteiros” (como se diz por aqui para quem opera no transporte até as ilhas). Mas, em período de intensidade de chuvas em que consiste o inverno amazônico, os horários podem variar, sem falar das marés que regulam a navegação e sincronizam outras atividades. Ao me dirigir ao dono da embarcação, que opera a travessia para Quianduba, avisto, ao lado, outras embarcações de propriedades particulares ancoradas no trapiche (como um estacionamento), deixadas por dezenas de pessoas que diariamente seguem para resolver seus propósitos na cidade.

As pessoas entram na embarcação e procuram se acomodar: é o momento da saída. O barco (também chamado de rabeta) está cheio de mercadorias de cada usuário que serão

tocar a água dos rios como uma espécie de rabo da canoa. As “rabudas” e “rabudinhas” servem para os pequenos deslocamentos de pessoas entre as comunidades mais próximas. São práticas e rápidas no transporte de pequenas quantidades de passageiros e mercadoria. De acordo com as pessoas com quem conversei, vários moradores possuem “rabetas”. Estas são constatadas nos atracadouros defronte às casas percebidas em vários trechos ao longo do rio. Entres os fatores responsáveis pela disseminação das “rabetas”, segundo os moradores, resulta da expansão da comercialização do açaí (Euterpe Oleracea) na região das ilhas de Abaetetuba.

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Canoa a remo: embarcação movida a remo, sem convés ou com convés semifechado, sem casaria, com quilha, com pintura, de pequeno porte, comumente utilizada nas pescarias com espinhel e nas pescarias de companha.

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Montaria: embarcação movida a remo, conhecida vulgarmente nas comunidades como casquinho ou montaria, são geralmente pintadas e tem como princípio estrutural o casco, de influência indígena e de pequeno porte, utilizadas por alguns moradores na pesca de circunvizinhança.

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comercializados ou para uso próprio, tais como: açúcar, saca de farinha, óleo, garrafas de água mineral, biscoito, café, refrigerantes, uma bomba para puxar água do rio, uma televisão e uma caixa de som. Alguns passageiros se conhecem, observo pelo aceno e palavras de saudações depois que adentram na embarcação, como: Bom dia! Como está o “fulano”? Como está? Veio pra Abaeté hoje? Trouxe açaí? (inclusive quero registrar que o açaí encontrava-se em plena atividade, no seu período de safra). São variados os propósitos das idas até à cidade: visitas a parentes, negócios, atendimento médico-hospitalar, recebimento de recursos provenientes de benefícios sociais (aposentadoria, bolsa família, bolsa verde, seguro defeso), dentre outros motivos. Há professores que perderam o horário do transporte fornecido pela prefeitura municipal às ilhas, que funcionam em dias de aula e horários limitados. Havia dois deles na embarcação. Fazem esse percurso semanalmente até à Escola Dionísio Hage48, localizada na comunidade do Rio Quianduba. Aliás, esse é um percurso

realizado por pelos menos nove servidores da escola. Esse movimento todo faz parte da vida diária de quem mora nas ilhas.

A rede de dormir é um elemento presente no interior das embarcações, mas pouco usado. Seu uso depende da disponibilidade de espaço. Quando usadas, destinam-se, em geral, às crianças, idosos em caso de doença, e aos donos das embarcações para descansar o corpo no intervalo da viagem. As redes são frequentemente utilizadas pelos passageiros em embarcações no cotidiano dos rios da Amazônia, principalmente em transportes de tamanhos maiores com um longo tempo de viagem e não somente nesse ambiente. Vicente Salles (1994) no artigo “Memória Sobre a Rede de Dormir” se reporta, através de vários registros da literatura, ao uso e costumes das redes nas habitações Amazônicas. Cita o escritor Câmara Cascudo ao se referir de que a Amazônia é uma grande consumidora da rede. A rede “é o verdadeiro leito popular balançando por toda parte”. Diferentemente da presença da rede no interior da embarcação, pelo menos a que tive acesso em deslocamentos ao locus da pesquisa, não encontrei embarcação com coletes salva-vidas, ou quando contém são insuficientes, tanto quanto a fiscalização da Capitania dos Portos.

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Rodrigues (2012) informa que a escola atende um quantitativo de mais de seiscentos alunos do Rio Quianduba, Maracapucu, Furo Grande, Tucumanduba, Jupariquara, Costa Maratauíra, Costa Uruá, Furo Efigênia e outros. Atende desde a Educação Infantil até o Ensino médio

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Em conversa com os encarregados do transporte sobre o tempo de viagem, procurei indagar sobre tais equipamentos. Percebi que não há grandes preocupações com a situação, até mesmo pelos passageiros. Os donos das embarcações alegam que os custos com esse tipo de material são elevados49 mas não deixam de temer com algum tipo de acidentes e afirmam

contar com a “proteção divina”, pois é Deus quem está no comando. Nesse afazer diário vão ganhando habilidade e conhecimento sobre o “tempo das águas” para navegar.

Devido o deslocamento ser relativamente curto, aproximadamente um pouco mais de uma hora, e, com poucas pessoas, geralmente conhecidas, os freteiros me dizem se sentir mais seguros por conta do perfil da maioria de seus passageiros que está cotidianamente em interação com o rio desde pequeno. Dessa proximidade de relação com os rios pela população nos fala Moura (1987 [1910]) em sua observação à viagem realizada descrita na obra: De Belém a São João do Araguaia. O autor refere-se ao aprendizado precoce das crianças no exercício de nadar, que ocorre desde os cinco anos de idade nos rios da Amazônia: “todos sabem nadar, ora à flor d'agua, ora mergulhando como peixes, indo boiar à grande distância, segundo o maior ou menor fôlego da pessoa, passando às vezes dois minutos” (1987 [1910]): 109). Certamente, os donos das embarcações apoiam-se nessa assimilação dos passageiros em usar os cursos d’água, entre outras coisas, para deslocar-se. Isto me pareceu não afligi-los aos perigos de uma viagem pelo rio.

Tendo vivenciado, por quase um ano, em viagens para outros lugares pelos rios na região do Pará (principalmente, à Cametá - Rio Tocantins - e Ponta de Pedras no Marajó). Em atividade de assessoria junto a grupos de mulheres que desenvolvem trabalho de artesanato, em parceria com a Rede de Mulheres Empreendedoras rurais da Amazônia, testemunhei as condições de transporte a que se submetem, as pessoas em seus deslocamentos. Imagens similares são ressaltadas por alguns pesquisadores da região ao descreverem fatos presenciados em suas viagens a campo. Silva (2009), em um estudo realizado no Baixo Tocantins/Cametá-PA,

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Uma iniciativa no município conduzida por alunos do “Clube de Ciência” para a confecção de equipamento salva vida com baixo custo a ser usado para esse tipo de serviço de transporte na região foi foco de uma reportagem do jornal local - O liberal . O equipamento testado é de miriti, palmeira de relevância econômica e cultural para a população. A palmeira contém uma propriedade que a deixa flutuar, embora absorva água com o passar do tempo. Os alunos testaram o impermeabilizante da seiva da árvore da seringueira (Hevea brasiliensis) para posterior confecção final, tornando-se eficiente e a baixo custo. Ver sobre o assunto a reportagem no site: http://redeglobo.globo.com/pa/tvliberal/edopara/noticia/2014/08/em-abaetetuba-estudantes-criam-colete-salva- vidas-feito-de-miriti.html

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observou condições de transporte a que se submetem as pessoas em viagem pelo rio da região, como a ausência de equipamentos de primeiros socorros, banheiros, água filtrada e local adequado para as bagagens. Ferrão (2006), em pesquisa na Ilha do Marajó se referiu ao cenário semelhante àquele tipicamente do barco completamente lotado de mercadorias e as condições de desconforto das acomodações dos usuários que competem com as bagagens e as embalagens.

Nesse deslocamento diário das pessoas pela “rua de rio” 50 até Quianduba, percebi que as embarcações assumem, para cada passageiro, importância fundamental. Afinal, este é um essencial instrumento/meio de trabalho para aqueles que possuem sua própria embarcação, como para os que a utilizam como serviço de transporte coletivo. Nesse vai e vem para cada lugar das ilhas em horários determinados, as pessoas que operam o transporte criam uma relação de confiança com os passageiros apoiada na amizade. Nesse caso, as viagens, embora não tão longas, propiciam a troca de produtos, são ocasiões de sociabilidade oportunizadas pelo encontro, pela tensão da viagem, pela troca de informação, pela identidade com o meio de transporte, o rio , o imaginário. Tudo isso integra a vivência dos moradores desse lugar e, certamente, de outras comunidades ribeirinhas da Amazônia.

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Faço alusão a letra da musica “Esse rio é minha rua” composta por Paulo André e Rui Barata ao compor que o rio é “a sua rua” e também ao que Santos, (2004. p.4) nos diz: “o rio é a rua, o meio de transporte, espaço, lazer, fonte de alimentação e locus de trabalho, demarcando, também, espaço de desigualdade no desenvolvimento de práticas sociais” O trânsito intenso ( na rua ) como aponta LOPES, 2006) é realizado por distintas embarcações na via fluvial correspondem a bicicleta, o carro, a moto na via terrestres; pequenos percursos, como travessia do igarapé, realizados a nado, corresponde a andar a pé [pedestre].(LOPES, 2006)

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FOTO 1: Saída do Porto da CEMA

Fonte: Waldiléia Amaral, registro de campo 2014.

A menos de dez minutos longe do porto, nos aproximam da natureza fazendo com que aquele barulho a que me referi no inicio – tão comuns em Abaeté e às grandes cidades – se distancie dando lugar ao vento mais forte, ao som das marés e do barulho do motor dos barcos (não tão poucos). À medida que a “rabeta” vai se afastando, a viagem ganha um clima mais calmo, os barcos agora mais dispersos, cada um seguindo seu caminho. Nesse momento, me pego pensando que a nossa vida enquanto passageiro passa a ser ‘dirigida’ pelo ordenamento do rio e tenho que concordar com Moura (1987 [1910]) de que é “inegável que a alma humana sente um bem estar de alegria ao descortinar o panorama do rio”. A viagem realizada pela manhã nos permite olhar a paisagem e, logo, vejo o sol como uma pintura. Não é comum o trajeto pelos freteiros até Abaeté em horários noturnos, mesmo por pessoas que possuem sua embarcação, a não ser em casos de urgência que dependerá também do fluxo da maré, podendo favorecer ou retardar o tempo de chegada e saída.

A despeito dessa situação Azevedo (2014), em pesquisa com crianças especiais na Ilha do Marajó nos mostra que há restrições também em deslocamento noturno pelos moradores, mesmo que se possa se servir de duas formas de transporte para se deslocar internamente ao espaço onde desenvolveu o estudo (povoado de Céu e Cajú-Una). O percurso do transporte automotivo através de uma Fazenda é evitado após às nove horas da noite, quando a porteira é fechada. A liberação é permitida somente em situação de emergência. Da mesma maneira

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ocorre pela via fluvial; uma vez que os donos dos barcos realizam o deslocamento esporadicamente à noite, cuja travessia está sujeita às condições da maré que nem sempre são propícias à embarcação e devendo essa ser feita por uma pessoa habilitada.

Voltando à viagem, esta vai ganhando outra dimensão. Há diferentes embarcações de todos os tamanhos e tipos carregando pessoas, balsa transportando madeira; canoas guiadas por crianças, homens e mulheres, algumas com “sombrinhas” para se proteger do sol ou da chuva. Ao nos aproximar de outras embarcações as pessoas acenam umas às outras como se se conhecessem há tempo. Da mesma forma, não é raro também se deparar com alguém acenando de suas casas da janela, porta ou ponte às vezes parando de fazer algo para saudar pessoas conhecidas ou não. Compõem a paisagem habitações com detalhes comuns, casas suspensas (tipo palafitas) margeando o rio, ora umas próximas das outras, ora afastadas, sempre anexadas a uma ponte comprida e uma escada para facilitar o acesso às embarcações. As moradias sempre cercadas por área de açaizal (espécie de grande importância para as populações locais); palmeiras do miritizeiro, dentre outros vegetais; trechos de áreas de aningal (que fazem parte das várzeas dos rios e igarapés de Abaetetuba) enfim, a natureza com seus vegetais e animais.

Uma música de composição de Celso Viávora51 sempre me vem à mente, cada vez que

viajava para o lugar da pesquisa de campo, quando vejo “as aves que passam fazendo uma zona” ou de “um curumim assiste da canoa um boieng riscando o vazio” . A composição ainda chama atenção pela beleza da Amazônia e tece uma pergunta “molhando meus olhos de verde floresta, eu olho o futuro e pergunto pra insônia: será que o Brasil nunca viu Amazônia?” Tenho, porém, que reconhecer: todas as vezes que fazia este deslocamento me vinha o pensamento de como o meu trabalho de campo me propicia ou mesmo me estimula a procurar entender, conforme o alcance de minha compreensão, as relações presentes entre a vida das pessoas com o ecossistema local, na organização social e no trabalho produtivo num espaço geográfico-cultural tão especifico: o insular, apesar da proximidade com o continente de Abaetetuba, mas sobretudo entender o significado que as pessoas dão as coisas e a sua vida nesse lugar.

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Celso Viávora é compositor, interprete, violonista e arranjador compôs “Olhando Belém”, composição conhecida na voz do compositor paraense Nilson Chaves.

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