8. Experiència del pla de dinamització
8.2. Implementació pilot de l’experiència
O título da presente dissertação De Awaete a Asurini do Xingu– Histórias do contato
(1971K1991) evoca a forma heterônoma com que a sociedade nacional se comporta na relação
com este povo particular e com os povos indígenas em geral, desde os tempos da colonização portuguesa até a atualidade. As denominações dos povos têm sido feitas sempre a partir da forma que os não$indígenas os vêem e classificam. Dificilmente a autodenominação de um povo é considerada como a forma correta de referi$los.
O estudo das relações entre o Estado e os povos nativos é um campo ainda pouco explorado das pesquisas antropológicas no Brasil (Souza Lima, 1995:12). Faz$se campo de análise profícuo ao potencializar e viabilizar o conhecimento dos processos históricos de expansão das forças econômicas, bem como dos conseqüentes conflitos e políticas forjados na fronteira. Para elaborar o presente estudo não parti de uma idéia inspirada em textos de etnologia. O critério para a escolha do povo indígena, cujo contato analiso, levou em conta a familiaridade existente a partir de minha experiência como educadora entre os Awaete, nos anos 1991$1993. Ao experenciar as vivências da “fronteira”, pude perceber várias dimensões existentes nesse encontro de culturas, dentre elas a barbárie, ocultada ou não nas relações aí estabelecidas. Barbárie, aqui é compreendida definindo uma manifestação de violência exacerbada, discordando do uso preconceituoso atribuído por alguns evolucionistas que
utilizam a expressão para caracterizar sociedades “primitivas”.
O contato do povo indígena Awaete com a sociedade brasileira e suas implicações, (os dilemas vividos, os conflitos e as tensões), é, portanto, o tema desta dissertação. O objeto central de análise da presente dissertação dá continuidade aos estudos acerca da construção da identidade social no contexto da fricção interétnica entre as sociedades indígenas do Brasil e a sociedade nacional. Cardoso de Oliveira é um dos autores de maior destaque e o iniciador destes estudos no Brasil, originados na década de 60 do século passado. Na obra O índio e o
mundo dos brancos: Uma interpretação sociológica da situação dos Tukúna (1972)26, Cardoso de Oliveira realiza uma série de pesquisas, que, de acordo com Melatti (1984)27, no artigo A Antropologia no Brasil: um roteiro está inserida dentre os estudos de mudança social, de mudança cultural ou de aculturação, iniciados nos anos 30 e que tiveram em Herbert Baldus28, um dos primeiros a ensaiar e incentivar a produção voltada para o contato interétnico entre povos indígenas e “brancos”.
Cardoso de Oliveira em sua análise sociológica busca articular o estudo de duas sociedades: a indígena e a não$indígena, considerando o conflito, aspecto que não costumava ser considerado nos estudos que focalizavam preferencialmente o presente etnológico. O conflito entre as duas culturas é tratado por Cardoso de Oliveira (1988) com o uso do conceito, proposto por ele, de fricção interétnica, que trata dos contatos entre os povos indígenas e a sociedade nacional marcados pelos aspectos competitivos e conflituosos. Seus estudos acerca da persistência da identidade indígena mesmo após o afastamento da aldeia, no caso do povo Terena, que passou a habitar os centros urbanos no estado do Mato Grosso, também auxiliam na reflexão acerca das diversas formas de resistência viabilizadas pelos povos indígenas no Brasil. Por essas contribuições, para a realização deste estudo sua obra constitui um dos importantes referenciais teóricos. Por outro lado, a obra Um grande cerco de
paz: poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil de Antonio Carlos de Souza
Lima (1995) constitui uma referência importante para as análises históricas e teóricas. Sua etnografia do nascente Estado Republicano e do “Governo dos Índios” lança luzes importantes na presente análise do contato. No tangente aos estudos etnográficos dos Awaete,
26
Cf. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O índio e o mundo dos brancos: Uma interpretação sociológica da
situação dos Tukúna. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1972. 27
Cf. MELATTI, Júlio Cezar. “A Antropologia no Brasil: um roteiro”.In: O que se deve ler em Ciências Sociais
no Brasil, Vol. 3, São Paulo: Cortez e ANPOCS, 1990. pp. 123$211. 28
Antropólogo teuto$brasileiro, que exerceu importante papel na constituição da pesquisa e do conhecimento antropológico no Brasil. Conferir em: SAMPAIO$SILVA, Orlando. O antropólogo Herbert Baldus. Rev. Antropol. [online]. 2000, Vol. 43, no. 2 [cited 2007$11$18], pp. 23$79. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034$77012000000200004&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0034$7701. Acesso em 15/12/2007.
são referências importantes as obras de Regina Müller (1984$85; 1990), além da pesquisa realizada por Berta Ribeiro (1982) e os recentes estudos realizados pela pesquisadora Fabíola Silva (200229).
Com o objetivo de discutir aspectos da relação entre o Estado e o povo Awaete, que permitam identificar as representações subjacentes aos discursos e práticas indigenistas, trabalho na análise de textos oficiais, buscando nos diversos relatórios as permanências e as mudanças que revelem a estrutura do indigenismo praticado entre os anos de 1971 e 1991.
“Indigenismo” é entendido aqui de acordo com o conceito elaborado por Souza Lima (1995, p. 14), como “um conjunto de idéias e ideais relativos a inserção de povos indígenas em Estados nacionais”; e Política Indigenista, como “quaisquer medidas tomadas pelo Estado através de decisões em diferentes níveis, que direta ou indiretamente afetem os povos indígenas”, não se devendo supor que do primeiro decorra a segunda.
As histórias do contato são analisadas, inicialmente, incorporando idéias do referencial teórico da Antropologia Estrutural e da Análise do Discurso, não aqui tomadas em termos absolutos, mas como possibilidade para uma análise preliminar, que permite investigar a persistência do colonialismo entre os anos de 1971 e 1991. Parte do período analisado é posterior ao advento da Constituição cidadã de 1988, que formalmente reconhece os direitos e a autonomia dos povos indígenas no Brasil. A seguir discuto os dilemas e tensões existentes entre os avanços legais e a realidade opressiva dos interesses da sociedade majoritária contra os direitos dos povos indígenas a partir dessas histórias.
Durante a permanência entre os Awaete, a reificação do etnômio atribuído por terceiros causava estranhamento, por ser perceptível um mal estar, um certo deslocamento na relação do povo com sua própria identidade, pela dificuldade de se reconhecer a partir da visão do outro. De forma oposta, me chamou a atenção o fato de os Kayapó, povo com o qual convivi anteriormente, nos discursos proferidos em sua língua materna, sempre se auto$ referirem como os Mebengokre, “Gente do Olho d’água”, remetendo a identidade aos mitos de origem. Quando se auto$referiam como Kayapó, diante dos não$indígenas em português, o faziam com a intenção de criar um efeito performático que remeteria seus interlocutores às imagens de Kayapó estigmatizadas: os guerreiros impiedosos aos quais se deveria temer. Neste caso, o uso das duas denominações em espaços diferenciados produz efeitos diversos, reforçando ou manipulando a identidade, seja pelos fundamentos míticos ao se proclamarem
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Cf. SILVA, Fabíola. “A interpretação dos Asurini do Xingu dos achados arqueológicos encontrados na aldeia Kwatinemu” In: Horizontes Antropológicos. Vol. 8, nº 18, Dez. 2002: pp.175$187.
Mebengokre no espaço da aldeia, ou com o uso da imagem cultivada pelos regionais, como o
povo Kayapó que imprime um “respeito”, muito mais calcado no medo e no estereótipo do que por qualquer reconhecimento do direito à diferença. Impor$se pelo medo, nesse caso, é uma estratégia para enfrentar a carga negativa evocada pela presença entre os regionais. Entre os Awaete, o fardo da hetero$denominação se mostrou muito impregnado, de forma que ao se auto$referirem como Asurini, pude perceber quão estranho era o uso de um termo alienígena para falar de si, pois que “Asurini” aparecia na fala dos Awaete, como o uso da terceira pessoa para a auto$referência. O processo que conduziu os Awaete a assumirem$se como Asurini, abrindo mão do uso da autodenominação autêntica está relacionado ao contato, que é o objeto deste estudo.