8. Experiència del pla de dinamització
8.1. Proposta didàctica
8.1.7. Disseny de l’activitat i instruments
O estilo de vida dos Awaete é característico dos povos tupi guarani, de acordo com os estudos de Laraia22, que a partir das pesquisas junto a três povos dessa família, pôde sistematizar várias características e padrões importantes. A primeira característica que destaco é a predominância da agricultura como principal atividade de subsistência: a mandioca representa o elemento básico da dieta alimentar dos Awaete. Em suas roças cultivam várias espécies de mandioca, que é consumida de diferentes formas, sendo a farinha o principal produto. Esta é fabricada de três maneiras tradicionais: 1) ui´eté: ralando$se a mandioca na raiz de paxiuba (pat(s)i iwa), a massa é espremida com as mãos e colocada num cocho para secar; depois de seca é pilada e são feitos bolos, que são colocados posteriormente para defumar, após estes serem pilados novamente e peneirados, a farinha é torrada na forma de barro (d(z)apé); 2) maniakapyaka: feita da massa que se deposita no fundo das grandes panelas, onde é colocado o caldo espremido; depois de seca ao sol e pilada, é torrada; 3)
maniakui: feita com mandioca colocada na água por alguns dias, seca ao sol, pilada e
finalmente torrada. Come$se também o beiju e vários tipos de mingau preparados com o caldo da mandioca doce (maniakawa) ou engrossados com mandioca brava (maniaka), colocada de molho e pilada, depois de seca ao sol (maniapywa).
Os Awaete cultivam também o milho (awati) que constitui um alimento muito importante, pois, para além do fato de ser um alimento consumido o ano todo, é também parte da refeição ritual de diversas cerimônias, como, por exemplo, o Turé, a festa das flautas, que tem início no início da colheita do milho (Müller, 1990:74) Há restrições a serem obedecidas no plantio e as espigas verdes ou secas são a base do preparo de vários tipos de mingaus. Outras espécies cultivadas tradicionalmente pelos Awaete são o cará, batata$doce, tabaco, algodão, urucum, amendoim, fava, melancia, banana. De acordo com a divisão sexual do trabalho, cabe aos homens o preparo do solo (broca, derrubada, queimada e coivara) e às mulheres o cultivo e a colheita. Os homens de um grupo doméstico mantêm entre si relações de cooperação, abrindo suas roças próximas umas das outras. Na derrubada, são convidados todos os homens da aldeia, a quem é servido um mingau. A produção pertence às mulheres
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Cf. CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Sobre o Pensamento Antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: CNPq, 1988.
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que, transformando$a em alimento realizam a partilha junto aos demais grupos domésticos de acordo com as regras de parentesco (Muller, 1990) O preparo dos mingaus constitui uma atividade importante, fonte de sociação (Simmel, 1983)23, repleta de significados,
“[o] preparo dos mingaus servidos nos rituais segue uma dinâmica própria: as uirasimbé, cantadoras que acompanham o xamã, em geral suas esposas, devem providenciá$lo através do patrocinador do ritual. É raro se preparar este mingau com o produto da própria roça, isto é, a do xamã. Umas preparam, outros fornecem. Todos se alimentam.” (Müller, 1990:76)
O processamento dos alimentos no contexto do ritual, remete a uma segunda característica importante dos povos tupi$guarani: a religiosidade. Conforme Laraia indica no artigo As religiões indígenas: o caso tupiKguarani24, as religiões denominadas xamanísticas decorrem do uso do termo xamã, originário do povo tungu (Sibéria), que designa o especialista religioso, o qual através do estado de transe, entra em contato com seres sobrenaturais. As lideranças religiosas tupi$guarani partilham este perfil e são denominadas pelo termo pai’é, expressão que é grafada na língua portuguesa como pajé (Laraia, 2005:8)
Entre os Awaete, os rituais xamanísticos, conhecidos como “pajelança”, realizam$se com muita freqüência, mobilizando todo grupo. A maioria dos homens participa como pajé nestes rituais, auxiliados pelos assistentes e pelas cantadoras, encarregadas também de preparar o mingau ritual. A “pajelança” compreende dois tipos de rituais: o maraká (canto e dança) e o petymwo (massagem e defumações), executados para invocar os espíritos com os quais os xamãs entram em contato, assim como para tirar a causa da doença do corpo do paciente e lhe transmitir o “remédio” (muynga) que recebem, então, através do estado de transe (rituais terapêuticos). Nesses rituais, o “xamã” passa também para o paciente e as crianças da aldeia o ynga, algo como “força vital”, traduzido pelos Awaete como “coração”, isto é, o que bate, o que tem vida (Müller, 1990:170)
O maraká é realizado também como o ritual propiciatório para espíritos identificados como animais da floresta, como porco$do$mato (tazaho) e veado (arapoá). Os xamãs entram em contato com espíritos que se enquadram em categorias de seres que podem ser chamados de “espíritos guardiões”, subdivididos em espécies que compreendem indivíduos identificados por nomes próprios. Esses seres, que reproduzem o mundo dos humanos, habitam certas regiões do cosmo. Eles são intermediários entre os xamãs e outra categoria de seres não
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Cf. SIMMEL, Georg. Formalismo sociológico e a Teoria do Conflito. In: FILHO, Evaristo de Moraes (Org.).
Georg Simmel – Sociologia. Coleção Grandes Cientistas nº. 34. São Paulo: Editora Ática, 1983. 24
Cf. LARAIA, Roque de Barros. As religiões indígenas: o caso tupiKguarani. Revista USP, São Paulo, n.67, p. 6$13, setembro/novembro 2005.
identificados individualmente e que não entram em contato direto com os xamãs, podendo ser chamados de “categoria única”. Os espíritos guardiões fazem mediação entre os xamãs e as categorias únicas, e os xamãs entre os espíritos e os homens. De acordo com a hierarquia existente entre seres que povoam o cosmo Awaete, os humanos estão subordinados às criaturas classificadas como categorias únicas e que ficam num plano superior, assim como as
anhynga, que ficam num plano inferior e que convivem com os Awaete, podendo prejudicá$
los, pois representam forças negativas, como a alma dos mortos. Como os xamãs, os espíritos guardiões são intermediários entre homens e as categorias únicas e auxiliam seus colegas humanos a combaterem os males dos anhynga. Para tornar$se familiar aos espíritos e participar de seu mundo, o xamã Awaete passa por uma iniciação, isto é, um treinamento para obter e controlar, através do exercício da dança e da aspiração da fumaça do tabaco, o estado de transe, interpretado como “morte” (manu) do pajé, pelos ataques do espírito. Para suportar estes ataques, o pajé manipula substâncias (ka´a) que entram em seu corpo. O treinamento do xamã consiste em “tomá$las” do espírito em questão. Deve aprender também a manejar certos instrumentos, como apitos, que fazem o som dos espíritos e têm procedência sobrenatural(Müller, 1990) A semelhança com os rituais de iniciação xamanística observados entre outros povos tupi$guarani por Laraia (2005, p. 8)25 é bastante significativa:
“Entre os assurinis, do Rio Tocantins, constatamos a existência de um ritual denominado opetimo (literalmente: comer fumo) que tem como objetivo identificar, entre os jovens, aqueles que têm o potencial de se transformar em um pai’é. Entre cantos e danças, os candidatos fumam um grande charuto de tabaco, engolindo a fumaça. Os que se sentem mal, ou seja, têm ânsia de vômitos, são descartados. Os que desmaiam são os escolhidos. “Omano”, grita o pai’é oficiante do ritual, ou seja: “ele morreu”. É “morrendo” que se faz a viagem para o outro mundo, o que torna possível o contato com os antepassados.
A maior parte do trabalho dos xamãs consiste em efetuar curas através do controle dos espíritos que provocam as doenças e, até mesmo, a morte.” Os Awaete fazem uma interpretação da doença como o resultado da ação dos espíritos frente à transgressão de prescrições relacionadas ao sobrenatural, por exemplo, o ato de falar o nome dos espíritos Karowara próximo aos rios e igarapés, ou ter contato com anhynga. A doença também pode ser entendida como manifestação da predisposição de um indivíduo a se tornar xamã. Do ponto de vista da medicina ocidental, os casos tratados pelos xamã são de gripe, malária, tuberculose etc. Além dos rituais realizados para a saúde dos habitantes da aldeia, os xamãs executam rituais propiciatórios para garantir a subsistência, como o Tazaho
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Cf. LARAIA, Roque de Barros. “As religiões indígenas: o caso tupi$guarani.” In: Revista USP, nº 67. São Paulo, setembro/novembro 2005.
(porco$do$mato) para atrair e localizar, na mata, os bandos desse animal. Outro ritual propiciatório, realizado em conjunto com o do porco$do$mato, é o do Arapoá (veado) que lembra o mito no qual se conta a doação por esse animal dos produtos da roça à mulher, numa época em que o Awaete não os conheciam.
Aos rituais terapêuticos e propiciatórios somam$se ainda os dedicados aos recém$ nascidos e os rituais xamanísticos do Turé (complexo cerimonial das flautas), nos quais se invoca espíritos como Tau e Kawara (Müller, 1990) O xamã Awaete é a figura central no desempenho da vida social do grupo. Seu livre trânsito pelos diversos domínios do cosmo lhe permite o controle de forças que asseguram a resistência da sociedade. A partir do contato e suas conseqüências depopulativas, ter$se$ia desenvolvido de maneira exacerbada a tendência de enfatizar$se o xamanismo, latente entre os Awaete e recorrente entre os demais grupos tupi$ guarani. Tal fato suscitou inúmeras situações de tensão entre os Awaete e os funcionários da FUNAI, que “criminalizaram” a religiosidade Awaete no início do contato.