"O sujeito, a pessoa, o corpo e a alma, corpo e psique, juntos ou isolados, essa entidade singular foi sendo construída, desde o princípio da história humana".
OTÁVIO FILHO51
Neste capítulo, apresentaremos os fundamentos teóricos que embasam o experimento narrativo Lazarus in the land of endlessness, desenvolvido durante a pesquisa, assim como as dificuldades para sua implementação. Em seguida, esboçaremos aspectos da experiência de aprendizagem durante o mestrado e o processo de criação da narrativa, desenvolvida no iPad, considerada como um commonplace book52, onde já temos o leitor como autor ou editor em suas manifestações iniciais.
Oferecemos aqui, ao nosso leitor, um texto experimental hipermidiático em que os elementos de dois romances da Terra do Cacau, no sul da Bahia, estão imbricados. Para isso, escolheu-se autores com grande destaque regional e nacional: Jorge Amado e Adonias Filho. Este, à espera de uma revisão de sua obra, para ser incluído no cânone da literatura brasileira; aquele, dispensa apresentações. As obras selecionadas são Memórias de Lázaro53, de Adonias Filho e Terras do Sem Fim, de
Jorge Amado54.
A leitura do ciberespaço é essencialmente imagética. As lógicas dos processos narrativos hipermidiáticos exigem que o autor leve em conta a nova realidade que impõe um dizer e um mostrar. Adonias Filho, em Memórias de Lázaro, traz as cores do vale e sua magia trágica, enquanto Jorge Amado, em Terras do Sem Fim, traz as tonalidades da mata.
51 (ALMEIDA FILHO, 2006, p. 86)
52 Caderno de anotações em que o indivíduo registra seus pensamentos e citações as respeito de suas leituras,
muito comum no séc. XVIII.
53 Veja: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=17&sid=230 54 Veja: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=718&sid=244
QR#8
Ambientes que revelam a cor da pele do caboclo em tons de vermelho queimado pelo sol de um vale morto, cortado por um rio lamacento e malcheiroso. Esse mesmo vermelho cobre o selvagem que habita no mais profundo da mata junto às praias invadidas pelo mais azul dos mares. A leitura de ambas as obras faz dançar de prazer a imaginação do leitor, que se banha das cores quentes, da violência que marcou, na literatura, o nascimento das Terras do Cacau, nas terras do sem fim da internet.
Na ciberliteratura há a possibilidade de o leitor não só imaginar tais ambientes, como também poder escolher a cor do índio, a tonalidade do verde das árvores, do caminho rasgado pelo caboclo, na “Mata do Cequeiro Grande”. A magia dos ambientes virtuais conquista mais e mais os novos leitores, nativos digitais, mais familiarizados com a tela do computador do que com as páginas dos livros. Conhecedores natos das novas técnicas de leitura e produção de sentido, os escritores do futuro se alimentam das labirínticas narrativas ergódicas55, base certa para suas futuras produções. Portanto, o ciberleitor precisaria de guias que conheçam bem os caminhos e as tecnologias utilizadas para tal.
Como dissemos na introdução, talvez o maior desafio enfrentado na pesquisa tenha sido o de encontrar base teórica ou histórica para dar corpo ao argumento narrativo do livro experimental, produzido, especialmente, para este trabalho, como um exemplo beta, um exercício das possibilidades formais próprias dos novos livros eletrônicos.
Jorge Luis Borges, (em Funes o memorioso, discute com elegância e profundidade os assuntos da memória que reaparecerão no romance de Adonias Filho) constantemente referenciados por vários dos autores lidos nesta pesquisa - em especial, nos toca o conto,
55 A literatura ergódica, segundo Espen J. Aarseth, é aquela que exige, por parte do leitor, um esforço mais que
trivial na leitura da obra. Segundo ele o suporte em que o texto se encontra pouco importa, o que deve ser levado em conta é a mecânica do texto - um de seus exemplos desse tipo de literatura é o I-Ching, que exige um ritual de leitura altamente cuidadoso e especializado e que será inteiramente compreendido quando experienciado. O livro Gödel, Escher, Back: an Eternal Golden Braid, que é "A metaphorical fugue on minds and machines in the
spirit of Lewis Carroll", está para esta pesquisa assim como o I-Ching está para seu leitor curioso e desprendido
de preconceitos. Ambos livros, recomendação de um grande mestre, Guilherme Wense Cruz, já falecido, com quem tive o prazer e felicidade de ter um raro encontro em 2008.
Funes, o memorioso, que já traz no nome uma associação direta com um dos principais
elementos contidos no livro de Adonias Filho, Memórias de Lázaro, a própria memória: "enquanto a água empoçada animava o movimento dos lábios, retornava lentamente a realidade. Em primeiro lugar, a náusea. E, antes que se fizesse a angústia, a vaga imagem de um semblante enérgico. Jerônimo ocupava os meus olhos abertos" (FILHO, 2007 p. 134).
As imagens que Adonias Filho nos faz imaginar são os da dor da tragicidade humana. Alexandre, quando volta ao barro, de onde viemos todos, segundo o "mito da informação" do homem por Deus, que segundo Flusser é fundamental para o Ocidente. O autor, para tratar do gesto do escrever conta que:
De acordo com esse mito, Deus moldou sua imagem em barro (hebraico "adamah"), no qual insuflou seu sopro e, daí, criou o homem (hebraico "Adam"). Como todos os mitos, esse também é pleno de significados, essa plenitude pode ser desdobrada. Por exemplo: argila é o material (a grande mãe) em que Deus (o grande pai) insuflou seu sopro (Espírito), e assim somos nós o material espiritualizado que resultou desse coito. Sem que se negue essa interpretação do mito, pode-se conhecer nela a origem do escrever. A argila da Mesopotâmia, da qual o mito fala, ganhou então a forma de tijolo, em que o estilo cuneiforme divino fez uma incisão, e assim foi criada a primeira inscrição (do ser humano). [...] Aqui o mito será considerado seriamente como a descrição do gesto do inscrever. O que Deus fez, na verdade, ao insuflar seu sopro na argila? Primeiramente, ele pegou um objeto (argila) em suas mãos (ele o compreendeu), depois o transformou em um paralelepípedo (ele trabalhou) e, por último, o in-formou (gravou formas nesse objeto). Sabemos decerto que a coisa ainda não estava resolvida: ele queimou o tijolo, que havia ganhado uma forma, para endurecê-lo. Embora isso não seja narrado pelo mito de que se fala aqui, é tratado naquele acerca da expulsão do paraíso (FLUSSER, 2011, p. 25-6).
A história que Flusser conta nos é familiar a todos e suas reflexões sobre a importância do "mito da informação" do homem certamente nos faz compreender melhor as questões pertinentes ao livro de Steiner que, como veremos mais a frente, no capítulo 3, respalda as palavras de Flusser, em sua reflexão sobre o livro que o sustenta. Borges, que faz filosofia por meio de "contos", queima, nas labaredas das ruínas circulares, o homem sonhado por seu mestre, nos é guia, assim como foi o capítulo 10, de "Os mistérios da leitura", de Darnton, em
nosso Lazarus, o experimento intitulado Lazarus in the land of endlessness56
, como um Commonplace Book57, pois sua narrativa é uma viagem que retoma pelo fio da memória dados
marcantes dessa nova experiência de leitura, em que o sistema de escrita alfanumérico já não é suficiente para o exercício do dizer. Darnton conta que :
O melhor exemplo de um livro de lugares-comuns do século XX é Geoffrey Madan's Notebooks, publicado pela Oxford University Press em 1981. Talvez seja o último de sua linhagem, pois saiu de catálogo e parece ter sido esquecido, exceto em algumas salas de professores de universidades britânicas. Mas ele merece ser regatado do esquecimento, pois é um excelente livro, especialmente para quem se interessa pela leitura como forma de entender o mundo (DARNTON, 2010, p.165).
O autor afirma, que "a história da leitura se tornou uma das áreas de pesquisa mais vitais das ciências humanas" (ibidem, p.188). E continua, dizendo que o trabalho de um historiador dos livros consiste,
de estudos de caso, que não se encaixam num modelo geral. Em vez de compartilhar uma visão comum acerca de tendências de longo prazo, os historiadores da leitura tendem a encarar seu tema como um alvo móvel impelido pela interação de opostos binário: ler virando páginas de um códice em oposição a ler desenrolando um rolo de papiro, a leitura de livros impressos em contraste com a leitura de manuscritos, a leitura silenciosa distinta da leitura de voz alta, ler sozinho em vez de ler em grupo, ler extensivamente material de vários tipos aos trancos e barrancos versus ler intensivamente alguns pouco livros do início ao fim (ibidem, p.188)
A partir desta reflexão, Darnton segue dizendo que os livros de lugares-comuns que adicionam e enriquecem a discussão entre a leitura segmentada e a leitura sequencial. Foi necessário muito tempo de reflexão para que pudéssemos ter a segurança necessária para revelar na escrita linear do texto, o que escrevemos, de outro modo em Lazarus in the land of
endlessness. Darnton afirma que devemos dar importância à leitura
56 A escolha do nome Lazarus in the land of endlessness, se deu pela sonoridade mais poética das palavras e
nada tem a ver com a tradução para o inglês do livro de Adonias Filho Memórias de Lázaro (1952), que em inglês leva o nome de Memories of Lazarus (1969).
57 Os livros de lugares comuns eram cadernos mantidos, principalmente por leitores ingleses já no século XII.
Nele, sempre que encontravam uma passagem interessante, copiavam o trecho sob um título apropriado, acrescentando observações sobre a vida cotidiana, fazendo o ler e o escrever, hábitos inseparáveis.
como elemento daquilo que era chamado de história das mentalidades - isto é, visões de mundo e modos de pensar. Todos que produziram livros de lugares-comuns, de Drake a Madan, navegaram pela vida através da leitura, pinçando fragmentos de experiência para encaixá-los dentro de padrões (ibidem, p.188)
Foi no manuseio das anotações feitas durante o curso, por meio de Print Screens, no formato JPEG, transferidas para o Dropbox, colhidas no iPad, salvas no álbum de fotografias, que o livro foi escrito. Com movimentos rápidos, clicando ou deslizando os dedos sobre a tela, cada anotação se ocupou de duas páginas do livro, construído em formato portrait, o grande preferido quando o assunto é praticidade no manuseio do objeto livro.
Talvez seja na tentativa de se compreender os padrões da leitura acadêmica, que se completa na escrita, que leitores sedentos pelo conhecimento adquirido nos livros, vêm desde a tabuinha de barro ao manuseio das imagens no iPad58
, buscando meios de fichar os livros
como, de certa forma, o fazemos em Lazarus. Pois, são as afinidades subjacentes nas páginas do livro que mantém a coesão de um certo padrão próprio que representa uma tentativa de extrair da vida um sentido ao modo do livro de lugares-comuns59.
As imagens/prints/páginas no Lazarus, feitos diretamente no iPad e, automaticamente, estocadas no seu álbum de fotografias, se fazem 'importadas' para o livro pelo dispositivo nomeado Camera Roll, que nos coloca em contato imediato com o álbum do tablet.
Uma vez inseridas nas páginas do livro, as imagens podem ser editadas, minimamente. Letras e caracteres podem então ser acrescentados ao texto, coloridas e reformatadas ao gosto do escritor. Um update do produto anuncia que agora vídeos podem ser acrescentados ao
58 O tablet que já não faz um retorno ao barro, mas sim ao principal elemento que o compõe, a sílica do vale que
sopra mudanças aos quatro ventos.
59 Leia em Darnton: "As afinidades subjacentes que mantinham a coesão desses padrões representavam uma
tentativa de compreender a vida, de extrair algum sentido; não mediante a colaboração de teorias, mas impondo formas à matéria. Escrever livros de lugares-comuns era como costurar colchas de retalhos: produzia imagens, algumas mais bonitas que outras, mas todas interessantes ao seu modo. Eles revelam padrões de uma cultura: os segmentos que a formam, a costura que os uniu, os rasgões que dividiram e o tecido comum a partir do qual foram compostos" (DARNTON, 2010, p.188).
leque de linguagens, no texto que já é multimídia, nos modos de escrever, mas que só contava com gravador de voz, inserção de imagens e editor de texto.
O livro, quando considerado pronto, ou seja, quando aquilo que é necessário para a estocagem do conhecimento, for suficiente para a sobrevivência da inteligência pensada no projeto, ao menos de forma introdutória, pode ser publicado. O nosso Lazarus, infelizmente, enfrentou problemas técnicos e não pôde, ainda, estar disponível em outro lugar, senão, no
iBooks de nosso tablet, que é facilmente identificado, pela Apple, com um serviço de GPS
que determina seu lugar exato no mundo. Há, aparentemente, certa incompatibilidade entre o sistema operacional Windows e o dispositivo da Apple, o iTunes, onde esperamos ver nosso livro disponível online60
.no futuro próximo. O Book Creator oferece ao escritor inexperiente,
o auxilio de um breve tutorial, que pode ser editado, ampliado e personalizado. Anotações em áudio, em Lazarus in the land of endlessness, se fazem presentes, de forma aleatória, mas facilmente identificáveis, sendo seu símbolo um ícone de compreensão universal.
O ponto primeiro que tomamos como comum entre os dois romances supracitados, para a construção da narrativa experimental integrante deste trabalho, é o território sul baiano, a mata do Sequeiro Grande.
Jorge Amado, em Terras do sem fim, conta a historia de uma "terra adubada com sangue", a mata do "Cequeiro Grande", a melhor terra do mundo para o plantio de cacau, com cocos de tamanho jamais visto. Uma verdadeira "Terra prometida", para aqueles que
60 A Apple anuncia possibilidades de aprendizagem no iPad: "Uma tela Multi-Touch incrivelmente ágil. Uma
grande tela IPS (In-Plane Switching é uma tecnologia de cristal líquido TFT adotado em Tvs e Monitores de LCD), de alta resolução retroiluminada por LED. E um design leve e fino para que você possa levar tranquilamente para onde quiser. O iPad não é apenas o melhor dispositivo na sua categoria, mas um tipo de dispositivo totalmente novo. E que tem tudo para mudar o cenário do aprendizado". Uma das ferramentas de leitura da Apple, que consideramos ser de conhecimento indispensável para os professores é o iTunes U. A promessa é que "Com o app iTunes U, os alunos podem levar tudo o que precisam para o curso, onde quer que estejam. Eles podem escutar palestras e aulas, ler novos livros didáticos no iBooks, assistir vídeos e ainda ter controle total de todos os trabalhos que precisam ser feitos. Além disso, quando você atualiza algum conteúdo ou envia uma mensagem para a turma, eles recebem uma notificação via push (A Tecnologia Push, é também conhecida como webcasting, é um sistema de distribuição de conteúdo da Internet em que a informação sai de um servidor para um cliente, com base em uma série de parâmetros estabelecidos pelo cliente, também chamado de "assinatura". com a nova informação". Disponível em: http://www.apple.com/br/education/ipad/.
conseguiram se inscrever61 na história do lugar, livrando-se das condições impostas pelos elementos da natureza, exterminando os verdadeiros donos das terras, os bichos e os índios.
Para nós que habitamos em terras sem fim do ciberespaço, são as nuvens que guardam as informações que nossas máquinas de ler nos dão a entender. Para os habitantes da 'Mata do Cequeiro Grande' de Jorge Amado, é o velho Jeremias que dá voz ao à floresta.
Um dia, muitos anos antes, quando a floresta cobria muito mais terra, quando se estendia em todas as direções, [...] Jeremias se acoitou naquela mata. [...] havia perdido a conta do tempo, já tinha perdido também a memória desses acontecimentos. [...]. Dentro da mata vivia em companhia de Ogum, de Omolu, de Oxosse e de Oxulufã, com os índios havia aprendido o segredo das ervas medicinais. [...] Se alimenta de raízes e ervas, bebe a água pura do rio que corta a mata, tem na sua cabana duas cobras mansas que assombram os visitantes. [...] Dele são as forças sobrenaturais, aquelas que desviam o curso das balas, que param no ar a mão que sustenta o punhal assassino, que transformam em água inofensiva o veneno mais perigoso da cobra mais mortífera que é a cascavel" (AMADO, 1987, p. 114-15)
O nome de Jeremias alude ao profeta bíblico, que significa "aquele que exalta Jeová". É sugeriu também que o mesmo faça alusão também a "o Senhor lança, o Senhor funda"62. Jeremias, ao saber por certo, das queimadas da mata, da destruição de seu lar, do profundo da mata, faz sua voz a voz da mata, amaldiçoando aqueles que destroem seu lar:
Jeremias está com o corpo duro e os olhos parados, seus olhos quase cegos[...] se ergue. Desta vez não precisou de bordão para sustentar em pé seu corpo centenário. Deu dois passos para a porta da cabana. Agora seus olhos quase cegos viam perfeitamente vista a mata em todo seu esplendor. E a via desde os dias mais longínquos do passado até esta noite que marcava o seu fim. Sabia que os homens a iam penetrar, iam derrubar a floresta, matar os animais, plantar cacau na terra onde havia sido a mata do Sequeiro Grande. Enxergou o fogo das queimadas se estorcendo nos cipós, lambendo os troncos, ouviu o miado das onças acossadas, o guincho dos macacos, o silvo das cobras se queimando. Viu os homens de machados e facões acabando com o resto que o fogo deixara, pelando tudo, pondo a terra nua, arrancando até as raízes mais profundas dos troncos. [...] e disse: - Olho da piedade secou e eles tá olhando pra mata com o olho da ruindade. Agora eles vai entrar na mata mas antes vai morrer homem e mulher, os
61 Flusser, traz uma bela descrição de um dos mitos fundamentais do ocidente, o mito da criação do ser humano,
desdobrando seus significados, não só com a etimologia da palavra como testemunha mas também a arqueologia, em seu livro A escrita.
62 Jeremiah: masc. proper name, OT. O.T. prophet (see jeremiad) who flourished c.626-586 B.C.E., from L.L.
Jeremias, from Heb. Yirmeyah, probably lit. "may Jehovah exalt," but Klein suggests it also might be short for Yirmeyahu "the Lord casts, the Lord founds," and compares the first element in Jerusalem. The vernacular form
in English was Jeremy. Disponível em:
menino e até os bicho de pena. Vai morrer até não ter mais buraco onde enterrar, até os urubu não dar mais abasto de tanta carniça, até a terra tá vermelha de sangue que vire rio nas estrada e nele se afogue os parente, os vizinho e as amizade deles, sem faltar nenhum. Vão entrar na mata mas é pisando carne de gente, pisando defunto. Cada pé de pau que eles derrube vai ser um homem derrubado, e os urubu vão ser tanto que vai esconder o sol. Carne vai ser estrume de pé de cacau, cada muda vai ser regada com sangue deles, deles tudo, tudo, sem faltar nenhum. Gritou mais uma vez o nome dos seus deuses queridos. Gritou por exu também, entregando-lhe sua vingança, sua voz atravessando a mata, despertando as aves, os macacos, as cobras e as onças. Gritou mais uma vez, era uma praga ardente: - Cada filho vai plantar seu cacaueiro em riba do sangue do pai..." (AMADO, 1987, p. 116-17)
Jorge amado vai também ao livro que guarda os mitos fundantes do ocidente, para a construção das imagens que pesam na alma da cultura sul baiana.
No entanto, é para o livro de Adonias Filho que voltamos nossa atenção agora63. Ele faz dos dados da memória do protagonista a rede estrutural para a construção do romance. O sangue, a morte e a ressurreição64, o barro, o mito de Lázaro, são elementos que naturalmente nos servem de inspiração para a base narrativa por trás de nosso livro experimental. Pois é do barro que foi formado o primeiro objeto que posteriormente veio a ser chamado de livro, o
tablet de argila.
O leitor que espera, ao abrir o livro Memórias de Lázaro, um protagonista chamado