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...imaginários e representações da nova capital brasileira

A força do imaginário em uma sociedade não pode ser menosprezada, porque se trata de uma força tão real como outra qualquer. Não é possível compreender uma sociedade simplesmente como um sistema funcional. É necessário aprofundar nas questões que envolvem a sociedade e reconhecer que o imaginário é parte integrante tanto das compreensões como das formas de desenvolvimento da vida social como um todo.

Para Maffesoli (2001, p. 80), “o imaginário é determinado pela ideia de fazer parte de algo. Partilha-se uma filosofia de vida, uma linguagem, uma atmosfera, uma ideia de mundo, uma visão das coisas, na encruzilhada do racional e do não- racional”. Lembramos então que, neste estudo, partimos da premissa de que o imaginário não pode ser compreendido como sendo o oposto do real, mas entendemos que o imaginário circula e está presente na vida em sociedade.

Ainda na perspectiva que trata do imaginário, Castoriadis (1982) acredita que as significações imaginárias devem prover respostas às perguntas, tais como: “quem somos nós, uns para os outros? (...) que queremos, que desejamos, o que nos falta?” (CASTORIADIS, 1982, p. 177). Nesse sentido, o que para nós é significativo entender é o fato de que a própria sociedade se constitui ou se constrói a partir de atividades que buscam dar respostas a essas perguntas; contudo, sem fazê-las de maneira literal. Desse modo, não se trata de um padrão pré-definido no qual as respostas corretas às perguntas devam ser perseguidas. Pelo contrário, trata-se de um constructo social, de um fazer coletivo, que surge não apenas como resposta às necessidades gerais, mas também estabelecendo suas próprias necessidades.

Para Castoriadis (1982), é a própria sociedade que concebe e delineia para si novas necessidades e também novas maneiras de responder a elas. É nessa perspectiva que utilizamos as contribuições desse autor: quais foram as necessidades impostas a Brasília enquanto responsável por acolher os sonhos de toda a nação brasileira? Quais foram também as necessidades que a própria vida social, no seu cotidiano de relações, criou e, mais especificamente, que respostas a cidade forjou e ainda tem forjado na tentativa de se fornecer soluções às suas demandas sociais, identitárias e relacionais? Como o imaginário social tem se

constituído nas identidades sociais dessa sociedade? E mais, quais são as representações, e ainda, como estas representações têm se traduzido no imaginário dos brasilienses e também da nação brasileira?

Castoriadis (1982), conforme destacamos, afirma que é papel das significações imaginárias proverem uma resposta a essas perguntas, porque nem a “realidade” nem a “racionalidade” o podem fazer. O referido autor, assim como Maffesoli (2001), também sustenta que somente o componente racional-real não consegue dar uma resposta satisfatória a essas perguntas, já que a vida social em seu conjunto se constrói também pelo fazer da coletividade que, é claro, está inteiramente relacionado ao imaginário. Portanto, tendo em mente que cada sociedade determina a sua própria imagem no mundo ao qual pertence é que buscamos, nos estudos do imaginário, subsídios para entender e analisar como a sociedade brasiliense tem construído sua imagem/identidade nesses 50 anos de existência.

O imaginário, portanto, revela-se mais sólido na construção identitária de uma sociedade do que qualquer outra realidade, porque a maneira de uma sociedade se situar no mundo se dá por meio das escolhas que acontecem no conjunto da vida social, sendo que tais escolhas são feitas por meio de um sistema de significações ancoradas no imaginário capaz de atribuir valores, julgamentos e até mesmo criar ou destituir necessidades.

Além do imaginário, neste estudo, nos baseamos ainda na teoria das Representações Sociais. Mas, em que sentido falamos de representações? Falar em representações sociais não seria o mesmo que falar em cultura? Há que se delinear então a que esta abordagem se propõe.

Entendemos que as representações atuam na vida social de diversas maneiras, inclusive nos modos de interpretação da vida em sociedade. No entanto, as representações sociais, assim como o imaginário, não podem ser entendidas em categorias polarizadas como certo ou errado. Elas funcionam como arquétipos de determinada cultura, já que se relacionam com as vivências, as trajetórias e o senso comum que permeiam uma sociedade. Na verdade, elas são construídas coletivamente a partir das crenças, valores, padrões, costumes, atitudes etc., que permitem entender e/ou explicar uma determinada cultura ou sociedade. No entanto, nossa compreensão é a de que enquanto as culturas são maneiras de compreender e de se constituir o mundo, as representações funcionam como veículos que

transportam as formas culturais, ou seja, elas mantêm a propagação das mais variadas formas de tradições.

Neste capítulo, continuaremos com as interpretações da cidade que nos foram concedidas por meio das entrevistas. No entanto, trataremos aqui de imaginários e representações que envolvem a capital brasileira como, por exemplo, a cidade-maquete e a ilha da fantasia.

Cabe lembrar, no entanto, que ao falarmos de representações e imaginários na cidade de Brasília, partimos da premissa de que existe certa imbricação ou um paralelo entre esses termos, paralelo que é subsidiado por alguns teóricos vinculados aos estudos do imaginário. Castoriadis (1982) nos fala, por exemplo, das representações imaginárias quando se refere aos estranhos costumes presentes em sociedades que precederam o mundo moderno como, por exemplo, as representações do humano como animal. Nesse sentido, para Castoriadis, uma imagem é uma representação. No entanto, para o estudo em questão, nos interessa apenas reconhecer que o imaginário pode ser, de alguma forma, representado, seja por imagens construídas no âmbito palpável – obras de arte, cinematográficas, etc. – seja também pelas imagens/representações construídas na imaginação das pessoas. É o que Maffesoli (2001) chama de construções mentais, quando se refere às contribuições de Gaston Bachelard aos estudos do imaginário.

Retomamos, ainda, que para Maffesoli (2001), o imaginário é como uma aura que permeia as questões que envolvem uma sociedade. Nas palavras desse autor: “não vemos a aura, mas podemos senti-la” (MAFFESOLI, 2001, p. 75). É então nessa perspectiva que considera as construções mentais, que agora passaremos a refletir sobre imaginários e representações presentes na construção identitária da capital brasileira.

4.1 CIDADE, MITO, MAQUETE,

CIDADE, MATA, MAQUETE