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2. Impact Geology

2.4 Ejecta formation and mechanisms

Em uma breve sondagem acerca das rádios bolivianas de São Paulo é possível ouvir falar na existência de mais de dez nomes dessa mídia atuando, ou que atuaram, em bairros como o Brás, Canindé, Bom Retiro, etc. Entre ativas e inativas, em diversas sintonias e frequências, nomes diversos formam um leque amplo do rádio dentro da coletividade boliviana radicada na capital paulista. No entanto, em uma observação mais cautelosa, toda essa aparente diversidade é constituída, na verdade, de “nomes fantasia” utilizados pelos radialistas para reiniciar suas atividades logo após o fechamento e a apreensão dos equipamentos e até de radialistas pelas autoridades competentes, pois perante a Legislação

Brasileira de Telecomunicações, as rádios bolivianas de São Paulo caracterizam- se como piratas ou clandestinas.

As questões quarenta e dois e quarenta e três traziam aspectos ligados à realidade e situação jurídica das rádios e a percepção dos ouvintes acerca disso. A questão quarenta e dois perguntava se o ouvinte sabia se a rádio que ele escutava estava regularizada de acordo com a legislação brasileira de telecomunicações. Já a quarenta e três buscava saber se, no caso do ouvinte indicar que a rádio não estava em acordo com a lei, qual era a opinião dele acerca dela. As respostas ficaram assim organizadas:

Questão 42:

Você sabe se a rádio que ouve está funcionando de acordo com a legislação brasileira? Sim 2% Não 70% Não sei 28% Questão 43:

Mesmo não estando em acordo com a legislação brasileira, para você ela é

Utilidade Pública 60% Interesses Particulares 2% Não sei 38%

Acreditamos que analisá-las conjuntamente faz mais sentido que em separado, pois há complementaridade direta na proposta de ambas. O que podemos extrair dessas duas questões é que a maioria das pessoas sabem a situação irregular das rádios, mas que, mesmo assim, passando para a questão quarenta e três, as vêem com utilidade pública. O que nos chama atenção é o alto número de pessoas que responderam “não saber” se acerca da situação legal das rádios ou, tampouco, avaliar seu papel dentro da coletividade ou da comunidade a qual pertence. Instaura-se, aqui, um debate entre o que diz a Lei acerca da proibição desse tipo de atividade e o próprio Direito à Comunicação. As respostas que disseram ver utilidade pública demonstram que, apesar de ilegais, as rádios fazem parte de um complexo de necessidades dos imigrantes. Como utilidade pública, entendemos questões ligadas à violência doméstica, alcoolismo, preconceito, entre outros contemplados nos gráficos abaixo.

Questão 24:

Na programação das rádios, dentre estes, quais assuntos são abordados com maior frequência?

Rádio Número 1 Anístia 48% Jornada Laboral Diária 4% Enf ermidades Típicas 23% Preconceito 2% Álcoolismo 21% Violência Doméstica 2%

A questão vinte e quatro trazia os temas sociais mais abordado pelas rádios e, em seguida, fez-se necessário um cruzamento desses temas com as três rádios para saber qual delas falava mais de qual tema. Em todas as rádios o tema

que ganhou com ampla margem de vantagem sobre os demais foi a questão da Nova Lei de Anistia que, à época de nossa pesquisa, acabava de ser lançada. Acreditamos que as respostas a essa questão foram impactadas, diretamente, por esse momento.53 Na Rádio Número 1, como já dissemos, em primeiro lugar, na opinião dos ouvintes, era a Anistia. Em segundo lugar foram as questões ligadas ao álcool, preocupações já latentes e debatidas que envolvem aspectos sociais e culturais. Em terceiro lugar ficaram as enfermidades típicas das oficinas de costura, como a tuberculose. O ambiente físico das oficinas é fechado e úmido, ocasionando problemas respiratórios e dermatológicos. Campanhas são feitas, com o apoio das rádios, pedindo para que os imigrantes abram suas portas aos agentes de saúde que passam de casa em casa, mas os imigrantes bolivianos radicados na costura não fazem isso por alguns motivos, uma deles é o receio de ser descoberto, pois estão ilegais. O outro motivo pelo qual muitos não vão aos postos de saúde é o mesmo, ou seja, a falta de documento e o receio de ser descoberto e encaminhado à Polícia Federal. Essa pergunta é reveladora, pois oferece algumas pistas acerca dos temas menos debatidos, como a violência doméstica, que é quase que um tabu, pois ninguém comenta sobre isso. A própria Pastoral do Migrante é um local de refúgio para, principalmente, mulheres que sofrem violências de diversas formas. A questão da jornada laboral é quase que um ponto pacífico, pois não há muito do que se discutir. Salvo os casos extremos de condições similares ao trabalho escravo, o fluxo normal da vida laboral é feito com base no pagamento de peça produzida. Dessa forma, se o costureiro produzir dez peças em um dia ele ganha X, se produzir vinte peças ele ganha 2X, se produzir cinco peças ganha 0,5X. Falar em redução da jornada de trabalho é, ao mesmo tempo, falar em redução de ganhos financeiros. A razão de estarem no Brasil é o trabalho, dessa forma, não é raro, muito pelo contrário, é o comum vê- los trabalhando doze, dezesseis horas por dia para, obviamente ganhar mais. O

53 Por um lado, essa foi uma época muito fértil para a nossa pesquisa, pois havia todo um cenário de debates acerca da nova lei, inclusive contando com a presença do ex-Secretário de Justiça, exonerado do cargo por paradoxalmente ter ligação e beneficiar-se de produtos clandestinos importados por imigrantes chineses radicados em São Paulo, Romeu Tuma Junior falando da Lei na Praça Kantuta. Naquela ocasião estávamos lá e acompanhamos toda essa movimentação. Por outro lado, a programação das rádios não contemplava outros temas.

que existe, como já falamos, é a exploração dessa mão de obra, como os casos extremos, menos comuns, de situações próximas à escravidão.

Questão 24:

Na programação das rádios, dentre estes, quais assuntos são abordados com maior frequência?

Rádio Número 2 Anístia 48% Jornada Laboral Diária 2% Enfermidades Típicas 13% Preconceito 2% Álcoolismo 34% Violência Doméstica 1%

A análise da Rádio Número 2 é interessante em vários pontos, mas um saltou-nos aos olhos: a forte propaganda relacionada à proibição de uso de bebidas alcoólicas. Ou seja, por um impeditivo religioso, o álcool é proibido dentro dessa comunidade e isso poderia ser mais um dos ricos pontos de análises futuras que poderiam averiguar como a cultura andina desses imigrantes negocia suas práticas culturais, que têm o álcool como um dos requisitos celebrativos, com as “leis” ou recomendações da nova religião praticada em São Paulo.

Questão 24:

Na programação das rádios, dentre estes, quais assuntos são abordados com maior frequência?

Rádio Número 3 Anístia 74% Jornada Laboral Diária 1% Enfermidades Típicas 16% Preconceito 2% Álcoolismo 4% Violência Doméstica 3%

A análise da Rádio Número 3 nos chamou atenção dada à alta quantia de pessoas respondentes da Anistia como tema mais tocado. Acreditamos que isso se deve, em boa parte, à próxima ligação percebida entre a Rádio e o Consulado. Ou seja, as vezes em que vimos o Consulado se manifestar por meio de uma das rádios, isso era feita pela Rádio Número 3, reforçando uma das nossas “sub- hipóteses” que buscava saber das ligações das rádios com entidades de São Paulo. Merece destaque o fato da Lei de Anistia regularizar a vida de muitos estrangeiros que estão em situação irregular no Brasil. No entanto, essa discussão traz consigo uma dicotomia muito grande, pois averiguamos empiricamente que o imigrante boliviano, em algumas ocasiões, quer valer-se de alguns benefícios mas

não está disposto a dar contrapartidas. Ou seja, há um forte apelo humanitário para que ele seja atendido em hospitais públicos independente da sua situação documental no Brasil. No entanto, não podemos nos deixar entorpecer pela nossa visão de mundo, pois na hora de falar na arrecadação de tributos recolhidos na fonte, como INSS, entre outros, a condição de indocumentado é favorável a ele, pois esses impostos não incidem sobre os seus ganhos. Essa crítica precisa ser feita, independente do apontamento ideológico que permeie nosso trabalho, pois seria agir de forma maniqueísta e colocar o imigrante como um sujeito passivo e não escolhe o caminho pelo qual quer trilhar. A Lei de Anistia, também, traz obrigações ao imigrante e muitos deles não estão dispostos a cumprir com elas, pois isso significaria pagar mais impostos do que já paga (ao comprar um litro de leite ou um bilhete de metrô) e isso, geralmente, não é um bom negócio visto pelo lado de quem vem ao país para trabalhar. Isso só referenda cada vez mais como é complexo tentar compreender o mundo do migrante e suas vicissitudes.54 Até onde soubemos, do montante estipulado de imigrantes bolivianos em São Paulo, apenas uma parcela pouco representativa teve o interesse de se regularizar, mesmo com toda a campanha feita pelo rádio. Ou seja, isso mostra que o ouvinte não é uma espécie de “fantoche” que se manobra ao bel prazer dos meios de comunicação. O ouvinte pensa por si só e toma a decisão que melhor lhe convier. É aqui que resgatamos Peruzzo(2004) quando ela destaca o pensamento do senso comum de que a mídia manipula as pessoas. Marcondes Filho trabalha nessa mesma perspectiva em um título provocador que pergunta “quem manipula quem”.

Durante o período de nossa pesquisa, meados de 2008 a janeiro de 2010, estavam no ar três rádios que representavam segmentos distintos do universo boliviano de São Paulo. Dado ao fato de estarem funcionando de maneira irregular e seus radialistas serem considerados, para a polícia, contraventores, não

54 Isso é um dos desdobramentos da mecânica do mercado de confecção e costura de São Paulo. O costureiro fica com uma unidade monetária a cada três unidades monetárias produzidas. As outras duas ficam com o dono da Oficina. Essas duas unidades monetárias que ficam com o dono da Oficina são para pagar o aluguel, água, luz e almoço do costureiro. O dono da Oficina age como uma forma de Governo que recolhe o imposto na fonte. No entanto, em alguns casos, não há clareza na forma como isso é feito e muitos costureiros recém- chegados podem ser ludibriados acerca do valor de mercado de sua mão-de-obra e, ainda, do valor de mercado por peça por ele produzida.

divulgaremos os nomes das rádios, das programações ou, tampouco, dos radialistas que participaram das entrevistas semi-dirigidas em São Paulo. Para estes últimos, como uma forma de recurso metodológico, usaremos pseudônimos quando nos referirmos a eles e as suas falas. Assim, teremos a Rádio Número 1, a Rádio Número 2 e a Rádio Número 3, compondo o corpus da nossa pesquisa com propostas distintas umas das outras e, ainda, por reforçar teoricamente a discussão que propomos em nossas hipóteses no tocante à função cultural, identitária e comunitária que envolve o rádio e os bolivianos radicados em São Paulo. As programações de cada uma das rádios foram identificadas e classificadas por letras. Dessa forma, por exemplo, teremos a Rádio Número 1 com os Programas A, B, C, D e E. O mapeamento do conteúdo de cada um dos programas e o horário que iam ao ar está descritos exatamente como os ouvimos e percebemos. Ou seja, não há alteração do conteúdo, pois são eles que interessam para nossas análises e, além do mais, isso não traria complicações futuras para os radialistas entrevistados. Assim, para conhecer a relação que cada uma delas tem com os itens que nos interessam como ponto de pesquisa, faz-se necessário saber um pouco melhor do histórico de cada uma delas.55

A Rádio Número 1 começou suas atividades em 1994 inicialmente com um nome diferente do que a consagrou e que utiliza até hoje. Ela foi formada por um grupo de oito bolivianos (sete homens e uma mulher) que haviam chegado da Bolívia naquela mesma época, dois destes jovens já tinham alguma experiência com rádio e com a vida acadêmica enquanto ainda estavam na Bolívia, pois haviam cursado, sem concluir, Comunicação Social em universidades daquele país. Os demais participantes e fundadores da Rádio Número 1 vieram para o Brasil, assim como a maioria de seus compatriotas sem exercer uma profissão definida, acabando por se tornarem costureiros no mercado de confecção e costura. Dessa forma, motivados pela ausência de meios de comunicação que fossem geridos e direcionados para e por eles próprios criaram a primeira rádio para aqueles imigrantes andinos que atuavam no ramo de costura. Estes jovens

55 Para fins de simplificação, falaremos da história das três rádios considerando o fato que todas elas sempre tiveram os nomes adotados durante o tempo de nossa observação.

decidiram fundar uma rádio que falasse diretamente aos seus paisanos da Bolívia, uma vez que seus anseios comunicacionais mediados não eram contemplados pelas mídias de São Paulo.56 Vale destaque para explicação da palavra paisano, pois é possível encontrar significados distintos a depender do contexto e do autor. No entanto, o que percebemos acerca do seu uso é que ela reforça a perspectiva da idéia de comunidade que adotamos nesse trabalho, ou seja, ela remete a um sentimento de pertença comum, não necessariamente a uma nacionalidade comum, sendo o paisano é uma pessoa conhecida e querida, com a qual se compartilha afinidades e situações próximas, como o fato de estar no exterior passando por situações similares. Voltando à questão das rádios, os equipamentos de transmissão eram trazidos diretamente da Bolívia e instalados dentro de oficinas de costura espalhadas por São Paulo. A instalação era feita por eles próprios e, dada a natureza irregular da atividade, sempre durante a noite para não levantar suspeitas por parte das autoridades e vizinhança não boliviana, é o que relata um dos fundadores da rádio em questão:

Nosotros mismos hacíamos todo. Durante el día trabajábamos en la costura y por la noche en la tarea de poner la radio al aire, para no llamar la atención (Jorge – Um dos fundadores da Radio Número 1).

De acordo com alguns relatos, a cada vez que o local de transmissão era descoberto pelas autoridades, momento em que toda aparelhagem era apreendida, para que as atividades das rádios voltassem ao ar, era necessário ir até a Bolívia para comprar novos equipamentos, pois mesmo pagando as passagens sairia mais barato fazer essa viagem do que adquirir os equipamentos no Brasil.57 Após isso feito, o próximo passo era encontrar um novo local para montar o “estúdio” para transmissão da programação, geralmente em uma oficina de costura na região em que se desejasse que as ondas chegassem. O slogan

criado pelos oito jovens bolivianos para a Rádio Número 1 era la voz boliviana de San Pablo (São Paulo). É interessante notar que, neste slogan, existe um

56 Por Comunicação Mediada entendemos aquela em que há uma mídia eletrônica presente, neste caso o rádio. 57 Isso reflete, entre outras coisas, como os preços no Brasil são mais caros que no país de origem desses imigrantes. Essa questão impacta, também, nos salários recebidos, fazendo desta questão um dos principais motivos da vinda de bolivianos para São Paulo.

elemento já salientado por Martín-Barbero (1987) no tocante à concepção de que a comunicação é um dos componentes dos processos culturais explicados a partir da lógica existente entre o emissor, o meio e o receptor. Para o autor, ao remeter- se ao popular, ele afirma que:

El popular no reside en su autenticidad o belleza puramente, más en su representatividad socio-cultural, en su capacidad de concretizar el modo de vivir de las clases subalternas, las maneras como viven y las estrategias a través de las cuales filtran, reorganizan lo que viene de la cultura hegemónica y lo integran y funden con lo que vienen de su memoria histórica (MARTÍN-BARBERO, 1987 p.87).

É no sentido de reorganizar-se perante a cultura midiática dominante que as rádios bolivianas nasceram e, ao mapear suas grades de programação, percebemos elementos significativos para conhecer suas funções no que se refere à cultura, identidade e formação de comunidades. Fora isso, extrair os elementos dessas grades nos possibilitou saber o que elas representam para seus ouvintes e comunidades. Ressaltamos que tal mapeamento foi realizado durante nossa estada em São Paulo, sintonizando a frequência das rádios dia após dia, anotando horários e programas, averiguando a presença de convidados e guardando os nomes de locutores e anunciantes. Nesse momento, faremos a exposição geral da programação e já traremos alguns aspectos pontuais que sinalizem suas relações com os ouvintes. Os programas e análises referentes à cultura e identidade serão analisados em seus capítulos específicos. As três propostas de programação das três rádios seguem abaixo, assim como as análises iniciais que terão continuidade durante todo o trabalho. A programação da Rádio Número 1 foi mapeada por nós da seguinte forma:

Programa Horário Conteúdo

A 08h00min –

10h55min

Notícias de cunho geral envolvendo empregos em oficinas de costura da cidade. Notícias dos campeonatos de futebol organizados dentro da coletividade. Conversas sobre os

pontos bolivianos de São Paulo.

B 11h00min –

12h00min

Músicas bolivianas de grupos típicos de várias regiões do país natal.

C58

12h00min –

13h00min

Notícias de cunho exclusivamente social. Informes acerca da anistia. Campanhas contra a tuberculose dentro das oficinas.59 Alertas contra a exploração do trabalho nas oficinas de

costura. Campanhas de

conscientização acerca de uma boa conduta e moderação no uso de bebidas alcoólicas dentro das oficinas e, principalmente, em locais públicos, etc.60

D 13h00min –

16h00min

Músicas latinas de diversos gêneros

E 16h00min –

18h00min

Festas da coletividade. Celebrações públicas e privadas. Novenas. Comemorações culturais.61

18h00min Repetição da programação ou a rádio sai do ar.

58 Neste horário era comum a presença de um representante de alguma entidade ligada à vida dos imigrantes em São Paulo. A Pastoral, o Consulado e outras entidades bolivianas se valiam, com certa regularidade, desse espaço para informes gerais.

59 Enfermidade muito comum dentro do ambiente em que vivem e trabalham os imigrantes.

60 O consumo de álcool aos finais de semana é comum dentro da coletividade. Muitos imigrantes acabam “passando do ponto” e cometendo excessos que acabam maculando e estereotipando-os perante toda sociedade receptora paulista a coletividade em questão.

61 Durante nossa estada, nesse programa era muito corrente a atenção dada às festividades marianas bolivianas que acontecem no mês de agosto em São Paulo, comemorando e celebrando Nossa Senhora de Copacabana - uma espécie de padroeira nacional, Virgem de Urkupiña – padroeira do Estado de Cochabamba, e a comemoração do aniversário de independência da Bolívia.

Das noventa e seis pessoas entrevistadas, todas disseram conhecer a Rádio Número 1 e, desse montante, cinquenta e duas afirmaram que era a sua rádio favorita e que era ela que constantemente os acompanhavam em suas jornadas laborais. Dessas cinquenta e duas, trinta e oito disseram já ter se beneficiado de um tipo de serviço prestado pela rádio e que escutavam diariamente. Pablo, um jovem costureiro que respondeu ao nosso questionário dos entrevistados na Feira Kantutita no Bom Retiro afirmou que:

La Radio Número 1 es hecha por bolivianos y para bolivianos. No hay brasileños trabajando en ella. Eso es importante para nosotros. Lo malo es que las radios son piratas y la policía no las deja al aire, encarcelando a todos. (Pablo, 22 anos).

Após esquematizar a programação da Rádio Número 1 percebemos nesse primeiro momento, de forma geral, que ela ocupa-se da organização entre oferta e procura por empregos nas oficinas de costura. A prática mais frequênte entre os ouvintes é o “uso” de parte da programação para trocar de oficina de trabalho, por exemplo. Ou seja, por questões diversas, a rotatividade nas oficinas é relativamente alta e aquela Rádio serve como um canal de averiguação dessas possibilidades de mudança de local de trabalho. Esses fatores de rotatividade são diversos e complexos, variando desde a busca por maiores salários, passando por motivos de junção familiar, pois há famílias que trabalham em diferentes pontos da capital, até a fuga de possíveis explorações da mão de obra e violências cometidas no interior do ambiente laboral.62 Neste último ponto, o grupo que estávamos acompanhando nos ofereceu detalhes importantes de relatos vividos no cotidiano de algumas oficinas no quesito exploração e violências no ambiente de trabalho. Vânia, uma costureira boliviana, radicada no Brasil há sete anos, faz

62 A rotina laboral em termos de remuneração do boliviano empregado no mercado de confecção e costura de São Paulo é a de receber por peça produzida. Dessa forma, quanto mais se trabalha, mais se ganha. No