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No romance Cinq semaines en ballon – primeiro romance verniano e, portanto, não integrante do projeto do Magasin d’éducation et de récréation de Hetzel & Macé, e tampouco publicado em folhetim no jornal Le Temps –, há, no terceiro capítulo, o segundo retrato do romance, o de Dick Kennedy. Anunciado por um dos títulos do capítulo (L’ami du docteur), o leitor espera que este outro personagem lhe seja apresentado. Essa expectativa se cumpre. O retrato de Dick Kennedy tem como linha demarcatória de início o próprio incipit do capítulo, reforçado pela frase de abertura “Le docteur Fergusson avait un ami. Non pas un autre lui-même, un alter ego”.201 Esta frase introduz o pantônimo “Dick Kennedy” e dá abertura a uma apresentação biográfica e moral (etopeia) do novo personagem:

Ce Dick Kennedy était un Écossais dans toute l’acception du mot, ouvert, résolu, entêté. Il habitait la petite ville de Leith, près d’Édimbourg, une véritable banlieue de la “Vieille Enfumée”. C’était quelquefois un pêcheur, mais partout et toujours un chasseur déterminé: rien de moins étonnant de la part d’un enfant de la Calédonie, quelque peu coureur des montagnes des Highlands. On le citait comme un merveilleux tireur à la carabine; non seulement il tranchait des balles sur une lame de couteau, mais les coupait

en deux moitiés si égales, qu’en les pesant ensuite on ne pouvait y trouver de différence appréciable.202

O retrato de Dick Kennedy, em que a etopeia predomina, conta com valores morais bem definidos: “ouvert”, “résolu”, “entêté” e “déterminé” caracterizam este personagem que alia ação e contato com a natureza: “pêcheur”, “chasseur”, “coureur” des montagnes des Highlands”, “tireur”. Estes traços são ligados, por assim dizer, a sua nacionalidade e à localidade onde mora. Cabe-nos aqui mencionar um dado biográfico de Verne. Os topônimos citados neste retrato e os epítetos que os caracterizam não seriam uma escolha aleatória do escritor: eles atestam a sua pesquisa e revelam dados da sua origem familiar materna, segundo alguns pesquisadores da obra verniana entre o quais destacamos Joëlle Dusseau.203 A Escócia, Caledônia ou região das Highlands e Edimburgo, cidade de fisionomia medieval cujo porto é Leith e é apelidada de “vieille enfumée”, por conta das fumaças negras que escapam das chaminés e formam uma nuvem em torno da cidade, aparecerão repetidamente em outros romances do autor. Por exemplo, em Les enfants du capitaine Grant, Lord Glenarvan e Lady Helena são também escoceses e moram nas Highlands num castelo cujo nome, Malcolm- Castle, alude ao do rei Malcolm II, que reinou na Escócia a partir de 1018. Há ainda o capitão Silas Huntly do Chancellor, que também é escocês.

Com o espaçamento de um parágrafo, marcando a distinção entre retrato moral e físico, ou seja, entre a etopeia e a prosopografia, o narrador segue com a descrição física completando e enriquecendo os dados sobre o personagem:

La physionomie de Kennedy rappelait beaucoup celle de Halbert Glendinning, telle que la peinte Walter Scott dans « le Monastère »; sa taille dépassait six pieds anglais; plein de grâce et d’aisance, il paraissait doué d’une force herculéenne; une figure fortement hâlée par le soleil, des yeux vifs et noirs, alors d’une hardiesse naturelle très décidée, enfin quelque chose de bon et solide dans toute sa personne prévenait en faveur de l’Écossais.204

202 VERNE, 1975a, p. 11. 203

Joëlle Dusseau, em sua biografia sobre Jules Verne, publicada em 2005, afirma que Verne tinha realmente uma fixação pela Escócia em razão da sua origem familiar materna. A história e o imaginário escoceses sempre estiveram presentes em Verne. Segundo a autora, Sophie-Henriette Allotte, mãe de Jules Verne, pertencia à nobreza. Sua família descenderia de um arqueiro, escocês, Allot, tendo imigrado para a França no reinado de Louis XI. Cf. DUSSEAU, 2005, p. 28.

Para este retrato, calcado na alusão ao personagem Halbert Glendinning, de Walter Scott205, cujo retrato apresenta características que ecoam no retrato de Kennedy, como por exemplo, os olhos negros, a pele morena, a audácia e a ousadia, o narrador não economiza nos traços positivos para pintar o amigo do doutor Fergusson. Entre eles podemos destacar a visão geral do seu corpo através da altura “sa taille dépassait six pieds anglais” e os “yeux vifs et noirs” que, numa perspectiva fisiognomônica, indicam audácia, a determinação de um caçador e a força hercúlea, necessárias para o personagem, ao longo da viagem de balão que vai empreender. Essas características somadas à graça e a destreza desembocam na figura geral do personagem que tem seu retrato arrematado positivamente pela frase “quelque chose de bon et solide dans toute sa personne prévenait en faveur de l’Écossais.”

Mas, se para o retrato de Kennedy o título anunciado no início do capítulo serve de introdução ao seu retrato completo (etopeia + prosopografia), o mesmo não acontece para o retrato do personagem Joe, criado do doutor Fergusson (este último retratado no item 4.1, p.120-121) último passageiro do balão a ser apresentado.

O título “Joe Wellington”, nome próprio e, portanto, pantônimo por excelência de acordo com a teoria descritiva de Hamon, introduz uma curta apresentação das características morais deste personagem que tem o início de seu retrato emoldurado pelo incipit do capítulo e, como efeito de início e naturalização da descrição, a frase “Le docteur avait un domestique; il répondait avec empressement au nom de Joe.”206 Seguindo essa frase, temos:

Une excellente nature; ayant voué à son maître une confiance absolue et un dévoument sans bornes; devançant même ses ordres, toujours interprétés d’une façon intelligente; un Caleb pas grognon et d’une éternelle bonne humeur. Rare et honnête Joe! un domestique qui commande votre dîner, et

205 “-Encore fort bien ! Je vous assure, mistress, que je vous envie ces deux garçons. Sont-ils à vous tous deux?

Ce n'était pas sans quelque raison que Stawarth Bolton faisait cette question; car Halbert Glendinning, l'aîné, avait les cheveux noirs comme l'aile d'un corbeau, les yeux noirs, hardis et perçants, d'épais sourcils, la peau brune et un air de résolution au-dessus de son âge; son frère Edouard, au contraire, avait les cheveux blonds, les yeux bleus, le teint blanc, l'air timide et doux. La mère jeta un regard de satisfaction maternelle sur ses enfants et répondit: -Bien certainement, ils sont à moi tous deux.” SCOTT, Walter. Le monastère. Limoges: Eugène Ardant, [s.d.], p. 12. Disponível em:

http:gallica.bnf.frark 12148bpt6k5853810c.r=le+monast%C3%A8re+Scott.langPT Última consulta: 28/06/2010.

dont le goût est le votre, qui fait votre malle et n’oublie ni les bas ni les chemises, qui possède vos clefs et vos secrets et n’en abuse pas!207

Confiança e devoção são as principais características que extraímos do retrato de Joe. Numa referência bíblica, Joe é comparado ao personagem hebreu “Caleb”208 seguido da qualificação “pas grognon” que exalta a devoção de Joe que não esperará nada em troca por seus serviços. Esse traço ajuda a compor a identidade de Joe e a reforçar sua posição de subalterno do doutor Fergusson. As outras características que ajudam a criar a etopeia desse personagem - “excellente nature”, “rare”, “honnête” e “bonne humeur” -, auxiliam a compreensão e a justificativa da sua presença na iminente viagem de balão assim como dão a entender, aliado à falta de prosopografia, um enaltecimento das características servis de Joe.

Como numa tentativa de repor a falta da descrição prosopográfica, instruir de maneira mais imediata que a palavra e, portanto, completar o retrato do personagem subalterno, a curta etopeia relativa a Joe é acompanhada pela ilustração abaixo, seguida da legenda de referência metalinguística “Portrait de Joe”.

207

VERNE, 1975a, p. 25.

208 Caleb, personagem do povo quenezeu, filho de Jefoné (Gênesis 15.19, Números 32.12) tem sua história

contada no livro do Êxodo e retomada no primeiro capítulo de Juízes. Contam estes livros que Caleb foi um dos doze espiões enviados à terra de Canaã. Dos doze, apenas ele e Josué voltaram com boas notícias acerca do país que iam habitar; esse seu otimismo desagradou tanto ao povo que por pouco Caleb não foi apedrejado. Deus, punindo a rebeldia do povo, determinou que, dentre aqueles de vinte anos para cima, somente Josué e seu companheiro e servidor Caleb teriam permissão de entrar na terra prometida. Além disso, segundo a Bíblia, Caleb recebeu de Moisés um pedaço de terra no novo território do povo de Israel, por ter acreditado na promessa de Deus a seu povo. Caleb reclamou esta promessa a Josué após as guerras nas quais combateram juntos e recebeu o Monte Hebrom como herança para suas filhas.

Retrato de Joe

VERNE, Cinq semaines en ballon, p. 27

Essa é a única dentre as descrições dos brancos deste romance que recebe uma ilustração. Nesse caso, poderíamos afirmar que a imagem mostra-se um paratexto útil para a composição completa do retrato de Joe, compreendendo a ilustração como substituta de uma prosopografia ausente. Assim, teríamos para o retrato de Joe uma “etopeia + ilustração- prosopografia” e, portanto, em termos de completude, igualando este retrato ao dos outros dois personagens.

Tendo apresentado os personagens que viajarão no balão, o narrador os introduz na viagem que os levará até a região de Kazeh, a Terra da Lua. Decorridos dias de viagem, os personagens desembarcam em Kazeh para estabelecer relações comerciais e se reabastecerem de provisões. Para tanto, precisaram falar com o sultão enfermo que reinava no local e que acreditava que Joe era um legítimo « Filho da Lua », vindo dos céus e que, portanto, poderia curá-lo da sua enfermidade. Todos seguiram, então, para o palácio do sultão africano, pretexto para o narrador do romance apresentar os habitantes do local, os Uanyamwezi. Vale dizer que este será o único retrato completo apresentado pelo narrador no que diz respeito ao nativo

africano. Ao longo do romance, há embriões de retrato de africanos disseminados no texto ou

efeito-personagem, como trataremos a seguir.

Para o tipo africano Uanyamwezy, temos o mesmo sistema de construção canônica da passagem descritiva: uma frase de introdução que traz o pantônimo “Uanyamwezy” e emoldura e naturaliza a descrição : “Le docteur Fergusson fut reçu avec de grands honneurs par les gardes et les favoris, des hommes de belle race, des Uanyamwezy”209, seguida de um epíteto explicativo que carrega a palavra “pur” e aponta para as ideias desenvolvidas por Gobineau “type pur des populations de l’Afrique centrale, forts et robustes”210 e de uma visão geral do africano “D’une taille élévée, ils sont bien faits et bien portants.”211 Estas frases gerais introduzem a descrição prosopográfica que será desenvolvida, tendo como foco os cabelos trançados, as incisões nas bochechas, as orelhas distendidas, as roupas e as armas que esses africanos carregam consigo:

Le docteur Fergusson fut reçu avec de grands honneurs par les gardes et les favoris, des hommes de belle race, des Uanyamwezy, type pur des populations de l’Afrique centrale, forts et robustes. D’une taille élevée, ils sont bien faits et bien portants.

Leurs cheveux divisés en un grand nombre de petites tresses retombaient sur leurs épaules; au moyen de doubles incisions noires ou bleues, ils zébraient leurs joues depuis les tempes jusqu’à la bouche. Leurs oreilles, affreusement distendues, supportaient des disques en bois et des plaques de gomme copal; ils étaient vêtus de toiles brillament peintes; les soldats, armés de la sagaie, de l’arc, de la flèche barbelée et empoisonnée du suc de l’euphorbe, du coutelas, du “sime”, long sabre à dents de scie, et de petites haches d’armes.212

O fato de focar-se nas características físicas dos Uanyamwezy, embora não sejam matizados negativamente pelo narrador, aponta para o exotismo do povo que os personagens europeus estão descobrindo. O caráter guerreiro da população pode ser notado através do sintagma “les soldats” e da descrição das armas primitivas – lanças, arco, flexa com ponta envenenada, diversos tipos de faca, machadinhas – que carregam consigo. Além disso, as

209 VERNE, 1975a, p. 80. 210 VERNE, 1975a, p. 80. 211 VERNE, 1975a, p. 80. 212 VERNE, 1975a, p. 80.

tatuagens desenhadas em seus rostos poderiam ser lidas como marcas distintivas desse povo, do seu caráter guerreiro. Assim como veremos no retrato dos neozelandeses que são marcados positivamente pelo narrador de Les enfants du capitaine Grant, as incisões coloridas no rosto indicam que são indígenas ilustres. A descrição quase puramente prosopográfica aqui, não fossem as incisões que enaltecem moralmente o tipo Uanyamwezy, de caráter também etopaico, tem o intuito de apresentar ao leitor o que lhe é diferente aos olhos. O retrato literário do africano se apresenta como a ferramenta capaz de tornar presente o que está distante, coadunando-se com a proposta do romance verniano.

No romance Cinq semaines en ballon, no que tange ao ponto de onde parte a focalização (justificativa para o “efeito do descritivo”) para todos os retratos, podemos afirmar que ela se faz a partir de um narrador extradiegético e onisciente. No que concerne aos “selvagens”, há, por parte do narrador, diversas “impressões” e informações que vêm disseminadas no texto, que não constituem um retrato, mas fariam parte do que Hamon nomeia de efeito-personagem. No caso do povo africano, não há a tentativa por parte do narrador de compor um personagem bem definido, visto a heterogeneidade e diversidade de povos africanos que se apresentam no romance. Esta diversidade é motivo para que o narrador faça generalizações sobre o tipo africano e, por se tratar do “outro”, estas generalizações são pouco elogiosas, até mesmo pejorativas.

Dominique Maingueneau comenta, em Éléments de linguistique pour le texte

littéraire, a importância da categoria adjetival para uma análise estilística, visto a carga

subjetiva que os adjetivos comportam. Ele distingue os adjetivos objetivos dos subjetivos dizendo que os primeiros servem para descrever uma categoria no mundo, caso do adjetivo “solteiro”, por exemplo, e os outros remetem a um julgamento de valor por parte do sujeito enunciador, caso de “engraçado” ou “bom”.213 Os adjetivos subjetivos ainda podem transmitir uma carga avaliativa e seriam subdivididos em avaliativos não-axiológicos – aqueles que

supõem uma avaliação qualitativa ou quantitativa fundada numa norma interna ao objeto, como é o caso da palavra “longo” – e os adjetivos avaliativos axiológicos – aqueles que variam em função do objeto e do sistema de avaliação do enunciador, caso do adjetivo “belo”.214 Poderíamos enumerar diversas frases ou excertos do romance em que o narrador utiliza adjetivos avaliativos axiológicos para caracterizar o africano, algumas vezes pejorativamente, compondo o efeito-personagem (para nós, um efeito-tipo), mencionado acima.

Começando pelas palavras “nègres”, proferida pelos personagens brancos ou, para intercalar com esta, “indigènes”, “noirs” e “sauvages” que atravessam todo o romance, passando por, “peuplades féroces” (“Parce que lutter contre les éléments, contre la faim, la soif, la fièvre, les animaux féroces, et contre les peuplades plus féroces encore, est impossible!”215), “nègres féroces” (“et ce nègre féroce lui coupa lentement les articulations.”216), “tribus féroces” (“car les rives du lac sont habitées par des tribus féroces.”217), ou pela designação “maudits noirs” (“Un de ces maudits noirs s’est accroché au- dessous de la nacelle!”218), sem contarmos com as comparações com os animais, como serpentes (como vimos no item 3.3 dessa dissertação, p.92), insetos (“Les habitants de l’île apparaissaient comme des insectes”219) e a prolífera comparação com macacos, estas seriam designações que trariam, portanto, não uma informação simplesmente classificatória para o nome que acompanha, mas sim uma depreciação em detrimento do sujeito. Poderíamos acrescentar a tudo isso as elucubrações sobre africanos antropófagos. Na região de Usoga, Fergusson menciona a existência de indígenas comedores de humanos:

-Est-ce que toute cette région est habitée? Demanda Joe. -Sans doute, et mal habitée.

-Je m’en doutais.

214 Cf. MAINGUENEAU, 1990, p. 112-113. 215 VERNE, 1975a, p. 15. 216 VERNE, 1975a, p. 60. 217 VERNE, 1975a, p. 102. 218 VERNE, 1975a, p. 127. 219 VERNE, 1975a, p. 55.

-Ces tribus éparses sont comprises sous la dénomination générale de Nyam-Nyam, et ce nom n’est autre chose qu’une onomatopée; il reproduit le bruit de la mastication.

-Parfait, dit Joe; nyam! nyam!

-Mon brave Joe, si tu étais la cause immédiate de cette onomatopée, tu ne trouverais pas cela parfait.

-Que voulez-vous dire?

-Que ces peuplades sont considérées comme anthropophages. -Cela est-il certain?

-Très certain!220

Após esse diálogo, embora não haja uma descrição que caracterize esse povo, há uma cena de combate entre essa população e outra rival. Os personagens brancos, seguros e sob uma posição que lhes confere o olhar de cima, assistem ao “spectacle fait pour les émouvoir.”221 O narrador, por mais de uma vez, compara o massacre a uma cena teatral:

[...] Fuyons au plus tôt ce spectacle repoussant! Si les grands capitaines pouvaient ainsi dominer le théâtre de leurs exploits, ils finiraient peut-être par perdre le goût du sang et des conquêtes.

Le chef de l’un de ces partis sauvages se distinguait par une taille athlétique, jointe à une force d’hercule. D’une main il plongeait sa lance dans les rangées compactes de ses ennemis, et de l’autre y faisait de grandes trouées à coups de hache. À un moment, il rejeta loin de lui sa sagaie rouge de sang, se precipita sur un blessé dont il trancha le bras d’un seul coup, prit ce bras d’une main et, le portant à sa bouche, il y mordit à pleines dents.222

Ora, a semi-animalidade dos africanos somada à falta de inteligência e à falta de beleza, tratada no item relativo à fisiognomonia, seriam maneiras de naturalizar a visão imperialista e colonialista da época e transmiti-la através da literatura. Sendo semi-animais ferozes, domá-los através da religião e domesticá-los para a uma possível socialização seria a saída para o progresso de tais sociedades, de acordo com o pensamento colonialista. Neste romance, o contraste entre brancos e selvagens converge, sobretudo, para a questão do colonialismo. Se de um lado há o povo negro, africano, selvagem, colonizado, do outro está o branco, inglês, civilizado, colonizador. A garantia dessa diferença, a supremacia do branco e o direito de colonização estariam anunciados mesmo nos retratos literários. Os intrépidos personagens brancos, além de serem avatares de reais viajantes cujas explorações são

220 VERNE, 1975a, p. 111. 221

VERNE, 1975a, p. 116.

destacadas como gloriosas desde o início do romance, têm retratos que cumulam características positivas e são tidos como verdadeiros modelos de moralidade, bons modos, honestidade, civilidade e inteligência. Já as imagens dos africanos, através do retrato e do efeito-personagem, se mostram no romance de duas maneiras: ora são os guerreiros, apresentados em tribo e caracterizados com marcas distintitivas, como as tatuagens e as armas primitivas, logo, vistos de algum modo, positivamente, ora associados às bestas ferozes, seres antropófagos e não civilizados.