Para que se compreenda a questão da relação entre as estruturas lógico-semânticas e as lexicais no tocante aos retratos que é, em linhas gerais, uma pausa descritiva num texto narrativo ou argumentativo, tomaremos como ponto de partida estudos e propostas teóricas que já abordaram essa questão, levando em conta, especificamente, o problema do descritivo.
Referindo-se às competências que, quer na produção, quer na recepção, parecem naturalizar uma oposição tradicionalmente evidente, Hamon apresenta as seguintes distinções entre o sistema descritivo e o sistema narrativo: em primeiro lugar, a memória intradescritiva, solicitada numa descrição, é de curto alcance, relacionando um termo com o paradigma que declina as suas propriedades ou que, por associação (sinédoque, por exemplo), enumera as partes que a ele se ligam, apenas a curtas distâncias textuais. A memória intradescritiva opõe- se à memória narrativa, capaz de recordar um personagem em peripécias textualmente afastadas. Em resumo, uma estrutura narrativa constrói, através de seu enunciado, um horizonte de expectativas de tipo binário (partida/regresso; falta/reparação da falta), ao passo que a descrição modifica, sobretudo, o nível em que o horizonte de expectativas do leitor se desenvolve, passando este a focalizar as estruturas lexicais e morfológicas.185
Essa diferença fundamental de competências postas em jogo na leitura, que resulta do fato de a descrição ser o que o autor designa por consciência lexicográfica do enunciado186, possibilita-nos uma melhor compreensão do descritivo em Jules Verne.
As narrativas analisadas, pela ação que desenvolvem, respondem às expectativas expressas pelo programa em que se apresentam: o das “Viagens extraordinárias”. Basicamente, cada partida, seja a do balão Victoria em Cinq semaines en Ballon, seja do navio Duncan em Les enfants du capitaine Grant, cria uma implicação de chegada, deixando prever transformações intermediárias, obstáculos a vencer, revelações a fazer, pretextos para que o narrador realize também todo tipo de descrições. Em Le Chancellor não há “chegada”
185
Cf. HAMON, 1981, p. 42-44.
ou “final” da viagem, já que ocorre o naufrágio. No entanto, a história avança por peripécias em que o descritivo também se faz presente.
Mais do que uma operação de ancoragem para referências críveis, como expusemos no capítulo em que tratamos da intertextualidade e da interdiscursividade com a ciência e a história, o descritivo verniano constitui-se como um elemento importante no seio da narrativa que se desenvolve. A descrição em Verne, seja de uma cena, de uma paisagem ou de um retrato, não é somente um efeito que surge na intriga. Desde o início de cada um dos romances analisados, o pacto de leitura pressupõe a descrição como atividade principal; por exemplo, Fergusson não precisa de motivações para descrever: toda viagem do balão é uma motivação, os gritos de espanto do criado ou as perplexidades do seu amigo caçador constituem pausas no longo discurso proferido pelo sábio enquanto voa.
O texto descritivo em Jules Verne aparece, em diversos casos, como descrição claramente demarcada. Falamos aqui da descrição tal como Hamon a define: “unidade estilística dotada de certa autonomia e munida de certas marcas.”187 Assegurando essa autonomia que a torna destacável de um todo, a descrição tem suas demarcações de início e fim. Entre as várias marcas de início e fim, segundo Hamon, podem-se destacar as seguintes: sinais tipográficos (branco, alínea), morfológicos, (mudanças de tempos e modos em relação ao texto em que a descrição se insere), intrusões do narrador anunciando a descrição, utilização de expressões metalinguísticas sugerindo a descrição (retrato, descrição, paisagem), utilização de preterições diversas (“que espetáculo indescritível...” “que pincel poderia dar as cores...”) em torno do nome do objeto ou do tema tratado. São estes os processos mais frequentes que podem aparecer isolados ou conjugados, para referir ou para sublinhar que o enunciado vai situar-se sob uma dominante descritiva, que um novo pacto de leitura é proposto e que vão surgir outros horizontes de expectativa.
Para os retratos literários, caso de descrição que nos interessa mais particularmente, Hamon afirma, em Du descriptif, que as relações existentes entre descrição e personagens, caracterização e personalidade, assunto (motivo da descrição) e Sujeito, são relações privilegiadas pelo sistema descritivo na retórica clássica.188 Pensando essas relações não mais em termos hierárquicos, como na retórica clássica em que a descrição está a serviço dos personagens, mas em termos de colaboração semiológica, Hamon define o personagem, ou como ele nomeia, o “efeito-personagem”, como sendo “a soma, o produto de um certo número de efeitos descritivos disseminados no enunciado.”189
A noção de efeito-personagem, segundo o autor, diz respeito a uma unidade semiológica, menos localizável e mais difusa na trama.190 Daí o estatuto literário privilegiado do retrato, já que este é uma descrição que focaliza e ao mesmo tempo é foco do reagrupamento e da constituição de sentidos do personagem; trata-se do lugar do texto em que se fixa e se modula a unidade do personagem na memória do leitor.191
Essa visão semiológica de efeito-personagem será produtiva em diversos casos: quando tratarmos de personagens cujo retrato é velado no incipit do romance e construído ao longo da narrativa e não num bloco descritivo; quando o retrato for construído dentro do diálogo de personagens que falam do que estão vendo, dando detalhes do que vêem e, portanto, contribuindo para a construção da imagem de um outro personagem na memória do leitor, antes que o narrador intervenha com um bloco descritivo; ou quando o retrato não for apresentado na forma da homogeneidade descritiva, comum ao bloco descritivo, mas sim como um compósito, como menciona Hamon, quando há oposição ou neutralização entre partes da descrição, como por exemplo, uma primeira impressão que se tenha de um personagem oposta a uma segunda impressão192. Os casos acima descritos fazem parte dessa
188
Cf. HAMON, 1993, p. 104.
189 “L’effet-personnage dans un récit n’est que la somme, la résultante d’un certain nombre ‘d’effets descriptifs’
disséminés dans l’énoncé.” HAMON, 1993, p. 105.
190 Cf. HAMON, 1993, p. 105. 191
Cf. HAMON, 1993, p. 105.
noção de efeito-personagem e, para o corpus que selecionamos, estas características estariam a serviço do suspense.
Embora se assemelhem por tratar de características físicas e morais de um personagem, o efeito-personagem está em oposição ao retrato enquanto bloco descritivo definido, que existe isolado numa parte do texto. Para compreendermos o retrato na tipologia do descritivo enquanto unidade textual identificável e para podermos ver como se constroi essa unidade em Verne, é primordial a abordagem das estruturas discursivas que são o lugar por excelência da manifestação do que nos trabalhos de Hamon e de Adam & Petitjean é designado por “sistema descritivo.”
Resumindo as características fundamentais de base do sistema descritivo, Adam & Petitjean definem a descrição como uma coleção de elementos agrupados em torno de um elemento temático193, a que chamam tema-título, procurando desse modo caracterizar a função mais comum do processo de nomeação de um texto, que é a da produção de uma expectativa e o desencadear de um processo de compreensão e de memorização que favoreça a leitura. O temas-títulos, na configuração da linguística textual de Adam & Petitjean, normalmente, são nomes comuns ou próprios que fixam os enquadramentos determinando um horizonte de expectativas concernentes à presença e à função de elementos previsíveis.
Ainda segundo os dois autores, a descrição é um texto coeso, constituído por predicados sucessivos, enunciados a partir de um número de significados constantes. Desse modo, assegura-se sua progressão e coesão. O tema-título explícito no início de uma descrição, podendo também aparecer no fim ou ficar implícito, não só orienta a interpretação e fixa a legibilidade do enunciado, como comporta um conjunto de elementos esperados e ordenados segundo esquemas. A ordem de aparição das duas séries de elementos (a da nomenclatura e a dos predicados) obedece, como veremos, a uma progressão que é normalmente explicitada e especificada.
193
Cf. ADAM, J.-M. & PETITJEAN, A. Le texte descriptif; poétique historique et linguistique textuelle. Paris: Nathan, 1989, p. 111.
A proposta de Adam & Petitjean é devedora da que anteriormente já efetuara Hamon ao longo do capítulo que dedica à tipologia descritiva em Introduction à l’analyse du
descriptif, de 1981. Como já explicitamos no capítulo dos retratos, para Hamon, o sistema
descritivo é um jogo de equivalências hierárquicas entre uma denominação e uma expansão, ou seja, entre uma palavra e um estoque de palavras justapostas em lista, coordenadas ou subordinadas num texto. À denominação, que é explicita ou implícita, cabe o papel de assegurar a permanência e a continuidade do conjunto. Esse termo com qualidades de regência Hamon chama de pantônimo.194 Equivalente a “objeto descrito” passível de ser denominação ou identificação de um enunciado metalinguístico, o pantônimo recobre, na acepção de Hamon, o mesmo sentido que tema-título na de Adam & Petitjean.
Do mesmo modo, pode ser encarada a expansão que, segundo Hamon, aparece de duas maneiras. Como nomenclatura das partes enumeráveis pertencentes ao objeto nomeado pelo pantônimo ou como designação das qualidades daquele, ou ainda como predicados. A expansão é designada e analisada do mesmo modo pelos outros dois autores referidos.
Cabe-nos dizer que, no tocante à construção do bloco descritivo, será útil usarmos a noção de função demarcativa da descrição, responsável pela criação da coesão global e da coesão interna do bloco descritivo e, logo, o que dá verossimilhança ao conjunto. Para isso, detemo-nos nos importantes traços característicos da descrição: as grades cardeais que podem ser sustentadas pelo olhar de um personagem e, estas, por sua vez, sustentam, regem, e organizam a descrição, permitindo a distribuição homogênea dos itens lexicais; as ordens de coesão do conjunto descritivo definidas por Hamon que, para o caso dos personagens, seguem o padrão da descrição física até a descrição moral, isto é da prosopografia à etopeia e de cima para baixo para as descrições concernentes a retratos.195 Utilizaremos também a noção de
hierarquização dos personagens que serve para indicar o seu nível funcional em relação à obra, seu estatuto principal ou secundário, tendo compreendido que, quanto mais estendida for
194
Cf. HAMON, 1981, p. 140.
a descrição, mais o personagem é importante na história.
O sistema descritivo para os retratos em Verne funciona com base no uso do modelo canônico. Aquilo que Hamon e Adam & Petitjean chamam de o regime do texto legível, concebe e desenvolve sistematicamente o procedimento da descrição. Podemos tomar como exemplo que patenteia claramente a existência de frases descritivas, o início dos capítulos de
Cinq semaines en ballon. Aliás, esses “inícios de capítulos” se calcam na formatação textual
dos relatos de viagem publicados na já referida revista Le Tour du monde: há primeiro títulos, frases nominais curtas, explicitados no início do relato, que resumem o que vai se passar naquele capítulo.
Assim temos, no primeiro capítulo de Cinq semaines en ballon, os seguintes títulos: “La fin d’un discours très applaudi – Présentation du docteur Samuel Fergusson – Excelsior – Portrait en pied du docteur – Un fataliste convaincu – Dîner au Traveller’s club – Nombreux toasts de circonstance.”196 No terceiro capítulo temos: “L’ami du docteur – D’où datait leur amitié – Dick Kennedy à Londres – Proposition innatendue, mais point rassurante – Proverbe peu consolant – Quelques mots du martyrologe africain – Avantages d’un aérostat – Le secret du docteur Fergusson.”197 E no sexto capitulo: “Un domestique impossible – Il aperçoit les satellites de Júpiter – Dick et Joe aux prises – Le doute et la croyance – Le pesage – Joe Wellington - Il reçoit une demi-couronne.”198
A sequência de temas-títulos ou pantônimos anuncia-se claramente pela profusão onomástica (topônimos, antropônimos, epítetos) e pela designação breve através de substantivos. Selecionamos os títulos destes capítulos específicos por serem aqueles em que leremos os retratos dos três personagens que viajarão no balão. A expectativa criada por esses títulos que aparecem sob a numeração romana do capítulo é cumprida no curso da leitura. Se observarmos, a título de exemplo, o desenrolar do primeiro retrato apresentado no romance
Cinq semaines en Ballon, constataremos a constituição canônica da frase descritiva. Depois
de uma nomeação do personagem (Présentation du docteur Samuel Fergusson) e de uma demarcação – “Et le docteur entra au milieu d’un tonnerre d’applaudissements”199 – anunciando o “quadro” descritivo, ideia reforçada pelos termos caros à pintura (Portrait en pied), a descrição desenrola-se assim:
C’était un homme d’une quarantaine d’années, de taille et de constitution ordinaires; son tempérament sanguin se trahissait par une coloration forcée du visage. Il avait une figure froide, aux traits réguliers, avec un nez fort, le nez en proue de vaisseau de l’homme prédestiné aux découvertes; ses yeux forts doux, plus intelligents que hardis, donnaient un grand charme à sa physionomie; ses bras étaient longs, et ses pieds se posaient à terre avec l’aplomb du grand marcheur. La gravité calme respirait dans toute la personne du docteur, et l’idée ne venait pas à l’esprit qu’il pût être 196 VERNE, 1975a, p. 1. 197 VERNE, 1975a, p. 11. 198 VERNE, 1975a, p. 25. 199 VERNE, 1975a, p. 3.
l’instrument de la plus innocente mystification. Aussi les hourras et les applaudissements ne cessèrent qu’au moment où le docteur Fergusson réclama le silence par un geste aimable. Il se dirigea vers le fauteuil préparé pour sa présentation; puis, debout, fixe, le regard énergique, il leva vers le ciel l’index de la main droite, ouvrit la bouche et prononça ce seul mot : “Excelsior !”200
Como unidade descritiva mínima, o retrato apresentado acima revela os processos regulares de formação segundo o sistema elaborado pelos teóricos que apresentamos, tal como vemos a seguir:
Expansão – definição Lista ou
nomenclatura
Predicados
un homme d’une quarantaine d’années, de taille et de constitution ordinaires
tempérament sanguin se trahissait par une coloration forcée du visage
figure froide, aux traits réguliers
nez fort, en proue de vaisseau de l’homme prédestiné aux découvertes
yeux forts doux, plus intelligents que hardis, donnaient un grand charme à sa physionomie
bras longs
Pantônimo ou Tema-título
Le docteur Fergusson
pieds se posaient à terre avec l’aplomb du grand marcheur.
A fórmula comum do bloco descritivo para os retratos vernianos é desenvolvida segundo o processo canônico que, partindo do pantônimo ou tema-título, se desenrola, em seguida, numa série mais ou menos longa de nomes associados a predicados e/ou enumeração de partes. Esse esquema descritivo faz uma espécie de trabalho de ordenação, de agrupamento de informações, o que Hamon chama de grades descritivas. Para o retrato do doutor Fergusson apresentado acima, temos no bloco descritivo a menção ao seu nome seguido da sua idade aproximada. Como mencionamos no item da interseção entre as artes literária e pictórica do retrato, esse artifício, que era usado por pintores renascentistas, auxiliando a classificar uma obra no gênero retrato, serve igualmente na formação do retrato literário. A
continuação da descrição com uma vista do todo antes de passar aos detalhes, além da enumeração ou da sequencialidade, respeitam uma ordem de âmbito mais geral: para os retratos, a distribuição se dá de cima para baixo, como no retrato de Fergusson (rosto – nariz e olhos; braços e pés).
Com pouca margem de imprecisão, poderíamos estender esse exemplo de construção descritiva verniana para os romances complementares do nosso corpus, isto é, apresentar esta construção como modelo geral do processo descritivo de um retrato. Porém, essa generalização excluiria as nuanças que os retratos apresentam. Assim, abordaremos todas as descrições a fim de verificar o funcionamento da passagem descritiva nos retratos vernianos, comparando, ao final, os retratos de brancos e “selvagens”.