Practice and methods
3.2 Discursive design
3.3.2 Immaterials: Ghost in the Field (2009)
Furtado trata com bastante cuidado a questão relacionada aos sistemas de governo e produção dentro dos quais seria possível o desenvolvimento. Trata inclusive de deixar explícito o “tipo de economia” que é objeto de seus estudos. Em Teoria e Política do
Desenvolvimento Econômico (1975), Furtado deixaria claro que não possuía as economias socialistas como objeto central de pesquisa:
A orientação mesma que assumiu o progresso técnico, assim como o perfil da procura global com seu desdobramento estratégico em procura de bens de consumo e investimentos, bem como seus reflexos na estrutura do aparelho produtivo, são resultantes de determinado processo histórico. A transposição destes elementos para outro contexto histórico faz surgir uma nova problemática, que será distinta, conforme a transposição se faça sob a orientação de decisões centralizadas (desenvolvimento socialista) ou se realize no quadro de livre- empresa. A teoria do subdesenvolvimento preocupa-se, principalmente, com os problemas surgidos da segunda forma de propagação da técnica moderna (FURTADO, 1975: p. 177).
Furtado parece enxergar o desenvolvimento a partir do momento em que a liberdade individual é atingida, e parece concluir que esta liberdade não seria atingida em economias que adotam o sistema de planificação15. Sobre este ponto, diz-nos:
Até que ponto será possível conciliar uma rígida planificação de infra-estrutura cultural (base material) com um certo pluralismo no processo de gestação dos valores não materiais dessa cultura, é questão que só a prática pode resolver. O problema que nos colocamos de imediato é o de saber se existem forças internas efetivas atuando no sentido de abrir mais espaço à ação
15 Para a leitura desta seção, deve-se entender o conceito de planificação como o de centralização total
das atividades econômicas por parte do Estado. O conceito de planejamento, que aparecerá na seqüência da explanação, deve ser entendido de forma distinta: está baseado na idéia de que se deve realizar previsões de setores de estrangulamento da economia, tais como aqueles que podem gerar pressões sobre o balanço de pagamentos e sobre a capacidade para importar, e realizar ações no sentido de diminuir riscos de estrangulamentos. Para mais detalhes sobre o conceito de planejamento do autor, ver Furtado, 1953.
individual. [...] Os caminhos da liberdade por via da revolução social têm sido, até o presente, longos e penosos (FURTADO, 1964: p. 48-9).
Pode-se, a partir daí, considerar que Furtado vê como idealmente possível atingir a liberdade através de reformas no sistema capitalista. Parece imaginar que o caminho para este cenário é a mudança do status dos países subdesenvolvidos passando para desenvolvidos, através da eliminação da dualidade estrutural econômica, ou homogeneização social.
Mais à frente, na mesma obra, ratifica a importância das democracias capitalistas para o desenvolvimento econômico, avaliando como “aparente” o impacto dos movimentos revolucionários. Estas democracias têm de ser efetivamente representativas pois, no caso de serem limitadas, “escassa é a aptidão do governo para captar em tempo oportuno aquelas tensões sociais” (FURTADO, 1964: p. 71).
Mas continua dizendo que um grande reservatório de mão de obra à disposição das forças capitalistas inibe o processo de luta de classes, uma vez que o setor capitalista sempre terá à sua disposição elevadas taxas de lucro, que jamais seriam postas em xeque pela luta de classes (Ibid., p. 80).
Sobre o caráter reformista – não revolucionário – de Celso Furtado, vale mencionar que o autor acredita serem as reformas estruturais um aspecto fundamental de política econômica nos países subdesenvolvidos. Tais reformas, diz o autor, se constituem do abandono de certas posições pelos grupos controladores do sistema de poder, ou mesmo como uma modificação no sistema de forças dos grupos que almejam o poder, ou seja, maior igualdade no acesso à disputa pelo poder (FURTADO, 1975: 271).
A passagem a seguir almeja ratificar o pensamento de Furtado sobre as economias planificadas, quando o autor comenta sobre o modelo soviético:
Quanto à própria União Soviética, o desenvolvimento extraordinário alcançado em áreas específicas da tecnologia militar pôs em evidência os riscos de desequilíbrio macrossocial
inerentes a um planejamento econômico descolado da realidade. A ilusão de que com o aperfeiçoamento das técnicas de planejamento tudo podia ser previsto se desfez. Descobriu-se o que nunca devia ter se esquecido: a criatividade humana desempenha papel fundamental na evolução das sociedades. [...] Contudo, o problema permanece o mesmo: pouco sabemos a respeito das relações entre a criatividade de homens e mulheres e as manifestações do espírito de revolta. Aparentemente as criaturas humanas só se sentem plenamente realizadas em ambientes sociais que as expõem a riscos e onde há desafios a enfrentar. Assim, o debate verdadeiramente fecundo sobre os rumos de nossa civilização terá de partir de duas questões ineludíveis: Como estimular a criatividade humana? Por que às mulheres cabe papel secundário na condução dos destinos da humanidade? (FURTADO, 2003: p. 28-9)
Viu-se nesta seção que Furtado tinha como objeto de estudo apenas as economias com sistema de produção capitalista, pois acreditava que o estudo de elementos como progresso técnico e estrutura do perfil da demanda não se encaixariam como objeto se inseridos em um contexto de economias socialistas. Além disso, acredita que a liberdade individual, que deveria ser fruto de constante busca, somente seria possível fora do contexto de economias não planificadas. Em relação ao sistema de governo, era a favor da democracia, e esta deveria ser representativa, pela dificuldade do governo em captar as tensões sociais com o dinamismo que elas requerem. A seguir, serão apresentados elementos que caracterizam sua visão a respeito da dependência nos países subdesenvolvidos.