Methodological reflections
4.1 Design research practice as cultural engagement
4.1.3 Critical practice
O trabalho em uma boa prosa tem três graus: um musical, em que ela é composta, um arquitetônico, em que ela é construída,e, enfim, um têxtil, em que ela é tecida.”
Walter Benjamim
Rua Virajuba n. 449 – Vila Brasilândia. Lá moram Raquel Gusmão Alves, Rubens Alves Filho, Aparecida Alves dos Santos e Eliseu Gusmão Alves, todos diagnosticados com transtornos mentais graves.
Durante o percurso para lá chegar, pude observar as pessoas, as casas, a arquitetura, a construção das casas, a disposição dos objetos nas lojas e perceber, ainda que de maneira bastante fragmentária, de que modo as pessoas tentam organizar-se nos espaços que reconhecem como seus lugares. Não vi farmácias, por exemplo, mas muitos bares e locais onde a comunicação se dá pela possibilidade de ficar nas ruas, nas portas das casas, sentadas nos muros, nas calçadas, brincando de bola na rua, numa composição viva.
O cenário, casas penduradas nos morros, de tijolos e concreto aparentes, é composto também por fachadas mais alegóricas, com pintura, por exóticas caixas de correio, por muito alumínio nas janelas e portas, material que resiste à ação inexorável do tempo, algumas em eterna construção, na tentativa de aumentar um cômodo ou outro para acomodar os que chegam, os que se casam, os que nascem.
A casa da Aparecida, do Rubens, da Raquel e do Eliseu é assim. Não se sabe direito por qual lugar entrar, já que em cima é uma casa, embaixo é outra. A recepção foi feita por Aparecida, mulher negra, de sorriso largo e doce, com alguns cachos de cabelos postiços castanhos claros. Recebeu sem medo e com cerimônias, solicitando não reparar a bagunça.
Raquel, tida como a melhor para falar, encontrava-se sentada em frente a um aparelho de televisão e reconheceu-me imediatamente. Lembrou-se de uma entrevista sua comigo, em 1998, para averiguar possibilidade de encaminhamento para “aposentadoria”. Nisso entrou o Rubens, de cabelos repartidos do lado, com um
esclareci que haveria um gravador, ao que não houve nenhuma objeção, nenhuma pergunta. Indagados sobre o Eliseu, o irmão mais novo, Rubens informou que ele não gostava muito de conversar e que não fazia tratamento por que era mais calmo que eles. Insinuou-se ali uma demonstração de que a percepção que possuem do mundo é diferente da nossa. Como compreender que alguém que se comporta como Eliseu, sem nenhuma possibilidade de abordagem, completamente entregue aos seres invisíveis com os quais dialoga, poderia ser considerado uma pessoa calma ? Na concepção comum, ou psiquiátrica, seria considerado como “rebelde ao tratamento”. O irmão, porém, trata essas características como uma questão de temperamento.
Houve despedida com apertos de mãos, oferta de cafezinho e acompanhamento até a porta feito pela Aparecida, fazendo as honras da casa.
Uma forte chuva, além de problemas de saúde, impediram-me de comparecer o encontro marcado. Sem o telefone da casa, não comuniquei minha ausência. No dia seguinte, a recepção foi feita pela filha de Raquel, uma adolescente que, da porta, informou que Raquel e Aparecida não estavam em casa e Rubens dormia, marcando outra data, desta vez no sábado pela manhã, dia 16-12-2000.
Seria de se supor que houvesse algum ressentimento por parte deles devido à minha falta ao compromisso. Constrangida, cheguei desculpando-me. Os irmãos porém, receberam-me da mesma maneira que na vez anterior, algo como uma pacífica indiferença diante de algumas questões de contratualidade social que não me pareceu, naquele momento, fazerem diferença em suas vidas.
Fui recebida num pequeno cômodo, semelhante a uma pequena sala de visitas, na entrada da casa, que dá acesso aos demais cômodos. Não havia iluminação, de modo que permanecemos com a porta semi-aberta para permitir a entrada de luz. Além de Raquel, Aparecida e Rubens, estavam presentes, a mãe de Raquel, Sra. Tereza Gusmão Alves e seu neto de cerca de três anos. Uma irmã deles também se fazia presente, de
pertinentes. Pareceu-me atarefada com o trabalho doméstico.
Não fosse pelo silêncio absoluto mantido pelos entrevistados durante a fala de cada um, poder-se-ia pensar aquele momento como uma reunião familiar, o que dificultaria bastante o trabalho de gravação das entrevistas. Pedi que decidissem quem iniciaria a entrevista. Concordaram que seria Aparecida, por ser a mais velha dos três.
Enquanto Aparecida falava, todos permaneceram sentados e em silêncio. A mãe, Dna Tereza, era solicitada para auxiliar nas lembranças das datas, dos locais. Além disso, somente a criança e outros membros da família interferiram falando ou passando entre nós. Raquel, Rubens e Aparecida não se queixavam, permanecendo firmes em nosso objetivo.
A entrevista de Aparecida foi difícil de realizar, mesmo eu tendo sido avisada, desde o princípio, de que ela pouco se lembrava . Vali-me da experiência que possuo no diálogo com pessoas que apresentam essas dificuldades, sendo importante ressaltar que o agravo que Aparecida sofre é considerado pela psiquiatria como um dos mais severos, assemelhando-se a uma demência.
O importante a ser ressaltado é que, apesar de toda sua dificuldade, pude identificar pelo menos três aspectos de sua vida nos quais colocou-se espontaneamente: quando mencionou o brinquedo que seu pai construíra quando criança, quando se casou e quando referiu-se à religião.
Do ponto de vista metodológico, preferi não trabalhar com núcleos temáticos, embora tenham surgido vários: religião, sexualidade, genericidade, trabalho, maternidade, racismo. Preferi manter a densidade da totalidade das narrativas, privilegiando sua composição fragmentária, para que possam ser ouvidas, ainda que repletas de lapsos, de delírios, de aforismos.
As histórias de Aparecida, Raquel e Rubens são repletas de momentos de desamparo. Pobres e doentes, vão, ao longo de suas narrativas, desenhando suas trajetórias de enfrentamento e derrotas frente à pobreza, ao racismo e à loucura. Nascidos na cidade de São Paulo, filhos de um carpinteiro e de uma empregada doméstica, enfrentaram a loucura do pai. Cresceram com pouca comida, dormindo em colchões feitos de capim e sofrendo discriminações na escola e no trabalho. Como
Não sabia detalhes, exceto que ele era malandro e que a polícia o matou. Aos 16 anos, engravidou e teve seu primeiro filho. Não se casou e nem viveu maritalmente com o pai de seu filho, mas teve com ele uma segunda filha. O episódio do nascimento de sua segunda filha é marcado por pensamentos aterrorizadores no Hospital. Visões de caveiras e fantasmas, que culminaram com sua fuga com a filha para casa. Seria o início de sua doença mental? Como saber, se o Hospital fica exatamente ao lado do Cemitério de Vila Nova Cachoeirinha? Na sua solidão, sem sequer uma visita, resolveu fugir do lugar.
Sua experiência de trabalho, resumida ao emprego de doméstica e numa fábrica de roupas, retrata a precariedade e a humilhação. Contou que apanhava da patroa e que foi lá que engoliu o “olho do sapo” que até hoje está em suas entranhas, provocando muita fome, canseira e a sua doença. Além disso, Raquel teve, segundo a mãe, um terceiro filho, fato que Raquel afirmou, categoricamente, não ser verdadeiro. Não crê nisso por que disse que sua barriga cresceu durante mais de dois anos e nenhum bebê sobreviveria tanto tempo dentro de uma barriga. De qualquer modo, aceitou levar o bebê para casa, amamentando-o, afeiçoando-se a ele com dificuldade e dando-lhe o nome de Malaquias. Após alguns dias, porém, o bebê morreu de agravos pulmonares. Na época namorava o Beto, também vítima de assassinato.
Essa é a vida real de Raquel. A vida fantástica, porém, o delírio propriamente dito, importante sintoma de doença mental, deu-se quando uma voz lhe disse para roubar um enfeite, um sapinho. Esse sapinho lhe traria sorte, a deixaria rica. Onde escondê-lo? Onde guardar objeto tão precioso, que encerraria todo seu padecimento? Ora, dentro do próprio corpo, em suas entranhas e assim foi. Engoliu-o e, desde então, passou a atribuir todo seu mal estar a esse fato. Contou que não pode agir por causa de uma condenação que a tortura mentalmente e que arrependeu-se de ter engolido o objeto. Desde então, solicita aos médicos que o retirem de sua barriga para livrá-la e só recebe negativas. Não tem esperanças que ele derreta com medicação,
pequena melhora.
Estranhamos a vida fantástica de Raquel, mas não estranhamos sua vida real. O olho do sapo versus fome, loucura e alcoolismo em casa, dois namorados assassinados, dificuldades para ir à escola, para trabalhar, humilhação no trabalho, dois filhos com dezesseis e dezessete anos e um outro aos trinta anos que até hoje afirma não ter concebido. E sua noção de felicidade ? Considera-se mais feliz hoje do que já foi, por que passa menos fome. Hoje é “aposentada” e auxilia a casa com seu dinheiro, todo entregue à mãe, mensalmente.
Rubens preservou, mesmo após várias internações psiquiátricas e vida como mendigo, um certo ar de menino maroto, ávido por encontrar uma namorada, casar-se e seguir o bom destino de um homem comum. Mantém-se limpo e arrumado, esforçando- se para causar boa impressão ao interlocutor. Falou sobre sua experiência de homem negro, a partir de sua infância. Soube-se discriminado desde então. Criticou veementemente, com discurso elíptico, o racismo, dizendo-se com dificuldades para compreender a razão dessa discriminação, já que todos são criaturas de Deus.
Rubens falou muito de anjos, de Deus, de igualdade, de solidariedade, principalmente quando desejava impressionar, dizer coisas difíceis. Sua mágoa, porém, além do racismo, é a dificuldade em realizar-se sexualmente, de encontrar uma companheira, uma namorada e multiplicar-se como manda a religião. Chegou a referir- se aos hospícios como lugares agradáveis, pois possibilitam encontros entre os internados, tendo conhecido lá algumas namoradas que nunca mais viu após a alta hospitalar.
O delírio? É seu segredo. Para a psicopatologia, trata-se de um juízo falso, de conteúdo impossível e irredutível à argumentação lógica (Jaspers, 1985). Para o sujeito, porém, trata-se de verdade profética e indubitável.
Meu contato com Eliseu não foi possível. Embora Rubens o considere o mais calmo de todos, é incomunicável. Vagava diariamente pelas ruas, caminhando horas a fio, com destino desconhecido, a dialogar com vozes que compõem seu mundo particular. Hoje, permanece deitado o dia todo, surgindo de quando em quando para alimentar-se. Anda sujo, com roupas rasgadas, cabelos e unhas compridos, apresenta um
movimento, com um sorriso gentil nos lábios, não imagina o quanto já sofreu. Além de desfeito o casamento por causa da doença mental, é portadora de “diabetes mellitus”, doença que a levou ao coma em agosto de 1999 e que a obriga a tomar uma injeção de insulina diariamente. Seu agravo, do ponto de vista psiquiátrico bastante severo, a impossibilita de ir além do que lhe mostra a concretude do dia, com suas pequenas rotinas, por ela pouco assimiladas. Teme a morte, esforça-se para ser digna de não morrer queimada como os demais pecadores, mas seu temor é grande. Não há um dia em que não se preocupe com seu frágil destino. Passa muitas horas do dia a juntar objetos inúteis, guardando-os próximos de sua cama. Seu colchão tem uma grande depressão no meio, denunciando todas as infinitas horas que lá passa, esperando que dissipem-se os terríveis pensamentos.
Há mais uma personagem que se destaca nesta história: Dna. Tereza, a mãe de todos eles. Uma pequena mulher de setenta ou setenta e um anos, não sabe ao certo, de olhos vivos e com uma calma que impressiona. Não ergue a voz, não aparenta desespero e desfia, através de sua história, uma série aparentemente infindável de situações-limite de vida. Contou-me que sua mãe e seu pais bebiam muito e que, a partir dos dez anos, nunca mais soube de sua mãe. Foi criada pela avó e chegou a São Paulo, proveniente de Sorocaba, por volta de 1940.
Instalaram-se na Vila Brasilândia, na mesma Rua Virajuba onde mora, quando ainda viajava-se de pau-de-arara e havia na região muitas olarias. Não se recorda da origem da vizinhança, sabe apenas que parecia uma cidade do interior. Aos dezessete anos engravidou de seu primeiro filho. Recebeu críticas severas dos familiares e, mesmo gostando do namorado, o Sr. Rubens Alves, pai de todos os seus filhos, demorou a se casar. No dia marcado para o casamento, com todos os convidados no baile, foi encontrar o noivo no Cartório e qual não foi a surpresa: o noivo não foi! Foram todos procurá-lo e o encontraram debaixo da cama na casa de uma tia e foram todos para a Delegacia de Polícia. Como ela já estava próxima de ou com dezoito anos, segundo ela,
quase menina, dançou a noite toda em sua festa de não-casamento.
O casamento ocorreu mais tarde, aparentemente contrariando tanto os familiares dele quanto os dela. Fugiu com ele para uma casa que a sogra havia alugado para que ele se escondesse dela. Quando ela chegou, a situação já estava concretizada. Dessa maneira, a família foi crescendo, sobrevivendo com dificuldades, até que o marido, Sr. Rubens, adoeceu severamente, também por problemas psiquiátricos. Sucessivamente internado no Juqueri, não mais conseguia trabalhar com regularidade, ameaçava os filhos e a ela, transformando dessa maneira a vida num sofrimento constante.
Dos muitos episódios marcantes de sua vida, lembrou-se que ia trabalhar a pé, saindo da Vila Brasilândia, indo até o Pacaembu, levando trouxas de roupas dos filhos para lavar na casa da patroa e voltando ao final do dia, depois do trabalho, também a pé. Diz que não sabe como conseguia percorrer um caminho tão longo sem danos à sua integridade. Acha que, se fosse nos dias de hoje, não poderia andar sozinha e enfrentar todos os riscos de violência que estão colocados nesse percurso. O que a espanta não é o trabalho, a dura jornada a pé e, sim, o medo da violência urbana.
Houve um momento que desistiu: arrumou suas crianças e foi ao Juizado de Menores para interná-los. Voltou de lá com todos e com um auxílio financeiro que lhe possibilitou criá-los e comprar o terreno da casa onde mora.
Em 1978, após a morte do marido em 1974, com as crianças já crescidas, achou que podia divertir-se. Sentiu-se como um pássaro que se solta e começou a beber diariamente e dançar na Escola de Samba Rosas de Ouro. Bebeu cerca de uma garrafa de pinga por dia, durante alguns anos. Parou por iniciativa própria, sem qualquer auxílio específico, “exceto o de Deus”.
No presente trabalho, dei destaque às diferenças que apresentam de sociabilidade, comunicação e linguagem sem, contudo, perder de vista sua condição de subalternizados, por compreender que essa condição é o mais antigo fio condutor de suas existências, mais antigo até que o da própria loucura.
A pesquisa de campo mostrou que, nesse universo, a família tem um significado especial sob qualquer ponto de vista que se pretenda analisar e, mesmo não
cena – Experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo 1970-1980” - sobre o lugar da família na vida do trabalhador foi colocada, a meu ver, de maneira sóbria, numa justa medida: “Contraposta às tendências individualizadoras dominantes na vida urbana, a família é a sede de relações que valorizam cada pessoa. Embora submetida aos movimentos dominantes da reprodução capitalista, a família é sede de outros valores e princípios de funcionamento que não lhe são redutíveis. Não se trata aqui de nenhuma idealização romântica da família, quando se sabe o quanto experiências coletivas e relações personalizadas vividas em instituições hierarquizadas podem ser mais opressivas que as vividas no anonimato da individualização. Mas o que nos interessa aqui é, em primeiro lugar, assinalar a especificidade da dinâmica familiar sob o capitalismo; em segundo lugar, assinalar que os trabalhadores se apoiam nessa instituição para afirmar suas identidades” (Sader, 1988:101).
Dna. Tereza, a mãe, desempenhou um papel fundamental na manutenção da dignidade de seus filhos. Todos recebem cuidados e são chamados a atender demandas da casa, dentro de suas limitações. Eliseu, por exemplo, mesmo sem tomar banho há um ano, possui um quarto no mesmo local onde se situam os outros aposentos. A casa, em eterna construção, está em nome de todos os filhos, para que os sadios, após sua morte, não possam deixar os doentes desamparados.