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6. GENERAL DISCUSSION

6.6 L IMITATIONS

Lobato e Greca (2005) analisaram os currículos oficiais da educação básica de vários países5 e constataram que nos mesmos encontra-se incorporada a FMC em suas

programações, notadamente a Teoria Quântica. Assim denotam intenções em colocarem os conteúdos curriculares em sintonia com o mundo em torno dos estudantes. Notadamente em relação à Teoria Quântica, as autoras buscaram analisar os conteúdos selecionados e as perspectivas de abordagens sugeridas pelos currículos oficiais.

Stannard (1990) analisou currículos da educação científica básica de vários países europeus e declarou que pareciam ter sido propostos há mais de 100 anos. Em nenhum deles havia sido incorporada a Física desenvolvida no século XX. Fazendo contraponto com as constatações de Lobato e Greca (2005) evidencia-se assim que na década de noventa, bem como na metade da década seguinte, a FMC foi oficialmente incorporada em várias propostas curriculares.

Vale salientar que a presença da FMC nos currículos oficiais não assegura que a mesma esteja de fato sendo trabalhada em sala de aula, como também não assegura que esteja sendo trabalhada em sintonia com as perspectivas defendidas pelos pesquisadores ou com as recomendações contidas nas políticas públicas. Ou ainda, em sendo as proposições destes setores insatisfatórias, não se assegura que a FMC esteja sendo trabalhada na perspectiva de atender aos anseios dos envolvidos na comunidade

5 As autoras visitaram os sites oficiais dos governos de Portugal, Espanha, França, Reino Unido,

37 escolar, ou mesmo em uma perspectiva que vise contribuir com uma educação científica crítica.

Ao final da década de oitenta, Aubrecht (1989) requeria a atualização curricular estadunidense. Como argumentação, reportava-se a uma menção de dois físicos da universidade de Maryland, a qual havia sido proferida sobre os livros didáticos, na década de sessenta. Os mesmos assinalaram:

Se um físico do século XIX fosse solicitado a ensinar física em um nível introdutório usando um texto atual, ele o faria sem grandes dificuldades. Entretanto, se o mesmo físico tentasse ler Physical Review Letters ou Physical Review ou falar sobre as pesquisas atuais em física, isto seria impossível para o mesmo (Wilson e Redish, apud AUBRECHT, p. 355).

No contexto brasileiro, mais recentemente vários pesquisadores têm defendido que a FMC faça parte da programação curricular da educação básica (ZANETIC, 1989; ANGOTTI E DELIZOICOV, 1991, TERRAZZAN, 1992, apenas para citar alguns). Terrazzan (1992), por exemplo, alerta que as programações curriculares reais limitam- se, majoritariamente, a conceitos da Física que foram desenvolvidos entre os anos de 1600 e 1850. Além disso, nem toda a programação é cumprida. Acerca desta constatação, Terrazzan (op.cit.) assinala:

É comum os programas mais completos de física no 2º grau se reduzirem apenas à Cinemática, Leis de Newton, Termologia, Óptica Geométrica, Eletricidade e Circuitos Simples (p. 211). Sobre a organização dos conteúdos nos livros didáticos, entendemos que referem-se a uma articulação com diretrizes mais amplas. Acerca desta questão, Bernstein (1996) argumenta que a seleção, a organização e a avaliação do conhecimento educacional refletem tanto a distribuição de poder como os princípios do controle social. Bernstein (op. cit.) opina ainda que tanto a transferência de textos e discursos entre contextos distintos, encontra-se submetidos a processos de interpretação e lutas dos grupos dominantes socialmente.

A partir das orientações contidas nos PCNs, a recomendação oficial vigente no Brasil é que a FMC seja introduzida no nível médio da educação básica. Recomendações contidas nos PCN+ perseguem os entornos das aplicações tecnológicas decorrentes das teorizações da Física, bem como suas articulações com a ética e a cidadania.

Acompanhar o desenvolvimento tecnológico contemporâneo, por exemplo, estabelecendo contato com os avanços das

38 novas tecnologias na medicina, por meio de tomografias ou diferentes formas de diagnóstico; na agricultura, nas novas formas de conservação de alimentos com o uso das radiações; ou, ainda, na área de comunicações, com os microcomputadores, CDs, DVDs, telefonia celular, tevê a cabo (PCN+, p. 68).

Apesar da relevância do propósito de introduzir-se a FMC nas salas de aula com o intuito de possibilitar aos estudantes compreenderem o desenvolvimento tecnológico contemporâneo, em nossa forma de perceber, essa é uma visão bastante restrita. Tão importante quanto se conhecerem as tecnologias decorrentes da FMC é conhecerem-se os impactos das mesmas; desvelarem-se com que propósitos foram elaboradas e a que se prestam; desvelar-se a que grupos essas tecnologias estão a serviço; desvelar-se no contexto da sala de aula, a inacessibilidade de muitos aos benefícios dessas tecnologias, por exemplo, apesar de muitas terem sido desenvolvidas a partir de financiamentos públicos. Essas são questões que, em nossa maneira de perceber, estão além da simples compreensão dos avanços tecnológicos, porém imprescindíveis para despertar uma educação científica crítica.

Em sintonia com as sugestões oficiais apontadas anteriormente acerca da introdução da FMC na educação básica, destacamos a crescente quantidade de materiais didáticos produzidos com tal finalidade, no contexto brasileiro. Podemos mencionar, por exemplo, a produção de softwares, livros paradidáticos, etc.

Apesar das sugestões apresentadas acima, será que a FMC encontra-se nos currículos reais e nos planos de ensino dos professores? Se a mesma encontra-se nos planos de ensino das unidades escolares, o que assegura que esteja sendo trabalhada no dia a dia das salas de aula? Além disso, como está sendo trabalhada? Ou seja, com quais propósitos os professores estão introduzindo a FMC na educação básica? Seria apenas para atender determinações impostas aos mesmos pelos planejadores de currículos, os quais normalmente encontram-se bastante alheios à realidade do contexto escolar? Ou será que os professores estão introduzindo a FMC nos planejamentos de ensino por convicção de que a mencionada Física não poderá ficar a margem da educação científica contemporânea?

Entendemos que muito mais importante do que defender uma atualização curricular por meio da introdução da FMC nos programas de ensino, é perseguirmos uma nova maneira de olharmos para a educação científica. É buscarmos uma educação científica sem o domínio generalizado dos ditames da razão instrumental. É

39 considerarmos o potencial emancipador da educação científica e o uso político da mesma. Acreditamos que tal linha de entendimento nos possibilitará outra maneira de olharmos não somente para o ensino da FMC, mas também do ensino da Física Clássica e por que não, uma nova maneira de olharmos o ensino da “Física” Pré-Clássica?

A partir da perspectiva defendida no último parágrafo, acreditamos que o ensino da FMC na educação básica brasileira, não deverá prescindir de alguns questionamentos, os quais ora elegemos como importantes, porém, sem desprezarmos a existência de vários outros. A saber:

• Por que é relevante o ensino da FMC na educação básica?

• Em que medida a FMC incorporada à educação científica poderá contribuir para a emancipação humana?

• Poderíamos situar o conhecimento da FMC com outras formas de conhecimento, os quais foram historicamente construídos?

• Estariam as intenções de introdução da FMC na educação básica compatíveis com as “condições concretas” que os professores brasileiros encontram-se? Quais os obstáculos a serem superados?

• Que educação científica queremos e que o que esperamos da mesma?

Na próxima secção, trataremos das possibilidades e limitações dos professores de física da educação básica introduzirem a FMC nas aulas de física, conforme evidenciam os resultados de algumas pesquisas.

1.4 A Introdução da Física Moderna e Contemporânea na Educação Básica: