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5. METHODOLOGY

5.2. D IMENSIONS

Para discutir o estatuto da atividade social mediada pelo agir comunicativo e para analisar os efeitos dessa atividade de linguagem na transformação do meio em mundos representados, Bronckart (2009, p. 38) destaca inicialmente as dimensões histórica e sociológica das condutas humanas, porque, para ele, “são primeiras”. Entretanto, o autor também considera a dimensão psicológica das condutas humanas, a qual, para ele, é secundária.

A partir dessa consideração, o autor problematiza as capacidades mentais e comportamentais que são atestáveis nas condutas humanas. Para essa discussão, Bronckart (2009) considera outra unidade de análise: a ação, e não mais a atividade.

Para a análise dessa outra unidade, que é propriamente psicológica, Bronckart (2009) recorre à perspectiva de Weber (1971), que considerava a ação como “conduta orientada de modo significante” ou como “comportamento significante mutuamente orientado e socialmente integrado”. O teórico do ISD recorre também a Habermas (1987) e a Ricoeur (1977), que classificaram essa unidade como “ação significante”.

A partir desses autores, Bronckart (2009) defende que a ação apresenta um estatuto duplo: pode ser classificada, de um lado, como a parte da atividade social imputada a um ser humano particular (ponto de vista externo) e, por outro lado, como o conjunto das representações construídas por esse ser humano sobre sua participação na

atividade (ponto de vista interno). Essas representações transformam esse ser humano em um sujeito consciente de seu fazer e de suas capacidades de fazer, ou seja, transformam-no em um agente.

Para Bronckart (2009), o agir comunicativo, que, como já discutimos, é constitutivo dos mundos representados, é o instrumento pelo qual as ações são delimitadas. Nesse sentido, a atividade de linguagem pode ser considerada, no quadro teórico do ISD, como ação de linguagem, que é imputável a um agente e que se materializa em uma entidade empírica, que é o texto singular.

Segundo Bronckart (2009), para considerar como ação um encadeamento de fenômenos envolvendo um ser humano, devem ser consideradas, sobretudo, as propriedades psíquicas e suas relações com as propriedades comportamentais. Assim, o ISD propõe a “ação” como a unidade de análise reivindicada por Vygotsky (1925, 1927) para a Psicologia, já que ela, a ação, coloca em interação as dimensões físicas/comportamentais e psíquicas/mentais das condutas humanas.

Neste ponto, já podemos sublinhar que é na problematização da “ação” que reside a tese central do ISD. Ao definir a ação como “o resultado da apropriação, pelo organismo humano, das propriedades da atividade social mediada pela linguagem” (grifo do autor), Bronckart (2009, p. 42) reforça que a ação de linguagem (ou seja, o agir comunicativo) produz os conhecimentos coletivos/sociais, que se organizam nos três mundos representados, que definem o contexto do agir humano.

Esses mundos representados, como já discutimos anteriormente, são historicamente construídos e constituem, em um dado estado sincrônico, “sistemas de coordenadas formais a partir dos quais se pode exercer um controle da atividade humana” (BRONCKART, 2009, p. 42, grifos do autor). Assim, os mundos representados, que estão relacionados aos conhecimentos sobre o meio físico, sobre as normas reguladoras da interação entre os diversos grupos e sobre as expectativas relacionadas às qualidades requeridas de um agente humano, estão coletivamente disponíveis e engendram quadros de avaliação da participação dos agentes na atividade. Bronckart (2009, p. 42-43) defende, portanto, que cada conduta humana, realizada no contexto dos mundos representados, exibe:

pretensões à validade relativas a esses três mundos: no seu aspecto de agir teleológico, exibe pretensões à verdade dos conhecimentos, que condiciona a

eficácia da intervenção no mundo objetivo; no seu aspecto de agir regulado

pelas normas, exibe pretensões à conformidade em relação às regras sociais;

autenticidade daquilo que um agente mostra de seu mundo subjetivo (grifos do autor).

Essas pretensões à validade são propriedades objetivas ou práticas da atividade humana, que – ressaltamos novamente - é mediada pelo agir comunicativo. Assim sendo, essas pretensões à validade estão codificadas (semiotizadas) na atividade de linguagem. Sob essa perspectiva, Bronckart (2009, p. 43) delimita a ação como “porções da atividade social imputáveis a um organismo humano particular”.42

Para o ISD, o sujeito participa das avaliações sociais ao mesmo tempo em que julga, em relação aos mundos representados, a pertinência do agir dos outros sujeitos. Assim, é nessa e por essa avaliação das dimensões teleológica, social e dramatúrgica do agir dos outros que os sujeitos se constroem como agentes:

dotados de capacidades cognitivas e comportamentais inferíveis de sua relação com o mundo objetivo, de um papel e de uma posição inferíveis de sua relação com as normas do mundo social e, enfim, de propriedades mais pessoais, inferíveis do seu estilo próprio de participação na atividade (BRONCKART, 2009, p. 43-44).

O ISD aponta também que, nesse processo de avaliação social, os agentes conhecem os critérios das avaliações codificadas pela linguagem, sabem que eles também são avaliados por esses critérios e, portanto, aplicam-nos a si próprios. Os agentes, então, apropriam-se das capacidades de ação e das representações de si mesmos como agentes responsáveis por sua ação.

Sob essa perspectiva, Bronckart (2009) delimita o estatuto secundário ou interno da ação: o conhecimento do agente sobre as diversas facetas de sua própria responsabilidade no desenvolvimento de partes da atividade social. Entretanto, como propõe o autor, o agir do sujeito constitui apenas uma pretensão à validade em relação aos parâmetros atuais dos mundos representados e, por conseguinte, o conhecimento de si mesmo como agente também é apenas uma pretensão de autoatribuição de capacidades acionais e intencionais (motivacionais).

Essas pretensões estão – e estarão – sempre confrontadas às avaliações dos outros e, assim, são – e serão – objeto de negociação permanente, a qual se dá no e pelo agir comunicativo. Nesse sentido, o ISD postula que a ação é um produto das avaliações sociodiscursivas.43

42Essa definição corresponde ao ponto de vista externo da ação, como já sublinhamos.

43 Como uma atividade social, a atividade de linguagem também se torna objeto de avaliação (no caso, metadiscursiva). Considerando que as avaliações da atividade em geral produzem ações, o ISD defende que as avaliações metadiscursivasproduzem ações específicas, as ações de linguagem, que são atribuíveis

Sintetizando o exposto até aqui, acentuamos novamente que, para o ISD, a ação humana em geral se apresenta sob dois pontos de vista: um externo e um interno. O externo considera a ação como um recorte da atividade social operado pelas avaliações coletivas, enquanto o interno considera a ação como o produto da apropriação, pelo agente, dos critérios dessa avaliação. Bronckart (2009, p. 99) esclarece que a ação de linguagem, como toda e qualquer ação humana, pode ser definida:

em um primeiro nível, sociológico, como uma porção da atividade de

linguagem do grupo, recortada pelo mecanismo geral das avaliações sociais e imputada a um organismo humano singular; e pode ser definida em um

segundo nível, psicológico, como o conhecimento disponível em um

organismo ativo sobre as diferentes facetas de sua própria responsabilidade na intervenção verbal (grifos do autor).44

Como esclarecemos, o agente, ao se engajar em uma ação de linguagem (ou em qualquer outra ação), dispõe de conhecimento sobre os mundos representados, do qual ele, o agente, apropriou-se na interação verbal e social. Entretanto, esse conhecimento relativo aos mundos objetivo, social e subjetivo, é, na verdade,como defende Bronckart (2009), uma versão pessoal (portanto, necessariamente parcial) desses sistemas de coordenadas sociais. Esse conhecimento pessoal é mobilizado como referente da ação de linguagem, ou seja, como conteúdo temático do agir comunicativo.

No entanto, também outros conhecimentos, mais especificamente relativos ao mundo social e ao subjetivo, são mobilizados pelo agente ao se engajar em uma ação de linguagem. Esses outros conhecimentos estão relacionados às representações do agente sobre as normas sociais e sobre a imagem que convém dar de si. Essas representações, então, “orientam a escolha dos signos dentre as diversas possibilidades que uma língua oferece para semantizar um mesmo referente” (BRONCKART, 2009, p. 47). Para o ISD, são essas representações que constituem um primeiro aspectodo contexto da ação de linguagem, o sociossubjetivo.

Para o ISD, o segundo aspecto do contexto da ação de linguagem é o físico, que está relacionado às representações dos parâmetros objetivos da interação verbal. Bronckart (2009) defende que a ação de linguagem, como acontecimento, constitui um comportamento ou ato material (oral ou escrito) inscrito em dadas coordenadas do espaço-tempo.45 Essas coordenadas são representações construídas e mobilizadas pelo a agentes verbais. Entretanto, para Bronckart (2009), embora as condições de constituição das ações de linguagem sejam análogas às das ações em geral, as condições de seu funcionamento são particularmente complexas, dado o seu estatuto semiótico.

44 O ISD preocupa-se apenas com a análise do segundo nível, o psicológico.

45Bronckart (2009, p. 47) lembra que toda língua natural apresenta dêiticos, “signos específicos que explicitam as modalidades dessa ancoragem da ação de linguagem no mundo objetivo”.

agente sobre si mesmo como locutor ou escritor, sobre seus interlocutores potenciais e sobre as dimensões espacial e temporal da interação em que se engaja.

Por fim, para o ISD, o aspecto verbal constitui o terceiro e último aspecto do contexto da ação de linguagem. Esse aspecto evidencia que o ato verbal ocorre no quadro de uma língua natural e que está, consequentemente, condicionado pelos conhecimentos, sejam conceituais e/oupráticos, que o agente tem sobre a língua e, mais especificamente,pelos conhecimentos que ele, o agente, tem sobre os gêneros de texto em uso. Assim, esse aspecto, propriamente verbal, está relacionado à intertextualidade.

A partir do exposto até aqui, podemos precisar que, no quadro teórico- metodológico do ISD, à ação de linguagem correspondem duas dimensões, a referencial e a contextual, que, assim como as suas condições de constituição, estão sempre em estreita interdependência. Bronckart (2009) considera, por exemplo, que os conhecimentos sobre a intertextualidade são necessariamente indexados por representações relativas ao contexto social. Para o autor: “conhecer um gênero de texto também é conhecer suas condições de uso, sua pertinência, sua eficácia ou, de forma mais geral, sua adequação em relação às características desse contexto social” (BRONCKART, 2009, p. 48, grifo do autor).

Nesta nossa discussão acerca dos pressupostos do ISD sobre a relação entre ação e linguagem, queremos destacar também a posição assumida por Bronckart (2009) quanto à metodologia da análise das ações em geral. Para o autor, o procedimento científico deve se interessar, primeiramente, pelas características estruturais e funcionais do conjunto das ações humanas, o que implica que esse procedimento analise as relações que essas ações mantêm com os parâmetros do mundo social em que se inscrevem. Em seguida segundo Bronckart (2009), o procedimento científico deve se interessar, pelas capacidades mentais e comportamentais que as ações colocam em funcionamento e, mais especificamente, pelas condições de engendramento dessas capacidades. De acordo com o autor, essa postura metodológica implica que se considerem todas as variedades de ações humanas, principalmente aquelas orientadas especificamente para o desenvolvimento e para a formação dos seres humanos, como as ações relacionadas às intervenções educativas.

Por fim, a perspectiva metodológica preconizada por Bronckart (2009) e relacionada às ações de linguagem e aos textos que as materializam é bastante semelhante à das ações em geral, que descrevemos acima. Nesse sentido, primeiramente deve se proceder à “análise do estatuto dessas ações semiotizadas e de suas relações de

interdependência com o mundo social, de um lado, e com a intertextualidade, de outro” (BRONCKART, 2009, p. 67). Em seguida, deve se proceder à análise da arquitetura interna dos textos e do papel que nela desempenham as propriedades da língua. Assim, o procedimento de análise adotado pelo ISD se centra, primeiramente, nas condições sociopsicológicas da produção dos textos para, depois, considerando essas condições, descrever e analisar suas propriedades estruturais e funcionais internas.