Ainda para a nossa discussão sobre a ação de linguagem, de acordo com o aporte teórico do ISD, apontamos a relação entre ação de linguagem, pensamento e consciência.51 Para isso, apontamos, inicialmente, que, partindo das perspectivas teóricas sustentadas por Spinoza, Hegel, Marx, Engels, Bakhtin, Habermas, Ricouer e Vigotsky, a proposta do ISD defende a dimensão sociossemiótica do funcionamento humano e contesta, portanto, o esquema da tradição aristotélica e a concepção dominante na filosofia idealista sobre as relações entre mundo, pensamento e linguagem. Para a tradição aristotélica, como destacou Bronckart (2009, p. 105), “a representação do mundo é primeira e a linguagem é um fenômeno secundário”.
Para os defensores dessa concepção, haveria, em primeiro lugar, um mundo empírico, no qual estariam indivíduos dotados de capacidades de representação (cognição). A linguagem, então, para essa tradição, seria um sistema de recodificação das representações prévias, que, como contesta Bronckart (2009, p. 106), seriam “elaboradas em uma „pura‟ relação com o mundo, isto é, em uma relação virgem de qualquer história, de qualquer semiotização das relações e, portanto, miraculosamente a salvo de qualquer influência da linguagem e dos outros instrumentos semióticos” (grifos nossos).
Para contestar essa tradição, Bronckart (2009) parte da proposta da Psicologia do Desenvolvimento (mais especificamente, dos estudos da escola vigotskiana) sobre o
51 Na subseção 3.1 (InteracionismoSocial:a base epistemológica do ISD), já discutimos preliminarmente sobre as contribuições de Vygotsky (1925, 1927) e de Piaget (1936, 1937, 1946) para a análise dessa relação.
estatuto dos conhecimentos humanos. Destarte, para problematizar a relação entre mundo, pensamento, consciência e linguagem, Bronckart (2009) destaca o problema das condições de emergência do psíquico (questão central para a Psicologia), assume o posicionamento monista emergentista herdado de Vygotsky (1925, 1927) e reformula duas questões (primeira e segunda precipitação):
Por meio de quais processos o funcionamento biológicco e comportamental dá origem, em todos os organismos vivos, a um funcionamento psíquico elementar ou prático? (primeira precipitação); “Por meio de quais processos esse funcionamento psíquico prático se transforma, no homem, em pensamento consciente? (segunda precipitação) (BRONCKART, 2009, p. 49).
Em relação à primeira questão, que aborda os processos pelos quais as funções biológicas e comportamentais dão origem ao funcionamento psíquico elementar ou prático, Bronckart (2009) avalia que a análise proposta por Piaget (1936, 1937, 1946)continua pertinente, embora ela desconsidere a atividade social, na qual esses processos se realizam, e os considere apenas no estado inicial da ontogênese dos conhecimentos humanos. Bronckart (2009) lembra, então, que Piaget (1936, 1937, 1946)mostrou primeiramente como o contato ativo do organismo humano com seu meio gera progressivamente, sob o efeito dos mecanismos de assimilação e de acomodação, traços/índices internos de certas propriedades desse meio (índices referentes aos objetos encontrados e referentes também aos próprios comportamentos através dos quais ocorre esse contato).
Piaget (1936, 1937, 1946)também mostrou, segundo Bronckart (2009), que, pelo jogo desses mecanismos de assimilação e acomodação, esses índices se organizam, posteriormente, em configurações mais abstratas e também mais estáveis (as imagens mentais), que tornam possíveis os processos de reconhecimento, diferenciação e generalização. Nesse primeiro estágio do desenvolvimento humano, então, há, sobretudo, a emergência de formas representativas (índices e imagens) organizadas no esquematismo sensório-motor. Entretanto, essas formas representativas iniciais são ainda dependentes dos objetos ou dos comportamentos que as engendraram, ou seja, elas estão estruturalmente ligadas aos objetos que sinalizam (por isso, são chamadas de significantes indiferenciados).
Embora assegurem a coordenação das ações, controlando e regulando os comportamentos do bebê, essas formas representativas iniciais permanecem inacessíveis ao controle consciente do bebê ao agir. Portanto, no estágio sensório-motor, não há
atividade de pensamento, já que esse período é marcado, na verdade, pela inteligência prática.
Bronckart (2009) acredita que, embora responda satisfatoriamente à primeira precipitação, a proposta de Piaget (1936, 1937, 1946)é insuficiente para a análise da segunda, a das condições de transformação do psiquismo prático em pensamento consciente. O teórico do ISD alerta que, para a abordagem piagetiana, é o mesmo processo natural de interação entre o organismo individual e o meio que permite, a seguir, o encontro com os signos da língua do meio social.
Para Bronckart (2009), essa tese piagetiana deve ser rejeitada por aqueles que, como ele, tomam, para análise, as propriedades semióticas da linguagem humana, pois já está demonstrado que a criança não tem, por si só, a capacidade de aceder, em uma relação solitária com o meio, aos signos da língua de seu meio social, o qual integra o bebê a suas ações em geral, inclusive as de linguagem. Assim sendo, o meio social intervém no desenvolvimento da criança; entretanto, é a partir da orientação social das ações de linguagem (e também das outras ações) que ela, a criança, engaja-se nas práticas designativas do meio social. Nesse sentido, Bronckart (2009, p. 53) propõe que: se é então, de fato, como afirma Piaget, a interiorização dos signos que é a condição de constituição do pensamento, é preciso salientar que esse processo de desenvolvimento central, longe de ser „natural‟ (ou bilogicamente fundado), é, ao contrário, duplamente marcado pelo social (grifo do autor).
Assumindo os signos como produtos imotivados/arbitrários, Bronckart (2009) argumenta que a criança os interioriza como formas de estabelecer correspondências, temporariamente cristalizadas pelo uso histórico do seu grupo. Como bem destacou Piaget (1936, 1937, 1946), as unidades representativas (os signos) atribuem, ao funcionamento psíquico, autonomia em relação aos parâmetros do meio, o que, para Bronckart (2009), já ocorre no estágio sensório-motor, com as capacidades do bebê de evocação e de imitação, evidenciadas pelo primeiro autor.52
Baseado em Vygotsky (1925, 1927), Bronckart (2009) acentua que a interiorização dos signos coloca o funcionamento psíquico sob a dependência do social, pois a significação dos signos é– permanentemente – objeto de negociações. Seguindo esse pressuposto, o ISD indica que as línguas naturais não se diferenciam apenas por seus significantes aparentes, mas também – e sobretudo – pelos significados e, por conseguinte, pelas imagens constitutivas destes, as quais são formas sociodiscursivas
particulares que organizam as representações humanas. Os signos, então, para o ISD, além de serem instrumentos de representação, são também – e principalmente – instrumentos de regulação da atividade coletiva, ou seja, são “instrumentos de cooperação, ou de intervenção sobre os comportamentos e as representações dos outros” (BRONCKART, 2009, p. 55, grifo nosso).
Como se pode inferir do exposto acima, Bronckart (2009) adota a tese central de Vygotsky (1925, 1927)53: a criança sabe que, pela linguagem, age sobre os outros e que, também pela linguagem, pode agir sobre si mesma (sobre suas representações e sobre seus comportamentos), começando, então, a “pensar”. Ao adotar essa tese, o ISD sugere, então, que a condição decisiva para a emergência da consciência é a interiorização do valor comunicativo dos signos, como argumenta Bronckart (2009, p. 56-57) a seguir:
Antes da emergência da linguagem, há, certamente, um funcionamento psíquico prático, mas que se baseia em formas representativas, não só idiossincráticas, mas que, sobretudo, constituem uma massa contínua e não organizada, um amálgama de imagens sem fronteiras nítidas. Com a interiorização de significantes descontínuos, porções de formas representativas são reorganizadas em significados (...) e são, por isso mesmo, erigidas em reais unidades representativas, delimitadas e relativamente estáveis. Essa discretização do funcionamento psíquico é a condição última para a emergência de um pensamento consciente. É somente quando as formas representativas são desdobradas e organizadas em unidades discretas, sob o efeito da interiorização dos signos, que pode se desenvolver o movimento autorreflexivo característico do funcionamento psíquico consciente (grifos do autor).
Posto isso, pontuamos que, para o ISD, as representações semiotizadas do pensamento consciente são da ordem da razão prática, ou seja, são organizadas de acordo com as modalidades das práticas acionais humanas das quais se originam.54
53 Dado que essa relação entre linguagem, pensamento e consciência é a principal orientação epistemológica do quadro teórico-metodológico do ISD, ressaltamos, para recapitular o que foi discutido nesta seção, que, de acordo com a escola vigotskiana, as atividades e as produções verbais, sempre coletivas, exercem um papel primeiro no engendramento do pensamento consciente. Como propõe Bronckart (2009, p. 106-107), “de um ponto de vista genético, as capacidades de representação lógica do mundo, portanto, são um produto tardio, secundário, ou derivado das práticas acionais e discursivas” (grifos do autor), premissa que foge aos postulados defendidos pela tradição aristotélica, sobre a qual discutimos anteriormente. Sob essa perspectiva, para o ISD, seguindo a tradição vigotskiana, o pensamento consciente é um produto da ação e da linguagem, já que, “na espécie humana, as atividades coletivas mediadas pelas práticas de linguagem são primeiras, filo e ontogeneticamente” (BRONCKART, 2009, p. 107). Por fim, vale apontar que Bronckart (2009, p. 107) reconhece que o pensamento consciente permanece, por longo tempo, “determinado apenas pela lógica acional e discursiva (pensamento natural), antes de se separar dela e de se transformar, localmente em pensamento formal” (grifos do autor). 54 Neste ponto, lembramos que, para Ricoeur (1986), um dos principais autores em que se baseia a proposta do ISD, o pensamento prático é permanentemente reestruturado pelos gêneros narrativos. Entretanto, Bronckart (2008, 2009) propõe que essa tese considere não apenas os gêneros narrativos, mas também, por exemplo, os discursos interativos/dialogados, tanto os escritos quanto os orais, que, assim como os primeiros, configuram-se como instrumentos das ações humanas. Nesse sentido, Bronckart (2008, 2009) considera bastante limitada a proposta de Ricoeur (1986), já que ela desconsidera o estatuto