Esta categoria de análise pretende apresentar a inserção da área de Saúde Coletiva no Currículo do Curso de Medicina da UFPR.
Sobre o valor dos documentos relacionados ao projeto pedagógico, existe uma fala muito forte de um dos gestores do curso que procurou resgatar o contexto da proposta da mudança curricular aprovada em 1994 pelo Conselho Superior da Universidade, liderada pelo coordenador do Colegiado do Curso e com total apoio do Diretor do Setor e da reitoria, na época. Eis o que ele revela:
O que levou a mudar o Curso de Medicina é que existia uma suposta insatisfação dos alunos com o modelo de ensino, que é muito tradicional. De outro lado, houve uma associação interessante do Diretor do Setor de Saúde da época com uma professora da área de educação que era a Pró-reitora de Graduação. E ela fez um projeto para ajudar essas mudanças curriculares no Curso de Medicina, mas seria, teoricamente, uma proposta para a Universidade, que envolveu, entre outras coisas, a mudança do calendário escolar do Curso de Medicina para 40 semanas e não 30 como em todo o restante da Universidade, sem semana de provas, sem semana acadêmica. Algumas coisas foram difíceis no início, mas tinham fundamento, eram defensáveis. Foi muito criticado na Universidade porque diziam “olha a Medicina querendo de novo fazer tudo
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diferente” e isso ocasionou uma grande celeuma, prevenção até em algumas áreas quanto ao setor e especialmente ao Curso de Medicina. No entanto, faltou articulação com a base. Como se acreditava que a reforma curricular poderia ser forçada de cima para baixo, e principalmente partindo de uma premissa que era uma situação que ninguém, na verdade, viu o dado. Os egressos que de fato estavam insatisfeitos são novos médicos, são médicos de competência reduzida. Esse dado objetivo nunca foi demonstrado. Então, teve esse caldo aí de política, pretensões políticas futuras, algumas antevisões sobre o que estava acontecendo, quem está falando, e aí nós vamos correr para esse lado, que era a intencionalidade da mudança. (GUFPR2)
O documento que traduzia o projeto pedagógico do curso continha propostas que, de alguma forma, acabaram sendo incorporadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais posteriormente mas que, naquele momento, não estavam incluídas nas orientações do currículo mínimo legal.
Um dos aspectos mais emblemáticos foi a criação das Práticas de Ambulatório Geral (PAG) para os estudantes, viabilizando a possibilidade de atendimento de pacientes não pré-selecionados. No entanto, naquela época, a rede de saúde de Curitiba não estava tão estruturada e organizada como atualmente. Além disso, a cidade de Curitiba tinha sete centros universitários e três cursos de Medicina, todos com tradição, hospitais- escola e estrutura já montada e a Universidade Federal do Paraná não estava entre os parceiros preferenciais da Prefeitura. Essa foi uma articulação que depois foi construída, em função da exposição precoce do estudante gerada pelos PAGs.
Outra demanda imediata gerada pelo novo currículo foi a necessidade de professores que pudessem deixar de fazer aquilo que já
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vinham fazendo e passassem a atuar na supervisão dos estudantes nas Unidades Básicas de Saúde. O PAG era uma estratégia dos departamentos e deveria representar uma parceria dos cinco principais departamentos do curso na sua oferta, o que acabou não se viabilizando, fazendo com que o Departamento de Saúde Comunitária assumisse a supervisão indireta dos estudantes para resolver o problema concretamente passou a ser o departamento responsável pela oferta da disciplina no curso e onde ficou alocada a carga horária desta atividade.
A reforma curricular de 1994 foi considerada por um dos gestores entrevistados como um “sonho” e não como um produto de um processo de construção de mudança. Abaixo seu relato sobre alguns fatos que marcaram aquela época:
Os docentes dos departamentos não se envolveram, decidiram apenas com os chefes. O professor pensa: eu não indo nas discussões curriculares mostro que não estou de acordo. Você pode até dizer: “nós vamos decidir à sua revelia. Decidam para ver o que eu faço, quando fecho a porta da sala de aula.” E é isso que aconteceu. Eu acho que aquela foi uma proposta sonhadora, o que foi uma pena, porque a proposta, na essência, era excelente. Eu tenho dito que não precisa mudar o currículo. A gente precisa mudar o jeito de trabalhar com ele. Quer dizer, de fato não vamos ter seis profissionais numa sala para supervisionar o aluno. Isso foi uma heresia de quem escreveu o currículo. E eu até entendo, hoje. O que eles pretendiam não era isso. O tipo de profissional que eles sonharam a gente não tem como comprar ele na Federal do Paraná. E a gente não quer contratar esse profissional. Por quê? Que ambulatório ele vai tocar? Para encurtar uma história longa, felizmente, hoje, os professores estão indo para outra direção e a gente está entregando para a responsabilidade das áreas, é um jeito de fazer a exposição precoce. Vai começar com a Saúde da Mulher e do Adolescente, Pediatria, mais básica, tentando levar para fora do HC os estudantes. (GUFPR2)
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A análise da forma como os docentes, em particular, conseguiram se manifestar politicamente em relação à reforma curricular que foram obrigados a aceitar do ponto de vista administrativo e formal, pode se basear nas eleições da reitoria que aconteceram pouco tempo depois, como relata o mesmo gestor:
Para encerrar, a pedagoga, ao sair da Pró-reitoria de Graduação, se candidata a Reitora da Universidade Federal do Paraná com o apoio do então diretor do Setor de Ciências da Saúde, parceiro na reforma curricular da Medicina. E ela perdeu as eleições no Setor de Saúde fragorosamente. Era uma associação política interessante com a Tecnologia, um grande setor e a Saúde que, na verdade, não estava na cabeça de chave, mas ela, na intimidade, imaginava que, pelo seu esforço de fazer o trabalho, que por um momento foi muito bom, ela teria livre trânsito, e de fato ela teve livre trânsito, mas ninguém votou nela. Foi muito contundente para ela que o Setor de Saúde, para quem ela aparentemente tinha prestado relevantes serviços, falou para ela aquilo que eles estavam pensando do projeto político-pedagógico do curso. (GUFPR2)
Os estudantes que apoiaram o ideário da reforma curricular de 1994 devido à sua insatisfação com o currículo anterior continuaram insatisfeitos com a forma como as mudanças foram implementadas, com as dificuldades operacionais vividas na institucionalização das Práticas de Ambulatório Geral e com a manutenção da fragmentação curricular no conjunto do curso.
Além disso, eles consideram o Ajuste Curricular uma estratégia burocrática esua implementação não poderia ter ocorrido antes de uma nova reforma curricular, porque ele altera a carga horária de muitas disciplinas e mereceria ser mais discutido antes de ter sido posto em prática.
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Um estudante, no Grupo Focal do DANC assim se posiciona em relação ao Ajuste:
Cada departamento se reúne, pensa por si só. Não há vontade do curso como um todo de sentar, pensar no perfil do médico a ser formado e analisar horizontalmente o que tem que ser dado em cada período. Tem muito ego de professor, tem carga horária em jogo, porque os departamentos não querem abrir mão de carga horária, porque vão receber menos docentes por diminuir a carga horária. Em relação ao Ajuste Curricular da Saúde Coletiva, se não mudarem a forma de se explicar a Saúde Coletiva, a forma de se mostrar aos estudantes o que é Saúde Coletiva, não vai adiantar colocar a Gestão no 5º período e Epidemiologia no 4º período, para mim não valeu de nada ter abaixado. Claro, vai ser ótimo porque vai ter aumento de dois anos, quando você conseguir abaixar meio semestre do curso, a gente consegue o Internato de dois anos mas, fora isso, não vai melhorar em nada, se não se repensar um método de avaliação, um método pedagógico e o que tem que ser enfocado dentro das disciplinas. Mas avança em relação ao que a gente tem, mas não está havendo essa conversa entre os departamentos, então não avança em outros sentidos porque o Departamento de Saúde Comunitária continua tentando trazer essa visualização nova de médico para a gente, mas os outros departamentos continuam chamando o departamento “de médicos de pés descalços”.
(EUFPR4)
O único professor que se manifestou nesta categoria destaca o crescimento da área no Curso de Medicina como um todo o que, somado às novas contratações que ocorreram no ano de 2008, pode vir a representar de fato uma maior inserção da área no novo projeto pedagógico que vem se delineando. Diz ele:
Acho que a Saúde Coletiva está num processo de crescimento, de avanço dentro da nossa universidade, vejo que a inserção da Saúde Coletiva no Curso de Medicina vai aumentar. De uma forma gradativa, não tanto quanto nós gostaríamos, mas ela vem aumentando, se você for ver o histórico da Saúde Coletiva no Curso de Medicina. Eu entendo que isso é bom, que vai representar um avanço para o Curso de Medicina, mas isso vai se dar com o tempo.
(PUFPR5)
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Quando se considera a inserção da Saúde Coletiva no projeto pedagógico da UFPR, a análise dos depoimentos traduz certa tensão entre as expectativas e as negociações políticas capazes de gerar mudanças. O que fica evidente é mais a dinâmica de um difícil processo de conquista do que propriamente o clima de estabilidade.
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