Todos nós, envolvidos e comprometidos com a educação, sabemos que o professor é o mediador entre seus alunos e os objetos do conhecimento; é ele também quem propicia e organiza espaços e situações de aprendizagem, nas quais são articulados os recursos afetivos, emocionais, sociais e cognitivos. É, ainda, ao professor que cabe a tarefa de singularizar as situações de aprendizagens, considerando todas as suas capacidades e potencialidades, bem como planejar as condições de aprendizagem com base nas necessidades e nos ritmos individuais dos alunos.
Consequentemente, vemos a relevância das práticas pedagógicas em sala de aula para que tenhamos sucesso no nosso fazer cotidiano de educar para a vida, para o mundo, e
para o mundo do trabalho. Nesse sentido, Kleiman (2012) apresenta algumas atitudes que o professor deve ter para trabalhar com práticas sociais não escolares.
A autora defende que o professor precisa ter conhecimentos necessários para agir como um verdadeiro agente social - um agente de letramentos - gestor de saberes, descobrindo qual o valor da leitura e da escrita na vida do aluno. Dessa forma, poderá criar novas e relevantes funções para a inserção plena dos alunos e seu grupo social no mundo da escrita. Conhecendo bem os recursos do grupo, poderá mobilizar os alunos para aquilo que é relevante de ser aprendido para inserir-se na sociedade letrada, ampliando os horizontes da ação do grupo.
Ao envolver os estudantes em práticas de letramento, estará propondo uma atividade colaborativa, em que todos têm algo com que contribuir e todos têm algo a aprender. Isto implica adotar uma concepção social da escrita, em contraste com uma concepção de cunho tradicional:
O professor, como “agente de letramento” de letramento é um mobilizador dos sistemas de conhecimentos pertinentes, dos recursos, das capacidades dos membros da comunidade. É um promotor de recursos e de redes comunicativas, para que os alunos participem das práticas de uso da escrita situadas nas diversas instituições. (KLEIMAN, 2012, p. 82-83).
Ao se considerar a prática social como um dos elementos estruturadores do trabalho escolar, o ensino da leitura e da produção textual pode ser ampliado com vistas a incluir as leituras da paisagem urbana, com passeios por diversos “mundos de letramento”, para o aluno experimentar as diferentes formas de agir, vivenciando as práticas sociais. Destacam-se, assim, as práticas do domínio pedagógico, isto é, os usos da leitura e da escrita voltados para a formação profissional, em que professores em formação, num curso de Licenciatura, buscam alternativas de elaboração didática para realizar com seus alunos na relação ensino e aprendizagem.
Essas práticas exigem segurança e autonomia por parte dos professores, o que pode ser adquirido em situações reais, para a construção de letramentos específicos do contexto escolar situado, como também dos textos sem tradição escolar, que circulam na sociedade. Nesse sentido é que trago a poesia como instrumento pedagógico mediador no processo ensino/aprendizagem da leitura e da escrita em sala de aula, para tornar nossos alunos sujeitos leitores-escritores proficientes, haja vista que a realidade vivenciada por nós, em relação à leitura e à escrita de nossos alunos, não os favorece.
Oportunizando, desse modo, aos alunos, a reflexão sobre a aprendizagem; o aspecto relacional, voltado às relações interpessoais, de valorização do aluno, de sua família e da comunidade escolar; e o aspecto institucional, que prevê a utilização dos espaços, equipamentos e pessoas, disponíveis na estrutura escolar para o alcance da aprendizagem.
Franchi (Apud Abaurre, 1997) diz que a linguagem é ela mesma um trabalho pelo qual, histórica, social e culturalmente o homem organiza e dá forma as suas experiências. Nela se produz, do modo mais admirável, o processo dialético entre o que resulta da interação e o que resulta da atividade do sujeito na constituição dos sistemas linguísticos, as línguas naturais das quais nos servimos na interação social, condição de desenvolvimento da linguagem, pela qual o sujeito se apropria do sistema linguístico, no sentido de que constrói com os outros, os objetos linguísticos que se vai utilizar na medida em que se constitui a si como locutor e aos outros como interlocutores.
Nessa mesma linha de pensamento em relação à linguagem enquanto práxis, ou melhor, como prática social, que se dá na relação dialógica do eu-tu-mundo, na qual a leitura é processo inerente, temos:
A leitura é um processo de ligação entre o texto e o leitor. Ela deve ser compreendida como um ato social entre o leitor e o autor se envolvendo num processo interativo, relevante para um pleno conhecimento em todos os aspectos cognitivos. Assim os domínios de conhecimento (linguístico, o pedagógico e o social) estão integrados. (KLEIMAN, 2004, apud. SOUZA, 2004, p.61).
A autora ressalta que o leitor constrói, e não apenas recebe um significado global para o texto; ele procura pistas formais, antecipa essas pistas, formula e reformula hipótese, aceita ou rejeita conclusões. Contudo, não há reciprocidade com a ação do autor, que busca essencialmente a adesão do leitor, apresentando para isso, da melhor maneira possível, os melhores argumentos, a evidência mais convincente de forma mais clara possível, organizando e deixando no texto pistas formais a fim de facilitar a consecução de seu objetivo.
Lembra, ainda, que a leitura não deve se fechar simplesmente ao caráter teórico, pois levará o aluno a ter uma leitura apenas mecânica, isto é, percorrer com a vista o que está escrito, proferindo as palavras, ou seja, decodificando as palavras e garimpando os sentidos que se acredita prontos no texto. Mas, isso não é leitura, uma vez que ela deve ser feita com um olhar crítico inter-relacionando com outras leituras feitas anteriormente, produzindo
sentidos, uma vez que os sentidos que podem ser lidos, não estão necessariamente ali, nele. O(s) sentido(s) de um texto passa(m) pela relação dele com outros textos.
Orlandi (1999) mostra como a leitura pode ser um processo bastante complexo e que envolve muito mais do que habilidades que se resolvem no imediatismo da ação de ler. Saber ler é saber o que o texto diz e o que ele não diz, mas o constitui significativamente. A leitura é o momento crítico da constituição do texto, pois é o momento privilegiado da interação verbal: aquele em que os interlocutores, ao se identificarem como interlocutores, desencadeiam o processo de significação.
Em outras palavras, é na sua interação que os interlocutores instauram o espaço da discursividade. Autor e leitor confrontados definem-se em condições de produção e os fatores que constituem essas condições é que vão configurar o processo de leitura.
Muitas das dificuldades na compreensão de se entender um texto não está somente ligada ao desconhecimento do significado dos códigos linguísticos ou de algum dado do texto, mas sim ao fato de não se perceber e fazer a relação existente entre diferentes partes de um mesmo texto com o todo. Por isso, há uma necessidade de se trabalhar de forma significativa as diferentes características peculiares nas diferentes tipologias textuais. Nesse sentido, a poesia é um meio eficaz de letramento, uma vez que o sentido poético não está nas palavras, mas no todo, no interdito e no não dito. Justamente por isso, o leitor precisa significar o que ler, precisa interpretar e analisar, fazendo, assim, uma verdadeira leitura do texto.
Desse modo, letrar, pelo viés da poesia, é provocar o aluno, provocar a sua sensibilidade, as suas emoções, os seus sentimentos, a sua imaginação, as suas experiências e o seu conhecimento de mundo. É, também, despertar o gosto pela leitura e pela escrita literária.
Nessa perspectiva, o letramento busca desmistificar a linguagem como algo abstrato, estranho ao contexto diário do ser humano. Para isso, usa elementos que fazem parte do nosso cotidiano, dos nossos afazeres, das nossas afetividades e emoções diárias, através da linguagem como ação, como prática social, isto é, a linguagem em uso.