O termo atitude proposicional foi introduzido por Bertrand Russell (1905) para designar a atitude que uma pessoa tem em relação a uma proposição (VALENTIM, 2004). Segundo Wichmann (2000), as atitudes proposicionais são atitudes frente a proposições. Atitude é um estado mental que envolve de algum modo uma ‘tomada de decisão’ em relação a algo. Proposição é um pensamento, semanticamente avaliável, literalmente expresso por uma frase, é o conteúdo (ou significado) da minha crença, que só será verdadeira se a proposição for verdadeira.
A estrutura sonora da comunicação humana pode ser dividida em aspectos segmentais e não segmentais, a prosódia se destaca por ser um instrumento do locutor para a expressão dos chamados estados mentais: as atitudes. É incontestável o fato de que a entoação tem um importante papel a desempenhar na expressão de atitudes. Couper-Kuhlen (1986 apud MORAES et al., 2012b) e Wichman (2002), destacam a função atitudinal como uma das mais importantes funções da entoação.
Segundo Moraes (2012), na tradição da semântica e da filosofia da linguagem, uma atitude proposicional denota um estado mental (postura) do falante em relação a uma proposição (não a outra pessoa ou evento). Moraes (2008b) propõe a análise de atitudes proposicionais na expressão de enunciados assertivos e interrogativos totais a partir da relação do falante com o conteúdo proposicional (CP) desses enunciados, num eixo atitudinal que varia de acordo com o grau de certeza ou dúvida em relação ao CP.
Em um continuum desde a correção, em que o falante afirma fortemente a verdade da proposição, à ironia, em que o falante nega a verdade da proposição, Moraes (2008b) descreve 5 padrões melódicos atitudinais assertivos para o português do Brasil na variedade carioca (cf. Fig. 14).
Figura 14: Eixo das atitudes assertivas (Moraes, 2008b)
Nesse eixo, os padrões variam da certeza da verdade do conteúdo proposicional do enunciado (correção) até a certeza da falsidade do conteúdo proposicional do enunciado (ironia). Os cinco contextos assertivos são os descritos a seguir:
1. Na asserção corretiva, além de o falante assumir a verdade do que diz, assume que
o que foi dito antes está errado, há o confronto de duas “verdades”;
2. Na asserção evidente, o falante assume que o conteúdo proposicional deveria ser do conhecimento do ouvinte (em geral é uma resposta);
3. Na asserção neutra, o falante assume que o conteúdo proposicional é verdadeiro; 4. Na asserção incrédula, há uma repetição da asserção imediatamente anterior (asserção eco), em que a entoação nega o conteúdo proposicional da frase;
5. Na asserção irônica, há a negação do conteúdo proposicional expresso; é uma reação a uma pergunta anterior considerada absurda, por ser óbvia sua resposta.
Na asserção corretiva, a informação que o falante usa para corrigir o conteúdo proposicional do enunciado é um constituinte interpretado sob foco. Zubizarreta (1999:4224) define o foco como a parte não-pressuposta da oração, ou seja, é a informação não compartilhada pelo falante e pelo ouvinte no momento em que se emite um enunciado em um dado discurso.
Segundo Zubizarreta (1999:4227), é possível distinguir dois tipos de foco: o foco neutro e o foco contrastivo. O foco neutro é aquele que se identifica por meio de um contexto interrogativo (cf. exemplo em (1)) e o foco contrastivo é aquele que se identifica por meio de uma asserção (cf. exemplo em (2)).
(1) ¿Qué se comió el gato? El gato se comió un RATÓN. (2) El gato se comió un ratón.
El gato se comió un CANARIO (no un ratón) / El PERRO (no el gato) se comió un ratón.
No foco neutro, na medida em que a pergunta e a resposta correspondente compartilham a mesma pressuposição, é possível identificar o foco de uma asserção como a parte da asserção que substitui o pronome interrogativo na pergunta correspondente. No foco contrastivo, nega-se o valor atribuído pela pressuposição a uma certa variável, e se atribui um valor alternativo a essa variável.
Zubizarreta (1999) assegura que, em espanhol, como em muitas outras línguas, a proeminência prosódica desempenha um papel fundamental na identificação do foco. Dentro do grupo melódico, uma das palavras se destaca como mais proeminente. O acento tonal associado à palavra de maior proeminência é chamado de acento nuclear.
Cabe distinguir dois tipos de acentos nucleares: o acento neutro e o acento contrastivo (ou enfático). O foco neutro pode ser identificado unicamente pelo acento nuclear neutro e o foco contrastivo pode ser identificado pelo acento nuclear contrastivo. O acento nuclear neutro se coloca sempre sobre a última palavra do grupo melódico e o contrastivo aparece nas outras posições, sobre qualquer morfema acentuável (ZUBIZARRETA, 1999).
A partir do eixo de certeza, podemos analisar também as atitudes interrogativas. Em um extremo está o padrão confirmativo, marcado pela expectativa de uma resposta que confirma o conteúdo proposicional, e no outro extremo está o retórico, no qual o falante assume precisamente o oposto do conteúdo proposicional. Moraes (2008b) descreve 4 padrões melódicos atitudinais interrogativos para o português do Brasil na variedade carioca (cf. Fig. 15).
Figura 15: Eixo das atitudes interrogativas (Moraes, 2008b)
Nesse eixo, como nas atitudes assertivas, os padrões variam da certeza da verdade do conteúdo proposicional do enunciado (confirmativo) até a certeza da falsidade do conteúdo proposicional do enunciado (retórico). Os quatro contextos interrogativos são os descritos a seguir:
1. A pergunta confirmativa é um pedido de informação no qual há uma indicação de que a resposta esperada tem a mesma polaridade em relação ao conteúdo proposicional da pergunta;
2. A pergunta total neutra é um pedido real de informação, deseja-se obter um dado; 3. A pergunta total incrédula é um pedido de informação no qual há uma indicação de que a resposta esperada tem a polaridade invertida em relação ao seu conteúdo proposicional da pergunta;
4. A pergunta retórica não é um pedido de informação real, pois falante e ouvinte sabem que seu conteúdo proposicional é falso.
Gussenhoven (2004:22) afirma que a linguagem usa contrastivamente a variação de pitch (efeito acústico produzido pela frequência de vibração das pregas vocais) para a expressão do significado discursivo. Halliday (1970 apud ANTUNES, 2007) sustenta que há vários padrões de entoação possíveis para a mesma frase e eles carregam significados diferentes, chamados de atitudinais.
Como base nas atitudes proposicionais assertivas e interrogativas descritas por Moraes (2008b) para o português brasileiro (variedade carioca), descreveremos os padrões entonacionais das mesmas atitudes em espanhol, na variedade de Montevidéu. Nosso objetivo é analisar como os indivíduos expressam as atitudes de certeza e dúvida por meio da variação melódica do enunciado.
CAPÍTULO 3