• No results found

Segundo Rector & Trinta (1995, apud COTES 2000), o gesto é uma ação corporal visível e voluntária pela qual um determinado significado é transmitido. McNeill (1992:2) afirma que, assim como as palavras, o gesto integra a linguagem, formando um único sistema. Bolinger (1986, apud CORREA 2007) afirma que o gestual está relacionado à entoação, o processo de produção do discurso é a manifestação da atividade dos órgãos vocais juntamente com os movimentos do corpo.

Segundo Moraes, Miranda & Rilliard (2012), muitos estudos no campo da prosódia têm investigado a relação entre o canal auditivo (sons) e canal visual (gestos). Esses estudos consideram que os gestos espontâneos que acompanham de modo sincronizado a fala são mais do que meros acessórios para a comunicação; o gesto e a fala se combinam para a produção da linguagem. Como declara Kendon (2004), o homem co-articula o gesto com os constituintes verbais.

Kendon (2004) afirma que ‘sistema gestual’ é um rótulo dado para ações que têm intenção de manifestar expressividade, ou seja, os estados e processos do sistema gestual são intencionais. No momento em que uma pessoa se expressa verbalmente, os seus gestos não negam o enunciado verbal, a não ser intencionalmente, por isso se afirma que há complementaridade. Na interação face a face, as atitudes são percebidas a partir da integração de elementos visuais e auditivos.

Armstrong e Wilcox (2007) consideram o gesto como uma unidade funcional que equivale a uma classe de elementos coordenados que alcançam um fim. Segundo Kendon

(2004), os gestos são fenômenos ‘naturais’ e ‘universais’, produzidos durante a fala para dar

informações para os co-participantes sobre o conteúdo semântico dos enunciados. Moraes, Miranda & Rilliard (2012) afirmam que, na esfera expressiva, os gestos, sobretudo os faciais, assumem um papel central na codificação e descodificação da fala.

Segundo Ekman e Frisen (1969 apud CORREA, 2007), um ato não-verbal nas línguas orais pode repetir, aumentar, ilustrar, acentuar ou contradizer as palavras; pode antecipar, coincidir, substituir ou acompanhar o comportamento verbal; e pode ainda não estar relacionado ao comportamento verbal.

Os gestos são específicos de cada cultura, cada comunidade tem seu repertório, possui um código particular. Esse código é aprendido pelos falantes e é usado na comunicação face a face, podendo reforçar a informação transmitida verbalmente ou até mesmo acrescentar uma informação ao código verbal. Um único gesto pode ter um significado muito diferente em uma situação de contato linguístico, o que significa que um gesto pode parecer ambíguo para um falante de outra língua ou até mesmo não ser reconhecido.

Como afirma Kendon (2004:17), o interesse pelo estudo dos gestos teve início ainda na antiguidade romana, quando os gestos eram estudados como articuladores performáticos adicionais à prática da retórica. Os retóricos relacionaram determinadas formas gestuais e sua referência no espaço, entre elas as das mãos, com o discurso, por meio das quais os oradores podiam influenciar os ouvintes de acordo com os seus interesses.

McNeill (1992) afirma que, somente na pesquisa pioneira de Efron (1941), os gestos espontâneos que acompanham de modo sincronizado a fala foram descritos. Em sua pesquisa, Efron (1941) observou e analisou dois grupos de imigrantes: judeus do leste europeu e italianos do sul que viviam em Nova York. Efron (1941) introduziu as categorias gestuais que serviram de base para os principais esquemas classificatórios subsequentes de gestos.

A classificação pioneira de Efron (1941 apud COTES, 2000) apresenta cinco gestos concomitantes à fala: (i) ideográfico, que diagrama a estrutura lógica do pensamento; (ii) dêitico, que aponta algo mencionado no verbal; (iii) pictográfico, que projeta gestualmente o que está sendo dito; (iv) comando, que acentua ou enfatiza segmentos da fala; e (v) espacial, que determina o espaço.

Posteriormente, na década de 70, os estudos, iniciados por Efron (1941), foram amplamente divulgados por Ekman e Friesen (1969 apud CORREA, 2007). Nesse período, os dois autores propuseram um esquema de classificação da linguagem não-verbal, identificando cinco tipos de gestos: (i) ilustrativos, (ii) adaptadores, (iii) emblemáticos, (iv) reguladores e (v) indicadores do estado emocional.

(i) Os ilustrativos ocorrem durante a comunicação verbal e servem para ilustrar e dar forma ao que está sendo dito. Qualquer tipo de movimento corporal que desempenhe um papel auxiliar na comunicação não verbal é um ilustrador.

(ii) Os adaptadores são gestos utilizados para esconder emoções que não queremos expressar. São utilizados quando o nosso estado de ânimo não é compatível com a situação inter-relacional.

(iii) Os emblemáticos são sinais emitidos intencionalmente, o seu significado é específico e muito claro, já que representa uma palavra ou um conjunto de palavras bem

conhecidas, como por exemplo, levantar o polegar para cima para dizer que “está tudo bem”.

São os gestos específicos de cada cultura.

(iv) Os reguladores são movimentos produzidos por quem fala ou por quem ouve com a finalidade de regular as intervenções na interação. Os gestos reguladores mais frequentes são as inclinações de cabeça e o olhar fixo. São usados para controlar os turnos de fala na conversação.

(v) Os indicadores de estado emocional são semelhantes aos ilustradores no sentido em que também acompanham a palavra, mas diferem deles no aspecto de refletirem um estado emotivo em que se encontra a pessoa. Através deste tipo de gestos, expressam-se emoções como: a ansiedade ou a tensão do momento.

Posteriormente, Kendon (1972 apud MCNEILL, 1992) surge como um importante nome nos estudos sobre gestos, sendo considerado um dos grandes pesquisadores desse campo. Em seus trabalhos, o autor investiga o papel dos gestos na comunicação na evolução da língua, a convencionalização do gesto e sua integração ao discurso. Como resultado importante de seu trabalho, Kendon (1972) propõe a integração do gesto e da fala, a partir da existência de uma unidade entre eles.

Na busca de estabelecer uma interseção entre linguístico e não linguístico, Kendon (1972 apud MCNEILL, 1992) explica o fenômeno gestual a partir do continuum: Gesticulação

(presença da fala) → Pantomima (ausência da fala) → Emblemas (presença da fala) → Língua

de Sinais (ausência da fala). À medida que nos deslocamos da esquerda para a direita, esse continuum passa do não linguístico para o linguístico, do não convencionalizado para o convencionalizado, do global e sintético para o segmentado e analítico.

A gesticulação é a realização de movimentos faciais e corporais juntamente ao discurso falado, possuindo marcas da comunidade linguística e marcas do estilo individual de cada falante. A pantomima é um gesto ou sequência de gestos que não ocorre com o discurso, é um

gesto que “simula” uma ação e não faz parte da convenção de uma língua. Os emblemas são

elementos comunicativos convencionalizados por uma comunidade, tendo características parcialmente linguísticas. A língua de sinais é realizada sem a presença da fala, é convencionalizada e possui propriedades linguísticas.

A partir dos estudos de Kendon (1972), McNeill (1992) considera que os gestos, juntamente com a língua, ajudam a constituir o pensamento e refletem a representação imagística mental que é ativada no momento da fala. Portanto, o gesto está envolvido no planejamento da mensagem a ser verbalizada, ajudando o falante no processo de conceitualização. Para McNeill (1992), os gestos são essenciais na comunicação e inseparáveis da mensagem verbal.

McNeill (1992) chama atenção especialmente para os gestos das mãos, produzidos durante a fala, que estão frequentemente e estritamente ligados às mensagens comunicativas dos falantes. Os gestos das mãos são criações espontâneas e individuais. Segundo Mc Neill (1992), o movimento das mãos pode fazer a marcação do andamento da fala, apontar referentes no discurso ou explorar a imageria (conjunto de imagens) para elaborar o conteúdo da fala.

Para McNeill (1992:23-24) a dimensão gestual e dimensão verbal encontram-se ligadas por meio do significado, pois são semanticamente e pragmaticamente co-expressivos; do tempo, realizando-se em sincronia um com o outro; e da função, pois se desenvolvem em conjunto na criança. Portanto, os movimentos das mãos que fazemos quando falamos são fortemente interligados com a nossa fala no tempo, no significado e na função.

Segundo McNeill (1992:245), o gesto e a língua juntos formam um sistema e representam a mesma ideia de modos diferentes, ajudam a constituir o pensamento e refletem a representação imagística mental que é ativada no momento de falar. Portanto, o gesto é envolvido no planejamento conceitual da mensagem a ser verbalizada, desempenhando um papel no processo de conceitualização.

Em sua tipologia, McNeill (1992) propõe um esquema de classificação com quatro categorias de gestos que são produzidos pelos falantes em conversas e em narrativas orais: (i) icônico, (ii) metafórico, (iii) dêitico e (iv) rítmico.

(i) O gesto icônico está estreitamente relacionado ao discurso, ilustrando o que está sendo dito, representa imagens de entidades concretas ou ações. Por exemplo, quando uma pessoa ilustra um objeto físico usando as mãos para mostrar como é grande ou pequeno. Os gestos icônicos são úteis porque adicionam o detalhe à imagem mental que a pessoa está tentando informar. O sincronismo dos gestos icônicos com discurso pode mostrar se são

‘inconscientes’ ou estão sendo produzidos de maneira consciente. Em um uso ‘inconsciente’, a

preparação para o gesto começa antes que as palavras sejam ditas, enquanto no uso consciente há uma retardação pequena entre as palavras e o gesto.

(ii) O gesto metafórico se refere a um conceito ou expressão abstrata. O gesto está no espaço tridimensional e é usado para dar forma a ideia que está sendo explicada, o gesto não

representa um objeto, mas uma ‘memória’.

(iii) O gesto dêitico é demonstrativo ou direcional, geralmente acompanha frequentemente a verbalização de advérbios de lugar (aqui, lá), pronomes demonstrativos (isto, aquele) e pronomes pessoais (eu e você). É um movimento de apontar, tipicamente realizado com os dedos, embora qualquer extensão de objetos (objetos manipulados) ou do corpo (cabeça, nariz, queixo) possa ser usada. O gesto dêitico geralmente indica um objeto ou evento do mundo concreto, mas, em alguns casos, pode apresentar um lugar abstrato ou não presente no momento da enunciação.

(iv) O gesto rítmico aparece ligado ao ritmo da fala e pode ser realizado por uma batida rítmica de um dedo, da mão ou do braço. Usado conjuntamente com o discurso, e marca e mantém seu ritmo enfatizando determinadas palavras ou frases.

Mc Neill (1992) afirma que um gesto icônico, metafórico ou dêitico pode estar diretamente relacionado às questões funcionais no discurso, assumindo a função de gesto coesivo. O gesto coesivo serve para juntar partes do discurso que se encontram temporalmente separadas. Ocorre a repetição do mesmo gesto movimento ou localização do espaço gestual durante uma série de enunciados, criando a coesão entre as partes do discurso.

Além dos gestos das mãos, a expressão facial é considerada por diferentes autores, a principal fonte de informações não-verbais, pois apresenta um grande potencial comunicativo, revelando os estados emocionais. Ekman e Friesen (1972 apud COTES, 2000) afirmam que

nem sempre representamos estados emocionais simples ou “puros”. O rosto é portador de

múltiplas emoções, denominadas mesclas de afetos, ou seja, enquanto as sobrancelhas demonstram surpresa estando levantadas, os lábios podem mostrar raiva estando apertados.

Ekman e Friesen (1972 apud COTES, 2000) asseguram que, em cada parte integrante do rosto, há uma gama de movimentos ou posições que podem comunicar. Há diferentes movimentos faciais para cada sentir, mas também existem expressões universais. A expressão facial pode repetir, qualificar ou contradizer o verbal, e também atuar separada deste, como um canal próprio de comunicação.