2.1.3. Empreendedorismo: Elementos para a compreensão do conceito
O conceito de empreendedorismo encontra-se hoje em discursos do senso comum mas também em círculos académicos e científicos, dos investigadores, políticos e associado a uma ampla área. Já se fala em “empreendedor interno”, “empreendedor feminino”, “empreendedor colectivo”, “empreendedor social”, “policy entrepreneur”, “institutional entrepreneur” “empreendedor imigrante” entre outras utilizações. A sua utilização principal deve-se ao reconhecimento dos decisores políticos do
empreendedorismo como o “DNA económico” e contribuição, sobretudo de PME´S, para o “emprego, vitalidade da economia e crescimento económico” Portela et. All (2008:20)25
. Contudo, nas últimas décadas, face à crise do Estado de providência e trabalho assalariado tem sido utilizado também como forma de activação dos desempregados, de públicos desfavorecidos e redução da pressão sobre o sistema de protecção social (from walfare to workfare).
Richard Cantillon por volta de 1755 é apontado como pioneiro, ao reconhecer a incerteza assumida pelo “camponês-rendeiro” ao pagar uma renda ao proprietário da terra sem ter certeza da rentabilidade da sua produção. Já nesta noção conceitos como incerteza e riscos estavam presentes. Seguiram-se depois uma panóplia de autores responsáveis pelo desenvolvimento do tema até então. J. B. Say definiu empreendedor como alguém capaz de conceber, planear e dirigir a produção descobrindo “novas e melhores formas de fazer” Dees (2001) citado em (Portela et. Al, 2008:25). A qualidade do empreendedor nesta concepção é a sua capacidade de optimizar a utilização de recursos, deslocando-os de baixas produtividades para áreas com maior rentabilidade.
J. S. Mill (1848) no livro Principles of Political Economy e Knight (1921) aprofundaram o conceito e analisaram questões como incertezas e riscos na produção de lucro. É contudo com Joseph (Schumpeter, 1934) (the theory of economic development) que o conceito conhece um extraordinário impulso. Este autor definiu empreendedorismo como um processo de “destruição criativa”. Empreendedores são sujeitos singulares, agentes portadores do “mecanismo para a mudança”, “agitadores e revolucionários” responsáveis pela destruição de formas antigas de fazer e realização de novas formas de fazer na economia. A inovação é o processo que permite a renovação e progresso do sistema capitalista segundo o autor e o empreendedor é aquele que lidera o mesmo. Não fica satisfeito com formas de fazer herdadas mas está em constante acção no sentido identificar novas oportunidades e imprimir a mudança com êxito.
I. Kirzner (1973, 1982, 1985) define empreendedor como o indivíduo que está em “estado de alerta permanente” (alertness) no sentido de aproveitar a distribuição imperfeita da informação na economia.
Já P. Drucker, na obra “inovation and entrepreneuship” de 1985 definiu empreendedor como alguém que está sempre à procura da mudança. Ele não tem que necessariamente desencadear sempre a mudança. O que é relevante é a sua capacidade para aproveitar as oportunidades geradas pela mudança vendo oportunidades onde muitos tenderão a ver problemas.“Eis o que define o
empreendedor: alguém que está sempre à procura da mudança, reage à mudança e a explora como uma oportunidade” (Drucker, 1985) citado em (Portela et. Al, 2008:27).
No seu conceito não caberiam pequenos negócios (v.g. cabeleireiro, pequenas mercearias) que nada de particularmente inovador tem. H. Stevenson considera que empreendedor é aquele que não se
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As abordagens sobre empreendedorismo de vários autores que apresento aqui são inspiradas em (Portela, 2008). Como complemento consultou-se ainda a obra de Shumpeter, The Theory of Economic Development, trad. Brasileira (ver referencia bibliografia) e a página da Global Entrepreneuship Monitor:
limita na acção pelo seu nível de recursos. Consegue detectar oportunidades e agir muitas vezes utilizando recursos alheios para concretizar os seus objectivos. São uma espécie de “fura-paredes”. Outros autores, na sequência da definição de empreendedor como ser singular pelo Shumpeter, desencadearam estudos sobre características e traços de personalidade do empreendedor. Qualificaram-nos como “pessoas sobredotadas” com características como egoísmo, “baixa aversão a riscos, agressividade, ambição, optimismo, desejo de autonomia, marginalidade, valores pessoais incomuns e sede de poder…” (Portela et. Al, 2008:28).
Este autor refere ainda aos trabalhos de Stevenson e Sahlman (1987) e Philipsen (1998) que entendem empreendedorismo não apenas em função de traços de personalidade mas como um trabalho colectivo e organizacional também. Para estes, empreendedor é aquele que é capaz de praticar uma gestão fora do comum. Não se contenta com o trabalho de rotina nem com a acção limitada pelo seu nível inicial de recursos. Realiza uma gestão visionária, guiada pela oportunidade e confiança no sucesso.
Por ultimo, Gartner (1985, 1989) e Gartner, Bird, and Starr (1992) são referidos como defensores de empreendedorismo como um processo “contingente” que termina após criação de um do negócio. Seguem a mesma linha de Shumpeter quando refere que após realizar “novas combinações” e implementar o negócio, o empreendedor perde esta característica normalmente quando se dedica a geri-lo. Duas motivações são apontadas frequentemente como a razão da decisão de criação de um negócio/empresa: A primeira alguém detecta uma oportunidade e tem recursos próprios ou mobiliza recursos no sentido de aproveitá-la e a segunda é a necessidade (v.g. falta de emprego, emprego
desadequado aos sonhos, desejos, competências) que determina a criação do negócio. Por isso a
Global Entrepreneurship Monitor, na construção das estatísticas do empreendedorismo, faz a seguinte divisão: total entrepreneurial activity (TEA), opportunity entrepreneurial activity (OEA) e
necessity entrepreneurial activity (NEA)26.
Conforme vimos nas noções apresentadas, a ciência económica define empreendedores como sujeitos especiais. Neste sentido encara o empreendedorismo como privilégio de uma minoria. Este trabalho, conforme já foi referido, distancia desta perspectiva. Todos os seres humanos tem talentos e devem ser encarados como potenciais empreendedores. Simplesmente uma parte considerável não possui as ferramentas necessárias para explorar esse potencial. O microcrédito é uma das ferramentas para tal. A abordagem do empreendedorismo entre pessoas desfavorecidas requer uma abordagem diferente da convencional conforme veremos na parte prática deste trabalho.