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A fusão do sujeito com o objeto, que passa a ser a técnica artística em si mesma, e a “procura” da verdade de cada obra de arte transparecem no poema de Drummond (2000, p. 12-13), Procura da poesia. As palavras, “ermas de melodia e conceito”, emanciparam-se do vínculo ancestral com a música e se tornaram poesia pura. Emanciparam-se também da filosofia, tornando-se, como descreve Adorno na Teoria

estética sobre o conceito de forma, idênticas ao conteúdo:

PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo,

esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro

são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos,

que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.

O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.

Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza

nem os homens em sociedade.

Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas)

elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,

40 Hugo Friedrich usa o termo “estilo” com sentido um pouco diferente do que temos adotado, que se refere

aos estilos tradicionais da arte anterior ao século XX. O autor se refere ao termo com sentido mais próximo do significado de forma.

não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças.

Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,

vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave? Repara:

ermas de melodia e conceito

elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono,

rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Carlos Drummond de Andrade

O verso de Drummond, ao afirmar que não se deve tirar a poesia “das coisas”, mas que a poesia “elide sujeito e objeto”, pode ajudar a compreender a ênfase dada por Adorno, mencionada em vários ensaios, no fato de que a música de Webern representa “a tentativa de dissolver toda a materialidade musical, incluindo todos os momentos objetivos da forma musical, no puro som do sujeito, sem resto que se oponha alheio, resistente, inassimilável” (Webern 59, p. 115).

Ao mencionar os “momentos objetivos da forma musical”, Adorno se refere ao

estilo, ao que está sedimentado no material, às fórmulas expressivas desgastadas, ao

empírica e a desarticulação da linguagem. Quando as formas estéticas apenas reproduzem a realidade, deixam de ser expressivas no sentido proposto por Adorno, como expressão

do sofrimento. A “lei formal” de Webern é a analogia musical da metáfora de Drummond, dos poemas “sós e mudos, em estado de dicionário”: o som liberto dos significados pré- estabelecidos e reconfigurado dialeticamente, como expressão pura:

Da lei formal de Webern se há, sem embargo, de falar com insistência. Sua música fugidia tem sua gravidade no fato de que não persegue isoladamente a ideia de expressão pura, mas que a introduz na forma musical mesma e a elabora e articula de tal modo que precisamente por isso ela se torna capaz da expressão pura. Toda a obra de Webern gira em torno desta paródia, a construção total em função da comunicação imediata. (Webern 59, p. 116)

Adorno valoriza a expressão do sujeito na música de Webern, na medida em que o sujeito musical abdica de sua subjetividade empírica em função do objeto, e procura o material musical purificado da carga sócio-histórica nele sedimentada. O sujeito se opõe à totalidade esclarecedora, que na música corresponde ao estilo, através da construção

enigmática. No poema de Drummond, o eu-lírico sugere perguntar às palavras se elas “trouxeram a chave”, “sem interesse pela resposta”. Adorno escreve sobre Webern na

Filosofia da nova música: “Com Webern o sujeito musical abdica silenciosamente e se entrega ao material, que, contudo, somente lhe concede o eco de seu silêncio” (FNM, p. 92). Ao enfatizar o ascetismo do sujeito musical de Webern, Adorno se refere à entrega do compositor ao objeto. A expressão musical de Webern se polariza entre a recusa à conciliação com uma totalidade marcada pela dominação e a “inexpressividade” da construção, que advém como reação da arte moderna radical ao desgaste e, portanto, à impossibilidade da expressão de caráter universal perante o estado de dominação que atinge a totalidade:

O paradoxo deste estado de coisas [“arte moderna radical” versus “essa quentura morna, que hoje começa a expandir-se como expressividade”/sm] concentra-se no prefácio de Schönberg às Bagatelas para quarteto de cordas de Webern [op. 9], uma obra extremamente expressiva: elogia-a porque desdenha um calor animal. Contudo, semelhante calor encontra-se, entretanto, também atestado nas obras cuja linguagem outrora o recusava, justamente em nome da autenticidade da expressão. A arte sólida polariza-se, por um lado, para uma expressividade que recusa mesmo a última reconciliação, não edulcorada e inconsolada, que se torna construção autônoma; por outro, para a inexpressividade da construção, que exprime a impotência crescente da expressão. (TE, p. 73)

Na Palestra sobre lírica e sociedade, Adorno enfatiza a ideia da expressão singular da lírica moderna como recusa.