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O objetivo desta seção não é propriamente fazer uma incursão pela estética hegeliana, algo que estaria além do alcance do enfoque desta dissertação, mas apenas apresentar alguns elementos da caracterização da poesia que Hegel descreve no quarto volume dos Cursos de Estética; com o intuito de compor a constelação de conceitos da “ideia da lírica absoluta” de Webern. Em oposição à épica, a poesia lírica, voltada para a interioridade, caracteriza-se por um afastamento da “coisalidade”, o que significa um direcionamento maior para a forma poética, que, segundo Hegel, “tem de se configurar por si mesma”:

Se a poesia épica traz diante de nossa representação intuitiva o seu objeto – ou em sua universalidade substancial ou em espécie adequada à escultura ou pictórica -, como aparição viva, então desaparece, pelo menos na altura desta arte, o sujeito que representa e sente em sua atividade poética diante da objetividade daquilo que ele coloca para fora a partir de si. Desta exteriorização de si mesmo pode se livrar completamente aquele elemento da subjetividade apenas pelo fato de que, por um lado, acolhe em si mesmo todo o mundo dos objetos e das relações e deixa que seja penetrado pelo interior da consciência singular, por outro lado, libera o ânimo concentrado em si mesmo, abre o ouvido e o olho, eleva o sentimento meramente turvo para a intuição e representação e empresta palavras e linguagem a este interior preenchido, a fim de se expressar como interioridade. Quanto mais este modo da comunicação for excluído da coisalidade [Sachlichkeit] da arte épica, tanto mais a Forma subjetiva da poesia tem de se configurar por si mesma, justamente por causa desta exclusão mesma, de modo independente da epopeia em um círculo próprio. (HEGEL, 2004, p. 155-156)

Hegel considera que o caráter subjetivo da expressão lírica não deve se restringir à expressão particular, mas alcançar a universalidade através de sua singularidade. A

poesia deve encontrar “a expressão adequada” para que o sentir do poeta ultrapasse o âmbito individual:

Mas, na medida em que esta pronúncia [Aussprechen], a fim de não permanecer a expressão [Ausdruck] contingente do sujeito como tal segundo seu sentir e representar imediatos, se torna linguagem do interior poético, então as intuições e os sentimentos, por mais que pertençam particularmente ao poeta como indivíduo singular e ele as descreva [schildert] como sendo seus, devem conter todavia uma validade universal, isto é, eles devem ser sentimentos e considerações verdadeiros em si mesmos, para os quais a poesia também inventa e encontra vivamente a expressão adequada. (HEGEL, 2004, p. 156)

O “Conteúdo” não é algo do mundo exterior, mas reside no sujeito e em sua forma singular de sentir e perceber a realidade externa, que se apresenta na lírica segundo a concepção do poeta:

O conteúdo da obra de arte lírica não pode ser o desenvolvimento de uma ação objetiva em sua conexão que se amplia em um reino mundano, e sim o sujeito singular e justamente com isso a singularização da situação e dos objetos, bem como do modo em que o ânimo com seu juízo subjetivo, sua alegria, seu maravilhamento, sua dor e seu sentir leva em geral a si à consciência em tal Conteúdo. (HEGEL, 2004, p. 158)

A subjetividade do poeta é o ponto de partida da estrutura da lírica, que determina sua unidade e sua coerência:

A unidade lírica propriamente dita, todavia, não é fornecida pelo motivo e a realidade dele, mas pelo movimento e o modo de apreensão interiores subjetivos. Pois a disposição singular ou a consideração universal a que a ocasião estimula poeticamente constitui o ponto central a partir do qual é determinado não apenas o colorido do todo, mas também a abrangência dos aspectos particulares passíveis de desdobramento, a espécie da execução e associação e assim a coesão e a conexão do poema como obra de arte. (HEGEL, 2004, p. 164)

Hegel observa que o adensamento do sujeito em sua forma de sentir e de perceber a realidade não são suficientes para configurar a expressão artística. É necessário que o poeta tenha uma “formação adquirida para a arte”, que possibilite a elaboração do “dom natural subjetivo”. Embora Hegel delimite uma separação entre “Forma” e “Conteúdo”, esta passagem do texto enfatiza que a sensibilidade do sujeito não pode prescindir de uma elaboração da forma estética:

(...) não se trata aqui apenas do mero exteriorizar a si do interior individual, da primeira palavra imediata que diz epicamente aquilo que é a coisa, e sim trata-

se da expressão plena de arte – diversa da exteriorização contingente, habitual – do ânimo poético. Por isso, por mais que justamente a mera concentração do coração se abra para sentimentos variados e considerações mais abrangentes e o sujeito se torne consciente de seu interior poético em um mundo já prosaicamente mais marcado, a lírica reclama também uma formação adquirida para a arte, a qual deve surgir igualmente como a vantagem e a obra autônoma do dom natural subjetivo elaborado para a consumação. (HEGEL, 2004, p. 168)

Hegel menciona a contração como princípio da lírica, relacionada com a profundidade da expressão interior, em oposição à extensão da épica. Desta forma, o poeta se posiciona nas gradações possíveis entre a “concisão quase emudecida” e a “representação completamente elaborada para a clareza eloquente”:

O desenvolvimento da epopeia é de espécie mais duradoura e se estende, em geral, para a exposição de uma efetividade amplamente ramificada. Pois na epopeia o sujeito se introduz no objetivo, o qual se configura e progride por si mesmo segundo sua realidade autônoma. No lírico, ao contrário, é o sentimento e a reflexão que inversamente atraem para si mesmos o mundo dado, vivificam o mesmo neste elemento interior e apenas depois de ele ter se tornado algo ele mesmo interior o apreendem e expressam em palavras. Em oposição à expansão épica, a lírica tem, por isso, a contração como seu princípio e deve, em geral, querer operar principalmente por meio da profundidade interior da expressão, mas não por meio do detalhamento da descrição [Schilderung] ou da explicação. Permanece, todavia, aberto ao poeta lírico – entre a concisão quase emudecida e a representação completamente elaborada para a clareza eloquente – a maior riqueza de nuances e estágios. (HEGEL, 2004, p. 178)

Como Hegel ressalta, na lírica, o princípio da contração, vinculado à profundidade interior da expressão, aparece em oposição aos procedimentos da linguagem referencial, a “descrição” e a “explicação”, relacionados à realidade empírica.