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5.8 External Communication (API)

5.8.2 IDSanityApi module

Com base na experiência da pesquisa, foram identificados três aspectos que podem ser incluídos nas representações diagramáticas para seu aperfeiçoamento:

A) Atribuição de pesos às relações. Esses pesos não representariam a mensuração dos elementos, tal como é feito em alguns programas de modelagem de sistemas dinâmicos. Esse atributo seria lógico apenas para representar os conhecimentos especialistas, após um estágio de pesquisa em que há dados quantitativos suficientes; no entanto, dificilmente seria aplicável na representação dos conhecimentos locais. Além disso, diversos fatores intrinsecamente qualitativos, como, por exemplo, as relações sociais que ocorrem em uma comunidade, não poderiam ser aproveitados em ferramentas essencialmente quantitativas. A imputação de pesos às relações consiste na atribuição de graus diferentes de relevância às influências que uns elementos recebem e exercem sobre outros. As relações de influência do microcrédito sobre os elementos SAF (sistemas agroflorestais) e agricultura de corte-e-queima (Figura 3.02) podem exemplificar essa idéia. Na representação diagramática, as relações de influência que incidem sobre as duas formas de cultivo aparentam ter o mesmo grau de relevância, como se o microcrédito beneficiasse as duas igualmente. Porém, uma solicitação aos especialistas para diferenciar as duas relações supracitadas poderia resultar na evidenciação de que uma relação é mais intensa que a outra.

O mesmo pode ser feito com os grupos sociais locais, a partir das relações de influência que incidem sobre a pesca predatória (Figura 3.05). A fiscalização do Estado, a ação das comunidades ribeirinhas e a ação conjunta de várias comunidades são percebidas como elementos de combate à pesca predatória. Assim como no exemplo anterior, as relações de influência aparentam ter o mesmo grau de relevância, como se os três elementos que exercem influência sobre a pesca predatória contribuíssem para sua repressão com a mesma intensidade. No entanto, se os participantes tivessem sido solicitados a comparar essas relações, poderiam atribuir pesos diferentes, com base em seu conhecimento sobre a maior ou menor influência desses efeitos. O estabelecimento de pesos para as relações permitirá identificar elementos-chave dos modelos, podendo, inclusive, complementar análises que utilizam a quantificação do número de relações estabelecidas por elemento para fazer essa identificação (GITAU, 2001).

B) Inclusão do componente temporal. Um paradoxo recai sobre as representações diagramáticas. Apesar de serem utilizadas em diversas experiências de pesquisa para representar processos em sistemas dinâmicos, ainda não foi possível representar nesses modelos a dinâmica do funcionamento dos sistemas socioambientais devido à ausência do componente temporal (GITAU, 2001; NEUDOERFFER et al, 2005; WALTNER-TOEWS et al, 2003). A representação do sistema dinâmico fica incompleta quando reúne todos os elementos e as relações num mesmo decurso temporal, como se todos os eventos do sistema ocorressem simultaneamente. Sugere-se que o trabalho de construção das representações diagramáticas seja alimentado por recursos de animação gráfica que possam simular os processos dinâmicos representados nos modelos e seus efeitos sobre o estado dos elementos no decurso do tempo, principalmente no que se refere aos processos de amplificação e estabilização.

Neste sentido, mostram-se úteis à simulação de processos dinâmicos os sistemas multi-agente (SMA) e os jogos de papéis (RPG – role playing game). Ambas as ferramentas podem ser utilizadas para complementar as representações diagramáticas, abordando o aspecto temporal com base nas estratégias tomadas pelos atores locais para lidar com seus principais problemas e buscar seus principais objetivos. Os SMA têm sido cada vez mais utilizados para compreender os sistemas socioambientais, os quais combinam as dinâmicas naturais e as sociais. Essa ferramenta permite reproduzir o conhecimento e a lógica de diversos agentes heterogêneos que precisam se coordenar para resolver problemas conjuntos (GOMES, 2008, p. 54). Um SMA é composto pelo ambiente, ou espaço físico, por um conjunto de objetos que se distribuem no espaço, por agentes que atuam nesse espaço,

por relações que conectam os objetos (como também os agentes) e por operações que representam as ações de um agente para manipular um objeto (BOUSQUET & LE PAGE, 2004). Os RPG, por sua vez, podem ser utilizados como ferramentas qualitativas para validar o SMA, confrontando-o com as percepções dos agentes sobre as dinâmicas natural e social (GOMES, 2008, p. 71). O objetivo do RPG é projetar os agentes no futuro e estimulá-los a definir suas estratégias para reagir aos processos e dinâmicas em andamento (Ibid., p. 79). Segundo Castella et al (2004), a plataforma de simulação de um RPG é um tabuleiro de jogo composto por peças que representam elementos do sistema em determinados estados. À medida que os agentes definem suas estratégias a partir das condições do sistema socioambiental, escolhem as peças que compõem o tabuleiro e, assim, demonstram as mudanças que acontecem naquele contexto socioambiental ao longo do tempo.

C) Análise dos ciclos de retroação. Neste trabalho, foi possível acrescentar essa nova qualidade às representações diagramáticas. Uma das principais vantagens das representações diagramáticas para a investigação de sistemas complexos é a identificação dos ciclos de retroação. Os ciclos enriquecem as representações com informações sobre os processos de amplificação e estabilização (MARTEN, 2007) de um sistema socioambiental. Os ciclos de amplificação, na maioria das ocorrências observadas nos diagramas, apontam para a intensificação de problemas ambientais e explicam as relações causais envolvidas na perpetuação desses problemas. Indicam, pois, os círculos viciosos que intensificam os efeitos do processo, provocando desvios no equilíbrio dinâmico do sistema (VASCONCELLOS, 2002, p. 223). Os ciclos de estabilização, por sua vez, esboçam as estratégias tomadas pelos atores sociais para reverter os problemas ambientais e de saúde com que se deparam, ou ainda demonstram uma dinâmica em que o problema e a intervenção para controlá-lo se alternam indefinidamente. O conhecimento dos ciclos de estabilização formados por relações e elementos reconhecidos pelos especialistas e pelos grupos sociais locais é muito relevante para compreender as possibilidades de retorno do sistema a um estado anterior, que ambos encontram a fim de evitar o desencadeamento de eventos amplificadores dos problemas. Assim, os ciclos de estabilização destacados nos diagramas denunciam alternativas para manter o mecanismo homeostático do sistema, ou seja, para manter seu funcionamento em equilíbrio dinâmico (VASCONCELLOS, 2002, p. 223).