Um outro exemplo da influência Maçônica no Brasil foi a atuação na movimentação republicana. Por volta do ano de 1887, nas Lojas, nos Corpos Filosóficos e nos Clubes Republicanos de
inspiração maçônica, destacavam-se muitos maçons civis que foram intitulados de “republicanos históricos”, como Quintino Bocayuva, iniciado na Loja “Piratininga” de São Paulo que, posteriormente, seria o Grão Mestre do Grande Oriente do Brasil; Manoel Ferraz de Campos Salles, futuro presidente da República; Prudente de Moraes Barros, que viria a ser o primeiro presidente civil da República; Francisco Rangel Pestana; Lauro Sodré, que viria a ser governador do Pará e Grão Mestre durante 12 anos; Francisco Glycerio, que também viria a ser Grão Mestre, mas, foi impedido por Lauro Sodré; Américo Brasiliense de Almeida Melo; Ubaldino de Amaral; Bernardino de Campos, entre outros. (CASTELLANI, 1993).
Mas, antes de argumentar sobre esse assunto, é necessário voltar-se a uma questão que se refere à teoria positivista da época. A palavra de ordem do positivismo era invalidar a inacessível determinação das causas, dando preferência à determinação das leis. Auguste Comte opunha-se à concepção do direito natural e do pacto social e às doutrinas teológicas. Preconizava o emprego de novos métodos na análise científica dos problemas sociais. Do ponto de vista social, afirmava que a sociedade deveria ser dividida em classes, em dominados e dominadores para que houvesse possibilidade de harmonia na convivência social. (COMTE, 1990).
Em resumo, como doutrina e método, o positivismo passa a confrontar-se com a sociedade individualista e liberal através do emprego da ordem e do progresso, pontos que Comte considerava fonte principal de todo sistema político. A política positiva não reconhece nenhum direito além do de cumprir o dever.
Esse novo paradigma social, o positivismo, teve grande aceitação na Europa e também em outros países, como o Brasil. No caso do Brasil, ganhou conotações distintas do positivismo europeu e serviu, entre outros acontecimentos, de embasamento sócio-filosófico-político para o advento da República.
O regime republicano não correspondia teoricamente ao despotismo, mas deixava implícita a idéia de um governo de salvação no interesse de clara preferência pela formação técnica, pela
ciência e pelo desenvolvimento industrial. Em geral, na prática brasileira, o período republicano assumiu a forma da defesa de um executivo forte e intervencionista.6
É nessa parte que a filosofia maçônica se associa à filosofia militar e intelectual da época. Mesmo admitindo que “O discurso positivista é, na sua essência, autoritário. Isso não significa que não esteja presente no discurso liberal, pois o liberalismo não significa liberdade para todos.” (BERGO, 1983, p.48). É preciso fazer uma análise mais aprofundada sobre os fundamentos que se inserem na sociedade. No liberalismo ou mesmo no neoliberalismo, o positivismo está inserido; usam-se o progresso científico e o técnico que chegam a assumir o lugar da religião, como utensílio de dominação das classes subalternas, já que se presencia uma era científica. Com pressupostos de racionalidade e eficiência, explicitamente defendidos pelo positivismo, traz-se o problema nuclear da civilização moderna (ou pós-moderna, como queira chamar): a diferença entre as elites e as classes subalternas, as quais se sintetizam nos privilégios, nas privações e na falta de mercado de trabalho.
A caracterização acima importa no ponto de vista de sentidos básicos, uma vez que, no Brasil, o positivismo esteve presente através dos militares, políticos, intelectuais, assim como no liberalismo maçônico. Admite-se a substituição da religião pelo progresso científico e técnico, assim como a racionalidade e a eficiência para que as classes subalternas fossem dominadas. A Maçonaria, mesmo não admitindo, tem em sua filosofia, além do liberalismo, o positivismo. Os maçons classificam-se como formadores de opinião, confirmam a tese de Comte “saber para prover” que defende a supremacia da ciência, da inteligência, e é ela que traz o domínio. “As elites intelectuais se preocupam com a transformação da realidade em termos de modernização, juntamente com profissionais liberais, políticos e homens de empresa, que anseiam por uma filosofia que se funda no real, no positivo e no prático.” (BERGO, 1983, p.62). É com bases liberais, porém calcado em princípios positivistas que a filosofia e as atuações maçônicas se constituem.
6Não cabe aqui tentar resumir os vários aspectos da corrente positivista, mas simplesmente
Os maçons acreditam que “... é a inteligência que governa o mundo, que é o saber positivo, que faz a força das sociedades modernas, que espalha o bem, que implanta a justiça (...) que faz os homens livres...” (BERGO, 1983, p.62). A inteligência, a ciência e o estudo passam a ser a base para a formação de uma elite intelectual competente e desembaraçada dos termos tecnológicos. Dessa maneira, esperam que, com esse poderoso instrumento nas mãos, seja possível amparar e solucionar os problemas de uma sociedade; ou, pensando por um outro viés, é com esses instrumentos que será possível formar uma elite de dominação das classes subalternas, isso vai depender de como serão utilizados os instrumentos.
Voltando à discussão sobre a movimentação republicana brasileira, vale lembrar que:
“Foi comum atribuir-se papel importante na queda da Monarquia a dois fatores: a disputa entre a Igreja e o Estado e a Abolição. O primeiro deles contribuiu em alguma medida para o desgaste do regime, mas seu peso não deve ser exagerado. A queda da Monarquia restringiu-se a uma disputa entre elites divergentes, e nem entre os monarquistas nem entre os republicanos a Igreja tinha forte influência. Quanto à Abolição, as iniciativas do imperador no sentido de extinguir gradualmente o sistema escravista provocaram fortes ressentimentos entre os proprietários rurais...” (FAUSTO, 2006, p. 236).
Mais uma vez, as elites existentes na época, com instrumentos adequados de domínio, conseguem colocar a Monarquia como uma política em desuso e passa a implementar uma nova política governamental, a República. Ora, diria um historiador maçom: no movimento republicano, várias influências maçônicas tornaram-se essenciais para o desfecho ocorrido. Na província do Rio Grande do Sul, Loja “Vigilância e Fé” de S. Borja, o maçom Aparício Mariense da Silva realizou uma proposta aprovada e encaminhada para o resto do Brasil com o intuito de que fosse evitada a implantação do Terceiro Reinado.
Com o intuito de comprovações participativas, busca-se o episódio ocorrido na província de São Paulo, Lojas “Independência” e “Regeneração III”, de onde partiria outra iniciativa maçônica neste sentido, solicitando o apoio de todas as demais Lojas para uma conspiração que impedisse o advento do Terceiro Reinado. (CASTELLANI, 1993).
No dia 15 de novembro de 1889, os líderes do movimento republicano decidiram realizar o golpe com a movimentação de tropas, tendo como frente Deodoro, Benjamin e Quintino.
“Deposto o Conselho de Ministros e afastado o imperador, foi proclamada a República e Deodoro assumiu o poder, como chefe do Governo Provisório, com um ministério, que, por coincidência, era totalmente composto por maçons: Benjamin Constant (guerra), Quintino Bocayuva (transportes), Aristides Lobo (interior), Campos Salles (justiça), Eduardo Wandenkolk (marinha), Demétrio Ribeiro (Agricultura e Obras Públicas) e Rui Barbosa (fazenda). Esse ministério executou a reforma institucional, inclusive com a separação entre a Igreja e o Estado.” (CASTELLANI, 2001, p.120).
Depuseram-se os ministros, afastou-se o imperador, proclamou-se a República, assumiu-se o poder e, mais uma vez, a participação do povo foi colocada de lado em decisões sociais as quais se culminaram na supremacia política da elite. Não haveria de ser diferente, analisando o contexto social positivista, porém com alguns fundamentos liberais, seria óbvio que a elite novamente teria o poder em suas mãos. Vale lembrar que essa elite também era constituída por maçons que, como afirmam, ajudaram na proclamação da República e como conseqüência disso também trouxeram o positivismo para dentro das relações sociais brasileiras. Isso fica constado no símbolo brasileiro: “Ordem e Progresso”.