4. Analyse og drøfting av det empiriske materialet
4.2 Individnivå
4.2.3 Identitet
Nesta pesquisa, compreendemos as “memórias de leitura”, que fazem parte do corpus deste trabalho, como gêneros do discurso, os quais, para Bakhtin (2010b, p. 262), são tipos relativamente estáveis de enunciados. São relativamente estáveis porque “eles mudam com as práticas sociais, alteram-se com a aplicação de novos procedimentos de organização e de acabamento do todo verbal e de uma modificação do lugar atribuído ao ouvinte” (ALVES, 2008, p. 139-140). Portanto, neste capítulo, iremos apresentar o contexto histórico do que hoje denominamos gênero do discurso “memórias de leitura”.
Aragão (1992, p. 2) afirma que, atualmente, a palavra memória recobre um largo campo semântico, sendo então:
1. A faculdade biológica que consiste em conservar, reconhecer, reproduzir ou evocar acontecimentos ou experiências passadas ou vividas: “A memória é uma qualidade que não é muito desenvolvida em certos animais”.
2. Um tipo de memória específica: “Ele tem uma boa memória visual”.
3. A memória considerada como um lugar onde imagens, percepções e conhecimentos são estocados: “Minha memória está repleta de lembranças”.
4. A totalidade do que foi guardado, quase sinônimo de História: “A Memória de um povo, ou de um país”.
5. Um acontecimento, uma imagem, uma impressão que volta ao espírito: “Uma das minhas mais antigas memórias”; “Ele estava absorvido em suas memórias”.
6. Comemoração: “Em memória de alguém”. 7. Obra de cunho autobiográfico: “Memórias”.
Compreendemos que a definição de memórias do item sete é a que mais se aproxima do material utilizado para compor o corpus desta pesquisa, pois são enunciados de cunho autobiográfico, em que os autores narraram suas “memórias de leitura”.
Aragão (1992, p. 2) mostra como surgiu o termo memórias na esfera da literatura, no século XVII:
Durante muito tempo, não existiu, em termos de literatura, um termo preciso para designar um certo gênero específico de narrativa, cujo assunto escolhido a colocava entre a história e a crônica pessoal. Só a partir do século XVII é que o termo memórias será utilizado, recobrindo, primeiramente, textos de historiadores ou de pessoas que não eram profissionais de literatura: memórias de parlamentares, de militares, de nobres, de religiosos. Posteriormente, “memórias” vai recobrir textos apresentados como sendo narrativas autobiográficas: memórias de cortesãos, de damas galantes etc. A parte antes dedicada à história cede lugar à descrição de experiências pessoais. Neste caso, a ilustração de uma vida privada, misturada aos acontecimentos, interessa mais pelo seu lado anedótico do que por sua fidelidade aos fatos reais.
No século XVII, inicialmente, o termo memória foi utilizado para narrativas nas quais os assuntos circulavam entre a história e a crônica pessoal. Depois, foi utilizado para definir textos que apresentavam narrativas autobiográficas, desvinculadas da esfera literária e associadas à esfera social, estando, nesse segundo momento, mais relacionado ao lado anedótico da narrativa dos fatos da vida privada. Já nos séculos XVIII, XIX e XX, a autora mostra que o termo memória foi modificado:
No século XVIII nasce o romance memorialístico, obras de ficção, que inundam o mercado literário, principalmente da França e da Inglaterra. Já nos séculos XIX e XX, o termo “memórias”, apesar de ainda comparecer para designar um certo tipo de obras de cunho histórico e autobiográfico, vai aos poucos sendo substituído pelo de “autobiografia” (ARAGÃO, 1992, p. 3).
Com o passar do tempo, o termo memórias foi modificado para autobiografia; enquanto o primeiro se referia a obras de ficção, o segundo estava relacionado a obras de cunho histórico e autobiográfico, aproximando-se de fatos reais vividos por alguém. Observamos que até o século XVIII as memórias estavam diretamente ligadas à esfera literária e que mais tarde passaram a circular, além da esfera literária, em outros âmbitos de atividade humana ─ ora denominadas de memórias, ora de autobiografia ─, por exemplo, as memórias que compuseram o corpus deste
trabalho, que foram denominadas de “memórias de leitura”, estão relacionadas à esfera educacional.
Na sequência, Aragão (1992, p. 3) apresenta o que o termo memórias significa na atualidade:
Hoje em dia costumamos chamar de “memórias” de um personagem a narrativa feita por ele mesmo dos acontecimentos de sua vida, com uma insistência sobre os acontecimentos objetivos, mais do que sobre o vivido subjetivo. Mas a linha de demarcação entre memórias e autobiografia não é clara, uma vez que se torna bastante difícil separar os dois tipos de estratégia narrativa.
Então, afirmamos que as narrativas que fazem parte do corpus desta pesquisa se alinham a essa atual definição de memórias. As “memórias de leitura” foram narradas por sujeitos que escreveram sobre as suas experiências de leitura.
Aragão (1992, p. 3) mostra como ocorre o processo da escrita da memória:
Na elaboração literária de uma vida, o autor realiza um incessante diálogo entre o passado e o presente, colocando em cena a elaboração de seu ser pessoal, na procura das significações contidas nos fatos passados. Diríamos que o memorialista faz uma segunda leitura do tempo vivido ou... perdido.
Dessa forma, entendemos que na construção do gênero discursivo “memórias de leitura” o autor realiza um diálogo entre o passado e o presente com o objetivo de (re)lembrar o seu percurso de leitor, as leituras que realizou, se a sua experiência com o mundo da leitura foi positiva ou negativa, se foi negativa (re)lembrar por qual motivo isso ocorreu; ainda, como professor de língua materna, (re)pensar sobre a sua prática de ensino de leitura em sala de aula para não promover um ensino que traga resultados negativos, no presente ou no futuro, para os seus alunos.
A autora chama a atenção para o processo de construção de textos que narram sobre história de vida:
Quando lemos uma história de vida, devemos estar sempre conscientes de que o autor nos conta apenas uma parte de sua história, que escolhe os fatos de maneira a nos apresentar uma certa imagem elaborada de si. O confronto entre o passado de um indivíduo e sua verbalização, a busca da diferença entre o que o narrador diz que fez ou sentiu e o que ele realmente realizou está no centro da problemática deste tipo de escritura. Mas a tarefa do crítico literário não é verificar a veracidade do que foi narrado, mas sim de como se deu essa passagem para a narratividade, e de que modo se
construiu um discurso que passa a ter vida própria,
independentemente da comprovação da realidade ou da veracidade dos acontecimentos narrados. A narrativa de vida não se prende à descrição exata dos fatos. Ela obedece, isso sim, à exigência de fidelidade a si mesmo, segundo a ordem dos valores reveladores do sentido de uma vida, na plenitude de sua permanente atualidade (ARAGÃO, 1992, p. 4).
Portanto, ao analisarmos as “memórias de leitura”, o nosso olhar enquanto pesquisadora não se voltou para tentar compreender se o que o sujeito narrou sobre a sua experiência de leitura é verdadeiro ou não. Ademais, temos consciência e concordamos com a autora quando trata das escolhas que o autor faz para narrar uma história de vida, escolhendo os fatos de maneira a nos apresentar uma certa imagem elaborada de si.
Sobre os benefícios da prática da escrita de memórias e autobiografia, a autora comenta:
Segundo Georges Gusdorf, em Mémoire et Personne, memórias e autobiografias têm um objetivo reformador, um caráter criador e edificante, em busca de uma verdade “como expressão do ser íntimo, à semelhança não mais das coisas, mas da pessoa”. Em outras palavras, aquele que se expõe por escrito não o faz imparcialmente. O projeto de se autoconhecer, de passar do não saber ao saber, de fazer nascer a luz sobre a sua própria identidade, invoca a intenção, quem sabe, de uma mudança para melhor da situação geral do homem no mundo. Através de sua própria experiência e da clareza de sua análise, essa mudança poderá se estender a outras vidas (GUSDORF apud ARAGÃO, 1992, p. 4).
No caso da escrita das “memórias de leitura”, o sujeito, quando escreve acerca da sua experiência de leitura, posiciona-se, aprende mais sobre si e, se necessário, pode buscar mudanças para a sua vida. Se o texto for escrito por um
professor de leitura, ele terá a oportunidade de (re)avaliar a sua prática de ensino e, se necessário, modificá-la.
Nóvoa (2007, p. 24) aborda os “[...] dispositivos que procuram rememorar as práticas dos professores, através de estratégias várias (narrativas orais, relatos escritos, etc.)”, como fonte de reflexão no seu percurso de aprendizagem/ensino. O autor do texto citado acima faz uma referência ao escritor Pierre Dominicé (apud NÓVOA, 2007, p. 24), que trata da prática educativa:
A vida é o lugar da educação e a história de vida o terreno no qual se constrói a formação. Por isso, a prática da educação define o espaço de toda a reflexão teórica. O trabalho do investigador e dos participantes num grupo biográfico não é da mesma natureza, na medida em que ele possui mais instrumentos de análise e uma maior experiência de investigação. Mas trata-se do mesmo objeto de trabalho. Dito doutro modo, o saber sobre a formação provém da própria reflexão daqueles que se formam. É possível especular sobre a formação e propor orientações teóricas ou fórmulas pedagógicas que não estão em relação com os contextos organizacionais ou pessoais. No entanto, a análise dos processos de formação, entendidos numa perspectiva de aprendizagem de mudança, não se pode fazer sem uma referência explícita ao modo como um adulto viveu as situações concretas do seu próprio percurso educativo (DOMINICÉ apud NÓVOA, 2007, p. 24).
No trecho citado, Dominicé discute o processo de formação de docentes e enfatiza que a rememoração pode ser utilizada como estratégia para a reflexão do ensino adotado por tais sujeitos. Assim, por meio da rememoração de como se deu a sua aprendizagem, pode traçar mudanças no seu repertório de educador.
Ainda se tratando da rememoração de vida dos docentes, através de textos autobiográficos, Nóvoa (2007, p. 81) afirma:
Para muitos de nós, a ideia de ocupar parte do nosso tempo a escrever a autobiografia pareceria a entrega a uma satisfação e a um luxo. De qualquer modo, sobre que episódios da vida quotidiana do professor valeria a pena escrever? Decerto que haverá poucos professores que reivindiquem o conhecimento de enredos nas suas vidas e, mesmo para aqueles que o possam fazer, seria de somenos importância explorá-los. Poucos professores diriam ter tempo, ou para identificar tais enredos, ou para passar ao papel (uma perspectiva ainda menos motivadora). Contudo, para os professores
que pegam na caneta, geralmente a pedido de um investigador que deseja surpreender as suas perspectivas para ulterior estudo fenomenológico ou de um formador de professores que reconheça o valor de uma tal investigação relativamente ao desenvolvimento pessoal e profissional, a caminhada torna-se “uma viagem de descoberta” (Henry Miller), que, embora cheia de incerteza e desconforto, é tão divertida e educativa como desafiadora.
Ao incentivar a produção da autobiografia para professores como um recurso de “investigação” da sua vida docente, o autor nos mostra que esse processo pode levar a um desenvolvimento pessoal e profissional. Ele, ainda, comenta a respeito dos argumentos de alguns professores, ao questionarem sobre ocupar parte do seu tempo em fazer tal constituição de vida. Portanto, compreendemos que esse processo de “investigação” deveria ser seguido por todos os profissionais da educação, visando a uma reflexão da sua prática de ensino e modificando o que for necessário, para se tornar um formador comprometido com a qualidade da educação.
Concluímos afirmando que, neste trabalho, compreendemos memória como um gênero discursivo e, em concordância com Alves (2008, p. 139-140), entendemos que
[...] os gêneros não são estáticos, imutáveis ou formas desprovidas de dinamicidade. Relativamente estáveis, eles mudam com as práticas sociais, alteram-se com a aplicação de novos procedimentos de organização e de acabamento do todo verbal e de uma modificação do lugar atribuído ao ouvinte.
Portanto, foi o que aconteceu com o gênero discursivo memória, que selecionamos para a composição do corpus desta pesquisa, pois esse termo inicialmente foi utilizado na esfera literária, como vimos no início deste capítulo, sendo, hoje, utilizado em esferas diversas. No caso dos textos, representantes do gênero discursivo “memórias de leitura”, que selecionamos para o corpus deste trabalho, foram escritos no contexto educacional, então, a sua composição e o seu endereçamento, provavelmente, estão adequados ao contexto educacional, conforme veremos na análise. Ainda, entendemos que o gênero discursivo
“memórias de leitura” pode ser um instrumento eficaz em cursos de formação inicial ou continuada de professores, tendo em vista que possibilita aos professores a reflexão sobre a sua prática de ensino.