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4. Analyse og drøfting av det empiriske materialet

4.3 Institusjonsnivå

4.3.2 Arbeidsmarkedet

Os três enunciados fazem parte da esfera educacional e apresentam especificidades próprias dessa esfera, portanto demonstram características em comum, no que diz respeito ao estilo funcional, embora cada enunciado particular apresente características próprias de cada escritor dos enunciados, que diz respeito ao estilo individual.

No que diz respeito ao estilo funcional do gênero discursivo “memórias de leitura”, observamos que ele advém do gênero discursivo “memórias”, sobre o qual Aragão (1992) fez um estudo, apresentado no capítulo quatro. Ela mostra que historicamente, no início, as memórias eram próprias da esfera literária, da literatura de ficção, mas no decorrer do tempo variaram entre a esfera literária, a histórica e a autobiografia. De acordo com a esfera de circulação, esse gênero apresentava características diferentes e se modificava, como aponta Bakhtin (2010b, p. 268) sobre as mudanças de um gênero para outro: “A passagem do estilo de um gênero para outro não só modifica o som do estilo nas condições do gênero que não lhe é próprio como destrói ou renova tal gênero”.

Portanto, entendemos que o gênero discursivo “memórias de leitura” foi renovado, pois passou de um estilo literário, da esfera literária, para um estilo autobiográfico, da esfera educacional, portanto absorveu características tanto da esfera literária quanto da esfera educacional.

Já o estilo individual é evidenciado nas escolhas lexicais, semânticas, morfológicas que os leitores fizeram para construírem seus enunciados. No seu projeto de dizer, os autores levaram em consideração o destinatário, como mostra Bakhtin (2003, p. 302):

Ao falar, sempre levo em conta o fundo aperceptível da percepção do meu discurso pelo destinatário: até que ponto ele está a par da situação, dispõe de conhecimentos especiais de um dado campo cultural da comunicação; levo em conta as suas concepções e convicções, os seus preconceitos (do meu ponto de vista), as suas simpatias e antipatias – tudo isso irá determinar a ativa compreensão responsiva do meu enunciado por ele. Essa consideração irá determinar também a escolha do gênero do enunciado e a escolha dos procedimentos composicionais e, por último, dos meios linguísticos, isto é, o estilo do enunciado.

Para Bakhtin (2003), o destinatário é um elemento fundamental na construção de todo enunciado, de qualquer esfera da comunicação discursiva. O autor fala e escreve o seu enunciado de maneira tal que o seu destinatário possa ter uma compreensão ativa, responsiva do seu enunciado. Além disso, o destinatário influencia a escolha do gênero do discurso, os procedimentos composicionais e o estilo do enunciado que o autor usará para colocar em prática e alcançar os seus objetivos no seu projeto de dizer algo a alguém. No caso das “memórias de leitura”, que fazem parte do corpus deste trabalho, o destinatário imediato era a professora que ministrou a disciplina.

Observamos que as escolhas lexicais que o leitor 1 fez mostram o seu posicionamento de prestígio sobre a leitura literária valorizada pela cultura oficial, por exemplo, o léxico “pasmem”, para influenciar a atitude de surpresa, espanto do leitor ao perceber que o leitor 1 leu O Guarani, de José de Alencar, no ensino fundamental, pois não era de costume, nessa fase, os alunos lerem livros da literatura valorizada pela cultura oficial. O léxico “rupturas” e a expressão “a verdadeira descoberta da leitura” foram utilizados para marcar o início da leitura de livros literários, na fase da formação inicial, valorizados pela instituição educacional universidade. Utiliza o ponto de exclamação para dar o tom de euforia por ter lido muitos livros literários: “Nunca havia lido tanta literatura em minha vida!”. Além dessas expressões, utiliza outras típicas da linguagem informal, da oralidade, por exemplo, Zás!, Puts!, Ora bolas! , Ufa!, Santa inocência! Essas expressões deram um tom de informalidade ao enunciado, ademais foram utilizadas, também, para dar um tom de insatisfação, de crítica, de alívio.

As expressões “Desculpe-me, caro leitor”; “O leitor incomodado que deite essas memórias fora, ou, então que seja complacente e faça-me vistas grossas para minha falta de jeito”; “Sei que já disse isso, não precisa me tachar de prolixo, de repetitivo, caro leitor, tenha paciência”; “Já lhe disse, se lhe pareço enfadonho, deite estas páginas fora!” mostram um diálogo com o leitor, a quem transmite pedidos de desculpas, ironias, sarcasmos nas afirmações. Esse modo de escrever do leitor 1 é muito parecido com o estilo do autor Machado de Assis (2000, p. 115), quando escreve, por exemplo, em Dom Casmurro, no capítulo 45:

Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor.

Compreendemos, então, que, pelo fato de o gênero discursivo, secundário, “memórias de leitura” ter sua gênese na esfera literária ─ conforme fala Aragão (1992) sobre memórias, no capítulo quatro ─ e ainda conter características próprias dessa esfera, propicia ao escritor essa liberdade de escrita, que se aproxima da escrita literária, nesse caso, do modelo de escrita machadiano.

Para narrar as sua “memórias de leitura”, o leitor 2 imprimiu o seu estilo individual de escrita, pois esse gênero discursivo não segue uma forma padronizada, é um gênero mais livre que possibilita a impressão do estilo individual do autor.

Nessa perspectiva, observamos que o leitor 2, para organizar a sequência do enunciado, utilizou alguns recursos da língua (grifados por nós), tais como os sequenciadores temporais, para marcar fases da sua vida em que experienciou a leitura:

1) Aos seis anos de idade, segundo meus pais, comecei a ler e papai passou a comprar gibis para que eu lesse, também comprava uns livrinhos que não tinham o que ler, era para serem pintados, e eu adorava colori-los.

2) Aos dez anos, na minha festa de aniversário, recebi de minha madrinha um livro que continha vários contos de fadas. Nunca esqueci disso, pois ganhei um concurso de redação na quarta série por produzir um texto e sei que essa leitura foi fundamental para a produção do texto solicitado pela professora.

3) Na minha adolescência lia Júlia e Sabrina todos os dias, e mamãe reclamava muito, pois sempre que me procurava eu estava lendo e não cumpria meus afazeres domésticos.

4) No meu ginásio li um único livro, Don Quixote e fiquei encantada. A professora pediu que fizéssemos uma representação de trechos da obra e foi um sucesso.

5) O segundo e o terceiro ano do Ensino Médio já morava em Pedro Velho, cidade do interior, cerca de cem quilômetros de Natal. Tive a mesma professora de Língua Portuguesa nas duas séries, chamava-se Ana Maria e ainda era estudante universitária. Ela Fazia uma ciranda, onde líamos várias obras, sempre de acordo com a Escola Literária que estávamos estudando.

6) Quando cheguei na UFRN tive contato com outras leituras, li Iracema, O guarani e Ubirajara para realizar um trabalho e gostei bastante.

7) Ao começar a ensinar descobri que tinha que estudar a gramática, pois naquela época ou se sabia a gramática normativa ou não se era bom professor de Língua Portuguesa.

8) Hoje leio bem menos do que gostaria, pois o tempo é muito pouco e quando não estou ministrando aulas as estou preparando ou corrigindo as atividades feitas.

Os sequenciadores temporais marcados acima situam o tempo, as fases nas quais o leitor 2 vivenciou os momentos mais marcantes da sua experiência de leitura.

No decorrer da narrativa, o leitor 2 expressa os seus sentimentos sobre a prática da leitura ─ por meio de escolhas lexicais e expressões (grifadas por nós) ─, ora mostra satisfação inicial, ora essa satisfação foi construída:

1) Aos seis anos de idade, segundo meus pais, comecei a ler e papai passou a comprar gibis para que eu lesse, também comprava uns livrinhos que não tinham o que ler, era para serem pintados, e eu adorava colori-los.

2) Aos dez anos, na minha festa de aniversário, recebi de minha madrinha um livro que continha vários contos de fadas. Nunca esqueci disso [...].

3) No meu ginásio li um único livro, Don Quixote e fiquei encantada [...].

4) [...] tive uma professora que se chamava Eny [...] quando eu subia no ônibus para ir ao colégio, ela já estava

sentada e sempre lendo algum livro. Era uma cena invejável.

5) Já no terceiro ano a leitura inicial foi “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Quase não consegui terminar de ler, pois as duas primeiras partes do livro eram bastante difíceis e só gostei quando cheguei à terceira parte.

6) Quando cheguei na UFRN tive contato com outras leituras, li Iracema, O guarani e Ubirajara para realizar um trabalho e gostei bastante.

Nos exemplos 1, 2, 3, 4 e 6, as escolhas lexicais e as expressões marcadas demostram uma experiência positiva de leitura, já, no exemplo 5, a expressão marcada mostra uma experiência de leitura em que o gosto foi amadurecendo com o andamento da leitura da obra, que é uma atitude recorrente entre alunos que se deparam com obras mais complexas, geralmente obras da literatura, valorizadas pela cultura oficial.

Por fim, observamos que o leitor 2 se posiciona sobre a leitura (grifado por nós):

Espero que agora possa ter uma folga para ler alguma coisa nova e sem compromisso, acho que essa seja a melhor leitura [...].

Podemos perceber o seu posicionamento sobre a leitura pela expressão marcada no trecho do enunciado 2, ou seja, ele compreende a prática da leitura sem compromisso, privilegia a leitura de deleite, o que pode ser, ao mesmo tempo, um sinal positivo e/ou negativo. É positivo porque prova que o professor lê e gosta de ler, embora lhe falte tempo para se dedicar à leitura por prazer, pois associa esse tipo de leitura à evasão e, para isso, é necessário um ambiente propício a essa evasão, à fuga da realidade. É negativo porque compreendemos que a experiência de leitura do professor influencia a sua prática de ensino e como a sua experiência positiva de leitura foi sempre associada à leitura por prazer da literatura de ficção, então, pode ser que ele privilegie na sua prática de ensino de língua portuguesa o

ensino de leitura por prazer, em detrimento de outros tipos de leitura com objetivos diversificados, que são de igual importância para a prática social dos alunos. Nessa perspectiva, Solé (1998, p. 22), conforme apresentamos na seção 3.7, mostra que as finalidades e objetivos de leitura são variados:

O leque de objetivos e finalidades que faz com que o leitor se situe perante um texto é amplo e variado: devanear, preencher um momento de lazer e desfrutar; procurar uma informação concreta; seguir uma pauta ou instruções para realizar uma determinada atividade; informar sobre um determinado fato; confirmar ou refutar um conhecimento prévio; aplicar a informação obtida com a leitura de um texto na realização de um trabalho, etc.

Entendemos, então, que a leitura em sala de aula deve ser ampliada. Além do ensino da leitura literária deve-se trazer gêneros discursivos diversos, que atendam as necessidades das práticas sociais dos alunos, para além dos muros da escola, como indicam os PCN de língua portuguesa. Ampliando essa questão para o ensino da linguagem, concordamos com Moita Lopes e Rojo (apud ROJO, 2008, p. 91, grifo dos autores), quando afirmam:

Ensinar a usar e a entender como a linguagem funciona no mundo atual é tarefa crucial da escola na construção da cidadania, a menos que queiramos deixar grande parte da população no mundo do face a face, excluída das benesses do mundo contemporâneo das comunicações rápidas, da tecnoinformação e da possibilidade de se expor e fazer escolhas entre discursos contrastantes sobre a vida social.

O leitor 3, ao falar da sua experiência de leitor, mostra alguns posicionamentos sobre a leitura (grifados por nós):

1) Durante o primeiro e o segundo grau não lembro de ter lido por obrigação nem tampouco de frequentar biblioteca. Existia uma, mas era um lugar onde ninguém entrava. Não foi portanto, na escola que me apaixonei pelos livros.

2) [...] lembro ter vivenciado as minhas primeiras experiências de leitura através do universo dos quadrinhos, que com a sua linguagem gráfica e todos aqueles recursos usados para dinamizar as histórias e definir as emoções das personagens muito me encantava. 3) Por influência de minha avó materna, fui despertando para a leitura de romances.

4) Diante desse despertar para a leitura de romances lembro muito bem o primeiro que li, foi Pássaros Feridos de Mecellouch Colleen, best-seller da época, que tratava da história do padre que se apaixonara por uma menina. Envolvi-me com a trama, viajava na história.

5) As horas passavam depressa, não havia outro remédio senão fechar o livro, mesmo diante de tanta curiosidade com o que ia acontecer. A leitura fazia-me deslocar da rotina cotidiana para o mundo da fantasia. 6) li: Sonho de uma noite de verão, Pequeno Príncipe,

Odisséia, As mil e uma noites, depois as obras clássicas

da literatura brasileira, e a partir daí fui cada vez mais me interessando pela leitura.

7) Seduzida pela leitura resolvi estudar e enfrentei o meu primeiro vestibular para o curso de Letras [...]. Novas leituras, até então desconhecidas, surgiram, onde não apenas lia por prazer, mas com responsabilidade, com disciplina.

8) E, assim, foi a minha trajetória como leitora, onde concluí que a leitura é uma viagem, onde temos sempre o desejo de ir mais longe, basta apenas abrir um livro e mergulhar na magia da palavra.

No exemplo 1, a expressão que o leitor 3 utilizou deixa marcado que a sua experiência de leitura na escola não foi positiva. Nos exemplos 2, 4, 5 e 8, denuncia a sua concepção prioritária de leitura: a leitura por prazer, de viagem, todavia, no exemplo 7, indica, por meio da expressão marcada, que não lia apenas por prazer, mas com responsabilidade. Porém, no exemplo 8, o leitor 3 retoma a sua concepção de leitura que sobressai no enunciado 3, a concepção de que a leitura é uma viagem, a leitura de prazer. Ainda, no exemplo 7, observamos o tom de leitura como sedução e foi por causa dessa sedução pela leitura que optou pelo curso de Letras.

Por fim, compreendemos que o estilo individual do leitor 1 é mais evidente do que o estilo dos leitores 2 e 3. O estilo individual do leitor 1 é bastante crítico, ácido, irônico, ao falar das suas “memórias de leitura”, aproximando-se da escrita literária de Machado de Assis, conforme mostramos na análise.