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7. DRØFTING

7.1.1 Identifisering og oppdaging

O predomínio da instrumentalidade na contemporaneidade - ora compreendida como a prevalência da técnica sobre o tão aspirado paradigma de equilíbrio entre a humanidade, o tecno e a racionalidade (ações comunicativas e instrumentais) - deforma as pretensões finalistas válidas a uma adequada organização civilizacional em prestígio do fazer por fazer. Em outros dizeres, o homem contemporâneo deixa de agir para apenas fazer, em um movimento próprio de pura aceleração, apesar dos alertas contra o iminente absoluto técnico.155 Em

154 Consciência informática vai muito além da discussão acerca da responsabilidade civil no que tange a um veículo autônomo envolvido num acidente ou FROSINI, Vittorio. Informatica e diritto. In: FROSINI, Vittorio. Il diritto nella società tecnológica. Milano: Giuffrè, 1981. p. 270.

155 É bem verdade que o início desse quadro técnico de conduções humanas dá-se na modernidade, mas é na contemporaneidade que o fator perigo é revelado nas experiências das duas Grandes Guerras, no Holocausto judeu, na hecatombe nuclear, na quebra crescente da biosfera, no descontrole do biopoder, na onipresença digital, entre outras anátemas. Por isso, e para melhor situar o leitor, adiante-se sentença própria a visualizar o derradeiro início da era contemporânea: a 1ª Grande Guerra Mundial. As justificativas que fundamentam esse entendimento seguem mais à

oposição, esse ambiente contemporâneo em que o tecno assume maior relevância que o próprio homem não pode ser explicado apenas pela dual combinação tecnologia-racionalidade, a contar da modernidade. A própria técnica galimbertiana parece exigir maior base explicativa, o que conduz a atenção para os atos de desinteresse, de desprestígio e de insignificância do ser humano pelo seu semelhante, o que abarca um componente ainda não bem revelado na sua real extensão e implicação, mas que se expressa permissivo ou associado à prática maquinal do fazer.

Nesse sentido, com o intento de desembaraçar o elemento significativo interno que explica o império do fazer por fazer e a própria técnica contemporânea, vale a incursão pelas propriedades mais abertas do ser com a leitura civilizacional no tempo e no espaço, conferindo destaque ao fenômeno da reificação em termos ontológicos, mais além da atribuição de responsabilidade à fórmula maquinaria- eletrônico-digital dos tempos correntes.

O propósito, nesse ponto, é salientar a reificação a fim de denunciar sua fundamental contribuição para o atual quadro de superioridade do técnico e de desvalor humanístico em curso. Por isso importa superar as explicações economicistas, compreendê-las como uma manifestação comportamental social de reação ao meio, atrelá-las à degeneração do individualismo como segundo fator dual de distorção da percepção do outro para, por fim, demonstrar uma nova espécie de coisificação na contemporaneidade - denominada como reificação tecno.

Para tanto, convém revisitar os pontos viscerais e controversos nos diálogos de diversos pensadores ocupados com o fenômeno da coisificação, numa revista teórica que se propõe ir além do conceito marxista de alienação, dos contributos de Lukács, de Adorno, de Horkheimer e dos contrapontos habermanianos. Almeja-se assim avançar nas construções de fronteira de Honneth e confirmar uma metateoria para delinear a reificação contemporânea.

A crítica inaugural clássica de reificação talvez resida em Marx, em O capital, de 1867, ao ligá-lo ao fetichismo da mercadoria. Para o idealizador daquilo que mais tarde veio a se chamar de marxismo, os homens passaram a verem-se entre si nos seus tratos diários sociais num padrão idêntico ao existente na relação da produção e da comercialização das coisas (como mero objeto de troca e de mais-valia), de ____________________

frente, especificamente no próximo item, na periodização prática do tempo à luz do humanismo versus técnica.

maneira que a relação entre pessoas se permutou para um elo impessoal entre coisas. A preocupação de Marx à época restringia-se ao proletariado, de forma que limitou as manifestações da reificação ao ambiente do trabalho e, portanto, aos imperativos do capital.156

Embora fiel à fenomenologia dos convívios de troca de mercadorias para a categoria de comportamento reificante entre as pessoas em situação de classes, um Lukács de 1923 ousou ir além da conjuntura economicista: apontou para a reificação existente nos mais simples atos do cotidiano humano, por força do argumento funcionalista (de expansão do capitalismo) atrelado ao processo de racionalização moderno denunciado por Weber, decorrente da construção kantiana de

apoderamento do sujeito (máxima em que o conhecimento somente pode ser

adquirido por meio do sujeito).157

A ironia é que, talvez, o maior crítico de História e consciência de classe seja o próprio Lukács. Na década de 1930, afastou-se de sua obra, categorizando-a como um livro de simples interesse histórico para, em 1967, por ocasião da sua reedição, fazer acompanhá-la de um prefácio autocrítico no qual reprovou a visão messiânica e efusiva da dialética marxista antes adotada e o predomínio dos motivos econômicos na explicação histórica. Adorno e Horkheimer também prosseguem nas considerações críticas à reificação e à razão instrumental de Lukács de 1923, mas com o propósito de aprofundar seus fundamentos e de conferir validação ao que chamavam de fetichismo de mercadoria cultural transformada em

mimese da indústria cultural.158

156 MARX, Karl. O capital. Tradução de Reginaldo Sant´anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Livro 1, v. 1, p. 94.

157 LUKÁCS, György. A reificação e a consciência do proletariado. In: LUCKÁCS, Georg. História e consciência de classe. Tradução de Rodnei Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 127- 145 e 214. Lukács, a partir desse diagnóstico múltiplo, sentenciou que do aprofundamento do capitalismo advém a reificação a funcionar como “[...] segunda natureza do homem”. Honneth, mas adiante, reformulará a afirmação, na medida em que (para ele) a reificação nos atos do cotidiano não devem ser concebidos como grandezas econômicas, mas simples reações do ser ao seu meio. HONNETH, Alex. Teoria crítica. In: GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan (Org.). Teoria social hoje. Tradução de Gilson Cardoso de Souza. São Paulo: UNESP, 1999. p. 516.

158 ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 99-138. A respeito desse comportamento humano dentro do padrão da mimese, vale a observação sucinta de Gagnebin: “[...] na tentativa de se libertar do medo, o sujeito renuncia a se diferenciar do outro que teme para, ao imitá-lo, aniquilar a distância que os separa, a distância que permite ao monstro reconhecê-lo como vítima e devorá-lo. Para se salvar do perigo, o sujeito desiste de si mesmo e, portanto, perde-se. Nessa dialética perversa jaz a insuficiência das práticas mágico-miméticas e a necessidade de encontrar outras formas de resistência e de luta contra o medo: toda reflexão de Adorno e Horkheimer na Dialética do esclarecimento consiste em mostrar como a razão ocidental nasce da recusa desse pensamento mítico-mágico, numa tentativa sempre renovada de livrar o

Nesse caminho, vale inicialmente refutar as críticas de Habermas - antigo assistente de Adorno na Escola de Frankfurt - para assim apontar e elucidar ao menos duas, dentre as várias releituras feitas pelos dois filósofos no tocante à

coisificação. Na primeira colocação habermasinana, Adorno e Horkheimer teriam

rechaçado a ideia da vantagem do desenvolvimento técnico-científico em sinergia com as forças produtivas para a superação do capitalismo. Todavia, os escritos conjuntos posicionam-se exatamente em linha oposta. Conforme os autores de

Dialética do esclarecimento de 1942, a partir das posições revisadas de Marx - então

precursor da civilização das máquinas - as forças produtivas técnicas e científicas mesclaram-se às relações de produção que denotam uma falsa totalidade.159

A resposta à segunda crítica força um comparativo. Enquanto Lukács vislumbrou a potencial resistência da subjetividade à reificação, Adorno e Horkheimer enalteceriam a absorção do indivíduo na massa, e esta, na sua natureza subjetiva, seria arrastada sem oposição pela racionalização instrumental.160 Ambos os julgamentos parecem ser confirmados no transcurso do tempo, o que não afasta as críticas restantes à reificação generalista de Adorno e de Horkheimer de que Habermas se ocupa e postula que não é adequado resumir o pensamento identificante apenas à racionalidade formal própria da simplória relação de troca (em que pese lograr sua significação universal, por meio do valor da troca), que é detentora de raízes muito mais profundas.161

Por outro lado, e ainda na crítica de Habermas, a reificação visualizada pelos seus dois colegas peca pela ampliação excessiva, tanto no aspecto temporal como no conteúdo. Na visão habermasiana, Adorno e Horkheimer encontram resposta à existência da reificação em toda a história da espécie humana (típico fundamento antropológico, próprio da autoconservação e da repressão à natureza pulsional), a reproduzir-se por meio do trabalho. Para o revisor, tal condição desvincula o conceito de reificação do capitalismo, e em igual medida para a dimensão das relações inter-humanas, a deformar qualquer potencial resposta pretensa de ____________________

homem do medo (que o esclarecimento não o consiga, mas, pelo contrário, aprisione ainda mais o homem, essa é a outra vertente dessa reflexão).” GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Do conceito de mímesis no pensamento de Adorno e Benjamin. Perspectivas, São Paulo, n. 16, p. 72, 1993. Disponível em: <http://piwik.seer.fclar.unesp.br/perspectivas/article/viewFile/771/632>. Acesso em: 08 ago. 2016.

159 HABERMAS, Jürgen. Teoria de la acción comunicativa. Tradução de Manuel Jiménez Redondo. Madrid: Taurus, 1988. v. 1, p. 468.

160 Ibid., p. 469. 161 Ibid., 469-488.

verdade.162 Habermas também é enfático na condenação das implicações paradoxais advindas da censura à razão instrumental - como propugnadas na obra

Dialética negativa (1966) de Adorno e antes presentes na Dialética do esclarecimento. Assevera que a autocrítica da razão como caminho para a verdade

também acaba por ser questionada por ambos os doutrinadores frente aos tempos atuais de alienação consumada, resultando na total desesperança e no caminho alternativo inviável para o pensamento filosófico e o caminhar civilizacional.163

Nesse panorama, discorda-se de Habermas para sustentar que os julgamentos de Adorno e de Horkheimer à racionalidade instrumental assumem, sim, vestes de radicalidade filosófica. Porém, não é possível dizer que a simples ausência de uma construção teórica alternativa implica na definitiva assunção por um caminho apocalíptico. Os escritos conjuntos, do prefácio da obra em questão, narram por si: “Não alimentamos dúvida nenhuma – e nisso reside nossa petitio principii – de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor. [...] A naturalização dos homens hoje não é dissociável do progresso social”.164 No que diz respeito à apontada desvinculação entre reificação e capitalismo, cabe citar o próprio Horkheimer, no seu Eclipse da razão, de 1947, a conferir réplica:

A reificação é um processo cuja origem deve ser buscada nos começos da sociedade organizada e do uso de instrumentos. Contudo, a transformação de todos os produtos da atividade humana em mercadorias só se concretizou com a emergência da sociedade industrial. As funções outrora preenchidas pela razão objetiva, pela religião autoritária, ou pela metafísica, têm sido ocupadas pelos mecanismos reificantes do anônimo sistema econômico.165

Em que pesem as respostas aos reexames habermasianos supra, ainda prevalece a necessidade de refinamento da percepção de reificação de Horkheimer e de Adorno. Antes, cumpre um último contributo de Adorno, primeiramente com

Minima moralia (de 1944 a 1947), seguido de Educação e emancipação (de 1959 a

162 Ibid.

163 Habermas, a partir da revisão de diversos pontos da obra Dialética negativa de Adorno, vai desenvolver um novo conceito de racionalidade: o comunicativo, de valor elucidativo inestimável. Adorno, de seu lado, concentra-se na emancipação humana, a utilizar a dialética de Hegel em inversão para poder confirmar a intangibilidade do todo pelo simples, o que refuta o arbítrio do sujeito sobre o objeto. ADORNO, Theodor. Dialética negativa. Tradução de Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

164 ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. p. 13-14.

165 HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Centauro, 2002. p. 45.

1969). Naquele há clara menção ao processo de embrutecimento do ser humano pela tecnificação a espelhar um processo de coisificação mediado pela técnica. Isso resta evidenciado nos aforismos intitulados por Não bater a porta e Devagar e

sempre.166

No texto Educação para Auschwitz, presente em Educação e emancipação, Adorno intensifica a vinculação entre consciência coisificada e técnica (ainda que com certa cautela explícita), a acrescentar um terceiro ingrediente à junção nomeada como desamor daqueles que agem dentro do patogênico “véu tecnológico”, para assim conceber os outros como mera “massa amorfa”. Em contrapartida, não elucida como o encadeamento de elementos (fetichização) se operacionalizaria “[...] na psicologia individual dos indivíduos [...]” - tarefa a qual Honneth se encarregaria de revelar mais adiante.167

Honneth, decidido a explicar o genocídio industrial nazista, ocupou-se em revitalizar o conceito de reificação a partir de Luckás, baseado na concepção clássica calcada numa patologia social econômica para culminar na teorização própria da dimensão ontológica desvinculada do reducionismo funcionalista próprio do paradigma produtivista marxista, contudo incompleta, em se tratando da

166 ADORNO, Theodor W. Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993. p. 33 e 142.

167 ADORNO, Theodor W. Educação para Auschwitz. In: ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Tradução de Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p. 129 e 132- 134. “No que diz respeito à consciência coisificada, além disto é preciso examinar também a relação com a técnica, sem restringir-se a pequenos grupos. Esta relação é tão ambígua quanto a do esporte, com que aliás tem afinidade. [...] Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. Isto tem a sua racionalidade boa: em seu plano mais restrito elas serão menos influenciáveis, com as correspondentes consequências no plano geral. Por outro lado, na relação atual com a técnica existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se vincula ao ´véu tecnológico`. Os homens inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. Os meios – e a técnica é um conceito de meios dirigidos à autoconservação da espécie humana – são fetichizados, porque os fins – uma vida digna – e encontram-se encobertos e desconectados da consciência das pessoas. Afirmações gerais como estas são até convincentes. Porém uma tal hipótese ainda é excessivamente abstrata. Não se sabe com certeza como se verifica a fetichização da técnica na psicologia individual dos indivíduos, onde está o ponto de transição entre uma relação racional com ela e aquela supervalorização, que leva, em último análise, quem projeta um sistema ferroviário para conduzir as vítimas a Auschwitz com maior rapidez e fluência, a esquecer o que acontece com estas vítimas em Auschwitz. No caso do tipo com tendências à fetichização da técnica trata-se simplesmente de pessoas incapazes de amar. Isto não deve ser entendido num sentido sentimental ou moralizante, mas denotando a carente relação libidinal com outras pessoas. [...] se as pessoas não fossem profundamente indiferentes em relação ao que acontece com todas as outras, excetuando o punhado com quem mantém vínculos estreitos e possivelmente por intermédio de alguns interesses concretos, então Auschwitz não teria sido possível, as pessoas não teriam aceito. Em sua configuração atual – e provavelmente há milênios – a sociedade não repousa em atração, em simpatia, como se supôs ideologicamente desde Aristóteles, mas na persecução dos próprios interesses frente aos interesses dos demais.”

convergência do entendimento não totalizante que ainda carece de maturação - precisamente o que se pretende contemplar neste ponto da pesquisa.168

Inicialmente, apura a diferenciação entre reificação e instrumentalização. Para Honneth, a última detém consigo a reprimenda social quando da violação de “[...] princípios morais amplamente aceitos [...]” nas conduções humanas que tomam as demais pessoas como meio para fins unicamente individuais, sem deixar de considerar sua característica humana. Naquela não há mais a percepção dessa característica ou da habilidade no outro, restando-lhe o tratamento reservado às coisas.

Nesse caso, a reificação somente pode ser percebida como transgressão contra os pressupostos do mundo socialmente vivido, a minar os baluartes do humanismo.169 Depreende-se então que, na ligação do ser com o seu mundo, o

reconhecer precede o conhecer, com a reificação como uma quebra dessa primazia.

Isso, aliado ao fator afetação, permite a Honneth apontar para o primado do

reconhecimento, com uma distinção pontual entre o reconhecimento elementar

(prévio) e o reconhecimento recíproco.170

O reconhecimento elementar demanda a tomada existencial de parte do outro, por meio da experiência (aqui designada por contato), a dotar esse semelhante de valores morais, o que oportuniza o agir em sociedade de forma determinada. Somente ao vencer tal etapa é que surge o reconhecimento recíproco, então orientado por normas convencionais sociais que, quando descumpridas, implicam pleitos de ampliação da moral existente ou luta por reconhecimento inédito.171

A reificação unicamente vai ocorrer quando anulado o reconhecimento

elementar, numa circunstância de conversão do outro em objeto inanimado, em

168 HONNETH, Alex. Observações sobre a reificação. Tradução de Emil Sobottka e Giovani Saavedra. Civitas, Revista de Ciências Sociais da PUCRS, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 68-79, 2008. A respeito da reificação, tema corrente entre os intelectuais, vale conferir a obra completa de HONNETH, Alex. La reification. Tradução de S. Haber. Gallimard: Paris, 2007. Bauman, modernista, é outro a se ocupar com certa frequência sobre a problemática, tanto em Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. (Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008) como no mais recente Vida em fragmentos: sobre a ética pós- moderna. (Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011).

169 HONNETH, Alex. Observações sobre a reificação. Tradução de Emil Sobottka e Giovani Saavedra. Civitas, Revista de Ciências Sociais da PUCRS, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 69-70, 2008. 170 Afetação, para Honneth, corresponde a um limitador imaginário: as pessoas somente detêm

conexão para com os eventos de importância imediata e direta para a compreensão da vida. Ibid., p. 71-73.

mera coisa. Na assertiva de Honneth, a grande questão consiste no apontamento da explicação que esclarece “[...] a condição de possibilidade desta supressão do reconhecimento elementar”. 172 É nesse ponto crucial que Honneth recorre a Lukács, ao priorizar a carga ontológica em desfavor daquela categoria socioeconômica, que pontualmente contempla a explicação da “[...] propagação social da reificação com as exigências de abstração que a participação contínua na troca capitalista de mercadorias exige”. Faz isso, contudo, ao absorver a explicação lukácsiana na sua forma, e não no seu conteúdo, de modo a sobrepor a dimensão do ser ao diagnóstico clássico da patologia capitalista.173

Em outros termos, na percepção de Honneth, a reificação dos tempos correntes não provém simplesmente da atividade de troca capitalista de mercadorias que requer a abstração das qualidades inerentes às pessoas, mas da sua repetição contínua e rotineira, a ponto de se converter em uma prática usual e de provocar o

esquecimento da forma elementar de reconhecimento, refletindo, portanto, o

resultado social danoso provindo de uma práxis altamente unilateral e repetitiva.174 As colocações que se redigiram a respeito de reificação permitem seu aprimoramento e seu apoderamento em um quadro contemporâneo de questionamentos do ser e para o ser num horizonte imaginativo tecnológico - o que representa pretensão específica desta etapa da investigação. Com Honneth, afastou-se aquela percepção moderna ideológica reduzida ao horizonte patológico social econômico para identificar uma prática oculta no consumo infantilizado que contamina as relações inter-humanas.175

A prática se converte em sentimento e em imaginação - então melhor classificados como reações pré-cognitivas não racionais reduzidas à sincera e primeira manifestação do ser, quando se depara com o outro - e se traduz naquele

reconhecimento elementar de Honneth como condição para visualizar e atribuir a

172 Ibid., p. 75.

173 HONNETH, Alex. Observações sobre a reificação. Tradução de Emil Sobottka e Giovani Saavedra. Civitas, Revista de Ciências Sociais da PUCRS, Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 75, 2008. 174 Ibid., p. 75-76 e 79. Honneth, neste ponto, registra suas maiores dúvidas. Assume explícita

insegurança ao atrelar o esquecimento do reconhecimento elementar à prática reiterada de troca de mercadorias e sua carga intrínseca que representa: repetição corriqueira de comportamento social a vindicar a negação do outro. A não identificação de outras potenciais práticas reificantes é que faz Honneth, até o presente momento, restringir-se ao fetichismo da mercadoria na sua forma reiterada.

175 Em que pese Barber não lograr vencer a barreira economicista para a explicação dos fenômenos da atualidade, suas colocações a respeito da infantilização dos consumidores e da fragmentação da cidadania são muito enriquecedoras. BARBER, Benjamin R. Consumido. Tradução de Bruno