Por décadas, estudiosos têm mapeado paradigmas, analisado conjuntos de suposições distintas e seus impactos nas visões de mundo dos pesquisadores. Kuhn (2005) havia levantado a ideia de que um paradigma fornece uma visão de mundo. Como tal, um paradigma oferece suposições coerentes sobre como o mundo deve ser estudado – suposições que atraem uma comunidade duradoura de estudiosos (LEWIS; KELEMEN, 2002). Burrel e Morgan (1979), ao aplicarem conceito semelhante acerca dos paradigmas nas ciências sociais, propuseram a tese central de que todas as teorias organizacionais são baseadas em uma filosofia da ciência e uma teoria da sociedade. Propuseram que a teoria social pode ser concebida em termos de quatro principais paradigmas, baseados em diferentes conjuntos de suposições metateóricas sobre a natureza das ciências sociais e sobre a natureza da sociedade. Esses quatros paradigmas, por sua vez, estão fundamentados sobre visões do mundo social mutuamente exclusivas.
Os quatro paradigmas definidos por Burrel e Morgan (1979), conforme Figura 5, foram estabelecidos de acordo com duas dimensões principais (“subjetivo-objetivo” e “regulação- mudança radical”), capazes de abarcar as diferentes abordagens da teoria social. As dimensções foram estabelecidas com base no debate sujeito-objeto na teoria das ciências sociais e no debate consenso-conflito na teoria da sociedade (HASSARD, 1993).
Figura 5. Paradigmas nas ciências sociais e dimensões paradigmáticas. Fonte: Adaptado de Burrell e Morgan (1979).
A dimensão “subjetivo-objetivo” foi estabelecida em termos de quatro conjuntos de pressupostos relacionados à ontologia, epistemologia, metodologia e natureza humana nas ciências sociais. Propuseram que cada um desses aspectos está posicionado ao longo de duas perspectivas polarizadas (“subjetivo-objetivo”), conforme Figura 6.
Quanto ao aspecto ontológico, a posição nominalista gira em torno do princípio de que o mundo social é constituído por nomes, conceitos e rótulos. Não existe uma estrutura “real” para o mundo. Já o realismo, por outro lado, postula que o mundo social é um mundo “real”, composto de estruturas tangíveis e relativamente imutáveis. Em relação à epistemologia, a abordagem objetiva caracteriza-se pelo positivismo, que busca por regularidades e relações causais a partir de explicações e predições sobre os acontecimentos do mundo social. Já a epistemologia antipositivista não busca por leis ou regularidades subjacentes. Para essa abordagem, o mundo social é essencialmente relativo e só pode ser entendido pelo ponto de vista dos indivíduos. Quanto à natureza humana, em um extremo é identificada a visão determinista, que considera o homem e suas atividades como determinados pela situação ou ambiente em que se encontram e, no outro extremo, existe a visão voluntarista, que remete à completa autonomia do ser humano. Por fim, em relação à metotodologia, a abordagem ideográfica enfatiza a análise da subjetividade e envolve o “fluxo” da vida cotidiana. Já a abordagem nomotética enfatiza a pesquisa mediante o
protocolo sistemático e técnico, que incide sobre o processo de testar hipóteses em conformidade com os cânones do rigor científico.
Figura 6. Dimensão subjetivo-objetivo. Fonte: Adaptado de Burrell and Morgan (1979).
A outra dimensão proposta por Burrel e Morgan (1979) – “regulação vs. mudança radical”, se refere aos pressupostos sobre a natureza da sociedade. A “sociologia da regulação” se refere às teorias que buscam fornecer explicações acerca da sociedade em termos de uma unidade subjacente. Busca-se compreender porque a sociedade tende a se manter coesa. Em contraste, a “sociologia da mudança radical” almeja encontrar explicações para a mudança radical, que envolve conflitos estruturais profundos, modos de dominação e contradições estruturais que caracterizam a sociedade moderna. É uma sociologia que se preocupa com a emancipação do homem das estruturas que limitam seu potencial de desenvolvimento.
Dentre os aspectos relativos ao debate acerca do estudo dos paradigmas, a incomensurabilidade paradigmática tem sido ponto de destaque. A posição de incomensurabilidade defende o desenvolvimento e aplicaçao de cada paradigma separadamente (JACKSON; CARTER, 1991, 1993). Para Weaver e Gioia (1994), a ideia de incomensurabilidade entre paradigmas se originou no início do século XX. Kuhn (2005) havia discutido a incomensurabilidade entre paradigmas, mas no contexto das "revoluções científicas". Nesse contexto, a mudança de pressupostos paradigmáticos não pode ser baseada no debate aberto, pois não há nenhum argumento lógico para demonstrar a superioridade de um paradigma sobre outro. Como o novo paradigma é incomensurável com o velho, não há nenhum recurso para uma mediação independente ou de
uma terceira parte (HASSARD, 1993). Dentro da teoria organizacional, a incomensurabilidade foi difundida, principalmente, a partir do estudo de Burrell e Morgan (1979).
Há um repúdio a combinações de conceitos ou métodos analíticos que ultrapassem as fronteiras dos paradigmas (SCHULTZ; HATCH, 1996). No entanto, é reconhecido que o uso de um único paradigma de pesquisa produz uma visão estreita para se refletir a natureza multifacetada da realidade. Um único paradigma é necessariamente limitado, pois expõe determinadas facetas do fenômeno estudado, enquanto obscurece outros aspectos (WEICK, 1999). O provincianismo advindo do confinamento paradigmático pode ser redirecionado à produção de pontos de vista mais completos dos fenômenos organizacionais, por meio da consideração multiparadigmática (GIOIA; PITRE, 1990).
Hassard (1988) insistiu que, dada a natureza multifacetada da realidade organizacional, considerações de teorias fundamentadas em paradigmas alternativos são necessárias. Gioia e Pitre (1990) examinaram maneiras de se estabelecer pontes entre os limites de diferentes paradigmas. Ao se guiarem pelo esquema proposto por Burrel e Morgan (1979) acerca das dimensões paradigmáticas nas ciências sociais, os pesquisadores levantaram a seguinte questão: fronteiras entre paradigmas são permeáveis? Argumentaram que há um limite e em certa medida elas são. Com efeito, as dimensões sugeridas por Burrell e Morgan (1979) – subjetivo/objetivo e regulação/mudança radical – seriam, na verdade, contínuas, fato que torna difícil, se não impossível, estabelecer exatamente onde um paradigma termina e outro começa. Para Gioia e Pitre (1990), as fronteiras entre paradigmas seriam, portanto, mais apropriadamente concebidas como “zonas de transição”. Sugeriram que devido à natureza indistinguível das zonas de transição entre paradigmas, é possível construir pontes que ligam conceitos aparentemente díspares. Uma “perspectiva metaparadigmática” foi sugerida, com vistas a permitir com que diferentes abordagens sejam consideradas em conjunto. A Figura 7 ilustra a apropiação dessa perspectiva, estabelecida em conexão às dimensões paradigmáticas propostas por Burrell e Morgan (1979).
A noção de um estudo metaparadigmático é aproximadamente análoga à noção de triangulação. A exibição de múltiplas perspectivas implica um tipo de metatriangulação, não por meio de métodos dentro de uma única teoria ou paradigma, como é usualmente aplicada, mas através de teorias e paradigmas (GIOIA; PITRE, 1990). É uma estratégia de aplicação da diversidade
paradigmática de modo a promover maior conhecimento e criatividade (LEWIS; GRIMES, 1999).
Figura 7. Perspectiva metaparadigmática.
Fonte: Adaptado de Gioia e Pitre (1990) e Burrell e Morgan (1979).
Na ausência de uma estratégia de metatriangulação entre teorias e conceitos fundamentados em diferentes paradigmas, Lewis e Grimes (1999) elaboraram e implementaram a visão de Gioia e do Pitre (1990). Para os autores, a representação de triangulação teórica, proposta por Denzin (1978), auxilia a conceituar o processo, isto porque as fases propostas são aproximadas às fases utilizadas na abordagem multiparadigmática: definição inicial das bases que fundamentam as perspectivas teóricas sob estudo (revisão multiparadigmática); construção e análise dos dados à luz de cada uma das lentes teóricas (pesquisa multiparadigmática) e discussão de contrastes e intersecções das perspectivas, de modo a permitir interpretações divergentes dos dados (construção de teoria metaparadigmática). Segundo Lewis e Grimes (1999), nesse processo, a descoberta de “zonas de transição” entre paradigmas (GIOIA; PITRE, 1990) auxilia os pesquisadores a compreender como o fenômeno em questão pode ser apreendido, legitimamente, por meio de várias estratégias de investigação, bem como a reconhecer possíveis complementaridades entre as perspectivas divergentes. Paradigmas podem aparecer incomensuráveis nos extremos, mas entrelaçados nas suas fronteiras.