Decidimos iniciar esta análise com uma tabela síntese (Tabela 11), que nos permite compreender de forma mais ampla os diferentes contributos dos investigadores, consoante cada tema em análise:
Tabela 11. Síntese das narrativas por tema e investigador Tema Empreendedorismo Social (ES) Motivações para o ES Competências Empreendedoras ES em Portugal
Estado - Terceiro Setor
- Mercado ES e Terceiro Setor
Sustentabilidade de uma iniciativa de ES Inv estig a do r I1 Criação e implementação de (novas) soluções. Mudança de consciência das pessoas: emprego com propósito. Proatividade e pensamento crítico; Exercício de liderança. Fase de desenvolvimento. Estado e TS partilham o mesmo objetivo: parceria e complementaridade.
O Empreendedorismo Social galvaniza o Terceiro Setor.
Necessidade de durar o tempo suficiente para resolver os problemas.
I2
Processo de génese coletiva;
Visa o bem humano; Adota metodologias participativas.
(Questão não abordada)
Espírito de iniciativa pode ser treinado; Espírito de liderança nem todos os indivíduos têm. Assiste-se a novas práticas de gestão por parte das organizações; Valorização dos recursos humanos;
Preocupação pela gestão estratégica e operacional crescente.
Produzir valor acrescentado: parceria- paridade.
Não há dissociação entre Economia Social e Terceiro Setor.
Boa gestão financeira; Modelo de organização consistente; Valorização dos recursos humanos; Identidade forte. I3 Processo coletivo; Procura a eficiência e eficácia na prestação de serviços; Princípios: democracia, rotatividade da
liderança, salário justo, etc. Fazer o bem- comum. Cultiva-se a autonomia, a criatividade e a iniciativa.
Carateriza-se pela busca de autonomia financeira. Partilha de responsabilidades. O Empreendedorismo Social é um mecanismo de dinamização do Terceiro Setor.
Implica a tomada de consciência de que há processos diferentes de gerir organizações. Sustentabilidade: económica, social e ambiental. I4 Processo de mudança, com base numa avaliação diagnóstica. Pessoais; Sociais; Profissionais. Criatividade e inovação: desenvolvidas por via de um processo de educação formal ou não formal. Realidade em expansão. Complementaridade de todos os setores da sociedade. O Empreendedorismo Social introduz novas ferramentas de gestão no Terceiro Setor: gestão profissional, maximização de recursos, gestão financeira rigorosa.
Sustentabilidade financeira fundamental: não é um fim, é um meio.
Têm sido identificados diversos fatores que fundamentam a “emergência” e a atenção dedicada ao ES. Mais concretamente, no âmbito da nossa investigação, foram reconhecidos pelos Investigadores participantes, fatores como: a retração do Estado- Providência, a atual conjuntura socioeconómica e todo um conjunto de motivações, de índole pessoal, social e profissional.
Para compreendermos a retração do Estado-Providência português implica, na nossa opinião, compreender todo o contexto envolvente, todas as transformações e constrangimentos presentes, ou seja, vamos analisar este fator sem dissociá-lo de um outro fator apontado, a atual conjuntura socioeconómica. Mas, mais do que isto, importa refletir estas questões como indivíduos inseridos num contexto global onde se assiste ao impacto de práticas transnacionais em condições locais. A este fenómeno, Santos (1997) atribui a denominação de Globalismos Localizados.
Santos (2002) diz-nos que a retração do Estado-Providência pode ser explicada, sob duas perspetivas: i) as particularidades de cada país; ii) o facto de estarmos inseridos numa aldeia global, faz com que estejamos fortemente condicionados a grandes pressões internacionais. Ou seja, o impacto destes constrangimentos numa região é determinado quer pela intensidade dos fatores de globalização, quer pela capacidade das respostas locais que lhes contrapõem (Hespanha, 2001). Tendo em consideração estes aspetos, e relembrando uma questão que já vimos abordada ao longo desta dissertação, Portugal apresenta uma sociedade semiperiférica, não tendo por isso, respostas suficientemente fortes para superar os efeitos da globalização. Consequentemente, fomos atingidos pela crise social, económica e financeira que teve origem numa das maiores economias do mundo, os Estado Unidos da América.
Estes cenários permitem-nos fazer uma analogia com o pensamento de Capucha (2005) que nos diz que o fenómeno da globalização apresenta-se como limitador do raio de ação do Estado-Providência. A níveis práticos, e para superar o défice, temos vindo a assistir a um (re)corte das políticas sociais (Montano, 2007) em detrimento das políticas económicas.
Diante esta situação, assistimos a uma mobilização de elementos da sociedade civil, que ao reconhecerem as dificuldades e necessidades da população, motivam-se não só para definir e/ou encontrar respostas para as mesmas, mas também, para criar projetos que lhes permita atuar enquanto profissionais. Assim se compreende a (re)emergência do ES em Portugal.
Especificamente sobre o ES, as diferentes perspetivas dos investigadores, quando articuladas, coadunam-se com as concetualizações teóricas já abordadas. O primeiro passo para a efetivação de uma iniciativa de ES, consiste na realização de uma avaliação diagnóstica das necessidades e problemas sociais sentidos pela população, sem uma contrapartida adequada por parte do Estado. Só a partir desta, poderão ser delineados os caminhos a seguir, procurando promover a mudança e o bem-estar do público-alvo. Para que seja verdadeiramente considerado ES, este tipo de projeto ou iniciativas, deve assentar em princípios como a democracia, a participação, a liderança rotativa e o salário justo.
A criatividade e a inovação social foram outros dos aspetos referenciados pelos participantes. Estas são consideradas competências necessárias para o desenvolvimento de uma iniciativa de ES, que podem ser treinadas e aprimoradas. Vemos aqui uma aproximação com pensamentos de autores já abordados neste estudo, nomeadamente quando referimos que ser empreendedor e empreendedor social é uma característica desenvolvida ao longo de um processo de aprendizagem (Gaspar 2009; Mangas, 2012). No entanto, por parte do Investigador 2, foi feita referência a outro tipo de competência - o espírito de liderança. Ao considerar que nem todos os indivíduos o apresentam, a opinião deste investigador cruza-se com a de Dees (2001: 6), quando afirma que: “Not
every social sector leader is well suited to being entrepreneurial (…) society has a need for different leadership types and styles. Social entrepreneurs are one special breed of leader, and they should be recognized as such”.
Uma vez que o financiamento e o suporte económico público têm vindo, gradualmente, a ser reduzidos, as organizações do TS deparam-se com a necessidade de otimizar os seus recursos. É neste sentido que o ES surge como um forte contributo para o setor, ao introduzir novas ferramentas de gestão: desperta para a necessidade de ser adotada uma gestão estratégica, operacional e que valorize os seus recursos humanos.
A agenda da inovação social e da criatividade, intrínseca ao ES vem, igualmente, dar uma nova ambição aos profissionais do setor, fomentando a criação de (novos) projetos e de (novas) soluções que transformem a sociedade. Assim, a dinamização do ES dá uma nova estima ao TS, galvanizando-o e, inclusivamente, permitindo que este se aproxime dos outros setores.
Sobre a relação entre Mercado-Estado-TS, os investigadores propõem que deverá existir uma parceria entre estes três setores da sociedade, para se garantir e manter o bem-estar da população. Esta é uma abordagem defendida por alguns autores
referenciados, os quais consideram que face às incapacidades e/ou brechas deixadas pelo Estado e pelo Mercado no bem-estar social dos indivíduos, deverá haver uma responsabilidade partilhada entre os três (Mozzicafreddo, 1996; Santos 2002; Parente et
al., 2012).
Paralelamente, a sustentabilidade - e em concordância com o estipulado no corpo teórico -, é percebida pelos Investigadores como um importante aspeto a ter em atenção. O desafio de ser sustentável está associado a uma identidade forte das organizações do TS, a uma boa gestão financeira e profissional, a uma maximização dos recursos e a um modelo de organização consistente. Ainda que estas sejam visões algo assentes em princípios de Mercado, o que aqui se pretende, é que o próprio ES possa contribuir para o desenvolvimento sustentável destas organizações.
Só assegurando a sustentabilidade, será assegurada a continuidade do projeto. Relembrando Carrol & Stater (2009), no decorrer da sua ação, o empreendedor social depara-se com uma dupla tarefa: i) atingir objetivos relacionados com a missão; ii) manter uma condição financeira saudável para garantir a sustentabilidade da solução. No entanto, por um investigador em particular, a sustentabilidade deve ser vista sob três vertentes: social, económica e ambiental. Quanto mais e melhor estas vertentes forem articuladas entre si, mais sustentável serão as iniciativas de ES e mais coeso será, tendencialmente, o TS.
Em conciliação com a informação recolhida e com a “fragmentação” do discurso em categorias, construímos um esquema (Figura 12) que nos permite, de forma sintética, analisar as principais dimensões abordadas pelos Investigadores:
Figura 12. Contornos do Empreendedorismo Social na visão dos Investigadores especializados
Fonte: Elaboração própria com base nos dados recolhidos nas entrevistas aos Investigadores especializados Mercado Estado TERCEIRO SETOR Condicionam Espírito de liderança Retração do Estado-Providência Motivações pessoais, sociais e profissionais Razões explicativas do ES Verifica-se Contexto nacional: Autonomia financeira Profissionalização
Gestão de recursos humanos Gestão estratégica
Empreendedorismo Social
Bem-Estar Humano
Criação ou implementação de (novas) soluções Processo de mudança, de origem coletiva Princípios: democracia, participação, rotatividade
Avaliação diagnóstica das necessidades
O que é o ES na perspetiva dos Investigadores entrevistados?
C ompetê nc ias e mpre end edora s Pressões transnacionais Conjuntura socioeconómica Sujeita a Competências empreendedoras Educação para o ES Inovação Social Criatividade