Como modismo destacamos aqueles artigos que tratam o assunto de forma mais superficial. Temos, por exemplo, a meditação sendo apontada na revista Dieta Já (Fevereiro de 2002) como uma técnica que ajuda a emagrecer. Sob o título Adoro praia.
Por isso, na meditação, me imaginava magra e de biquíni, a receita é oferecida:
a técnica é simples: basta ficar sentada e de olhos fechados e fazer contagem regressiva de dez a zero. Depois, tem de respirar pelo nariz e soltar o ar pela boca enquanto imagina-se estar num lugar muito bonito. Daí é só fazer um desejo, contar de zero a dez e abrir os olhos devagar.
Narevista Claudia (Março de 2003, p.70), aparece uma receita de meditação que é indicada para “rejuvenescer”, retirada do livro Torne-se mais jovem, Viva por mais tempo do médico indiano Deepak Chopra.
Seguindo aquele conceito ocidental de que a meditação é “pensar, refletir” teremos também uma receita oferecida pelo ator L. B. na revista Capricho (24 de setembro de 2000, p.16):
Para meditar: - Procure um lugar sossegado. - Fique na posição da foto (sentado, pernas cruzadas) - Descontraia os músculos, feche os olhos e pense em coisas positivas. -Você vai sentir uma energia boa e depois relaxar. - Se o sono vier, aproveite e durma. (O grifo é meu)
Pensar em coisas positivas pode ajudar um pouco, mas, não resolve. Sem dúvida, a técnica provoca um grande relaxamento, um estágio que acaba atraindo a maior parte dos praticantes de meditação. Seus efeitos contra a insônia são bastante efetivos, mas, não é esse o seu objetivo e quando a mídia apresenta ao público este aspecto é isto o que todos irão procurar.
As receitas de meditação apresentadas nas revistas são as mais variadas, tais como: prestar a atenção em um som que pode ser um pássaro, relógio, vento, música ou ainda imagens. A revista Veja (25 de agosto de 2004, p.93) ensina que “quando conseguir esvaziar a mente e pensar só no objeto ou no som, sem se dispersar, você estará meditando” Ora, se a mente foi esvaziada ela não esta presa a nenhum objeto. Enquanto existir um objeto não existe o vazio. Essas técnicas podem ser chamadas de exercício de concentração, mas, não se trata ainda de meditação. A concentração na respiração, que também é muito indicada, tem efeitos tranqüilizantes e é uma das técnicas mais usadas para exercitar a atenção e levar ao estado meditativo. O exercício pode ajudar a ficar mais atento, pois nunca aprendemos a estar alertas, desde as coisas mais simples até as mais complexas. Daí a grande dificuldade quando nos propomos a sentar e meditar.
O mesmo artigo traz uma definição: “meditar significa exercitar o autocontrole, esvaziar a mente de problemas do dia a dia que causam tensão e favorecem o aparecimento
de doenças”. A meditação vai muito além do “esvaziar a mente dos problemas do dia a dia” e, usar de esforço para controlar a mente pode gerar mais tensão do que relaxamento. Mestre Bohdan nos ensinou que devemos nos sentar e meditar “para nada” pois, meditar é ir além da mente pragmática.
Num outro momento, teremos a meditação sendo indicada “para vencer a crise, ganhar energia, tomar decisões difíceis, escapar do stress cotidiano, melhorar a sua concentração”. A matéria, da revista Isto É (09 de setembro de 1998, p.89) é longa e relata sobre pessoas e empresas envolvidas com a prática da meditação. A grande maioria a ela recorre para aliviar problemas ligados ao stress. É vinculada a diversas atividades, tais como, dançar, gritar, teatro, que estão ligadas às práticas de “meditação dinâmica” ensinadas por Osho (como já vimos no capítulo primeiro ao falar sobre o mesmo), com o objetivo de levar a pessoa a uma espécie de “transe”. Podemos destacar do texto: “meditar pode ser pular e rodopiar loucamente ao som de uma música indiana, até entrar numa espécie de transe”. No nosso ponto de vista, meditação não leva à transe. No mesmo artigo aparece ainda o chamado “grupo TPM” onde a meditação é usada para diminuir os efeitos da tensão pré menstrual, das cólicas, ou para “tratar problemas do útero”. A meditação é indicada como uma panacéia e embora os seus benefícios sejam muitos, o verdadeiro objetivo (realizar o Yoga, a união) não é lembrado. Além disso, é preciso lembrar que a pratica da meditação exige um acompanhamento, principalmente no caso de adultos. Na infância, é muito raro surgir reação negativa pois a mente da criança ainda está em formação.
Seguindo a mesma linha de pensamento, a revista Capricho (14 de janeiro de 2001, p.26), trouxe um artigo onde a atriz L. D., da novela Malhação33, se diz kardecista e
adepta da meditação, acreditando que esta é a “religião do futuro”. Quando perguntada pelo repórter se meditava todo dia, ela responde:
Quando eu acordo, eu medito como vai ser o meu dia. Aí eu fico fazendo projetos de tudo o que eu quero que aconteça. Também medito quando eu vou dormir, agradeço o dia e tento liberar as coisas ruins e armazenar as boas.
A atriz tem a meditação como um tipo de reflexão, uma espécie de avaliação do seu dia dia. É uma prática sem dúvida muito positiva, mas, no meu ponto de vista, não se trata de meditação. Um tipo de prática sugerida por Dalai Lama é a “meditação analítica”, 33 -A Revista Capricho é mais voltada para o público jovem, os adolescentes, e trata sobre telenovelas,
onde também se faz uma reflexão, uma análise sobre um conceito, mas o seu objetivo é treinar a mente. Ele explica:
Inicialmente o objeto da meditação é passado por um processo de análise no qual o praticante procura repetidamente obter familiaridade com o assunto. Depois que o praticante adquire uma boa dose de certeza com relação ao objeto de meditação ele faz com que a mente se concentre nesse objeto sem uma ulterior análise. A combinação da meditação analítica com a meditação focalizada é uma técnica eficaz que tem como objetivo familiarizar a mente com o objeto da meditação, ajudando-a, assim, a ser adequadamente treinada. (DALAI LAMA, 2001:32).
Voltando ao artigo. Quando perguntada se conseguia deixar a mente vazia, responde:
Depende muito do que eu quero com a minha meditação. Eu acho que as coisas acontecem fisicamente quando já estão concretizadas no mental. Se eu estou querendo, por exemplo, solucionar um problema, eu começo a imaginar e afirmar na minha mente o problema já resolvido. Por meio da meditação, eu fixo na minha mente a imagem de tudo dando certo, tudo resolvido. Outras vezes eu medito, só para relaxar. Aqui, a meditação é sugerida para atender aos mais diferentes desejos. Técnicas de visualização34 são também muito usadas para a meditação dentro do Budismo Tibetano,
mas a intenção é fundamental.
Num período bastante conturbado, as década de 60 e 70, quando a Índia estava na moda, a revista Fatos e Fotos, de outubro de 1973, traz como título Gurus S/A.
Contrabando em forma de Oração. A fé e a credulidade dos povos tornou-se um negócio altamente rentável para iluminados.
Com apelos aos sentimentos religiosos dos povos, prometendo vida eterna e dizendo estar na terra em missões divinas, os gurus arrecadam verdadeiras fortunas. Parte do dinheiro é obtida através de dádivas generosas dos adeptos e outra parte por meios mais ilícitos, como contrabando, falsificação de documentos e às vezes, até o furto.
O artigo traz uma manchete um pouco sensacionalista colocando todos os gurus em uma só condição: desde Maharishi Mahesh, Maharaj Ji, Satguru Santji Maharaj, Satya Saibaba, Tilak, Aurobindo, Anandamoyee, Mohanananda, Abhedananda, Chinmayananda Annie Besant e seus teosofistas, que tiveram ascendência no oriente e no ocidente. Fala de um intercâmbio “turístico-religioso” (que continua acontecendo!), onde o próprio governo da Índia estaria lucrando :
Há muito orgulhosos de sua herança espiritual, os hindus nada objetaram contra os dólares americanos arrecadados pelos gurus. Não é de se estranhar, portanto, que haja surgido entre uma determinada classe deles, a necessidade de usarem a boa-fé do povo como escudo e de dissiparem quaisquer dúvidas em aceitar esses Babas como verdadeiros santos e enviados de Deus.
O artigo relata que perto de 200 mil pessoas deslocaram-se para Delhi, entre ingleses e americanos, para participar das comemorações do festival “dos convertidos” conhecido como Hans Jayanti. Que na alfândega em Delhi, com a comitiva do guru adolescente Satguru Santji Maharaj foram apreendidos 30 mil dólares em contrabando de jóias, dinheiro e cheques de viagem e que nada foi feito, pois tudo pertence ao “Divino Banco”. Satya Sai Baba, muito conhecido pelos brasileiros, também é citado:
Simpático, é também o curandeiro e mago a quem é atribuído o poder de transformar o ar rarefeito em anéis e braceletes de ouro. Seu erro fatal aconteceu em Kerala, região mergulhada na mais negra miséria. Ele continuou impassível em sua pregação de redimir os povos através da transformação mágica de ar em ouro, diante de uma atônita multidão que lhe pedia que tirasse do solo fértil nada mais do que alguns sacos de arroz para matar a fome.
Artigos como este trouxeram ao público uma imagem extremamente negativa que envolve “iluminação”, “meditação”, “poderes” e “yoga”. Realmente, a década de setenta foi um período em que muitos abusos foram cometidos em nome do “divino” ou do “sagrado”. Mas, ainda hoje, presenciamos estrangeiros que vão à Índia e levam uma fortuna em dólares para gurus que prometem com algumas posturas levá-los a iluminação. Este artigo mostra uma visão do Yoga nada positiva e embora seja realista em algumas colocações podemos perceber que o modismo foi a mola mestra.
Destacamos também um artigo da revista Veja (28 de maio de 2003,p.79) que vem mesclado com modismo e hibridismo, pois embora traga nomes importantes relacionados a pesquisa com meditação (Andrew Newberg e Herbert Benson são os mais citados), acaba mostrando a meditação como mera terapia para tratar doenças cardíacas, hipertensão, depressão, infertilidade, enxaqueca e reduzir a dor e ansiedade antes de cirurgias. O articulista defende a idéia de que a visão do Yoga tem mudado e que o que ocorre hoje é o inverso de trinta anos atrás :
Calcula-se que haja no Brasil 5 milhões de iogues. De duas a três vezes por semana, eles se torcem e retorcem, sentam-se na posição de lótus, controlam a respiração e, ao final das sessões, entoam mantras (a repetição em voz alta de palavras ou sons que ajudam o sujeito a meditar), antes de se despedir com um sonoro Namastê. ... .
A meu ver, a visão não mudou tanto assim e seria maravilhoso se o Brasil tivesse realmente tantos yogues, na verdadeira acepção do termo, isto é, seres iluminados. Seria interessante saber quanto tempo é usado em uma aula para o “torce e retorce”, o canto de mantras e quanto tempo é usado para a pratica da meditação. A seguir, são relatados vários benefícios do Yoga:
Descobriram que ela (a ioga) ajuda a diminuir o ritmo cardíaco, a regular o funcionamento do sistema respiratório, a reduzir a pressão sanguínea e os níveis de colesterol. Isso porque seus exercícios físico-mentais ativam a parte do sistema nervoso responsável pelo relaxamento. Ou seja, fazem um bem enorme para o coração e, não menos importante, para o que se convencionou chamar de alma - ansiosos e deprimidos encontram alívio em seus sintomas. Para não falar daquele efeito mais visível que é o de melhorar a postura, minorando as dores causadas por dores na coluna.
De todos os benefícios citados apenas os da última linha, relacionados à postura, pode-se dizer que estão ligados ao Hatha-Yoga, mas todos os outros estão relacionados a resultados de pesquisas feitas com meditação realizadas em laboratório com pessoas fisicamente imóveis. Quando se trata de falar em resultados de pesquisa, Yoga e Meditação passam a ser mostrados como iguais.
Os artigos citados refletem a meditação como “modismo” porque ela é tratada de forma efêmera, sugerindo que por meio dela se pode resolver tudo e de forma muito rápida: ajuda a emagrecer, a rejuvenescer, a vencer a crise, ajuda na TPM (tensão pré- menstrual), realiza desejos e deixa as pessoas livres de problemas. “Vamos aderir porque ela está na moda” é o apelo da mídia. Desta forma, muitas pessoas que começam a praticar esperam que em apenas duas ou três sessões ou, quem sabe um mês, os resultados devam aparecer, e como nada acontece, elas acham que estão “perdendo tempo” e, perder tempo é algo inadmissível nos dias de hoje. Outra fator que pode confundir os iniciantes é a famosa frase “tudo é meditação” e aí se torna realmente obsoleto sentar imóvel para “não fazer nada”!