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D IFFERENT OPTIONS FOR “ EFFECTIVE AND COORDINATED ANTI - CORRUPTION POLICIES ”

a - O Modismo :

Como a própria palavra sugere, é aquilo que está na moda, logo tem um caráter efêmero, isto é, um tempo de vida curto. As pessoas se interessam de forma intensa um certo tempo e depois acabam buscando outras novidades. Ao se falar em moda, há dois autores que estudaram o fenômeno em profundidade: Gabriel de Tarde e Gilles Lipovetsky.

Para G. de Tarde, a moda é essencialmente uma forma de relação entre os seres, um laço caracterizado pela imitação dos contemporâneos e pelo amor das novidades estrangeiras. Não há sociedade senão por um fundo de idéias e de desejos comuns; é a semelhança entre os seres que institui o elo de sociedade, a ponto de ele afirmar que “a sociedade é a imitação”. A moda e o costume são as duas grandes formas de imitatividade que permitem a assimilação social das pessoas. (DE TARDE, apud, LIPOVETSKY, 1989:266).

Na visão de Gabriel de Tarde, o prestígio das tradições sempre acabaria por prevalecer perante as novidades , sendo que, “a imitação engajada nas correntes da moda não é, portanto, senão uma torrente bem fraca ao lado do grande rio do costume, e é preciso necessariamente que seja assim”. (TARDE apud LIPOVETSKY, 1989:267).

Para Lipovetsky, os tempos mudaram e a visão de Tarde está limitada ao período em que estudou este fenômeno, no século XIX ,

quando a moda ainda não ganhara toda sua extensão e deixava subsistirem amplos aspectos da vida coletiva sob o jugo da tradição e da autoridade do passado, mas que não se pode prolongar tal e qual num tempo em que a economia, a cultura, o sentido, a existência cotidiana encontram-se regulados pelo efêmero e pela sedução. Com a moda consumada operou-se uma mutação capital no eixo do tempo social, uma reviravolta na composição das forças entre moda e costume: pela primeira vez, o espírito de moda prevalece quase por toda parte sobre a tradição, a modernidade sobre a herança. À medida que a moda engloba esferas cada vez mais amplas da vida coletiva, o reino da tradição se eclipsa, não representa mais que uma “torrente bem fraca” comparado ao “grande rio” da moda (LIPOVETSKY, 1989:268). (O grifo é meu).

No caso em estudo, veremos que Yoga e Meditação, na década de setenta, despertaram no público um grande interesse e depois foram deixadas de lado. Poucos foram aqueles que incorporaram essas práticas aos seus hábitos diários. Na época atual, observa-se novamente um grande interesse, que se torna mais evidente no que se relaciona às práticas corporais, típico da pós-modernidade, e, neste caso, o Yoga do físico, conhecido como Hatha-Yoga. Observaremos, também, em muitos artigos divulgados pela mídia, que muitos resultados verificados dentro das pesquisas com meditação, foram transportados para o Hatha-Yoga, que é tratado de forma generalizada como simplesmente “yoga ou ioga”. Já as pesquisas realizadas pela medicina dentro da área da meditação levaram a mesma a ser aceita como uma técnica auxiliar dentro dos tratamentos considerados “alternativos”. A meditação passou a ser vista também como “modismo” sendo usada como uma panacéia, que “serve para tudo”, ou ainda, de forma esporádica, na presença de outras pessoas apenas “para chamar a atenção”. Este comportamento é comum principalmente entre os jovens, ou mesmo adultos, para ser aceito dentro de um grupo, pois, lembrando Tarde, “a imitatividade permite a assimilação social das pessoas”.

Sabe-se que uma palavra pode ser usada de forma correta ou errônea e, quando o seu emprego se intensifica, pode criar um modismo. Desta forma, a palavra “yoga” tem sido usada de forma generalizada para significar uma determinada atividade física ou exercício. Algumas pessoas a relacionam também a “uma religião que veio da Índia” e tudo é abordado de uma forma superficial, pois, o que importa é a novidade. Já a palavra “meditação” é vista como uma terapia ou reflexão sobre algum assunto ou tema; ou ainda, como algo que pode ser feito quando se está dançando, surfando, ouvindo música ou caminhando, dentro daquele contexto onde “tudo é meditação”.

Neste item sobre o modismo, estaremos reunindo aqueles artigos que apresentam uma visão deturpada do que seja o Yoga ou Meditação. Em 1967, Bastiou, prefaciando a obra Hinduísmo e Yoga, já alertava: “este Yoga que invade o Ocidente de forma irresistível; este Yoga, na maioria das vezes é tão deturpado, mutilado, transformado, que é difícil reconhecer-se, debaixo da fantasia exótica de seus trajes, a pureza pristina da sua origem.” ( BASTIOU apud SARMA, 1967:7).

Já vimos no capítulo primeiro que esta preocupação é antiga mas continuamos a verificar, no decorrer dos anos, este processo como algo muito presente na mídia.

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O Hibridismo

Quando buscamos o significado do termo nos dicionários, vamos encontrar uma grande variedade: o cruzamento de espécies diferentes de animais, de frutos com genótipos diferentes ou de palavras formadas por elementos tomados de diferentes línguas, e outros. Mas, o conceito que pretendemos abordar aqui é muito mais específico e está relacionado àquele proposto por Plínio, o Velho, que, como bem lembrou Canclini, já teria usado a palavra “ao referir-se aos migrantes que chegaram a Roma em sua época”. É também Canclini que define:

entendo por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. Cabe esclarecer que as estruturas chamadas discretas

foram resultado de hibridações, razão pela qual não podem ser consideradas puras. (CANCLINI, 2008:XIX). (O grifo em itálico é do autor).

Canclini cita como exemplo o hibridismo de idiomas, como o spanglish, o espanhol misturado com o inglês, que passou a ser usado de forma rotineira nos Estados Unidos e, da mesma forma, podemos citar, na Índia, o uso muito comum do hinglês, que é uma mistura do inglês com o hindi. O fenômeno da hibridação já foi visto com muita desconfiança, principalmente no século XIX, quando se pensava que estaria prejudicando o desenvolvimento social. Atualmente, o processo da hibridação, bastante usado nos alimentos (café, soja, milho, flores, e outros produtos), e aceito por uns e criticado por outros e está sendo realizado de forma ampla.

Quando se fala da Índia, tem-se um campo muito vasto para discussões relacionadas ao hibridismo, pois, trata-se de um país milenar, que passou por diversas invasões estrangeiras e guarda um enorme encontro de culturas. Só este objeto, a hibridação na Índia, já valeria uma pesquisa. De forma resumida, citamos alguns desses “encontros”, tais como:

1-Quanto ao idioma, já foi citado acima, o hinglês. Mas, o país possui vários dialetos que acabaram dando origem a um número elevado de termos “hibridados” e que são usados regularmente pela população.

2-No que diz respeito à arquitetura, é evidente a influência da cultura árabe em vários monumentos históricos.

da Intocabilidade de 1955, elas continuam a vigorar num desacordo radical com a própria idéia de democracia. Podemos considerar a relação social na Índia de uma complexidade impenetrável. Na verdade, um indiano aprende desde pequeno a identificar a casta de uma pessoa, seja pelo tom de pele, pelo nome, pela profissão, sem contar outras distinções mais sutis. Há uma infinidade de castas e sub-castas (até mesmo a casta dos limpadores de orelhas ou, mais recentemente, a casta da informática) mas, para o turista, o indiano alega que “isto é coisa do passado”. Para verificar esta realidade basta olhar os jornais de domingo, onde aparecem os anúncios matrimoniais. Cada anúncio mostra as qualidades do pretendente e as suas exigências, principalmente no que diz respeito à casta. Atualmente, já se pode encontrar casamentos sendo realizados entre castas diferentes, mas, trata-se de uma hibridação discreta que vem acontecendo.

4-Na tecnologia, a Índia é o país com um dos maiores desenvolvimentos no que diz respeito à área da informática e é o fator que mais impulsionou a “globalização”. A cidade de Bangalore oferece técnicos de primeira linha para Europa e Estados Unidos e o governo já teme uma “fuga de cérebros”. É neste setor, também, que vamos encontrar a tradição sendo informatizada, típica do hibridismo. Já se tornaram conhecidas as “animações” realizadas em computadores como as histórias de Rama e Sita, ou Hanumam, deuses que são venerados por todo o país. Lembra Canclini que “os meios de comunicação eletrônica, que pareciam destinados a substituir a arte culta e o folclore, agora os difundem maciçamente” (CANCLINI, 200818).

Em minha última visita à Índia, em 2007, observei muitas versões do deus Shiva modernizadas, com músculos de atleta, que mais parecia ter saído de um Fitness Center. É a imagem de Shiva modificada pela propaganda e lançada com um novo visual. Talvez a figura do Shiva asceta, transfigurado pelo jejum, seja um pouco antiquada para a visão do homem que se diz “moderno”.

Na visão de Canclini, trata-se de um processo natural daquilo que ele chama de hibridação:

A hibridação, de certo modo, tornou-se mais fácil e multiplicou-se quando não depende dos tempos longos, da paciência artesanal ou erudita e, sim, da habilidade para gerar hipertextos e rápidas edições audiovisuais ou eletrônicas. (CANCLINI, 2008: XXXVI)

5-Na música, temos atualmente canções e temas indianos que foram reelaboradas por grupos ingleses, como os Beatles ou ainda por Peter Gabriel. Mas, falar sobre a Índia é falar em música. Não há um só estrangeiro que não tenha ficado surpreso, ou até irritado, com a altura do som usado pelos indianos, principalmente os motoristas. As vozes femininas se tornam o principal instrumento, sendo finas e onduladas e você pode ouví-las em qualquer lugar onde houver pessoas. Festas, shows, cores, música e dança abundam na Índia. As músicas usadas em concertos ou espetáculos de dança, com o uso de flautas, tambores e instrumentos de corda, como a cítara, são realmente fascinantes. E estas foram as que mais passaram por um processo de hibridação no ocidente.

6-A dança que se assiste hoje na televisões da Índia estão bastante ocidentalizadas, mostrando a influência que a globalização exerce sobre o país.

7-Nos filmes, Bollywood é a principal industria de entretenimento da Índia, maior que a televisão. O cinema indiano também tem recebido forte influência do cinema americano, lembrando que a concorrência na produção não está apenas no nome.

8-Nos trajes. Já podemos encontrar na Índia muitos jovens adolescentes que se vestem ao estilo ocidental, usando jeans e camisetas. Entre os adultos, a ocidentalização do traje é mais notória entre os homens. Entre as roupas tradicionais, o sari ainda tem sua presença garantida entre a maioria das mulheres, principalmente em grandes celebrações. De outro lado, podemos ver também muitas mulheres ocidentais aderindo aos trajes indianos, se tonando orientalizadas. Algumas até trazem o tradicional sinal na testa, tornozeleiras com pequenos pingentes, pulseiras coloridas e outros adornos que se tornaram tão fáceis de encontrar no mercado internacional.

9-Nos hábitos diários. Em muitas casas indianas já se pode encontrar o uso de talheres como usual no mundo ocidental, o que não era visível anos atrás. Os talheres eram encontrados apenas em hotéis de luxo e na maior parte usados por estrangeiros.

10-No que diz respeito à religião, o que se costuma denominar de sincretismo aparece na Índia, na forma de uma mistura fantástica de deuses que são cultuados de modo livre. Jesus, por exemplo, é aceito em quase todas as religiões como o “mahayogue” (o grande Yogue). O país ainda está muito ligado às suas tradições, o que se reflete nos festivais que continuam a ser realizados, a cada ano, atraindo sempre milhares de fiéis. Nas cidades consideradas sagradas, alguns templos mantêm suas portas fechadas para aqueles que não praticam o mesmo credo. Em alguns locais, como Varanasi, os olhares curiosos e as câmaras fotográficas são controladas para que o ambiente não seja profanado. Além dos

ferrenhos defensores das suas tradições, existem aqueles que já não são tão crédulos e, entre eles, o público jovem é a grande maioria, mas esta passagem não é tão fácil. Lembra Canclini que:

Quando uma tradição ou um saber já não dão retorno, não se pode trocá-los por outro, como quem desloca um depósito de um banco a uma empresa financeira, de um ramo de produção ao seguinte. Há uma carga afetiva investida, um luto a fazer quando ela é perdida. A “investição” nos coloca diante do drama da temporalidade e dá uma chave a mais para entender a persistência e a obsolescência simultâneas das formas tradicionais do culto e do popular. (CANCLINI, 2008:363).

Quando se fala em hibridismo, lembramos de fusão, que pode nos remeter ao termo cisão. Assim como existem pessoas interessadas na troca de informações (na Índia são os mais jovens), existem aquelas que consideram a influência do mundo ocidental no seu país uma afronta à sua cultura e tradição (na Índia, são os mais velhos). Novamente Canclini :

A teoria da hibridação tem que levar em conta os movimentos que a rejeitam. Não provêm somente dos fundamentalismos que se opõem ao sincretismo religioso e à mestiçagem intercultural. Existem resistências a aceitar estas e outras formas de hibridação porque geram insegurança nas culturas e conspiram contra sua auto-estima etnocêntrica. Também é desafiador para o pensamento moderno de tipo analítico, acostumado a separar binariamente o civilizado do selvagem, o nacional do estrangeiro, o anglo do latino. (CANCLINI, 2008: XXXIII).

Poderíamos completar o texto acima com as palavras: “e o ocidente do oriente”. O mundo está pequeno, e esta é uma das características da pós-modernidade, pois com apenas um “bilhete” podemos cruzar oceanos e vivenciar o outro lado do planeta. Mais rápido ainda é fazer uso de um telefone ou ainda da internet, mas isto não significa que esta intensificação da comunicação resulte em uma interculturalidade pacífica. As reações existem e verificamos que, entre os estudiosos, teremos aqueles que vêem a globalização ou o “hibridismo” de forma mais positiva, como Canclini ou de forma equilibrada como Hall:

Algumas pessoas argumentam que o “hibridismo” e o sincretismo – a fusão entre diferentes tradições culturais – são uma poderosa fonte criativa, produzindo novas formas de cultura, mais apropriadas à modernidade tardia que às velhas e contestadas identidades do passado. Outras, entretanto, argumentam que o hibridismo, com a indeterminação, a “dupla consciência” e o relativismo que implica, também tem seus custos e perigos. (HALL, 2005:91).

Ou, segundo a análise diferenciada de Stiglitz, “até os defensores da globalização descobriram que pode haver uma conexão entre globalização e desigualdade”. (STIGLITZ: 2007:17).

Ao analisar a mídia, reunimos artigos onde pudemos perceber uma hibridação do Yoga e da Meditação, isto é, ambos sendo praticados não com a finalidade primeira, mas, o Yoga visto como uma atividade física que promove a saúde e a meditação sendo tratada como técnica auxiliar da medicina e como terapia. As duas visões não são negativas, mas diferentes daquelas propostas pelos grandes mestres dentro de uma “tradição”. Como bem lembrou Feuerstein:

Assim, ao contrário do Yoga “pop” adotado por tantos ocidentais, o verdadeiro Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha. 'Ninguém aprende Yoga por si mesmo', observou Eliade. Muito pelo contrário, o Yoga, como todos os sistemas tradicionais indianos, envolve um processo de discipulado no decorrer do qual um mestre revela os seus segredos ao discípulo ou ao devoto que se mostrarem dignos (FEUERSTEIN, 2006:42). (O grifo é meu).

O autor usa a expressão Yoga “pop”, que está tão ligada ao tema pós-moderno. Também valoriza a relação mestre-discípulo, expressão esta que também já caiu em desuso, mesmo porque o verdadeiro mestre é muito difícil de ser encontrado. Na atualidade, encontramos, como diz Feuerstein, muitos “yoguistas”. Ele esclarece:

O termo “yoguista” é de cunhagem moderna e denota o entusiasta ocidental que se interessa sobretudo pelo aspecto físico do Yoga – especialmente pelas posturas (âsanas) -, e não pelo Yoga como disciplina espiritual de realização do Si Mesmo. (FEUERSTEIN, 2006:41).

Esta afirmação reforça o nosso pensamento de que a visão do Yoga-Meditação precisa ser enfatizado para que uma tradição de tanto valor não acabe se transformando em mero “exercício físico”. Mas, o que é uma tradição?

c- ATradição

Os significados da palavra tradição, no dicionário, são vários.

1- ato ou efeito de transmitir ou entregar; 2- comunicação oral de fatos, lendas, ritos, costumes etc, de geração para geração; 3- herança cultural, legado de crenças, técnicas, etc, de uma geração para outra, 3.1- conjunto de valores morais,

espirituais etc, transmitidos de geração em geração; ... 5- em certas religiões, conjunto de doutrinas essenciais ou dogmas não explicitamente consignados nos escritos sagrados, mas que, reconhecidos e aceitos por sua ortodoxia e autoridade, são, por vezes, usados na interpretação dos mesmos . ...( HOUAISS,2001:2745).

Esta explicação nos ajuda a entender a visão do Yoga e da meditação dentro de uma tradição, neste caso, a indiana. A transmissão dessas práticas têm sido feita, há milênios, oralmente, de geração para geração, num processo de discipulado. O Yoga como sistema foi organizado por Patanjali (mas já existia antes) e traz oito passos, sendo que o primeiro deles diz respeito a preceitos morais: yamas e nyamas. Os passos organizados pelo sábio Patanjali nem sempre foram fielmente respeitados pelos mestres, e alguns apenas fizeram uso dos três últimos. Já vimos no primeiro capítulo que muitos mestres não ensinavam a seus discípulos os asanas, ou posturas, mas se preocupavam diretamente com as práticas mentais, ou seja, a concentração, meditação para levar ao samadhi e, finalmente, à iluminação tão desejada.

Sabe-se que sempre existiu por parte de alguns indivíduos uma oposição clara a tudo que seja moderno, o que se costuma chamar de tradicionalismo, ou ainda, purismo. Neste contexto, Canclini esclarece:

Tanto os tradicionalistas quanto os modernizadores quiseram construir objetos puros. Os primeiros imaginaram culturas nacionais e populares “autênticas”; procuraram preservá-las da industrialização, da massificação urbana e das influências estrangeiras. (CANCLINI, 2008:21).

Proteger as tradições, principalmente das influências estrangeiras, foi e ainda é, na Índia, uma preocupação constante principalmente entre alguns grupos religiosos. Sabe-se que a meditação, como técnica que leva à iluminação, ficou restrita durante muito tempo entre as paredes de grandes mosteiros e só em época mais recente os livros, considerados sagrados, foram divulgados ao público visto como “profano”. O próprio Yoga, como uma técnica capaz de despertar poderes, os conhecidos siddhis, foi absorvida pelos sacerdotes brahmanes e só podia ser revelada àqueles considerados por eles como pessoas “especiais”. A partir daí as técnicas yóguicas passaram a ser envolvidas por elementos religiosos, um comportamento que persiste até os dias de hoje, pois, sabe-se que a tradição sempre se viu envolvida com a religião. No que diz respeito ao Yoga-meditação, principalmente, percebe-se que existe atualmente uma tendência clara em separar esses dois conceitos. Giddens ao pesquisar sobre As conseqüências da Modernidade relata:

O impacto decrescente da religião e da tradição tem sido discutido com tanta freqüência na literatura das ciências sociais ... A secularização é sem dúvida uma questão complexa e não parece resultar no desaparecimento completo do pensamento e atividade religiosos – provavelmente por causa do poder da religião sobre algumas das questões existenciais vistas acima. No entanto, a maior parte das situações da vida social moderna é manifestamente incompatível com a religião como uma influência penetrante sobre a vida cotidiana. A cosmologia religiosa é suplantada pelo conhecimento reflexivamente organizado, governado pela observação empírica e pelo pensamento lógico, e focado sobre tecnologia material e códigos aplicados socialmente. Religião e tradição sempre tiveram uma vinculação íntima, e esta última é ainda mais solapada do que a primeira pela reflexividade da vida social moderna, que se coloca em oposição direta a ela. (GIDDENS, 1991:111). (O negrito é meu).

Pensando como Giddens, muitos grupos se organizaram na Índia com o objetivo de defender a sua tradição. Sabe-se porém que alguns estudiosos defendem a idéia que “a modernização diminui o papel do culto e do popular tradicionais no conjunto do mercado simbólico, mas não os suprime”. (CANCLINI, 2008:22). Concordamos com Canclini quando diz que “não os suprime” mas a intenção com que a televisão, os vídeo-clips são criados é totalmente diferente. A relação neste caso é temporária, descartável e substituída com muita facilidade. O próprio Canclini reconhece que:

Para a mídia e para as novas tecnologias recreativas não interessam as tradições senão como referência para reforçar o contato simultâneo entre emissores e receptores; não lhes importa a melhoria histórica, mas a possibilidade de participação plena e fugaz no que está acontecendo. (CANCLINI, 2008:363)

Neste texto de Canclini detectamos uma situação que ocorre na Índia, país onde a religião permeia muitos aspectos da vida em sociedade e que atualmente se destaca mundialmente na área da informática estando também envolvido com a tecnologia recreativa. As empresas dos ramo usam dos inúmeros deuses, dos grandes épicos como o

Mahabharatha ou Bhagavad Gita, para atrair e manter o público ligado às suas tradições.