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Neste longo capítulo, configurei o âmbito da transformação social no conjunto dos discursos desses atores. Porém, como se viu, em cada entrevista uma noção diferente de transformação social se configurou. É o que no início deste capítulo chamei de transformação multifacetada, pois esta não segue uma linearidade nos discursos de cada ator institucional.

Por outro lado, a prática institucional se caracteriza justamente pelo resultado das práticas dos diversos agentes institucionais com a clientela. Porém, relembro que essa prática não é unívoca. É na nuance da prática de cada agente institucional – no contato com a clientela – que esta se concretiza, materializando-se de formas diferentes, mas configurando uma rede de relações sociais concretas que caracterizam a prática institucional como um todo.

Nesta análise, configurei a prática social do Projeto B adotando uma minha linha condutora: apontar como essa prática é “nomeada” como transformadora (respeitando a nuance discursiva de cada ator). Portanto, um recorte analítico que não deve ser confundido com a totalidade concreta da instituição. Em outras palavras, configurei no discurso dos atores institucionais a transformação social concebida por cada um e isso não representa a transformação social atuada pela Fundação A. Isso por três motivos: o primeiro é que configurei uma transformação social segundo um recorte analítico. Portanto, trabalho no plano de análise e não no plano de realidade. O segundo é ter configurado uma transformação multifacetada e não uma transformação unívoca. O terceiro é que o plano discursivo que trabalho é diferente do plano discursivo de outras disciplinas, que consideram a transformação social segundo seus próprios parâmetros.

Portanto, neste momento da análise não entro no mérito da questão se tais práticas são transformadoras ou não. Como anunciado no começo deste trabalho, o próximo capítulo é dedicado à tentativa de confrontação dos discursos de transformação social das outras disciplinas com aqueles concebidos por este trabalho analítico.

Entretanto, algumas considerações sobre as análises feitas são necessárias. Pelas falas dos entrevistado se percebe uma rarefação dos sentidos das palavras. Dito de outra forma, nota-se uma disparidade discursiva nos sentidos, apesar do mesmo significante ser usado. Um exemplo é “criança”, com diferentes significações em cada um dos discursos analisados. Decorrente disso, a condição atribuída aos atendidos diverge: no discurso expresso pelos documentos institucionais o lugar atribuído a eles é diferente daquele atribuído pela educadora, que por sua vez é bem diferente daquele atribuído pela educanda.

O ponto que chamo atenção é daquilo que nomeio como geografia discursiva142

, em que há diferentes lugares nos discursos de cada entrevistado e a partir de onde eles falam. Durante toda a análise tentei mapear esse lugares e os cruzamentos destes no discurso dos entrevistados, dando ênfase para as redes de relações vividas no Projeto B. Dessa geografia discursiva resulta a disparidade referida acima, que acaba dando o tom das práticas sociais do Projeto B. Ou seja, as práticas nomeadas como transformadoras são multifacetadas por essa característica basal.

Por outro lado, a tendência da Fundação A é a de rotular uma gama de ações diferentes como sendo iguais e seguindo a mesma direção. Todavia, as ações não seguem o mesmo padrão, o que configura uma disparidade entre o discurso homogeneizador da Fundação e aquele de seus atores institucionais. Pelas análises feitas, se percebe um grau diferente dessa disparidade. O discurso do técnico de desenvolvimento resguarda significativa proximidade com o discurso dos documentos institucionais. A coordenadora pedagógica tem um discurso semelhante, mas já apresenta significativas diferenças do discurso dos documentos institucionais. Já no discurso da educadora, a diferença é nítida. Analisando-se os discursos da clientela, também se nota disparidade entre suas vidas e o que se espera delas. Logo, percebe- se que quanto mais próximo da ponta do serviço, maior a tendência de disparidade discursiva. No meu entender, a Fundação A segue um projeto político consoante com aquele pregados pelo Terceiro Setor de modo geral. Pela leitura dos documentos institucionais seria fácil identificar os pontos de enlace. Mas o que chamo atenção é que sob esse rótulo de agente transformador da realidade, inúmeras ações são praticadas e não necessariamente elas seguem na mesma direção que esse projeto político. No caso estudado, se percebe que os trabalhos desenvolvidos pela educadora e coordenadora pedagógica são nomeados como transformadores, seguem um método de ação e tem uma direção definida, mas não condizem exatamente com os preceitos da Fundação A. Da mesma forma, o resultado identificável pelos discursos do ex-educando e educanda também não é exatamente o que se esperava deles. Em outras palavras, uma multiplicidade de ações nomeadas segundo um mesmo rótulo pela organização.

Aprofundando-se neste aspecto, nota-se que o discurso da Fundação A sobre as transformações sociais é marcado pelo tom de gestão da organização e dos problemas sociais enfrentados pelos programas e projetos. Nas entrevistas de cada um dos agentes institucionais isso aparece de modo mais ou menos claro – mais uma vez, segundo níveis de disparidade.

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Porém, no discurso dos atores institucionais as transformações e o tom do trabalho é expresso de outra maneira: o trabalho com a “afetividade” foi bastante ressaltado no discurso dos agentes do Projeto B e pode-se perceber o efeito deste trabalho no discurso dos atendidos. Portanto, a prática desses agentes institucionais não são meras repetições dos preceitos da Fundação A, mas são também criações de novas práticas.

Explico melhor esse ponto. Pode-se encontrar em todos os discursos analisados uma concepção de esgarçamento do tecido social, que serve como pressuposto às ações. Nesse sentido, o primeiro desafio das propostas de ação com as crianças e adolescente em situação de risco pessoal e social é a de institucionalizá-los segundo padrões pré-estabelecidos – de inclusão social e construção da cidadania. Portanto, encontra-se também uma concepção de sujeito político desta organização, que pressupõe uma formação a priori desse sujeito que seja capaz de exercer sua atribuição política. Assim, mais do que apenas uma concepção de esgarçamento do tecido social, há um suposto de esgarçamento do tecido subjetivo143 que não é diretamente enfocado pelas ações.

Mas como já dito, as práticas institucionais não indicam apenas a reprodução desses supostos, mas apontam também uma produção de novos sentidos: o trabalho com a “afetividade”, baseado na construção de vínculos entre educadores e educandos, resulta no reconhecimento da clientela enquanto sujeito. Como se pode perceber pelas entrevistas, esse trabalho não é reconhecido enquanto tal pelos envolvidos nas práticas do Projeto B, apesar de estar calcado sobre a reconstrução do tecido subjetivo.

Em suma, as categorias pré-estabelecidas de transformação social, que pensam a transformação da clientela numa direção, não contemplam aquilo que encontrei nas análises: o trabalho com a “afetividade”. Dito de outra forma, essas categorias que configuram a prática de transformação social não contemplam os fenômenos psicológicos que são a própria condição dessas categorias.

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