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G ENERELLE PROSJEKTFASER I ET EIENDOMSPROSJEKT

A entrevista com o ex-educando começa com a configuração que ele dá a sua vida em referência a algum lugar.

E – Eu gostaria que você falasse sobre sua vida. Ex-educando (EE) – O que, aonde assim? E – Ah, aonde você quiser, assim.

EE – Ah, minha vida. Ah, eu sou filho de pais separados. E – Você é filho de pais separados?

EE – Aham. Eu sempre morei aqui em T [nome de cidade], né. E – Com quem você mora aqui?

EE – Aqui? Com minha mãe aqui, nessa casa. Eu morava com meu pai, né, aí eu acho com meus 7 anos meus pais separaram e... aí nós mudamos, umas 5 mudanças, eu acho, fomos mudando, moramos em barraco, cortiço, né, devido a separação. Ai meu avô me deu esse terreno aqui, né, entregou pra minha mãe e ai a gente mora aqui até hoje, né.

E – Vocês moram faz tempo ai? EE – Ano que vem faz 10 anos.

Percebe-se que essa referência de lugar está marcada pela localização em uma família e pela localização em um espaço geográfico. No que se refere à família, já se notam as concepções do ex-educando sobre sua própria família e, portanto, a representação de como ele se insere nesse conjunto de relações: filho de pais separados. Este é primeiro lugar de onde fala.

Na seqüência da entrevista, o ex-educando fala de seu contato com o pai e da família, além de dar os indícios dos outros conjuntos de relações: aquelas vividas no Projeto B (com as crianças e as aulas de arte que teve).

E – E o seu pai, ele está onde?

EE – Ele está lá na casa dele, no centro de T [nome de cidade], ali. E – Ah, aqui perto, assim.

EE – Aham.

E – E vocês se vêem com freqüência? EE – É...

E – Ou não?

EE – É, difícil. Dois meses, assim. Não vejo todo final de semana ele. E – Sei. Mas qual é a sua relação com seu pai, assim?

EE – Minha relação? Não tenho aquela relação assim mesmo pai e filho, aquela coisa, mas... ah, normal.

E – Mas normal como? EE – Ah?

E – Como normal?

133 O local onde esta entrevista era um pouco barulhento. Por conta disso, muitas vezes o entrevistado não ouvia

EE – Ah, não é aquela relação assim, tipo pai e filho mesmo que... é a fundo mesmo, de falar tudo, sabe assim. É “oi pai, tal”, conversa e só, não tem...

E – E vocês conversam do que?

EE – É, não, a gente conversa do dia a dia, tal. O que eu tô... o que acontece aqui, o que acontece lá e só, não tem...

E – Você conta o que acontece aqui, assim? EE – Aqui assim, na... no...

E – Na Fundação?

EE – No Projeto não, porque nunca... uma vez ou outra, assim, eu já falei, mas... E – Ah é? E o que que você fala, assim? O que que você falou, assim?

EE – Da Fundação, já, para ele? E – É.

EE – Não, ele perguntou o que era essa Fundação, né, eu falei que era um.. que tem um Projeto, tem as crianças, quando eu tinha aula de artes aqui dentro. Mas é pouca coisa. Eu e meu pai não tem muita... assim, ligação.

O primeiro ponto que destaco é o uso dos advérbios de lugar. No trecho destacado não os utilizou muitos, mas ao longo de toda a entrevista o ex-educando utiliza bastante esses advérbios (ali, lá, aqui, ai). Essa utilização não é apenas para se referir ao lugar espacial, mas ao lugar nas relações. O segundo ponto é a relação com o pai: uma relação “normal”, em que apenas se conversa sobre assuntos do dia a dia e que não é uma relação funda. Interessante notar a palavras utilizadas na sua representação dos lugares ocupados com a família: filho de pais “separados” e entre ele e o pai não tem “ligação”. O terceiro ponto é a demarcação dos outros conjuntos de relações que marcam sua vida: as crianças e a aula de artes; ambas do Projeto B (nota-se que ele intercambia Fundação e Projeto. Ao longo de toda a entrevista ele usa ambos, mas designando a mesma coisa).

Nos tópicos que se seguem, destrincho esse conjunto de relações mais detalhadamente, dando o devido destaque às representações do lugar ocupado no conjunto de relações vividas no Projeto B. Relembro que outros conjuntos de relações se configuram no discurso do ex- educando, mas privilegiei estas duas, por serem temas recorrentes.

b) Educanda

A educanda começa a entrevista diferente que o ex-educando. Na configuração que ela dá a sua vida, se percebe uma tendência em dividi-la em partes/momentos diferentes.

E – Eu gostaria que você me falasse sobre sua vida.

Educanda (EA) – Minha vida pessoal [riso] ou profissional? E – Ah, tanto faz.

EA – Ah, antes ou depois deu conhecer a Fundação? E – Você é quem decide também.

EA – Ó, antes deu conhecer a Fundação eu ficava na rua, eu ia pra escola, ajudava minha mãe no serviço doméstico. Depois que eu terminava ficava conversando com minhas amigas. Não

tinha nenhuma experiência, não sabia quase de nada, só estudava. De estudar para casa, casa era rua, rua casa, pra escola... dai eu conheci a Fundação, onde eu faço parte agora. Eu desenvolvi várias coisas. Eu era quieta, agora eu sou bastante comunicativa, estou aprendendo a lidar com o público, tal, e... é legal, assim, a vida é um livro aberto que eu gosto de... ter amigos, gosto de falar bastante. É isso.

Na primeira fala, em tom jocoso, ela fala em vida pessoal e profissional. Em seguida, ela fala de um momento divisor: antes e depois de conhecer a Fundação134. Durante toda entrevista, seu discurso será marcado por esse padrão de divisão entre um momento anterior e outro posterior.

Além disso, neste início de entrevista se percebe alguns conjuntos de relações que ela “faz parte”. O primeiro que ela menciona é a vida em casa. Outro é a vida com as amigas (os), que se entrelaça com a vida na Fundação. Ao falar em “livro aberto”, infiro que não está apenas usando uma metáfora para se referir às características que desenvolveu na Fundação (ser comunicativa e lidar com o público), mas também uma metáfora de como ela percebe sua vida de modo geral.

Da mesma forma que na análise da entrevista do ex-educando, também destrincho esses conjuntos de relações, mas dou maior ênfase àquele vivido no Projeto B.

3.3.2. O lugar de si na família.