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In document - Det lille i det store - (sider 36-42)

Estamos lidando com um fenômeno linguístico que pode ser facilmente definido se quisermos fazê-lo de modo superficial. E assim o fazem os que apenas afirmam que intertextualidade é diálogo entre texto. Esta afirmação não deixa de ser verdadeira, mas é insuficiente e muito superficial. Ao pensarmos no fenômeno mais detalhadamente e com maior profundidade científica, veremos que muitas questões problemáticas surgem quando pensamos nos limites deste conceito. O fenômeno ocorre por meio de tantas possibilidades que se torna difícil delimitá-lo e isto, consequentemente, compromete uma conceituação precisa. Por este motivo, optamos por fazer aqui alguns esclarecimentos iniciais que são de fundamental importância para que bem se entenda o fenômeno da intertextualidade e também para que sejam percebidas, com precisão, as fronteiras entre ele e outros recursos linguísticos que, muitas vezes, com ele se confundem. Mesmo com a reflexão que agora iniciamos, de antemão já sabemos que as nossas observações não esgotam as muitas dúvidas e desdobramentos que o tema provoca.

A título de introdução desta fundamentação, destacamos algumas observações que consideramos indispensáveis ao estudo deste recurso textual. Neste intento, começamos por estabelecer distinção entre dialogismo e intertextualidade, já que estes conceitos são, semanticamente, muito próximos e, muitas vezes, são tomados como sinônimos. Em seguida, tomamos a questão da distinção entre a intertextualidade ampla ou dialógica e a intertextualidade restrita ou stricto sensu. E, por fim, comentamos ainda sobre o ponto de vista de construção da intertextualidade, a fim de limitarmos o universo do fenômeno.

Antes mesmo de apresentarmos conceitos de intertextualidade, uma primeira advertência se faz necessária e diz respeito à distinção entre intertextualidade e dialogismo,

com o intuito de evitarmos ideias confusas em torno destes dois conceitos. Embora sejam ocorrências linguísticas que se aproximam e se entrecruzam, elas são ocorrências distintas. Contudo, apresentam uma relação de proximidade muito grande entre si, a ponto de estes fenômenos serem confundidos por observadores pouco atentos. Para tanto, tomamos aqui as esclarecedoras palavras de Cavalcante e Brito (2011) no seguinte fragmento:

Enquanto as noções de dialogismo e heterogeneidade enunciativa são constitutivas da linguagem, a concepção estrita de intertextualidade com que operamos em nossas análises não o é. Toda intertextualidade supõe o caráter dialógico de todo discurso e o atravessamento de vozes que representam diferentes lugares sociais que se estabilizam e se desestabilizam durante as interações. Mas a recíproca não é verdadeira: nem tudo que é dialógico e heterogêneo constitui, necessariamente, um intertexto com suas marcas, reconhecíveis para uns, e nem sempre para outros. (CAVALCANTE; BRITO, 2011, p. 260-261).

Conforme a citação, fica clara a distinção entre dialogismo e intertextualidade. Toda ocorrência intertextual é, por natureza da própria linguagem, dialógica, mas nem todo dialogismo é intertextual. Outra distinção importante é lembrar que o dialogismo é um fenômeno “quase invisível”, ou seja, não palpável, não perceptível por marcas deixadas no texto, enquanto a intertextualidade, embora nem sempre percebida por todos, como advertem Cavalcante e Brito na citação, ela sempre apresentará marcas a serem percebidas. Além destas distinções, também é indispensável lembrar que a ocorrência intertextual depende de escolha consciente do produtor, já o dialogismo existe em qualquer manifestação da linguagem, independente da intenção do produtor do texto. Este esclarecimento está bem colocado em Nobre (2013, p. 9):

Assim, entende-se o dialogismo como um fenômeno efetivamente mais amplo, que acaba por abarcar os fenômenos intertextuais, mas não o contrário, uma vez que a intertextualidade é uma estratégia que demanda a escolha consciente do produtor de um texto, ao passo que o dialogismo, consoante sua natureza constitutiva, existirá em qualquer manifestação de linguagem sem possibilidade de livre-arbítrio por parte do produtor do texto. O critério de consciência, no mais das vezes, também escapa ao produtor quando se está tratando do ‘lugar’ discursivo, uma vez que, tão submerso em determinada formação discursiva, o enunciador acaba por reproduzir os discursos, legitimando-os.

Acreditamos que as duas citações aqui apresentadas esclarecem definitivamente esta questão da distinção entre dialogismo e intertextualidade. Aproveitamos para esclarecer também que, embora alguns estudiosos vejam e concebam a intertextualidade neste sentido dialógico, ampliado, bakhitiniano, nossa pesquisa não se debruçará sobre a intertextualidade vista desta forma generalizada, mas sim sobre as ocorrências intertextuais tomadas em sentido restrito, ou melhor, na relação entre textos. Isso evitará também que o fenômeno da

intertextualidade seja visto ilimitadamente, sob qualquer perspectiva ou ponto de vista, fazendo com que percamos os limites da ocorrência em questão, o que implicaria na abertura dos limites da intertextualidade rumo ao infinito, ao imensurável. Em outras palavras, queremos deixar claro que a intertextualidade será considerada aqui a partir da ótica do autor, para evitar que consideremos a ótica do locutor e que a intertextualidade perca os seus limites e possibilidades de análise. São esclarecedoras as palavras de Nobre (2013, p. 12) em relação a esta questão:

Em síntese, defendendo, então, que a intertextualidade é algo planejado, isto é, consciente, e de forma consequente só poderá ser tomada do ponto de vista do autor; mesmo que um leitor porventura não recupere a relação intertextual (nos casos das alusões, principalmente), ela existirá, pois o produtor do texto teve intenção de estabelecer uma relação intertextual e esperava que os potenciais leitores a percebessem – perspectiva esta já assumida por Cavalcante (2006, 2008a; 2008b; 2012) e por Cavalcante e Brito (2011, 2012).

Em consonância com o que afirmou Nobre (2013), não nos interessa investigar a intertextualidade constitutiva como a definem Charaudeau e Maingueneau (2004, p. 288), nas palavras seguintes: “o termo intertextualidade designa, ao mesmo tempo, uma propriedade constitutiva de qualquer texto e o conjunto das relações explícitas ou implícitas que um texto ou um grupo de textos determinado mantém com outros textos”. Para nós, interessa aqui especificamente investigar a intertextualidade no sentido de conjunto de relações entre textos, como a definem em segunda opção os autores neste fragmento. Assim sendo, esclarecemos que as imagens analisadas por nós nesta tese são dialógicas e intertextuais, entretanto não é foco da nossa pesquisa investigar a natureza dialógica delas, mas sim analisar o que elas contêm de intertextual.

Nosso ponto de partida para esta pesquisa não poderia deixar de ser os estudos de Kristeva (1974), nos quais ela anunciou a tão conhecida e citada expressão para definir o texto: “um mosaico de citações”. É exatamente a composição deste mosaico textual, que se dá por meio da intertextualidade, que nos interessa analisar, no intuito de conhecermos melhor as partes que o compõem. Acrescentemos ainda que esta percepção da autora, para nós, hoje, óbvia, à época causou muitas discussões, uma vez que pôs em questionamento a ideia até então consolidada de o autor como único e verdadeiro “dono” do seu próprio texto. Para a autora, todos os textos são construídos a partir de um mosaico de citações. Ela ainda acrescenta que todo texto é a absorção e transformação de outro texto. A partir desta

constatação, houve uma verdadeira revolução na maneira de ver, considerar e julgar o texto e a sua gênese.

Oito anos após os estudos de Kristeva, vem à luz a proposta de Genette (2010), na qual o autor define as relações entre textos como transtextuais, apontando cinco tipos ou categorias, que são: a intertextualidade, a paratextualidade, a metatextualidade, a hipertextualidade e a arquitextualidade. No momento, não detalharemos a proposta de Genette (2010) porque o faremos, em breve, na seção na qual trataremos da nossa base teórica, exatamente pelo fato de a proposta dele ser o cerne da nossa fundamentação.

A partir de Genette (1982), Piègay-Gros (1996) dá sequência aos estudos acerca das ocorrências intertextuais e apresenta uma nova organização para elas. A autora reagrupou as ocorrências intertextuais em um quadro mais simplificado que o apresentado por Genette (1982). Na classificação de Piègay-Gros (1996), a síntese que define teoricamente a intertextualidade é composta por dois grandes grupos de ocorrências que ela definiu como relações intertextuais de copresença (citação, referência, plágio e alusão) e relações intertextuais de derivação (paródia, travestimento burlesco e pastiche). É imprescindível lembrar, para a reconstrução da linha evolutiva dos estudos da intertextualidade, que tanto Genette (2010) quanto Piègay-Gros (1996) detiveram-se a analisar o fenômeno da intertextualidade apenas entre textos literários. Apontada esta afinidade, por outro lado, convém mencionar que o que se percebe de mais distintivo entre as propostas de Genette (1982) e Piègay-Gros (1996) é que ela, nesta nova abordagem, desconsiderou as relações de paratextualidade, metatextualidade e arquitextualidade, apontadas por Genette (2010).

Na galeria dos teóricos que teceram considerações sobre a intertextualidade, surge o nome de Authier-Revuz (1982), que, estudando o fenômeno da heterogeneidade enunciativa, acresce algo novo aos estudos intertextuais quando convoca a psicanálise e, sob a orientação intelectual de Freud e Lacan, a autora acrescenta, ao já definido pelos seus antecessores, a inclusão do inconsciente como partícipe constitutivo da heterogeneidade e aponta a intertextualidade como um tipo de heterogeneidade não marcada. Diferentemente de Genette (1982) e de Piègay-Gros (1996), Authier-Revuz (1990) não teve intenção de apresentar proposta classificatória para as ocorrências intertextuais como foi o propósito dos dois outros autores. Ela apenas menciona a intertextualidade como um dos tipos de heterogeneidade enunciativa. Entendemos que a convocação epistemológica que agora

fazemos da Authier-Revuz (1982) não segue o mesmo curso da linhagem bakhtiniana que rege o nosso percurso teórico. Entretanto, consideramos prudente mencioná-la somente como um registro de um estudo significativo na lista das pesquisas já realizadas. Citamos aqui a referida autora apenas com o intuito de dar crédito à sua pesquisa no campo do fenômeno intertextual. Por isso mesmo não desenvolveremos a apresentação dos estudos de Authier- Revuz, uma vez que, como já dissemos, estes seguem um rumo que se distancia da epistemologia bakhtiniana à qual nos filiamos. A intenção aqui é apenas mencioná-la entre os que estudaram a intertextualidade.

Apontamos também a contribuição de Sant’Anna (2003), que optou por classificar as ocorrências intertextuais em quatro categorias: paródia, paráfrase, estilização e apropriação. Na verdade, na prática, deteve-se sobre as três primeiras categorias. A quarta, ele mesmo definiu como algo ainda carente de estudo. Talvez, em estudo futuro, interesse-nos retomar esta quarta categoria que Sant’Anna não definiu bem, porque, como ele mesmo diz, ela se aplicaria mais às artes plásticas, que é o nosso objeto principal de análise. O autor pensou a paráfrase, a estilização e a paródia como “processos de (re)criação de textos literários” (NOBRE, 2013, p. 33), mantendo-se, portanto, como outros pesquisadores que o antecederam, em torno do texto verbal e literário, tais como Authier-Revuz (1982) e Piègay- Gros (1996). Ainda sobre as reflexões de Sant’Anna (2003), é importante lembrarmos que o autor acenou para os aspectos discursivos da intertextualidade. Neste sentido, ele acrescenta algo que os estudos de Genette (2010) não apresentaram. Contudo, o modo como Sant’Anna propôs esta questão já vem gerando crítica, como o fez Nobre (2013, p. 35).

Outros teóricos que devem ser considerados neste percurso dos estudos intertextuais são Charaudeau e Maingueneau (2004), analistas do discurso, que, embora não tenham direcionado os seus estudos para analisar especificamente a intertextualidade, expressaram nítida preocupação em relação a esclarecer a distinção entre intertexto e intertextualidade, considerando esta “um conjunto de regras implícitas que subjaz o intertexto”, enquanto aquele, por sua vez, foi definida como “um conjunto de fragmentos convocados (citações, alusões, paráfrases) em um corpus dado” (2004, p. 288). Além desta distinção, Charaudeau e Maingueneau (2004, p. 89), considerando os diferentes campos discursivos, apontam dois tipos de intertextualidade que eles definem como interna e externa. O primeiro tipo ocorre quando o fenômeno se verifica dentro de um mesmo campo discursivo; o segundo, quando a intertextualidade ocorre entre discursos pertencentes a

campos distintos. No caso do nosso corpus, podemos admitir a existência de dois campos discursivos, considerando as duas linguagens: pintura e escultura. Neste caso, nossa análise se realiza predominantemente sobre ocorrências intertextuais internas, já que os pares de exemplos analisados pertencem à mesma linguagem, pintura ou escultura, com exceção de dois exemplos12nos quais comparamos uma pintura a óleo a uma pintura vitral e uma pintura a óleo a uma escultura. No corpus com o qual trabalhamos, os exemplos de pintura são predominantes em relação aos casos de esculturas.

Mais um nome surge nesta trilha dos pesquisadores da intertextualidade: Koch (2002). Os seus estudos interessam-nos, em especial, no que diz respeito à intertextualidade temática, por esta ser um dos principais focos da nossa investigação, já que o nosso corpus obedece a um recorte temático. Referindo-nos aos estudos da autora, invocamos a parceria dela com Bentes e Cavalcante (2007), cujo estudo resultou em uma produção teórica que é referência na área. Neste estudo, as autoras discorrem, em primeiro lugar, sobre a intertextualidade stricto sensu, subdividindo-a em quatro tipos: temática, estilística, explícita e implícita. Em seguida, apontam as intertextualidades e a intertextualidade lato sensu. Além destas tipologias, discorrem ainda sobre o détournement, e apresentam ainda outros olhares sobre o fenômeno da intertextualidade, destacando partes da teoria de Genette (2010).

Ainda merecem destaque, nesta lista dos estudos intertextuais, as considerações de Bazerman (2006). Em suas reflexões, o teórico americano considera a existência de seis níveis de intertextualidade e aponta seis técnicas possíveis para a ocorrência do fenômeno. São elas: a citação direta; a citação indireta; a menção a pessoa, a documento ou a declarações; o comentário ou a avaliação acerca de uma declaração, de um texto ou de uma voz evocada; o uso de estilos reconhecíveis, de terminologia associada a determinadas pessoas ou grupo de pessoas, ou de documentos específicos; e o uso de linguagem e de formas linguísticas que parecem ecoar certos modos de comunicação, de discussões entre outras pessoas e tipos de documentos. O diferencial da proposta de Bazerman (2006) é a questão dos níveis em relação às tipologias já existentes e o direcionamento que ele dá ao tema, focando a sua atenção para a questão do ensino.

Nossa intenção, após a leitura de todas as pesquisas citadas, é retomar o estudo de Genette (2010), não para rever o que ele definiu em torno da intertextualidade verbal, mas

12 Jesus e Maria Madalena (pintura a óleo a uma pintura vitral) e Cristo e São Tomé (uma pintura a óleo a uma

para repensar e dar continuidade exatamente à sua reflexão acerca das PIH. Esta decisão se definiu após a leitura das considerações do autor em torno das PIH, por percebermos pontos que podem ser questionados e que apontam para a possibilidade de uma contribuição nova aos estudos dos processos intertextuais. Percebemos, também, nos estudos genettianos, uma disparidade entre o detalhamento que ele dedica à análise das relações transtextuais13 e a brevidade do texto que trata especificamente das PIH. Convém esclarecer que esta disparidade não se trata de um descaso ou descuido do autor. O ocorrido é que o aprofundamento do estudo das PIH não estava no centro das atenções de Genette (2010), como ele mesmo justifica muito bem. O seu interesse maior foi dissecar as relações transtextuais do tipo hipertextual, e assim o fez, entretanto voltando-se apenas para o texto verbal, literário. Desse modo, mesmo apontando as PIH, que também são casos de ocorrências hipertextuais, Genette (2010) não aprofundou o estudo sobre elas, deixando-o apenas iniciado. Assim, autorizados e estimulados pelo próprio Genette (2010), acreditamos não só na possível continuidade desta análise, mas também na reelaboração de um constructo teórico mais amplo e mais precisamente definido que envolva, de modo mais abrangente, as ocorrências intertextuais hiperestéticas.

O nosso ponto de partida é, portanto, o texto Palimpsestos, de Genette (2010). Nele, após o estudo minucioso das relações transtextuais, o autor inicia uma discussão acerca das PIH. Entretanto, como já comentamos antes, neste texto, ele apenas inicia uma discussão que é muito breve, abordando apenas algumas ocorrências intertextuais entre pinturas, ou seja, algumas pinturas e suas releituras. Além destas, ele analisa ainda casos de ocorrências intertextuais entre músicas. É exatamente neste ponto dos estudos genettianos, a análise das PIH, que sentimos falta de uma precisão maior com relação ao lugar que tais práticas hiperestéticas ocupam no quadro teórico-metodológico definido pelo autor. Estas ocorrências são casos de transformações ou de imitações? Considerando as subclassificações que Genette (2010) aponta nestas duas grandes categorias, as PIH se enquadrariam em quais desses tipos? Observamos ainda que a análise do autor se detém somente sobre aspectos textuais, seguindo uma orientação estruturalista, o que aponta para a ausência de considerações que envolvam os aspectos discursivos relacionados ao contexto sócio-histórico das obras de arte analisadas. A partir destas percepções, torna-se notória e necessária a continuidade e o aprofundamento destas análises com o intuito de construirmos uma proposta teórico-metodológica mais

abrangente. Como esse intuito de aprofundamento, apresentamos, a seguir, as principais ideias da teoria de Genette (2010).

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