4. METHODOLOGY
4.4 P REPARATION OF THE D ATA
4.4.1 Final samples
deixou de ser utilitário para ser expressivo e simbólico. Seu trabalho mudou completamente a noção de escultura no Brasil.
Luiz Áquila53
Como vimos anteriormente para os arqueólogos a cerâmica passou a existir quando o primeiro ser humano despertou sobre a terra e a bíblia contou que o homem foi feito de barro. Acredita-se que o método do emprego do fogo para o enrijecimento do barro tornou-se processo cerâmico acidentalmente e que as primeiras cerâmicas nasceram para armazenagem de líquidos e alimentos, depois para fi ns de construção de abrigos, portanto para fi ns utilitários, e daí decoração e objetos artísticos. Com o tempo se estabeleceu como fontes de renda para pequenos artesãos e grandes indústrias. O barro passa a ter uma existência intrínseca à cerâmica com processos e procedimentos muito próprios.
A cerâmica é um fazer tradicional que se aperfeiçoou com o tempo e mostra o refi namento da cultura. A arte cerâmica brasileira se aprimorou ao renovar seus temas e seu aspecto formal. E como identifi ca Frederico de Morais (1989) na multiplicidade de proposições artísticas individuais nasce uma nova possibilidade: a escultura. O barro identifi cado como elemento original de toda a criação passou a ganhar uma construção coerente, partindo de um “corpo de idéias”. Do simples amassar e modelar passou à construção de “formas-temas ou objetos de signifi cação mais ampla e universal”. (MORAIS, 1989)
Celeida rompeu com vários vínculos tradicionais da cerâmica, ela dá autonomia ao barro no campo artístico. A artista escolheu o barro como sua matéria e a ele foi sempre fi el, nunca abdicou da matéria do barro, matéria para ela de grande valor, coloca o barro na origem, nós somos o barro. A matéria saiu direto do exterior e se plasmou em obra.
Luiz Áquila (2003) revela que como herdeira da ética modernista, Celeida em sua obra, exibe os materiais, “não faz de conta”, não tem truques. Sua maneira quase religiosa de trabalhar os símbolos, o sexo, a terra e seu próprio corpo é uma analogia à própria 53 Declaração de Luiz Áquila em matéria A geração 80 perde sua mestra. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, n. 269, 04 jan. 1985. Acervo Pesquisa e Documentação MAM/RJ.
germinação da natureza. Através de sua obra mostrou sua essência aglutinadora, afetiva e generosa. Como ela mesma sempre se expressava: Ma-ra-vi-lha!54
O crítico de arte Vicente de Pércia (2009) publicou em seu artigo “Em Memória –
Celeida Tostes”:
Celeida Tostes começou a trabalhar com cerâmica em 1965, não deve ser encarada somente como artista do barro. Suas obras são linguagens plásticas visuais que traduzem estéticas diferenciadas e conscientes com as múltiplas iniciações, experimentações e conceitos. Neste fazer seus sacrifícios, alegrias, renúncias, sonhos e realizações são direcionados para seus objetivos. Têm se como resultados os elementos questionadores, onde o dia a dia passa a ser utilitário, rompendo com a condescendência, com a sociedade de consumo e saltando o “Muro” além do seu tempo, afi rmando com ideia/fazer que a arte não seja um mistério, e sim faz parte do mundo.(PÉRCIA, 2009, p. 27)
Para Frederico de Morais (1994) Celeida Tostes foi uma artista fundamental e uma das renovadoras da cerâmica no Brasil, responsável por profundas modifi cações temáticas, técnicas e lingüísticas na arte do barro. Foi autora de inúmeros projetos ousados que colaboraram com o estatuto de arte maior da arte cerâmica.55
Celeida, considerada a grande dama da escultura carioca, foi uma importante artista brasileira na arte do barro e vários críticos e artistas confi rmam isto. O escultor Angelo Venosa, com quem a artista dividiu atelier no Casarão da Lapa, analisou que Celeida não separava arte da vida e que com seu trabalho bastante coeso deixou uma lição forte e bonita. Beatriz Milhazes avaliou que Celeida foi a mais importante artista no Brasil na questão do trabalho com a terra, aliando a questão plástica à questão social. Para Charles Watson Celeida foi uma artista e educadora de extrema importância.56 Anna Bella Geiger declarou: “seu trabalho
levantou questões fundamentais para a escultura brasileira.”57
Celeida desnudou a arte cerâmica, desvelou a origem da matéria, contou através de suas obras a história da cerâmica, passeou por povos fazendo uma ponte entre o arcaico e o contemporâneo, entre as comunidades de baixa renda e as mais abastadas, entre a cultura popular e a erudita. Como tão bem revelou o 54 ÁQUILA, Luiz. Vamos Celeidar. In COSTA, Marcos L. Catálogo da Exposição Arte do Fogo, do sal e da paixão – Celeida Tostes. Rio de Janeiro, CCBB, abril/jun.2003. p. 13-14.
55 MORAIS, Frederico. Celeida Tostes, novos temas e técnicas na arte da cerâmica. Rio de Janeiro, O Glo- bo, 18 jan. 1987.
56 REIS, Paulo. Para celebrar a arte e a vida. Celeida Tostes ganha festa e exposição dos amigos na Sara- menha. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 20 mai. 1994.
Prof. Dr. Rogério de Medeiros (1995) Celeida “fazia da invenção (ou reinvenção) de cada objeto, a descoberta de uma surpreendente fruição” e na busca da miscigenação entre o erudito e o popular, a artista caminhava na rota necessária dos modernistas, em uma proposição de rompimento com as normas construídas pelo academicismo. “O que para muitos era a descoberta do exótico, para Celeida era, a princípio, o reconhecimento de sua própria identidade, integrada aos valores heteróclitos da cultura brasileira”.58
Despojada do fetichismo e aura tão comum na história da arte, suas obras propõem um diálogo próximo com o espectador, a matéria é nua, o barro, sem intermediário industrial, seu instrumento é o corpo. Em contato direto modela suas formas, sua poética e generosamente compartilha suas questões estéticas, plásticas e sociais com o interlocutor, sem hierarquia.
Lélia Coelho Frota (1987) abalizou que a escultura de Celeida Tostes foi um exercício permanente de energia e de vida, e que a tensão presente-passado constantemente ativada em suas obras atribuiu um dinamismo característico ao seu trabalho, introduzindo no espaço a noção do tempo. Segundo a crítica de arte, Celeida ao não se limitar a signifi cados restritos ou tendências mostrou a liberdade de percepção e concepção de seu universo criador. “As obras que ela gera são abertas, grávidas de muitos sentidos, além daqueles, inúmeros, que atualiza.” Para Marcus de Lontra Costa (2003) “Celeida constrói com o fogo, o sal e a paixão o romance da nossa História.” O tema da feminilidade em sua obra não se manifesta como reduzido ou domesticado, mas sim como um instrumento de transformação e liberdade. A maternidade aparece provocadora e instigante. O falo é o agente de visita, o conquistador, como seus totens. A vagina, o útero, contam estórias da fecundação como um oráculo. Para o curador da signifi cativa exposição póstuma realizada no CCBB em 2003, ninguém abordou a sexualidade como Celeida ao relacionar a arte e o sexo com os impulsos essenciais do desejo humano. Através de seus rituais de arte fez ação coletiva participativa. Sua arte foi um instrumento de conscientização, “um exercício cotidiano de amor, liberdade e democracia. Semeou, ao longo de sua vida, encanto e poesia, dignidade e beleza.” (COSTA, 2003, p. 7-8) Sobre o lugar que a artista e a cerâmica ocupa na mídia brasileira, o artista e ceramista brasileiro Francisco Brennand, afi rma:
58 MEDEIROS, Rogério de. Editorial In Revista Arte e Ensaios do Programa de Pós-Graduação em História da Arte. EBA. UFRJ. Ano II. Nº 2. 1995. p. 3.
Nascemos num continente, numa porção de terra tão exagerada que, em vez de nos favorecer como artistas, prejudica. A comunicação se torna difícil. Além disso, a mídia não é lá muito propensa a se ocupar com essa valorosa nomenclatura da cultura brasileira, onde a cerâmica está inscrita num lugar muito modesto. Mesmo assim, o lugar de Celeida Tostes no cenário nacional está mais do que assegurado e, como todos sabemos, pela sua própria erudição ela conseguiu desenvolver atividades acadêmicas como professora, de grande utilidade para os iniciados no mundo da arte cerâmica. Reconheço a dedicação dela e fascínio pela matéria cerâmica. Foi uma grande artista. (BRENNAND, 2009) 59
Frederico de Morais (2011), em depoimento, salienta que ela percebeu todas as possibilidades do barro, não sendo “respeitosa” no sentido de não ter distanciamento da matéria. Ela mergulhou no pote de barro, botou a mão na massa efetivamente, sem o problema de erro e acerto. “O amassadinho é o amassadinho, não é mais do que isto, está ali a marca da mão. As moedas, os selos. Ela levantou praticamente todo um repertório de um mundo primitivo, de um mundo agrário, pré-histórico americano, africano.” (MORAIS, 2011, informação verbal) A cerâmica também tinha convenções, lembra o crítico, e Celeida rompeu com isto. Uma ceramista que rompe com o fogo, passa a trabalhar a cerâmica crua quando levantou os muros e produziu o tijolo cru com pessoas que não eram ligadas à arte, que eram de comunidades pobres, com certas limitações econômicas, porém hábeis e muito habilidosas. Aí reside o fato de eliminar a queima que é parte essencial da tradição da cerâmica para fazê-la rígida. Afi rma que ninguém foi aonde ela foi e aponta outro aspecto que é a monumentalidade, ela monumentaliza no tamanho e na quantidade, já que “suas obras são dez mil ovos, mil isso, mil aquilo”. Outro aspecto que Frederico de Morais aponta é o do coletivo, ao que credita ao fato de que ela não queria ser uma autora isolada. Celeida levanta uma série de temas, que são temas simbólicos, temas arcaicos, arquétipos que remetem a religiões, a tempos vividos, a tempo passado, pré-histórico, e dá um caráter coletivo, não só o próprio fato de que a produção de peças tenha sido em uma grande quantidade, excessiva, mas o fato de que ela mobiliza outras pessoas e nenhuma obra é sozinha, um trabalho autoral, que fala da subjetividade, não só dela, fala de uma subjetividade do mundo como um todo.
Clóvis Brigadão (1991) desvela que “seguindo a mitologia, o nome de Celeida, como o conjunto de sua obra, signifi ca ‘o que abre caminho através do barro’[...]”. Celeida dá autonomia ao barro, ela nasce, faz o barro nascer com a obra para tornar- 59 BRENNAND, Francisco. A Arte de Celeida. [Mensagem pessoal]. Mensagem recebida por <elansantos@ ig.com.br> em 02/04/2009.
se completo, sem precisar ser a mediação para outro percurso. O barro torna-se tecido de seu meu mesmo tecido, tecido do mundo, e a ele dá a potencialidade da expressão. Em algum momento não identifi camos se a artista é extensão do barro, ou se o barro é a sua própria expansão. Através dele dialoga esteticamente e formalmente com os conceitos da arte, da antropologia, da etnologia e da condição humana. Ela permite que o barro como elemento integrativo em sua obra expresse todas as questões colocadas. Ela objetiva através do Barro a subjetividade do mundo.